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Vinte e cinco anos após o colapso da União Soviética, muitos jovens russos anseiam pela estabilidade daquela era e encaram o seu presidente como um herói.

 Texto Julia Ioffe   Fotografia Gerd Ludwig

Kirill Vselensky empoleira-se numa cornija, em Moscovo, enquanto Dima Balashov o fotografa. Os jovens de 24 anos, aventureiros conhecidos como rooftoppers, publicitam as suas façanhas no Instagram: @kirbase e @balashovenator.

 Não sabe onde levar-me quando nos encontramos no hotel junto da estação de comboios. Por isso, começamos a caminhar pelas ruas poeirentas de Nizhniy Tagil, uma cidade industrial em declínio na encosta oriental das montanhas Urales. Chama-se Sasha Makarevich e é um vendedor de cimento. Tem 24 anos e o cabelo louro preso num rabo de cavalo que desce pelas costas.

Passamos por um pequeno edifício quadrado coberto com imagens de estrelas vermelhas soviéticas e a faixa laranja e preta de São Jorge que segura as medalhas militares imperiais, soviéticas e russas. “Podíamos entrar ali”, diz Sasha encolhendo os ombros. “Mas está cheio de pessoas que sobreviveram aos anos noventa.”

 Em Dezembro de 1991, apenas alguns meses antes de ter nascido, a bandeira soviética foi arriada no Kremlin e trocada pela insígnia tricolor russa.

Sasha também sobreviveu aos anos noventa. Em Dezembro de 1991, apenas alguns meses antes de ter nascido, a bandeira soviética foi arriada no Kremlin e trocada pela insígnia tricolor russa. Inaugurou-se assim a década que paira como um mau presságio na psique russa contemporânea. A expectativa de que os russos começassem a viver como os seus prósperos homólogos ocidentais deu lugar a uma dolorosa realidade: seria um trabalho árduo transformar uma economia planificada numa economia de mercado, sobretudo se isso envolvesse gerar uma democracia a partir de uma sociedade que vivera sob uma monarquia absoluta e totalitarismo durante séculos.

Não cheguei a assistir a esses anos noventa. A minha família abandonou Moscovo em Abril de 1991. Quando regressei pela primeira vez, em 2002, estava em vigor a era do presidente Vladimir Putin, o antídoto face aos turbulentos anos noventa. Desde então, regressei à Rússia muitas vezes e vivi ali vários anos como repórter.

Alexander e Victoria Khlynin escapam ao quotidiano através do cosplay (jogo de máscaras) no seu apartamento suburbano de Moscovo. O bancário e a desenhadora de interiores possuem várias fantasias de animais. Depois de crescerem no caos da década de 1990, muitos jovens russos procuram empregos estáveis e vidas familiares.

 A maioria dos russos que conheço foi, até certo ponto, moldada pelos 74 anos de experiência soviética. Conhecemos de forma profunda e pessoal as pequenas histórias e tragédias das nossas famílias dentro da tragédia maior dessa história. Porém, esta geração agora em crescimento só conhece uma Rússia traumatizada pelos anos noventa e depois governada de forma firme por Putin. Neste ano de 2016, 25 anos após o colapso da União Soviética, voltei ao país para conhecer os jovens iguais a Sasha. Quem são eles? O que querem da vida? E o que querem para a Rússia?

No interior do bar sem janelas, com chão de linóleo e paredes de madeira falsa, eu e Sasha agarramos numa cerveja light servida em copos de plástico e sentamo-nos entre uma multidão de homens fortemente tatuados, de caras avermelhadas. Os toques de telemóvel estão personalizados com estridente música pop russa.

O empresário Radik Minnakhmetov endireita o retrato oficial de Putin, exibido no seu escritório ao lado da fotografia do presidente do Tartaristão, uma república russa a setecentos quilómetros de Moscovo. Aos 24 anos de idade, Radik tornou-se director de um novo estádio futurista em Kazan, a capital do Tartaristão.

 Sasha diz que Nizhniy Tagil “é só fábricas e campos prisionais”. Em tempos famosa pela produção de vagões de comboio e tanques para a União Soviética, a cidade é agora conhecida pelas fábricas desmobilizadas, pelo desemprego e… por Vladimir Putin.  Em 2011, Putin anunciou a sua intenção de se candidatar a um terceiro mandato presidencial, gerando protestos em Moscovo e noutras grandes cidades. Os manifestantes eram em grande parte da classe média jovem, educada, urbana. Nesse Inverno, um operário de uma fábrica de Nizhniy Tagil disse a Putin, na televisão nacional, que ele e “os rapazes” estavam prontos a viajar para Moscovo e agredir os manifestantes. Putin recusou a oferta, mas a cidade passou a ser vista como o coração de Putinland.


 

Apoiantes da Outra Rússia, um partido da oposição, manifestam-se com bandeiras e braçadeiras com o seu símbolo, uma granada de mão. Formada por membros oriundos de um partido ultranacionalista proibido em 2010, a Outra Rússia não é reconhecida pelo governo de Putin.

 Actualmente, Nizhniy Tagil tem um novo presidente de câmara, encarregado por Putin de embelezar a cidade, mas a vida ainda é difícil aqui. Sasha frequentou uma escola de soldagem e trabalhou numa fábrica ganhando bem até os preços do petróleo caírem e as sanções ocidentais originadas pela invasão da Ucrânia afundarem a economia. Sasha deixou de receber salário. Passou um ano a tentar encontrar trabalho antes de conseguir colocação numa fábrica da Boeing a duas horas de distância. Agora, recebe 30 mil rublos, ou 480 euros por mês, a média de salários local.

Encontro-me com Sasha no final de um longo dia de trabalho. Ele está cansado e tem as mãos sujas. A cidade que me descreve é um lugar violentamente conformista. “Aqui as pessoas são muito agressivas para qualquer indivíduo que não se pareça com eles”, diz. Há um traje local para a classe trabalhadora: inclui fato de treino e corte de cabelo curto com uma franja rala.

No slideshow, facetas de um homem comum em forma

Putin participou publicamente em diferentes desportos tradicionalmente vistos como masculinos, em contraste com o envelhecido e doente Ieltsin, a quem sucedeu em 31 de Dezembro de 1999. Fotografias: Alexander Natruskin, Reuters; Gabinete de Imprensa e Informação da Presidência da Rússia; Alexey Druzhimin, AFP/Getty Images; Dmitri Astakhov, Getty Images e AFP/Getty Images.

Os pares de Sasha são muitas vezes filhos de ex-presidiários. “Não respeitam a lei”, diz Sasha, que aprendeu a lutar, usando os punhos ou navalhas. Certa vez, regressou a casa coberto de sangue depois de uma luta. Parece estranho, beatificamente alegre, enquanto me conta tudo isto.

O que Sasha quer realmente é fugir para a cosmopolita São Petersburgo e abrir lá um bar. Já esteve na cidade algumas vezes, é onde se sente mais em casa. A namorada não quer mudar-se até ele comprar lá um apartamento. Juntando o salário de ambos, o seu sonho provavelmente será apenas uma quimera.

É um refrão comum em Nizhniy Tagil: jovens com sonhos de jovens, impedidos de os concretizar, pela realidade da Rússia de Putin. Querem viajar, mas os seus salários são pagos em rublos, cujo valor foi reduzido para metade pela crise económica. Querem abrir os seus negócios, mas não sabem como ultrapassar as perigosas vias da corrupção local. Assim, sonham mais baixo. Querem uma casa ou apartamento, um carro e uma família. As coisas que desejam são também as coisas que muitos deles não tiveram precisamente porque as  suas famílias sobreviveram aos anos noventa.

Num campo militar e desportivo, os pára-quedistas ensinam crianças, a partir dos 10 anos, a manusear armas. Putin restaurou o orgulho russo no poder militar do país, derrotando os rebeldes na Chechénia, anexando a Crimeia, invadindo a Ucrânia e intervindo na Síria. Muitos jovens revêem-se numa Rússia reformulada como potência global.

 “Os anos noventa foram muito difíceis para nós financeiramente”, diz Alexander Kuznetsov, um jovem de 20 anos de Nizhniy Tagil. “Em 1998, o meu pai abandonou a família.” Alexander tinha 3 anos. “Todo o salário da minha mãe era gasto em comida para mim. Não tinha muitos brinquedos”, continua. “Não tenho família.” Isso deixou marcas. “Para mim, a coisa mais importante é a família”, diz Alexander. “Não quero lutar por altos cargos e ter uma casa vazia.” 


Com sete milhões de seguidores no Instagram, a actriz Nastasya Samburskaya (@samburskaya) de 29 anos é uma das estrelas das redes sociais na Rússia. No entanto, como muitos moscovitas, vive num pequeno apartamento. À semelhança dos jovens em muitos países, os jovens russos raramente se separam dos seus smartphones.

 O pai combateu na primeira guerra da Chechénia, em 1994. “Não vás para o exército, filho”, aconselhou-o certa vez. Isso é tudo o que recorda do pai na década de 1990, no entanto não escapará ao serviço militar obrigatório. “Sempre quis participar”, resume. “Todos na minha família estiveram nas forças armadas.” Além disso, o serviço militar abre algumas hipóteses de emprego mais lucrativas para um jovem na Rússia: trabalhar na polícia ou no Serviço de Segurança Federal, ou FSB, o sucessor da KGB. O exército dar-lhe-ia a hipótese de poder ser polícia como o pai. “Eu quero mesmo ter um rendimento estável”, diz Alexander.

Enquanto conversamos, o seu amigo Stepan entra e junta-se a nós. “Está a escrever sobre a vida na antiga União Soviética?”, pergunta com um sorriso malicioso. “As pessoas viviam muito melhor.”“Como?”, exclama Alexander. “Viviam melhor?! Não, não vivíamos!”

Discutem sobre o que era viver na época soviética, até Stepan, que nasceu em 1992, perceber que tem uma pergunta para mim: “Vocês, norte-americanos, pressionam-nos, aplicando sanções”, diz ele. “O que estão a preparar para nós? Uma guerra?” Ele explica os motivos que justificaram a anexação russa da Crimeia, num desafio aberto de Putin ao Ocidente.

“Não há nada para fazer aqui”, diz. “Não há oportunidades, não há forma de crescermos e de desenvolvermos o nosso potencial.”

Stepan hesita em confidenciar-me o seu apelido porque sou uma jornalista norte-americana, mas à saída oferece-me boleia. “Realmente o que quero é sair daqui”, diz.
“Sair de onde?”, pergunto. “De Nizhniy Tagil?”
“Não”, diz. “Da Rússia.”
Depois da sua explosão patriótica, a afirmação é inesperada. “Porquê?”, pergunto.
“Não há nada para fazer aqui”, diz. “Não há oportunidades, não há forma de crescermos e de desenvolvermos o nosso potencial.”
“Os indivíduos nascidos na URSS e os que nasceram depois do seu colapso não partilham uma experiência comum”, escreveu Svetlana Alexievich, vencedora do Prémio Nobel da Literatura em 2015. “É como se fossem de planetas diferentes.”

A União Soviética viveu uma onda de optimismo. Muitos acreditaram que a Rússia tornar-se-ia rapidamente uma democracia florescente de estilo ocidental, mas o optimismo de 1991 dissipou-se numa década de contradições deprimentes. Com o fim da economia planificada, algumas fortunas cresceram num piscar de olhos e algumas pessoas entraram na nova classe média. Para outras, porém, foi um súbito mergulho na pobreza. Bens anteriormente indisponíveis inundaram as prateleiras das lojas, enquanto o dinheiro para as comprar perdeu valor. O crime disparou. A política veio à tona, mas muitos russos passaram a vê-la como um negócio sujo.

Os russos esforçaram-se por se ajustar à realidade estrangeira. Foi uma época de liberdade sem precedentes, mas muitos viram-na como profundamente desorientadora. 

Os russos esforçaram-se por se ajustar à realidade estrangeira. Foi uma época de liberdade sem precedentes, mas muitos viram-na como profundamente desorientadora. “Quando esses valores [ocidentais] se confrontaram com a realidade e as pessoas viram que as mudanças demoravam a chegar, esses valores passaram para segundo plano”, explica Natalia Zorkaya, uma socióloga do Centro Levada, uma organização independente de investigação com sede em Moscovo. Em contrapartida, as gerações mais novas estão agora a adoptar “os pilares da sociedade soviética”.

Sasha, Alexander, Stepan e os seus pares vivem realmente num planeta diferente daquele em que os seus pais e avós vivem, mas de certo modo estão a tornar-se ainda mais soviéticos do que eles. É uma coisa estranha: estes homens e mulheres jovens sabem pouco sobre as privações, hábitos e crueldade da vida soviética. A geração de Putin não carrega essa ferida. O seu desejo de uma normalidade estável feita de famílias intactas e empregos estáveis, mesmo que pouco satisfatórios, é a resposta ao que lhes faltou na década de 1990 e que encontraram na era de Putin.

Estudantes fazem uma pausa na madrassa Muhammadiya em Kazan, cidade cuja população se divide entre russos e tártaros. A maioria dos tártaros são muçulmanos. O islão, a segunda maior religião da Rússia, é professado por 7% da população. A escola ensina religião, humanidades, linguística, história e cultura tártaras.

 No entanto, são profundamente inseguros. Sessenta e cinco por cento dos russos com 18 a 24 anos de idade, ou seja, a primeira geração nascida depois do colapso soviético, fazem planos a um ou dois anos, de acordo com os dados do Centro Levada. São também inertes politicamente. A maioria não está a par dos eventos noticiosos que o Estado não quer que eles conheçam, e 83% confessam nunca ter participado em actividades políticas ou da sociedade civil. 

Liza encontra-se comigo no lobby de uma das muitas torres de vidro que compõem a cidade de Moscovo. Sigo-a através dos túneis subterrâneos que ligam as torres, com cafés, lojas e uma exposição com pinturas de Putin e do ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov. Pedimos o almoço, e Liza conta-me a sua história enquanto sorve o seu borscht. Pede-me para não usar o seu apelido porque não quer aborrecer os pais. 

Nasceu em Blagoveshchensk, no extremo oriental da Rússia, em 1992. Um ano antes, o pai, um professor de história, estava nas ruas de Moscovo a aplaudir a chegada da democracia.
Ao voltar a casa depois da fragmentação da União Soviética, foi forçado a encontrar outras formas de sustentar a família. Começou por atravessar a fronteira com a China trazendo no regresso roupas e electrodomésticos para revender na Rússia. “Lembro-me dele a chegar a casa com dinheiro cosido à camisa para não ser roubado”, conta Liza.

Começou por atravessar a fronteira com a China trazendo no regresso roupas e electrodomésticos para revender na Rússia.

Liza é advogada numa grande empresa ocidental. Está bem, mas não faz o que queria fazer. “Sempre quis ser jornalista, estava sempre a escrever”, conta, acrescentando que a avó guardou todos os seus contos. “Os meus pais disseram-me que o jornalismo não era uma coisa séria. É uma profissão corruptível.” É um pensamento compatível com a década de 1990, quando o jornalismo era comprado e vendido como qualquer mercadoria. “Não vais ganhar muito dinheiro. És a mais velha e a mais inteligente. Tens de optar por uma profissão sólida que permita sustentar-te e cuidar da tua irmã”, disseram-lhe. Ao longo do processo, os pais separaram-se. O negócio do pai floresceu e Liza conseguiu frequentar um liceu nos EUA durante um ano e estudar em Londres.

Enquanto mulher moderna e ocidentalizada, fala com a mãe sobre os namorados e sobre as festas alimentadas a drogas que frequenta. De certa forma, porém, ela é muito russa. “Putin irrita-me”, começa por dizer, soando como muitos no meio oposicionista de Moscovo. “Mas se um estrangeiro tentar criticá-lo, defenderei sempre a Rússia.” Enquanto viveu em Londres, os seus interlocutores ridicularizavam constantemente a Rússia e as mulheres russas, falando delas como noivas por correspondência. “Foi ofensivo. Faziam-me chorar, sentada, a ouvir estranhos a troçarem de nós”,  conta. 


Num baile de formatura no Grand Hotel Emerald de São Petersburgo, os alunos ajudam a preparar uma pirâmide de cocktails. O fim do comunismo trouxe pobreza e riqueza à Rússia e criou uma pequena classe média. Para os jovens que viveram a volátil década de 1990, a segurança económica continua a ser o principal desejo.

É a afirmação mais política que tem na actualidade. Em 2011, Liza interessou-se pela política liberal. Aderiu à Amnistia Internacional e ao partido liberal Yabloko como observadora para as eleições parlamentares de Dezembro. Foi designada para a mesa de voto na escola da irmã mais nova e ficou chocada ao ver professores encherem as urnas submetendo mais do que um boletim de voto. Quando Liza tentou intervir, gritaram com ela e fizeram-na sentar-se num canto enquanto o director da escola lhe bloqueava a visão. Isto acontecia por todo o país. Muitos observadores fotografaram esta situação com os telemóveis e colocaram as provas na Internet, o que deu origem a um movimento de protestos em massa, em Moscovo e outras grandes cidades, como nunca se vira na Rússia em duas décadas. 

Liza perdeu a coragem. “Eu estava histérica”, diz-me. “Passei duas horas a chorar”. Depois disso, decidiu, que nunca mais se envolveria em política. “Não me preocupa e eu não sou suficientemente forte para lutar”, confessa. É uma promessa que não quebrou, mesmo quando o rublo caiu, limitando a hipótese de fazer a outra coisa que mais ama: viajar. “Sim, é terrível. Há menos oportunidades”, diz ela, mas recusa-se a procurar uma resposta na política.

Kseniya Obidina, uma amiga dos tempos da Faculdade de Direito, vê as coisas da mesma forma. Também foi marcada pelo divórcio dos pais durante a infância, também certifica que a família e a estabilidade têm uma importância primordial para si. Quer um emprego seguro e bem remunerado. Quer ser capaz de custear viagens e sustentar a mãe e a irmã. Tal como Liza, recusa-se a pensar em política “Não vejo interesse em falar sobre algo que não podemos influenciar”, diz enquanto nos sentamos num Starbucks moscovita. Quando saímos, acrescenta: “Porque havemos de andar sempre maldispostos?”

Putin chegou ao poder no ano 2000 como um candidato que combatia o lodo da década de 1990 no momento em que esta geração começava a tornar-se consciente do mundo em redor.

Como se chegou a este ponto? Vladimir Putin representa uma grande fatia da resposta. Putin chegou ao poder no ano 2000 como um candidato que combatia o lodo da década de 1990 no momento em que esta geração começava a tornar-se consciente do mundo em redor. Prometeu prosperidade e segurança. Apoiando-se nos preços historicamente elevados do petróleo e nas reformas económicas implementadas na década anterior, Putin conseguiu cumprir boa parte dessa promessa, mas fê-lo à custa das liberdades democráticas. Putin, aliás, designou a desintegração da União Soviética como “a maior catástrofe geopolítica” do século XX. “Quem não a sentiu não tem coração”, disse. 

Joseph Stalin tornou-se, na linguagem de negócios do país, um “gestor eficaz” que foi um pouco longe de mais. Os manuais escolares e a televisão começaram a reflectir esta nova nostalgia sancionada pelo Estado. Segundo as sondagens, 58% dos russos ainda gostariam de ver um regresso da ordem soviética e 40% lembram favoravelmente o regime de Stalin.

Muita da vida após a era soviética tem sido uma busca infeliz de uma ideia unificadora. Inicialmente, era a democracia, mas o consumismo substituiu a ocidentalização. “A modernização chegou através do consumo, mas isso não é suficiente”, diz a socióloga Zorkaya. O IKEA chegou à Rússia em 2000 e tornou-se popular entre a nova classe média como uma forma acessível de viver ao estilo europeu, ou seja, de uma forma não soviética. “Tornou-se um símbolo da forma como se poderia civilizar a vida sem gastar muito dinheiro”, diz ela. “De alguma maneira, os russos não ponderaram que, por detrás desta marca de decoração, existia um conceito de ser humano e de valores totalmente diferente.”

Os alunos do seminário da Academia Teológica de Moscovo em Sergiyev Posad estudam o Novo Testamento, música litúrgica, pintura de ícones e outros assuntos. Brutalmente reprimida pelos comunistas, a Igreja Ortodoxa Russa ressurgiu com Putin, que a vê como aliada na sua tentativa de restaurar a grandeza da nação.

Desde o início do seu terceiro mandato presidencial, em 2012, Putin promoveu uma ideologia neo-soviética ainda mais agressiva, tanto no país como no estrangeiro. Lutou para manter as antigas repúblicas soviéticas, como a Ucrânia e o Cazaquistão, na esfera de influência de Moscovo e reforçou o poder militar da Rússia na distante Síria. Novas leis promoveram valores sociais tradicionais e tornaram a discordância ainda mais perigosa. Um dos resultados é uma geração cujos sonhos são a encarnação de tudo o que Putin deseja que seja: conformista, materialista e profundamente avessa ao risco.

Muito resulta da popularidade estratosférica de Putin: na altura em que esta reportagem foi escrita, Putin recolhia a aprovação de 80% dos russos e, entre os jovens de 18 a 24 anos, a taxa ainda era mais elevada: 88%. Mais do que qualquer outra geração, têm um profundo orgulho no seu país e na posição que este ocupa na esfera mundial, associando o poder militar à grandeza e acreditando no seu futuro.

Num pátio escuro de Novosibirsk, entre dois edifícios de tijolo do século XIX, encontro os boémios locais a beber cerveja e a ouvir música electrónica. É aqui que Filipp Krikunov, nascido em 1995, abriu uma galeria de arte. Esquivando-se da multidão, ele mostra-me o local. Um quarto está iluminado com uma luz cor-de-rosa fluorescente; na parede, distribuem-se prateleiras que exibem bustos de Lenine pintados com padrões divertidos. Na sala ao lado, jovens artistas montaram modelos de quebra-cabeças para produzir selfies: coloque a cabeça nesta caixa de cartão cheia de espelhos partidos. Coloque a cabeça noutra e descobrirá os restos de uma refeição do Burger King.

Mais do que qualquer outra geração, têm um profundo orgulho no seu país e na posição que este ocupa na esfera mundial, associando o poder militar à grandeza e acreditando no seu futuro.

Um dos amigos e parceiros de Filipp na galeria aparece e aperta-me a mão. “Acabámos de descobrir que não enterraram ninguém neste espaço”, brinca. Depois de Filipp alugar o espaço, ele e os amigos perceberam que o prédio vizinho abrigava o FSB. Na década de 1930, esta polícia chamava-se NKVD, e foi responsável pela morte de cerca de 1,2 milhões de pessoas. Muitas vezes, as vítimas do NKVD eram enterradas no local onde eram mortas. A galeria de Filipp, Space of Modern Art, teve sorte. Não havia ossos na cave! Apenas hipsters naquela noite de Verão amena da Sibéria.

Eu tinha conhecido Filipp nesse dia de manhã num café chique de Novosibirsk, rodeado de mulheres sofisticadas de lábios carnudos de botox. Novosibirsk é a terceira maior cidade da Rússia, um centro de inovação científica e indústria. Há muito dinheiro aqui. Todavia, Filipp não viu muito. Cresceu sem pai e, como muitos jovens russos, foi criado pela mãe e pela avó. O bisavô lutou na Segunda Guerra Mundial e foi mais tarde vítima da “Grande Purga” de Stalin. A avó tornou-se uma engenheira química de prestígio e a mãe trabalhou também na área das ciências. A paixão das duas mulheres é a política. 

Filipp tinha 16 anos quando os protestos pró--democracia emergiram em Moscovo e alastraram para cidades como Novosibirsk. Dezenas de milhares de pessoas saíram à rua para exigir eleições livres e justas. Filipp também estava farto de Putin. “Enviaram-lhe mensagens de descontentamento, mas não houve diálogo”, conta. Ele não reconheceu a Rússia que a televisão controlada pelo Kremlin mostrava. “Era um país diferente”, diz. “Eu não conhecia uma única pessoa assim.”

Antes das celebrações do “Dia da Vila” em Nikolskoye, a nordeste de Moscovo, os jovens fazem o que toda a juventude faz nos locais onde o divertimento é escasso: saem e namoram. Até à recente recessão, a economia do país baseada no petróleo expandiu-se rapidamente e os jovens russos afluíram às cidades em busca de empregos mais bem pagos.

 “Fui às manifestações, tentei ser politicamente activo”, diz. Rapidamente se desapontou. “Olhei em volta e não reconheci as pessoas que estavam nos protestos”, continua. “E na verdade, não levou a nada.”

Não é bem verdade. Os protestos mudaram a situação, só que para pior. Em Maio de 2012, o Kremlin reforçou as medidas de segurança e dezenas de pessoas que tinham participado nos protestos foram detidas, julgadas e presas. A situação política do país foi piorando, pois Putin prosseguiu com uma linha de governação mais autoritária. Rotulou publicamente os liberais que defendiam a liberdade e a democracia, como “traidores nacionais” e “quinta coluna”.

A resposta agressiva deixou uma marca profunda na geração Putin: ensinou-a a ficar fora da política. “Decidi que ou lutava contra este sistema ou vivia num sistema diferente”, diz Filipp. Escolheu o mundo das artes. “É mais saudável”, diz. “A política dá cabo dos nervos. Estamos sempre infelizes, não conseguimos desfrutar a vida.”

Putin está pronto para as eleições de 2018. Há poucas dúvidas de que irá recandidatar-se e certamente conquistará novo mandato de seis anos.

Putin está pronto para as eleições de 2018. Há poucas dúvidas de que irá recandidatar-se e certamente conquistará novo mandato de seis anos. Isso significa que ficará no poder até 2024, pelo menos. Nessa altura, Filipp, que tinha 5 anos quando Putin se tornou presidente, terá 29 anos. Está confortável com a ideia de viver com Putin no poder até lá? Filipp encolhe os ombros. “Vivi toda a minha vida com a minha mão direita e está tudo bem.”

Em Akademgorodok, uma pequena cidade académica construída em torno da Universidade Estadual de Novosibirsk e dos seus muitos laboratórios, conheço Alexandra Mikhaylova, de 20 anos. Alexandra cresceu numa família de cientistas: a mãe é geóloga e o pai físico. Mudaram-se para esta pequena cidade, fundada em 1957 como incubadora de ciência e motor da corrida tecnológica entre a União Soviética e o Ocidente. Desde o colapso soviético, os cientistas russos perderam a corrida contra os colegas ocidentais. Os pais de Alexandra prosseguiram a carreira no mundo dos negócios.

Agora, a estudante de jornalismo trabalha num documentário sobre a cidade e a sua história intelectual, especificamente o movimento underground da década de 1960. “Eles tinham o seu próprio sistema de governo até 1966”, diz Alexandra. Os olhos iluminam-se quando fala da sua investigação sobre este pequeno recanto de liberdade e fermento intelectual num mar de totalitarismo. Em 1966, alguns desses jovens cientistas enviaram uma carta a Moscovo com um rol de críticas. A resposta foi rápida, conta Alexandra. Muitos foram demitidos e foi implementado um rígido controlo político. O documentário da jovem começa na década de 1980 com o submundo punk-rock soviético que se espalhou pelo país.

Mikhail Vasilev, um vendedor de equipamentos de bilhar de 29 anos, treina as suas manobras de skate na Praça Triumfalnaya em Moscovo, perto de uma estátua de Vladimir Mayakovsky, poeta que louvou a revolução de 1917. Os jovens russos têm mais liberdade do que os pais e os avós jamais poderiam ter imaginado.

Actualmente, o processo “está estagnado”, diz. “Falta algo. As pessoas não se envolvem na política. Quando se trata do governo, os jovens são neutros ou têm uma opinião positiva. Ninguém defende a sua opinião e há uma linha ténue entre indiferença e concordância.”

O governo desenvolve outra vez processos de censura. Um músico rock da década de 1990 viu o seu concerto cancelado depois de se pronunciar sobre a invasão da Ucrânia. “Ano após ano, encerram mais um meio de comunicação, atacando aqueles que relatam as notícias de forma mais objectiva”, diz Alexandra. Ela sente-se triste por sentir que Akademgorodok, a cidade onde vive, já não tem o fervor criativo das décadas de 1960 e 1980. Ao contrário da experiência dos pais, a sociedade à sua volta é cautelosa e envelhecida. Ela anseia por uma mudança, um abanão, mas sabe que ele não será produzido pela sua geração.

“Serão os miúdos que têm agora 13 ou 15 anos”, diz Alexandra melancolicamente. Talvez a geração dela possa influenciar o processo. “Tentaremos ajudar, mas, quando se tem 30 anos, não se pode estar à frente de uma revolução com um bebé nos braços.”


 Popularidade ao estilo Putin

Vladimir Putin é visto no seu país como o homem que domesticou a Rússia pós-soviética e o primeiro líder disposto a enfrentar o Ocidente. A sua personalidade forte, combinada com o controlo quase total sobre os media russos, ajudou-o a manter a sua posição, especialmente entre os jovens. Se for reeleito em 2018, será o líder russo que mais tempo esteve em funções, suplantado apenas pelo reinado de 30 anos de Joseph Stalin. Gráficos: Matthew W. Chwastyk e John Tomanio; Farhana Hossain. Fontes: Anders Åslund, Conselho Atlântico; Banco Mundial; Fórum para a Transparência Internacional; Forbes.com; Centro Levada; Gallup.com.

 

 

 Acarinhado em casa

Sem uma oposição forte, Putin manteve a popularidade apesar dos desafios que enfrentou como a admissão à NATO de três ex-repúblicas soviéticas, ataques terroristas e o colapso do rublo.

 

Padrão de vida produz ganhos
Putin beneficiou das duras reformas económicas adoptadas por Boris Ieltsin e pelo seu antecessor, Mikhail Gorbachov, bem como do aumento das receitas do petróleo quando os preços começaram a subir em 2003. O produto interno bruto (PIB) per capita cresceu 70% com Putin: na União Europeia, só aumentou 17% no mesmo período.

 Estabilidade regressa ao mercado de emprego
Os líderes soviéticos afirmaram ter “liquidado” o desemprego na década de 1930. Por esse motivo, os russos ficaram chocados com o desemprego desenfreado da época de Ieltsin. A liderança de Putin desencadeou um alívio posterior e um certo retorno à prosperidade.

A corrupção persiste e a riqueza cresce
Apesar do apoio generalizado a Putin, muitos russos consideram o seu governo altamente corrupto, encarando a eclosão de fortunas imediatas como uma evidência. Vivem mais milionários em Moscovo do que em qualquer outra cidade do mundo, com excepção de Nova Iorque e Hong Kong.

 

 

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