O mundo oculto da I Guerra Mundial

Desvendado o subterrâneo perdido de 1914-1918.

Texto Evan Hadingham   Fotografia Jeffrey Gusky

As cicatrizes causadas pelo fogo de barragem da artilharia são visíveis num forte em Chemin des Dames, onde trinta mil soldados franceses morreram em dez dias de Abril de 1917. Debaixo de terra, as forças francesas e alemãs tentavam invadir os túneis e, por vezes, combatiam corpo a corpo.

 A entrada faz-se por um buraco húmido na terra, pouco maior do que a toca de um animal, tapada por um arbusto espinhoso num bosque isolado do Nordeste de França. Vou no encalço de Jeff Gusky, um fotógrafo e médico do Texas que já explorou dezenas de subterrâneos como este. Escorregamos os dois pelo buraco lamacento, penetrando na escuridão. Pouco depois, a passagem abre-se e gatinhamos em frente, apoiados nas mãos e nos joelhos.

O fulgor das lanternas dos capacetes tremeluz ao longo das paredes calcárias empoeiradas do túnel centenário. O corredor afasta-se de nós numa vertente, mergulhando na sombra. Passada uma centena de metros, o túnel termina num pequeno cubículo escavado no calcário e que faz lembrar uma cabina telefónica. 

Aqui, logo a seguir à deflagração da Primeira Grande Guerra (há precisamente 100 anos), os engenheiros militares alemães revezavam-se em turnos, mantendo-se em total silêncio e escutando com atenção o mais ténue som produzido pelos sapadores inimigos.

Há cem anos, numa capela subterrânea, um artista desconhecido esculpiu a imagem de um soldado francês em oração. O trabalho artístico reveste muitos corredores abandonados debaixo da frente ocidental. 

 Vozes abafadas, ou pás a raspar, significavam que uma equipa de minagem hostil poderia encontrar-se a poucos metros de distância, escavando um túnel de ataque que se encaminhava direito a eles. 

O perigo aumentava quando a escavação parava e se ouvia o som de sacos ou latas empilhados sem barulho. Sabia-se assim que o inimigo estava a instalar explosivos de grande potência no final do túnel. O mais enervante de tudo era o silêncio que se seguia. A qualquer momento, as cargas podiam detonar e desfazê-los em bocados ou enterrá-los vivos. 

O impasse da guerra de trincheira levou os dois contendores a escavar túneis sob as posições inimigas, carregando-os com explosivos. No vale do rio Oise, engenheiros alemães escavaram sob as linhas da frente francesas. No dia 26 de Janeiro de 1915, fizeram explodir uma carga que matou 26 soldados franceses de infantaria e causou ferimentos em outros 22. 

 Ali perto, numa das paredes do túnel, as lanternas dos nossos capacetes iluminam as inscrições deixadas pelos engenheiros alemães. Cada graffito acompanhado do nome do autor e respectivo regimento encontra-se encimado por um lema: “Gott für Kaiser! [Deus pelo Kaiser!]”. 

As marcas do lápis ainda estão frescas. Com efeito, a rocha calcária macia da região francesa da Picardia revelou-se ideal não só para as operações de tunelação mas também para os soldados da Primeira Grande Guerra registarem a sua presença com assinaturas, esboços e caricaturas a lápis e, até, complexas esculturas em relevo. Esta arte subterrânea é relativamente desconhecida fora do círculo formado por  estudiosos e entusiastas do conflito, bem como autarcas e proprietários de terra, com muitos dos quais Jeff demorou vários anos a tentar travar conhecimento. 

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