Sri Lanka: retrato de um país após a guerra civil

Sete anos após o fim da feroz guerra civil, o Sri Lanka tenta fazer o balanço do conflito: dezenas de milhares de sem-abrigo e dezenas de milhares de desaparecidos.

 Texto Robert Draper   Fotografia Ami Vitale

O render da guarda militar sob a bandeira nacional em Galle Face Green, um parque popular em Colombo. Na maior cidade do país, avistam-se poucos indícios da luta que dividiu cingaleses e tâmiles durante 26 anos.

Apaixonaram-se num campo de refugiados no Sul da Índia em 1999, quando ela tinha 17 anos. Ambos tinham escapado à violência da guerra civil do Sri Lanka, que lançou o exército, controlado pela maioria cingalesa, contra os rebeldes tâmiles. Fugiu de Jaffna com a família, saltando sobre os cadáveres dos vizinhos, enquanto as bombas caíam do céu. Ele fugira de Mannar, depois de ver a sua irmã mais nova ser abatida a tiro por um oficial das forças armadas em sua casa. Casaram-se sob o olhar reprovador da mãe dela.

Em 2002, regressaram a Mannar, onde ele pôde pegar novamente no barco e nas redes para pescar. Tiveram um filho, depois uma filha. Para suplementar o seu modesto rendimento, ele vendia latas de gasolina aos guerrilheiros da resistência tâmil. Ela nunca pensou que isso implicasse riscos graves, pois era uma prática comum entre os homens tâmiles de Mannar. 
E quando, um dia, ele lhe disse “se alguma vez me acontecer algo, não deves ir à minha procura: volta para a tua mãe”, ela não fez caso. Até que, no dia 27 de Dezembro de 2006, ele conduziu a sua moto e, nessa noite, não regressou a casa. Nem nos dias que se seguiram.

Para suplementar o seu modesto rendimento, ele vendia latas de gasolina aos guerrilheiros da resistência tâmil.

Um galo passa-lhe a correr pelos pés nus, ziguezagueando. Acordada do sonho, a mulher do pescador pousa a fotografia e retoma as tarefas culinárias com as outras mulheres na sua barraca mal iluminada. A família reuniu-se hoje para recordar a morte repentina da mãe, fulminada por cancro no estômago, há um mês. Um dos irmãos não pôde estar presente por se encontrar em Paris, ilegal e desempregado. As forças armadas do Sri Lanka torturaram-no e ele receia que o detenham se regressar a casa, como fizeram com o pescador e com milhares de homens tâmiles, sem aviso prévio, sem justificação, sem rasto documental. As autoridades nem sequer reconhecem essas detenções.

Escuteiros preparam-se para cantar para o presidente, enquanto um polícia da equipa de segurança monta guarda. Este ano, a festa nacional anual dos escuteiros realizou-se em Jaffna. Foi a primeira vez que decorreu na Província do Norte. 

Por alguma razão, a mulher de 34 anos, com uma trança que lhe chega à cintura que oscila e ondula enquanto serve um banquete vegetariano tradicional, não se mostra abatida pelo sofrimento. “Eu sei que o meu marido está vivo”, afirma, com simplicidade desarmante. É esta convicção que a traz absorvida – não a morte da mãe, não o facto de quase nada ganhar no quiosque onde vende arroz e cartões telefónicos. Aquilo que mais importa à mulher do pescador (que pediu para não ser identificada por temer pela sua própria segurança e da sua família) é acreditar que o seu marido continua a ser um prisioneiro-fantasma de uma guerra que terminou há sete anos.

Num certo sentido, o país desapareceu do mapa. Antigamente era considerado uma potência emergente da Ásia Austral.

A verdade é que este quebra-cabeças é igualmente válido para o Sri Lanka. Num certo sentido, o país desapareceu do mapa. Antigamente considerado uma potência emergente da Ásia Austral, a ilha-nação desperdiçou a sua oportunidade de obter legitimação internacional ao precipitar-se numa espiral de violência fomentada por ressentimentos étnicos há muito acalentados. Agora, um novo governo apela à reunificação do país e a oportunidade de recuperação reemergiu. No passado mês de Abril, Samantha Power, embaixadora norte-americana junto da ONU, aplaudiu a administração do presidente Maithripala Sirisena pelos “progressos extraordinários” alcançados no sentido de “uma paz sustentável, uma democracia com responsabilização, um novo relacionamento com o mundo exterior e oportunidades alargadas para todos”.

Na verdade, o acto mais decisivo para o governo não é a conquista do apreço de dignitários estrangeiros, mas sim a assimilação da minoria tâmil, que se sente abandonada pelo progresso alcançado pelo país no pós-guerra e ressentida com a aparente indiferença da maioria cingalesa face às suas reivindicações. 
E é aqui que entra em cena a jovem mulher com a minúscula fotografia em punho. A realidade iniludível é a seguinte: o Sri Lanka não reaparecerá por completo enquanto homens como o seu marido não reaparecerem também.

 

Num campo para deslocados tâmiles, um homem esconde-se atrás do filho. A memória da guerra, que terminou num ataque sangrento, é muito forte. Dezenas de milhares de tâmiles ainda aguardam a oportunidade de realojamento.

A dois terços do percurso descendo a partir de Jaffna ao longo da orla costeira ocidental da ilha em forma de lágrima, situa-se Colombo, a capital administrativa do Sri Lanka. Trata-se de uma metrópole em crescimento galopante, bem ordenada, onde não se vislumbram cicatrizes visíveis da guerra. A população da cidade, de aproximadamente setecentos mil habitantes, divide-se de maneira equilibrada entre budistas cingaleses, hindus, tâmiles e muçulmanos, que vivem e trabalham juntos, com manifestações esporádicas de hostilidade. Para um forasteiro, Colombo oferece respostas reconfortantes.

Desde esse dia, os novos líderes do país têm-se esforçado por mostrar ao mundo que o Sri Lanka se pode comportar como uma democracia moderna.

A cidade deu um surpreendente espectáculo de compostura na noite de 8 de Janeiro de 2015, quando o Sri Lanka deixou o mundo pasmado ao derrubar o regime autocrático de Mahinda Rajapaksa através de uma eleição em grande medida pacífica e limpa. Desde esse dia, os novos líderes do país têm-se esforçado por mostrar ao mundo que o Sri Lanka se pode comportar como uma democracia moderna. O governo de Sirisena começou a reformar o corrupto sistema judiciário, a privatizar organismos de Estado e a liquidar a gigantesca dívida contraída devido a contratos duvidosos de construção de infra-estruturas atribuídos a empresas chinesas. “Já não somos o mesmo governo que antigamente vos dizia uma série de coisas para, três dias mais tarde, se esquecer delas”, afirmou Harsha de Silva, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros. “Queremos que o mundo saiba que estamos diferentes e que faremos aquilo que dizemos que estamos a fazer.”

É perfeitamente possível que um turista voe até Colombo, aprecie as inúmeras atracções do país, como os templos antigos de Dambulla e Polonnaruwa, os elefantes e os leopardos nos parques de vida selvagem, as sumptuosas plantações de chá e a baía de Arugam ou as ondas míticas para o surf e parta, uma ou duas semanas mais tarde, sem se aperceber de que, durante 26 anos, o Sri Lanka foi o epicentro de um horrível banho de sangue étnico.

Crianças tâmiles regressam à escola em Mannar, cidade junto à costa de onde muitos homens desapareceram durante a guerra civil. Os cidadãos do Sri Lanka valorizam a escolaridade, um direito constitucional. Não é raro ver crianças a estudar à luz de candeias. O país apresenta uma taxa de alfabetização adulta superior a 95%. 

É a geografia que impede o turista de ver o rescaldo do que ainda subsiste. Colombo localiza-se no Sul, território dominado pelos cingaleses, na sua maioria budistas e que constituem 75% da população nacional. O turismo concentra-se também no Sul. Em contrapartida, a Província do Norte tem uma paisagem visualmente desinteressante, uma extensão sobretudo plana e árida de terrenos agrícolas. Acontece também que é a terra natal dos tâmiles do Sri Lanka, na sua maioria hinduístas e que representam cerca de 11% da população.

Foi no Norte e no Leste que os Tigres da Libertação de Eelam Tâmil (Eelam é o nome tâmil do Sri Lanka) mantiveram um estado de facto até serem finalmente esmagados. Campos de batalha dispersos pelo Norte estão actualmente repletos de gigantescos memoriais construídos para comemorar a derrota dos “terroristas”. Para lá destes monumentos chamativos, poucos turistas (incluindo os habitantes do Sri Lanka residentes noutros lugares da ilha) se dão ao trabalho de visitar o Norte. Como observou um banqueiro tâmil com amargura, “só vêm cá para ver a vitória”.

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