Sete anos após o fim da feroz guerra civil, o Sri Lanka tenta fazer o balanço do conflito: dezenas de milhares de sem-abrigo e dezenas de milhares de desaparecidos.

 Texto Robert Draper   Fotografia Ami Vitale

Sri Lanka

O render da guarda militar sob a bandeira nacional em Galle Face Green, um parque popular em Colombo. Na maior cidade do país, avistam-se poucos indícios da luta que dividiu cingaleses e tâmiles durante 26 anos.

Apaixonaram-se num campo de refugiados no Sul da Índia em 1999, quando ela tinha 17 anos. Ambos tinham escapado à violência da guerra civil do Sri Lanka, que lançou o exército, controlado pela maioria cingalesa, contra os rebeldes tâmiles. Fugiu de Jaffna com a família, saltando sobre os cadáveres dos vizinhos, enquanto as bombas caíam do céu. Ele fugira de Mannar, depois de ver a sua irmã mais nova ser abatida a tiro por um oficial das forças armadas em sua casa. Casaram-se sob o olhar reprovador da mãe dela.

Em 2002, regressaram a Mannar, onde ele pôde pegar novamente no barco e nas redes para pescar. Tiveram um filho, depois uma filha. Para suplementar o seu modesto rendimento, ele vendia latas de gasolina aos guerrilheiros da resistência tâmil. Ela nunca pensou que isso implicasse riscos graves, pois era uma prática comum entre os homens tâmiles de Mannar. 
E quando, um dia, ele lhe disse “se alguma vez me acontecer algo, não deves ir à minha procura: volta para a tua mãe”, ela não fez caso. Até que, no dia 27 de Dezembro de 2006, ele conduziu a sua moto e, nessa noite, não regressou a casa. Nem nos dias que se seguiram.

Para suplementar o seu modesto rendimento, ele vendia latas de gasolina aos guerrilheiros da resistência tâmil.

Um galo passa-lhe a correr pelos pés nus, ziguezagueando. Acordada do sonho, a mulher do pescador pousa a fotografia e retoma as tarefas culinárias com as outras mulheres na sua barraca mal iluminada. A família reuniu-se hoje para recordar a morte repentina da mãe, fulminada por cancro no estômago, há um mês. Um dos irmãos não pôde estar presente por se encontrar em Paris, ilegal e desempregado. As forças armadas do Sri Lanka torturaram-no e ele receia que o detenham se regressar a casa, como fizeram com o pescador e com milhares de homens tâmiles, sem aviso prévio, sem justificação, sem rasto documental. As autoridades nem sequer reconhecem essas detenções.

Sri Lanka

Escuteiros preparam-se para cantar para o presidente, enquanto um polícia da equipa de segurança monta guarda. Este ano, a festa nacional anual dos escuteiros realizou-se em Jaffna. Foi a primeira vez que decorreu na Província do Norte. 

Por alguma razão, a mulher de 34 anos, com uma trança que lhe chega à cintura que oscila e ondula enquanto serve um banquete vegetariano tradicional, não se mostra abatida pelo sofrimento. “Eu sei que o meu marido está vivo”, afirma, com simplicidade desarmante. É esta convicção que a traz absorvida – não a morte da mãe, não o facto de quase nada ganhar no quiosque onde vende arroz e cartões telefónicos. Aquilo que mais importa à mulher do pescador (que pediu para não ser identificada por temer pela sua própria segurança e da sua família) é acreditar que o seu marido continua a ser um prisioneiro-fantasma de uma guerra que terminou há sete anos.

Num certo sentido, o país desapareceu do mapa. Antigamente era considerado uma potência emergente da Ásia Austral.

A verdade é que este quebra-cabeças é igualmente válido para o Sri Lanka. Num certo sentido, o país desapareceu do mapa. Antigamente considerado uma potência emergente da Ásia Austral, a ilha-nação desperdiçou a sua oportunidade de obter legitimação internacional ao precipitar-se numa espiral de violência fomentada por ressentimentos étnicos há muito acalentados. Agora, um novo governo apela à reunificação do país e a oportunidade de recuperação reemergiu. No passado mês de Abril, Samantha Power, embaixadora norte-americana junto da ONU, aplaudiu a administração do presidente Maithripala Sirisena pelos “progressos extraordinários” alcançados no sentido de “uma paz sustentável, uma democracia com responsabilização, um novo relacionamento com o mundo exterior e oportunidades alargadas para todos”.

Na verdade, o acto mais decisivo para o governo não é a conquista do apreço de dignitários estrangeiros, mas sim a assimilação da minoria tâmil, que se sente abandonada pelo progresso alcançado pelo país no pós-guerra e ressentida com a aparente indiferença da maioria cingalesa face às suas reivindicações. 
E é aqui que entra em cena a jovem mulher com a minúscula fotografia em punho. A realidade iniludível é a seguinte: o Sri Lanka não reaparecerá por completo enquanto homens como o seu marido não reaparecerem também.

 

Num campo para deslocados tâmiles, um homem esconde-se atrás do filho. A memória da guerra, que terminou num ataque sangrento, é muito forte. Dezenas de milhares de tâmiles ainda aguardam a oportunidade de realojamento.

A dois terços do percurso descendo a partir de Jaffna ao longo da orla costeira ocidental da ilha em forma de lágrima, situa-se Colombo, a capital administrativa do Sri Lanka. Trata-se de uma metrópole em crescimento galopante, bem ordenada, onde não se vislumbram cicatrizes visíveis da guerra. A população da cidade, de aproximadamente setecentos mil habitantes, divide-se de maneira equilibrada entre budistas cingaleses, hindus, tâmiles e muçulmanos, que vivem e trabalham juntos, com manifestações esporádicas de hostilidade. Para um forasteiro, Colombo oferece respostas reconfortantes.

Desde esse dia, os novos líderes do país têm-se esforçado por mostrar ao mundo que o Sri Lanka se pode comportar como uma democracia moderna.

A cidade deu um surpreendente espectáculo de compostura na noite de 8 de Janeiro de 2015, quando o Sri Lanka deixou o mundo pasmado ao derrubar o regime autocrático de Mahinda Rajapaksa através de uma eleição em grande medida pacífica e limpa. Desde esse dia, os novos líderes do país têm-se esforçado por mostrar ao mundo que o Sri Lanka se pode comportar como uma democracia moderna. O governo de Sirisena começou a reformar o corrupto sistema judiciário, a privatizar organismos de Estado e a liquidar a gigantesca dívida contraída devido a contratos duvidosos de construção de infra-estruturas atribuídos a empresas chinesas. “Já não somos o mesmo governo que antigamente vos dizia uma série de coisas para, três dias mais tarde, se esquecer delas”, afirmou Harsha de Silva, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros. “Queremos que o mundo saiba que estamos diferentes e que faremos aquilo que dizemos que estamos a fazer.”

É perfeitamente possível que um turista voe até Colombo, aprecie as inúmeras atracções do país, como os templos antigos de Dambulla e Polonnaruwa, os elefantes e os leopardos nos parques de vida selvagem, as sumptuosas plantações de chá e a baía de Arugam ou as ondas míticas para o surf e parta, uma ou duas semanas mais tarde, sem se aperceber de que, durante 26 anos, o Sri Lanka foi o epicentro de um horrível banho de sangue étnico.

Crianças tâmiles regressam à escola em Mannar, cidade junto à costa de onde muitos homens desapareceram durante a guerra civil. Os cidadãos do Sri Lanka valorizam a escolaridade, um direito constitucional. Não é raro ver crianças a estudar à luz de candeias. O país apresenta uma taxa de alfabetização adulta superior a 95%. 

É a geografia que impede o turista de ver o rescaldo do que ainda subsiste. Colombo localiza-se no Sul, território dominado pelos cingaleses, na sua maioria budistas e que constituem 75% da população nacional. O turismo concentra-se também no Sul. Em contrapartida, a Província do Norte tem uma paisagem visualmente desinteressante, uma extensão sobretudo plana e árida de terrenos agrícolas. Acontece também que é a terra natal dos tâmiles do Sri Lanka, na sua maioria hinduístas e que representam cerca de 11% da população.

Foi no Norte e no Leste que os Tigres da Libertação de Eelam Tâmil (Eelam é o nome tâmil do Sri Lanka) mantiveram um estado de facto até serem finalmente esmagados. Campos de batalha dispersos pelo Norte estão actualmente repletos de gigantescos memoriais construídos para comemorar a derrota dos “terroristas”. Para lá destes monumentos chamativos, poucos turistas (incluindo os habitantes do Sri Lanka residentes noutros lugares da ilha) se dão ao trabalho de visitar o Norte. Como observou um banqueiro tâmil com amargura, “só vêm cá para ver a vitória”.

 

Mulheres apanham chá na Província do Centro, perto de Saint Clair Falls, conhecida como o Pequeno Niágara do Sri Lanka. As exportações de chá, uma importante fonte de divisas, rendem 1.300 milhões de euros por ano à economia. 

“É uma história de oportunidades perdidas,” explicou o segundo político mais poderoso do estado do Sri Lanka, o primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe. Ele referia-se ao potencial económico ainda não concretizado do país. Geograficamente situado numa encruzilhada das rotas comerciais entre a China e a Índia, abençoado com solo fértil e um nível elevado de escolarização da população, o país estava capacitado para concorrer com Singapura após a Segunda Guerra Mundial, disputando os despojos da decadência industrial do Japão.

No entanto, o país conhecido como Ceilão até 1972 foi desperdiçando oportunidades sucessivas devido a uma série de governos fracassados.  As oportunidades perdidas do Sri Lanka não se limitaram à política económica. A cisão étnica tem sabotado o progresso alcançado pelo país. O Estado do Sri Lanka começou a marginalizar sistematicamente os tâmiles: retirando o direito de voto àqueles cujos antepassados haviam sido trazidos da Índia para trabalharem nas plantações de chá, reafectando os postos de trabalho na universidade a cingaleses e diluindo a maioria tâmil na Província do Leste através de concessões de território a cingaleses. Em 1956, o parlamento dominado pelos cingaleses tornou oficial o cingalês como idioma. Ao mesmo tempo que as licenças de exportação-importação eram preferencialmente concedidas aos empresários cingaleses do Sul, o governo mostrava-se pouco interessado no desenvolvimento da Província do Norte.

Na década de 1970, a ideia de secessão começou a enraizar-se no Norte e nasceram os Tigres Tâmiles. Em 1983, o movimento emboscou e matou 13 soldados do exército, desencadeando uma vaga de rebeliões étnicas que provocaram o assassínio de milhares de tâmiles.

Na década de 1970, a ideia de secessão começou a enraizar-se no Norte e nasceram os Tigres Tâmiles. Em 1983, o movimento emboscou e matou 13 soldados do exército, desencadeando uma vaga de rebeliões étnicas que provocaram o assassínio de milhares de tâmiles. Os Tigres retaliaram com bombistas suicidas e massacres de civis. O Sri Lanka mergulhou na guerra civil. Os investidores estrangeiros fugiram do país e o mesmo fizeram 750 mil cidadãos do Sri Lanka com qualificações elevadas e intermédias.

Rajapaksa, que se tornou presidente em 2005, intensificou a guerra e, em quatro anos, as forças governamentais encurralaram os combatentes e dezenas de milhares de civis tâmiles numa estreita faixa de terra. Em meados de Maio de 2009, o que restava dos Tigres Tâmiles soçobrou, juntamente com vários milhares de civis cercados. A guerra terminara. Estima-se que cem mil pessoas terão sido abatidas.

As atrocidades não foram cometidas, de maneira nenhuma, apenas por um dos lados.

As atrocidades não foram cometidas, de maneira nenhuma, apenas por um dos lados. Ficou tristemente célebre a expulsão pelos Tigres Tâmiles de mais de setenta mil muçulmanos moradores na Província do Norte em 1990. Os Tigres mobilizaram à força milhares de jovens tâmiles. Os atentados bombistas que perpetraram contra templos, comboios, autocarros e aviões constituíram actos inequívocos de terrorismo. Após a derrota dos tâmiles, o regime triunfalista de Rajapaksa continuou a humilhá-los. O Estado manteve indefinidamente sob detenção os activistas políticos tâmiles, sem culpa formada. Propunha-se “recorrer ao exército para colonizar a totalidade da região tâmil, concedendo as terras aos cingaleses”, segundo D.M. Swaminathan, um tâmil que é o ministro do novo governo encarregado de realojar a população forçada a fixar-se em campos de deslocados. O Estado recusou-se a reconhecer o papel desempenhado nos desaparecimentos então em curso.

 

Uma colaboradora do HALO Trust, organização sem fins lucrativos, remove minas em Jeyapuram, outrora um bastião dos Tigres Tâmiles na península de Jaffna. A organização contrata maioritariamente tâmiles (cerca de metade são viúvas) e já removeu mais de 212 mil minas. O governo pretende ter o território limpo até 2020.

A visão de Rajapaksa, de uma tirania-da-maioria para o Sri Lanka, não foi bem recebida pela comunidade internacional. Em 2010, a União Europeia suspendeu os apoios concedidos ao país sob a forma de incentivos a título de desenvolvimento sustentável e boa governação, fundamentados em direitos humanos. Insatisfeito com a fraca investigação de crimes de guerra conduzida pelo governo de Rajapaksa, o Conselho de Direitos Humanos da ONU ordenou uma investigação em 2014. Sob o olhar reprovador da comunidade internacional, o Sri Lanka parecia à beira de outro acto de suicídio.

Desloquei-me pela primeira vez à Província do Norte em finais de 2014, três semanas antes da eleição que derrubou Rajapaksa. O regime mostrara-se crescentemente aborrecido com a forma como os jornalistas e investigadores da ONU descreviam as condições de vida do pós-
-guerra no Norte e de como o acesso à região estava agora vedado. Antes de obter permissão para viajar até lá, foram precisos meses de discussão com o Ministério da Defesa. Por fim, depois de obtida a permissão, eu, o guia e a intérprete fizemo-nos à estrada numa manhã e partimos de Colombo para, seis horas e meia mais tarde, chegarmos ao primeiro posto de controlo, na aldeia poeirenta de Omantai, outrora fronteira do território detido pelos rebeldes. Os oficiais do exército examinaram os documentos, telefonaram, fizeram perguntas, revistaram a carrinha, sussurraram entre eles e, por fim, fizeram sinal para prosseguirmos, embora com extrema relutância.

Durante a nossa permanência de dez dias, deparámos com postos de controlo quase de hora a hora.

Durante a nossa permanência de dez dias, deparámos com postos de controlo quase de hora a hora. Os soldados exigiram a morada pessoal do guia e o número de telemóvel da intérprete. Um oficial telefonou-me a altas horas da noite, aparentemente embriagado, para interrogar-me sobre o itinerário que iria seguir. Prevenidos por informadores de que as pessoas com quem falássemos seriam provavelmente assediadas pelos militares, organizámos entrevistas furtivas em igrejas e quartos de hotel e dentro da própria carrinha, na berma de uma estrada deserta. A terra dos tâmiles continuava a ser uma zona fortemente militarizada.

No Sri Lanka, o território ocupado mais parecia, pelo menos aos olhos de um visitante, uma sociedade livre.

Regressei quase um ano mais tarde, dez meses depois de Sirisena se tornar presidente. Desta vez, não nos pediram documentos, nem encontrámos postos de controlo além de Omantai. Os soldados passavam por nós com desinteresse. Não se mantinham nas esquinas das ruas, olhando fixamente os transeuntes tâmiles. Em Jaffna, não ouvimos quaisquer histórias sobre ameaças a jornais, nem repressão de manifestações. No Sri Lanka, o território ocupado mais parecia, pelo menos aos olhos de um visitante, uma sociedade livre.

Os tâmiles com quem falei rapidamente frustraram o meu optimismo. “Tem havido algum espaço para respirar”, contou um líder da sociedade civil de Jaffna. “Mas, lamento dizê-lo, não há mudanças drásticas.” Membros do Departamento de Investigação Criminal (CID) do Estado, ainda fotografam as pessoas que participam em reuniões públicas, afirmou. De igual modo, Vallipuram Kaanamylnathan, editor do mais importante jornal tâmil, “Uthayan”, afirmou: “No Norte, a imprensa não tem a certeza de conseguir fazer o seu trabalho da mesma forma que os meios de comunicação social o fazem no Sul. As forças armadas ainda mantêm a nossa redacção sob vigilância.”

Pescadores de Nagarkovil, na costa nordeste, puxam as redes carregadasde espadilha. Desde 2011, cerca de 34 mil minas foram retiradas da praia: agora vivem ali mais de mil pessoas. 

Três quartos dos duzentos mil militares do país ainda se mantêm posicionados na Província do Norte. “Esse número não será reduzido durante um longo tempo, uma vez que a ameaça ainda não está totalmente eliminada”, resumiu o general Daya Ratnayake, antigo comandante do Exército do Sri Lanka. Muitos dos soldados, sublinhou Ratnayake, estavam agora a remover minas dos campos agrícolas, a construir templos e escolas e a plantar árvores. Mas, como eu viria a descobrir, também estavam a explorar os maiores hotéis da zona de Jaffna. Dirigem um campo de golfe e uma fábrica de iogurtes. Criam vacas leiteiras e vendem os produtos no mercado. “Têm a terra e os adubos de graça e, por isso, podem vender por três rupias bens que um agricultor de Jaffna vende por 20”, observou o ministro Swaminathan. “Por isso, explicámos com toda a clareza aos militares que eles precisam de devolver essas terras ao público.”

 

Um monge budista cuida de um áxis que salvou, depois de o encontrar sozinho na floresta perto das ruínas do mosteiro de Ritigala, no centro do país. Alguns monges ainda vivem nas proximidades deste sítio arqueológico, onde há inscrições do século I a.C. O Sri Lanka é considerado o país há mais tempo ininterruptamente budista. 

As forças armadas dirigidas por Gotabaya, irmão de Rajapaksa, até à eleição de 2015, reagiram com lentidão às interpelações do novo governo e continuam a ocupar parte dos cerca de cinco mil hectares que confiscaram durante a guerra.

“Não temos certeza de que vamos receber as nossas terras de volta”, afirmou uma mulher tâmil de 46 anos que tem morado num campo paupérrimo desde que o exército lhe confiscou as terras em 1990. “Eles construíram um hotel na minha propriedade. Estão a obter  receitas. Acha mesmo que eles vão devolver as terras?”

A mulher contou-me que o seu filho de 20 anos nasceu no campo. A barraca periclitante tem um telhado com infiltrações e o chão de terra, mas foi a única casa que ele conheceu. “Como pode ver, isto não é sítio adequado para criar uma família”, afirmou.

Quando lhe perguntei pelo marido, ela fez uma pausa antes de responder: “Perdi o meu marido há oito anos. Foi raptado por uma carrinha branca.”

 Quando lhe perguntei pelo marido, ela fez uma pausa antes de responder: “Perdi o meu marido há oito anos. Foi raptado por uma carrinha branca.”

 Quando o pescador não regressou a casa, o primeiro pensamento que aflorou à mente da mulher foi que ele teria pegado no barco para ir pescar, embora fosse estranho que ele não atendesse o telefone. Dias mais tarde, descobriu a moto dele e dirigiu-se à polícia. “Se soubermos alguma coisa, entraremos em contacto”, disseram-lhe.

A mulher do pescador começou a ouvir falar em mais homens tâmiles que andavam a desaparecer das ruas de Mannar. Alguns eram detidos em público e levados em carrinhas brancas sem identificação. Em Setembro de 2008, o seu primo foi raptado sob ameaça de arma enquanto conduzia uma moto. Segundo a sua mãe, um oficial da marinha reconheceu que a Marinha de Guerra estava por detrás do seu rapto.

A mulher do pescador, outras mulheres em Mannar e mulheres de toda a Província do Norte cujos maridos tinham desaparecido resolveram fazer-se ouvir. Assediaram continuamente a polícia. Visitaram todas as prisões que encontraram. Viajaram até Colombo e exigiram audiências com os funcionários públicos. Nada encontraram: nem um só corpo, vivo ou morto, nem uma resposta, nem sequer uma pista. E, não havendo reconhecimento formal de que os homens morreram, as mulheres não têm direito às heranças nem a pensões de viuvez.

Os hindus tâmiles comemoram o Masi Magam em Point Pedro, na península de Jaffna. Durante esta festividade, os ídolos do templo são transportados para um banho cerimonial até ao mar, onde os crentes lavam os seus pecados. 

Quando a guerra terminou, as mulheres prepararam-se para as respostas esperadas: no entanto, nenhum desses homens raptados foi libertado. Na verdade, os desaparecimentos continuaram.

A mulher do pescador escreveu cartas a Rajapaksa e ao Papa Francisco. O meu marido desapareceu em 2006, numa zona controlada pelo exército. Tenho dois filhos pequenos. Por favor, ajude-me. Circularam relatos de sepulturas em massa, em campos militares secretos. Em 2015, segundo estimativa da ONU, o número de desaparecidos tâmiles cifrava-se em mais de 15 mil. No Sri Lanka, outras pessoas consideraram este número excessivamente conservador. O governo de Rajapaksa, por seu lado, insistiu que todos os desaparecidos se tinham limitado a fugir de avião para o estrangeiro, afirmação não sustentada por qualquer prova.

Em Setembro de 2015, a ONU divulgou uma avaliação acusatória dos crimes de guerra no Sri Lanka, referindo-se a “anos de desmentidos e encobrimentos” por parte do regime de Rajapaksa. Ao não protestar contra estas conclusões, o novo governo deu a entender que estaria pronto para enfrentar a verdade.

“Vamos ter uma segunda oportunidade, já estamos a trabalhar para isso”, disse-me Wickremesinghe, o primeiro-ministro. Para tal, reconheceu, seria fundamental desenvolver esforços honestos para os tâmiles sentirem que pertencem ao novo Sri Lanka. “Eles querem apenas levar uma vida normal, como toda a gente”, disse.

Perguntei a mim mesmo como seria possível uma vida normal para as dez mulheres com quem travei conhecimento e cujos entes queridos tinham desaparecido. Elas tinham medo de se exprimir abertamente, mesmo sob o novo regime.

Perguntei a mim mesmo como seria possível uma vida normal para as dez mulheres com quem travei conhecimento e cujos entes queridos tinham desaparecido. Elas tinham medo de se exprimir abertamente, mesmo sob o novo regime. A tia da mulher do pescador foi alvo de intimidação por parte de funcionários públicos quando apresentou um pedido de habeas corpus em nome do filho desaparecido. Outras foram ameaçadas de detenção por organizarem manifestações.

Entretanto, dezenas de tâmiles no Norte foram encarcerados na passada Primavera sem culpa formada. A vigilância continuada dos hindus tâmiles levada a cabo pelo governo coincidiu com a reemergência dos grupos extremistas budistas, que se pensa estarem associados à administração Rajapaksa. Esta era ainda, lamentavelmente para muitos tâmiles, a “vida normal” no Sri Lanka.

Encontrara-me com a mulher do pescador, em Jaffna, poucos dias antes de me reunir com o primeiro-ministro. Havia agora uma fotografia nova do marido desaparecido publicada numa reportagem de um jornal. Era uma fotografia de 168 homens, todos de uniforme prisional branco, sentados e de rosto solene. Fora captada numa penitenciária algures perto de Colombo durante as festividades anuais das colheitas, conhecidas como Pongal, que teriam tido lugar dez meses antes.

 

Uma enfermeira cumprimenta esta mãe na enfermaria da maternidade do Hospital Universitário de Jaffna. Em 1987, soldados indianos integrados na força de manutenção da paz, mataram mais de sessenta doentes e funcionários. O hospital voltou a ser o lugar onde pessoas de todas as etnias e religiões recebem tratamento. 

Os olhos dos homens estavam barrados com tinta e, na cópia granulada, os prisioneiros tâmiles pareciam impossíveis de diferenciar. Mas, para os olhos saudosos de uma mulher, não era impossível. “O meu marido está naquela fotografia”, disse. “Eu consigo identificá-lo sem dúvida. Três outras mulheres do meu bairro reconheceram alguns dos homens. Muitos parecem ser originários de Mannar.” Vendo a dúvida no meu rosto, ela insistira: “Eu consigo identificá-lo. Ele era meu marido.”

A prisão foi localizada e o marido não estava lá detido. Nem ele, nem nenhum dos outros homens desaparecidos de Mannar. E, por isso, perguntei ao primeiro-ministro se, atendendo aos boatos que tinha ouvido, esses homens tinham sido escondidos em locais guardados pelos militares.

“Não há lugares desses”, afirmou. “Falámos com os militares. E foi isso que eles disseram.”

“Ou seja…”

“Estão todos mortos”, resumiu.

Em Junho, o governo do Sri Lanka reconheceu que mais de 65 mil pessoas tinham sido dadas como desaparecidas desde 1994. Anunciou igualmente planos para criar um gabinete destinado a investigar os desaparecimentos e emitir “certidões de ausência” dos desaparecidos para as famílias, para que estas possam receber os subsídios e, se possível, prosseguir com as suas vidas. Partindo do princípio de que assim se fará, talvez o Sri Lanka consiga também andar em frente, confiando os seus fantasmas à memória. 

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