Na Paisagem Cultural de Sintra, ergue-se uma gigantesca tela de pedra, testemunho duradouro de um temperamento artístico que faz parte do código genético da vila.

 Texto Paulo Rolão

NO ALTO DO PENHASCO - O Palácio da Pena distingue-se pelo colorido das fachadas. Detém uma perspectiva privilegiada em todas as direcções. Fotografia Luís Ferreira.

 “Wunderbar, das ist wunderbar!”, exclama um turista alemão no início da rampa de acesso à entrada do palácio. Apesar do ar frio que se sente no cimo da serra e da chuva miudinha, o turista alemão sente-se como em casa –  atestam-no os calções e a camisa de manga curta.

Com o telemóvel em riste, faz mira para cima, para os padrões amarelos, rosas e azuis do edifício. Clique após clique, confere cada fotografia no ecrã e solta um ar de satisfação: “Gleich wunderbar!”. Sim, o Palácio da Pena é mesmo maravilhoso, mesmo para quem vem da Baviera, a região germânica celebrizada pelos seus castelos. 

Ao fim de algumas horas, percorrendo salas, salões, dependências, escadarias e pátios, percebemos o que distingue a Pena de Neuschwanstein: além de ser anterior, tem alma e vida! O Palácio foi habitado, vários reis viveram aqui e é uma construção mais real do que a fértil imaginação de Luís II da Baviera poderia sonhar. Na Pena, há vida e não estamos a falar apenas do milhão de turistas que a visitam anualmente.

O Palácio de Monserrate é marcado pelo ambiente exótico e de tendências orientais, fruto da singularidade dos seus construtores: Gerard de Visme, William Beckford e, sobretudo, Francis Cook. Fotografia Alexandre Vaz.

 Os visitantes da Paisagem Cultural de Sintra, cenário distinguido pela UNESCO como Património Mundial em 1995, são a sua artéria de vitalidade e, em simultâneo, constituem um coágulo que dificulta a circulação perfeita. Na estação alta, o acesso pode ser penoso, motivo pelo qual a sociedade Parques de Sintra-Monte da Lua (PSML) imaginou o trajecto que agora percorremos a pé, desde o centro da vila até às imediações do Palácio da Pena e do Castelo dos Mouros. É um trilho pedestre romântico, que se introduz na sempre mágica floresta sintrense e que passa nas imediações de mais um tesouro cultural da vida – a enigmática Vila Sassetti, a primeira construção projectada pelo cenógrafo Luigi Manini para um industrial hoteleiro do século XIX.

Noutros pontos da serra, utiliza-se a bicicleta ou o novo Sintra Green Card, passe articulado com acesso a vários palácios nacionais e bilhetes de comboio e autocarro agregados em função da necessidade de afastar da serrania o mais agressivo dos invasores modernos – o automóvel.

REFÚGIO NA SERRA - O Terreiro das Cruzes, no Convento dos Capuchos, apresenta três cruzes em representação do Gólgota, onde Cristo foi crucificado. Fotografia Alexandre Vaz.

Entre o final do século XVIII e o início do século XIX, o romantismo vingava na Europa. O movimento artístico e literário visava enaltecer o idealismo, o sonho, a fantasia e um regresso ao ego nacionalista ainda que baseado em lendas e figuras heróicas.

Naturalmente, o movimento alastrou a Portugal e, no domínio arquitectónico, foi personificado por uma figura inigualável, Fernando de Saxe-Coburgo e Gotha, nascido em Viena, e que viria a tornar-se Dom Fernando II depois de desposar a rainha Dona Maria II. Sintra celebra este ano o bicentenário do nascimento do homem que implantou e consagrou a visão romântica na vila, deixando gravado na paisagem o ideário do movimento.

Dom Fernando II encontrou no monte sagrado os vestígios de uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora da Peña (de penha ou penhasco rochoso).

Dom Fernando II encontrou no monte sagrado os vestígios de uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora da Peña (de penha ou penhasco rochoso). O mosteiro manuelino implantado no século XVI fora abandonado com a extinção das ordens religiosas e o rei adquiriu o terreno, pensando nele como a tela para a sua mais espantosa pintura. Ao longo de quatro anos, a obra do palácio ganhou forma, sob a direcção do barão de Eschwege.

 Os anos seguintes foram de ocupação sazonal pela família real, que o foi dotando de diversos elementos decorativos e contemplativos e criou o magnífico parque envolvente, escolhendo criteriosamente as espécies vegetais e o arranjo paisagístico correspondentes à visão de Dom Fernando II. 

Com a morte de Dom Fernando, o espaço passou para a posse da condessa d’Edla, segunda mulher do rei.

Com a morte de Dom Fernando, o espaço passou para a posse da condessa d’Edla, segunda mulher do rei. No final do século XIX, após um longo processo judicial, a condessa concordou em vendê-lo ao Estado. Hoje, o Palácio da Pena continua a ser a jóia da coroa da serra de Sintra e um dos grandes postais-ilustrados de Portugal.

À saída, a maioria dos turistas ainda vem embriagada com o choque de história e riqueza da Pena, com as imagens do salão nobre, da sala de jantar e do claustro manuelino. Antes de nova incursão na bruma que envolve a serra, um último olhar à retaguarda devolve os tons amarelo, azul e rosa da fachada, moldados pelo nevoeiro. Há muito que contar no regresso à Baviera.

A LUZ DE QUELUZ - O Palácio de Queluz foi idealizado como palácio de Verão. Além da exuberância interior, o exterior vale também pelo jardim de influência francesa. Fotografia PSML/Wilson Pereira.

Umbilicalmente ligado ao Palácio Nacional da Pena, está o Chalet da Condessa d’Edla, que tem igualmente um pano de fundo romântico, como não podia deixar de ser. Após a morte de Dona Maria II, Dom Fernando viria a desposar Elise Hensler, cantora e actriz que participara na tournée da Companhia de Ópera de Laneuville. Dom Fernando assistiu ao espectáculo de Lisboa, conheceu-a… e apaixonou-se. Apesar da mordacidade da corte portuguesa, o casal dedicou-se afincadamente à construção de um chalet ao jeito alpino, mas com a homenagem sincera ao património e gosto português, bem expressa no recurso abundante à cortiça. O chalet foi utilizado para recepções, jantares ou curtas permanências, bem como residência da condessa depois da morte do rei. 

O visitante do Parque da Pena contempla uma cópia fiel do chalet original, após um aturado trabalho de restauro na sequência do incêndio de 1999, cujas chamas quase o devoraram integralmente. Restou--lhe a alma, a memória e um conjunto de fotografias que foram preciosos auxiliares para a sua reconstrução. A PSML iniciou recentemente a segunda fase do projecto, dotando aos poucos o chalet do mobiliário original do século XIX, adquirido aos descendentes da condessa ou recuperado das reservas do Palácio.

O tecto desta sala do Palácio Nacional de Sintra, com quase 140 metros de comprimento, ostenta as armas de Dom Manuel I, dos filhos e de 72 das mais importantes famílias da nobreza portuguesa – um dos mais importantes “documentos heráldicos” do país. Fotografia Alexandre Vaz.

Afastado destes dois pólos de atracção e embrenhado na vertente sudoeste da serra de Sintra, o  Convento dos Capuchos é um caso singular entre os monumentos da região. Foi fundado por Dom Álvaro de Castro, conselheiro de Dom Sebastião, cumprindo uma promessa do pai. Como o nome indica, o espaço era ocupado por frades franciscanos – oito no total –,  neste convento-irmão do da Arrábida. 

E se neste último a perspectiva é estonteante sobre o mar e pela serra que cai quase a pique, o seu congénere de Sintra tem uma perspectiva privilegiada do mar que irrompe entre o emaranhado de vegetação e os blocos graníticos que o compõem. 

A Ordem dos Franciscanos fizera votos pela pobreza e pela humildade, com o desejo de regresso aos primórdios do cristianismo. Em Sintra, essa vocação foi levada à letra. O despojamento expressa-se a cada passo e degrau. A cozinha, a igreja, o coro alto e as celas são “rudes” e de uma crueza granítica, mas, ao mesmo tempo, de uma singeleza cativante. Um espaço concentra  as atenções: o refeitório, onde apenas sete membros tomavam as refeições, pois o oitavo passava pelo período de jejum. Neste abrigo entalado na rocha mas em pleno contacto com a natureza bravia da serra, a vida dos frades decorria em intenso recolhimento.

PELAS VEREDAS DA SERRA - Uma das opções mais populares para o percurso entre o Vale dos Lagos e o chalet da Condessa d’Edla é a charrete. Os passeios podem ser acompanhados por um guia especializado. Fotografia Alexandre Vaz.

Não há maior contraste nesta paisagem cultural do que a transição do despojamento do Convento dos Capuchos para a opulência do Palácio e Jardins de Monserrate. Na quinta original, o rico comerciante inglês Gerard de Visme construiu uma mansão que, anos mais tarde, foi adquirida por Francis Cook, um milionário fascinado pelo exotismo da cultura e arte do Oriente, que a transformou radicalmente. 

A cúpula do átrio central domina toda a estrutura. A galeria, a sala da música, a sala de jantar e a sala indiana, restaurados nos últimos anos pela PSML, são agora um portal do tempo para a vida privada de um importante comerciante do século XIX. O parque envolvente resulta da adaptação de uma velha propriedade rural, de forma a criar condições para que nela convivam algumas das mais exóticas espécies vegetais que fazem parte de uma rica colecção botânica.

Por dentro e por fora, Monserrate remete para o imaginário de um palácio das mil e uma noites. 

Por dentro e por fora, Monserrate remete para o imaginário de um palácio das mil e uma noites. No Verão, os jardins são anfiteatros improvisados de espectáculos musicais. Fechando os olhos, o visitante é transportado para a vida sintrense oitocentista.

Regressando ao Percurso Pedestre da Vila Sassetti, é possível igualmente aceder ao Castelo dos Mouros. O pano de muralhas adapta-se aos ziguezagues do terreno, trepando pelos blocos rochosos e pelas planuras criadas pelos habitantes.
Os silos, os reservatórios, a torre de menagem e as ameias sugerem uma fortaleza imponente, mas, na verdade, o castelo nunca foi palco de batalhas: à data da conquista de Lisboa, foi simplesmente abandonado. Hoje, restam poucas estruturas originais e o monumento que ali se ergue é um reinterpretação romântica que confere recorte cénico à serra.   

Palácio Nacional destaca-se na paisagem, com as inconfundíveis chaminés que são o ex-líbris da localidade.

 No regresso à vila, novamente a pé ou num dos tuk-tuk sintrenses, o Palácio Nacional destaca-se na paisagem, com as inconfundíveis chaminés que são o ex-líbris da localidade. O palácio tem uma longa história, recuando até à ocupação árabe. Viveu uma fase pujante de construção nos séculos XV e XVI e acolheu, com frequência, a corte, mas nunca foi local de residência fixa. Isso nunca impediu a sua decoração luxuosa. O visitante não fica indiferente à Sala dos Cisnes, à Sala dos Brasões e à Capela, que evidenciam a fusão dos estilos muçulmano e cristão. 

CHALET ALPINO - O Chalet da Condessa d’Edla foi quase totalmente reconstruído após o incêndio de 1999. No restauro, mantiveram-se a cortiça e a alvenaria de pedra e cal. O reboco das fachadas foi pintado. Fotografia PSML/Emigus

Um dos espaços menos nobres do palácio é hoje um símbolo de majestade ímpar – a cozinha, devidamente apetrechada e coroada pelas grandiosas chaminés, desperta inevitavelmente a incredulidade dos visitantes modernos. 

Tomando partido do programa articulado de transportes públicos e desconto nos bilhetes, o visitante pode acabar (ou começar, consoante o programa delineado) no Palácio de Queluz, mais perto de Lisboa e implantado numa antiga zona de quintas. Queluz  foi cenário de festas, eventos e recepções: as suas inúmeras salas, quartos e dependências estão profusamente decorados, desde a espelhada Sala do Trono à graciosa Sala da Música, sem esquecer a ala privada da família real, os aposentos de Dona Francisca Benedita e de Dona Carlota Joaquina e a Sala Dom Quixote, onde nasceu e morreu Dom Pedro IV. O ciclo musical do Palácio Nacional de Queluz tem lugar  em Outubro e, uma vez mais, é através da música que o visitante é convidado a viajar no tempo.

A notável decoração de uma das salas do chalet da condessa d'Edla. Dali, avista-se o Palácio da Pena. Fotografia PSML/Wilson Pereira.

A luz de Queluz provém do exterior e dos magníficos jardins que estão a ser preparados para recuperar a exuberância de outrora, após décadas de algum desleixo. 

Nas últimas décadas do século XX, foram encontrados vestígios de azul por detrás de bustos em fachadas distintas, sugerindo que essa fora a cor original do reboco  do palácio. Análises posteriores detectaram grãos angulares de silício e cobalto, vestígios de um antigo pigmento com origem em vidro moído utilizado desde a Antiguidade Clássica. 

A viagem termina com um último olhar ao recorte da serra de Sintra, uma ideia admirável do rei-artista. Dom Fernando  II pintava com inegável habilidade e assinava as suas obras singelamente com a expressão latina: FC fecit (Feito por Fernando de Coburgo). Faltou gravar em Sintra essa assinatura monumental.

Ilustração Anyforms

CADERNO DE VIAGEM

Como se deslocar: O Sintra Green Card disponibiliza a visita mais económica aos três palácios nacionais.

Modalidades: Sintra Green Card
2 palácios (comboio Lisboa-Sintra, autocarro em Sintra, Pena e PN Sintra, visita a um museu) por 31 euros, ou Sintra Green Card 3 Palácios (igual ao anterior mas com extensão ao Palácio de Queluz) por 39,50 euros.

MÚSICA EM QUELUZ

Em 2014, a Parques de Sintra- Monte da Lua lançou as suas temporadas anuais de música que se realizam nos três Palácios Nacionais sob sua gestão – Queluz (imagem do ciclo Noites de Queluz – Tempestade e Galanterie, na Sala do Trono), Pena e Sintra.

Cada temporada é composta por três ciclos distintos. Cada ciclo é realizado num Palácio Nacional diferente. O respectivo tema pretende invocar a memória das vivências dos locais através da recriação dos ambientes sonoros associados aos contextos históricos de cada palácio. 

Em Março,de 2017, o Palácio da Pena recebe os Serões Musicais, que decorrerão no Salão Nobre, com um repertório baseado no período romântico e numa recriação do espírito dos saraus que ali decorreram durante a época de Dom Fernando II.

A temporada encerra em Junho no Palácio Nacional de Sintra, com o ciclo Reencontros – Memórias Musicais de um Palácio, em que se percorre, através da música, a história, lendas e personagens e o ambiente da corte real ao longo das épocas medievais e renascentistas. Fotografia PSML/Luís Duarte

Mais informações sobre programação cultural em parquesdesintra.pt

 

A ARTE EQUESTRE

A Escola Portuguesa de Arte Equestre está sediada nos jardins do Palácio Nacional de Queluz e é a afirmação de uma arte secular que se tenta manter conservada, através da promoção e incentivo do ensino e prática da arte equestre tradicional portuguesa. Para recriar esta tradição, procura-se que os mais ínfimos pormenores não sejam descurados, seguindo à risca a técnica (à esquerda), o equipamento e os trajes. O cavalo lusitano é a única raça utilizada na Escola Portuguesa de Raça Equestre. As exibições e os treinos decorrem habitualmente no Picadeiro Henrique Calado, na Calçada da Ajuda, em Lisboa. A cultura equestre faz parte do código genético sintrense e da habilitação dos cavaleiros e fidalgos setecentistas e oitocentistas, mantendo uma presença luminosa nas ruas da vila. Fotografia PSML/Pedro Yglesias.

 O PALÁCIO DA PENA

No topo do monte, destacando-se na paisagem, o Palácio Nacional da Pena constitui um belíssimo retrato do romantismo que caracteriza Sintra. Assim o imaginou Dom Fernando II que, numa visita à região em meados do século XIX, apaixonou-se pela paisagem e rapidamente adquiriu o antigo mosteiro que ali existia e os terrenos circundantes com o intuito de mandar erguer uma residência de Verão para a família real. A empreitada de criação foi entregue ao barão von Eschwege, amigo de longa data do rei. Do imaginário de ambos nasceu este palácio que reflecte a profusão de estilos arquitectónicos próprios do romantismo: neogótico, neomourisco, neomanuelino, neo-renascentista. O resultado final é uma obra requintada, repleta de pormenores que o visitante não poderá deixar de descobrir e que reflecte a fusão da arte do Oriente e do Ocidente. Ilustração: Anyforms. Fotografias: PSML/Emigus (entrada, tritão e claustro) e PSML/Luís Pavão (vitrais).

 

 

1 - ENTRADA - O arco monumental de acesso, que remete para a arquitectura portuguesa dos séculos XV e XVI, é encimado pelas armas de Bragança e de Saxe-Coburgo.

2 - SALA DOS VEADOS - O nome advém da presença de cabeças de veado nas paredes. Aqui figura também a impressionante colecção de vitrais de Dom Fernando II.

3 - TRITÃO - Uma figura alegórica, metade peixe, metade humana, encima o pórtico da Criação do Mundo.

4 - SALÃO NOBRE - É o centro do Palácio Novo. As paredes e o tecto são de estuque branco e o mobiliário, quase todo de nogueira, apresenta influências dos estilos gótico, renascentista e flamengo, embora muita da decoração remeta para a cultura oriental. Destacam-se as janelas com vitrais adquiridos por Dom Fernando II e que faziam parte da sua colecção privada.

5 - GABINETE DA RAINHA DONA AMÉLIA - Começou por ser a sala da condessa d’Edla e foi depois o gabinete de trabalho de Dona Amélia. Foi alvo de trabalhos de restauro, concluídos em 2016. Entre vários objectos originais, destacam-se as estantes de pau-santo e o estirador da rainha.

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