Índice do artigo

Mganga arruma uma prateleira no laboratório. “A população local pensava que os cientistas faziam poções nestes frascos”, conta a fotógrafa Evgenia Arbugaeva. Outros tipos de ciência eram igualmente considerados sobrenaturais. Os investigadores eram apelidados de mumianis (“vampiros” em suaíli) por colherem amostras de sangue para estudos sobre a malária.

 Amani foi fundada em finais do século XIX como plantação de café e jardim botânico alemão. Depois da Segunda Guerra Mundial, tornou-se um instituto britânico para a investigação da malária. Em 1979, passou a ser gerido pelo Instituto Tanzaniano de Investigação Médica, que ainda paga aos funcionários para manterem o local em condições de utilização futura.

No passado, Evgenia ocupou muito do seu tempo “na biblioteca, no meio daqueles livros poeirentos sobre história natural e doenças, lendo à luz das velas”. Também acompanhou cada passo de John Mganga, um assistente de laboratório reformado. 

Evgenia conta que John Mganga adorou mostrar-lhe as suas recordações de Amani: “quedas de água escondidas e os seus sítios preferidos, as casas onde os funcionários britânicos viviam” e a sua colecção de insectos.

 “Ele adorava contar-me histórias”, diz. “John adora a ideia de fazer parte de algo maior do que ele, parte da ciência. Ainda se sente ligado a Amani. E ainda sente saudades do local.”

Wenzel defende que a colaboração com Evgenia foi inestimável porque ela conseguiu transformar as memórias de antigas rotinas e rituais dos funcionários em imagens. “Isso ajuda-nos a interpretar os vestígios de um passado em tempos ordenado – esta ideia de progresso numa paisagem que parece feita apenas de ruínas e de perda”, comenta. As suas fotografias captam uma sensação de “nostalgia partilhada… de uma modernidade nunca alcançada”.

Evgenia concorda. “Quero que as pessoas vejam o que eu vi: um mundo escondido que ainda existe em memórias. Alguém ainda sonha com ele. Quero levar as pessoas até lá.” 

Ao contrário de alguns assistentes de Amani, o agora reformado John Mganga (na imagem, descansando num laboratório) “sentiu uma perda real quando as operações foram encerradas”, explica Wenzel Geissler, antropólogo da Universidade de Oslo. “Ele acreditava genuinamente na ciência e no futuro do país. Vivia esse sonho. E sofreu ao perdê-lo.”

 

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar