Os antigos maias acreditavam que Chaak, o deus da chuva, morava em grutas e poços naturais chamados cenotes. Ainda hoje os agricultores do estado mexicano do Iucatão dirigem apelos a Chaak, pedindo-lhe a dádiva da chuva. Entretanto, os cenotes fornecem informação aos arqueólogos sobre 
as paisagens sagradas dos maias ancestrais.

 Texto Alma Guillermo Prieto   Fotografia Paul Nicklen e Shaul Schwarz

Um mergulhador explora um cenote perto das ruínas Maias de Tulum.

Junto às ruínas de Chichén Itzá, debaixo de uma árvore, uma voz ergue-se da boca de um poço. “Eu vi-o, eu vi-o!”, proclama. Debruçando-se sobre a boca do poço, o arqueólogo subaquático Guillermo de Anda pergunta: “Viste o quê, Arturo?” 
E o seu colega arqueólogo Arturo Montero, boiando lá em baixo, no fundo do poço, volta a berrar: “A luz no zénite! Funciona mesmo! Vem cá abaixo!” De seguida, urra, em sinal de êxtase.

Guillermo aguarda ansiosamente que Arturo apure se este poço natural, ou cenote, terá servido de relógio solar e marcador do tempo sagrado para os antigos maias nos dois dias do ano (23 de Maio e 19 de Julho) em que o Sol atinge o seu zénite. Nesse momento, o astro situa-se numa posição perfeitamente vertical e não gera sombra. O cenote localiza-se exactamente a noroeste da escadaria principal de El Castillo, a famosa pirâmide central de Chichén Itzá, e no interior dos limites urbanos dessa misteriosa cidade.
Teriam os sacerdotes maias aguardado neste mesmo poço a oportunidade de observar o ângulo do Sol, no momento em que o astro atingia o seu zénite, como acontece apenas nos trópicos? Viriam eles aqui, nas épocas de seca, fazer oferendas angustiadas e, noutras ocasiões, dar graças pelas colheitas abundantes? Acreditariam eles que este era o local onde o Sol e as águas generosas se reuniam para gerar vida? Eram estas perguntas respeitantes à relação dos maias com os seus deuses, a sua cidade sagrada e o seu rigoroso calendário que os dois arqueólogos investigavam.

O arqueólogo Guillermo de Anda desce ao fundo do cenote Holtún, poucos minutos antes do momento em que, no dia 19 de Julho, o Sol se posiciona exactamente sobre a abertura. Quando isso acontece, duas vezes por ano, a luz projecta-se sobre a água na vertical, tal como sucederia durante o período maia. Famoso pelas suas capacidades como arqueólogo subaquático, Guillermo conseguira trabalhar no cenote Holtún de maneira apenas esporádica e com financiamentos mínimos. Arturo Montero, da Universidade de Tepeyac, encontrava-se no poço por conta própria. Estivera na cidade vizinha de Mérida no dia 23 de Maio, conduzindo um seminário em arqueoastronomia na Universidade do Iucatão, onde Guillermo era professor. Nesta manhã, do dia seguinte ao zénite, estavam finalmente a caminho do cenote Holtún. Faltando apenas poucos minutos, Arturo e o estudante de licenciatura Dante García Sedano tinham vestido à pressa os seus fatos de mergulho e descido até ao fundo do poço com ajuda de uma equipa de agricultores locais.

Agora, Arturo exultava de alegria e os agricultores faziam descer primeiro uma jangada de borracha e, de seguida, eu própria, para o interior do poço. Encharcado em suor devido ao calor escaldante do Iucatão, Guillermo cumpriu por fim a descida de 20 metros até ao fundo do poço, tornando-nos aos quatro, com toda a probabilidade, nas primeiras pessoas em séculos a observarem o caminho percorrido pelo deus-sol através destas águas.

Os raios solares aproximavam-se de tal maneira da vertical que Arturo Montero sabia agora que, no dia anterior, no momento do zénite, um pilar de luz teria mergulhado a direito, água adentro.

Abaixo da abertura do cenote, as paredes abriam-se e formavam uma abóbada. Apertada pela estreiteza da abertura, talhada em rectângulo provavelmente para imitar as quatro esquinas do universo maia, a coluna de luz solar bailava como fogo sobre o delicado rendilhado das estalactites circundantes. A orla da água também parecia acender-se ao ser atingida pela luz e, debaixo da superfície normalmente escura, as águas mudavam para um azul-turquesa transparente. Os raios solares aproximavam-se de tal maneira da vertical que Arturo Montero sabia agora que, no dia anterior, no momento do zénite, um pilar de luz teria mergulhado a direito, água adentro.
Nos últimos vinte e cinco anos, os arqueólogos começaram a prestar mais atenção ao papel das grutas, ao Sol no zénite e agora aos cenotes, centrando-se nas crenças dos antigos maias do Iucatão. No passado, os arqueó-
logos sabiam que os maias consideravam as grutas e os cenotes como aberturas para o outro mundo habitado por Chaak, o deus da chuva geradora de vida, mas só recentemente as ressonâncias deste facto na arquitectura e no planeamento urbano começaram a tornar-se claras.

CENOTES ILUST

Em 2010, Guillermo, que até então já havia mergulhado em diversos cenotes, começou a explorar Holtún com a colaboração do Instituto Nacional de Antropologia e História e por convite de Rafael Cobos, o célebre arqueólogo que tem investigado e cartografado as centenas de estruturas antigas, promontórios e poços existentes na região de Chichén Itzá.
Quando examinava as paredes do reservatório, alguns metros abaixo da superfície, emergiu de um pequeno espaço oco e sentiu uma protuberância acima da cabeça.

A lanterna do capacete revelou colunas quebradas, um jaguar antropomórfico e uma figura semelhante à dos homens de pedra do Templo dos Guerreiros em Chichén Itzá.

Ficou estupefacto ao descobrir que neste patamar natural havia uma oferenda formada por um crânio humano, peças de cerâmica, o crânio de um cão, ossos de veado e uma faca de dois gumes provavelmente utilizada para sacrifícios. Fora tudo bem arrumado séculos antes. Apontada directamente às profundezas do cenote, a lanterna do capacete revelou colunas quebradas, um jaguar antropomórfico entalhado e uma figura semelhante à dos homens de pedra do Templo dos Guerreiros em Chichén Itzá. Este poço era definitivamente um lugar sagrado. Agora, três anos mais tarde, Guillermo e Arturo tinham descoberto uma ligação entre o Sol no zénite e Holtún, mas também o papel desempenhado pela localização e orientação da pirâmide de El Castillo, em Chichén Itzá. Já se sabia anteriormente que, no equinócio da Primavera, uma serpente de luz desce coleando um dos lados da escadaria central da pirâmide, uma perspectiva testemunhada todos os anos por milhares de turistas.Alguns percorrem a pé a pequena distância que separa a pirâmide do famoso Cenote Sagrado, o qual, ao longo dos séculos em que Chichén Itzá permaneceu como imponente cidade-estado, recebeu pela sua abertura um número indeterminado de seres humanos e outras oferendas preciosas.
No dia 23 de Maio, o dia do zénite, Arturo deslocara-se à pirâmide central e descobrira que o Sol, K’inich Ajaw, levanta-se alinhado pela esquina nordeste da pirâmide. De seguida, alinha-se com a escadaria oeste da pirâmide e com o incaracterístico poço de Holtún.

Para afinarem o seu calendário, os maias precisavam de determinar quais os dias do ano em que o Sol brilhava exactamente sobre as suas cabeças, sem qualquer desvio. Arturo e Guillermo conjecturam que os astrónomos maias talvez aguardassem no interior do poço de Holtún esses dois momentos de zénite existentes em cada ano, quando uma coluna vertical de luz solar atravessava a água sem se reflectir na abóbada.

Para os maias, a astronomia era sagrada, como o eram a arquitectura e o planeamento urbano.

Para os maias, a astronomia era sagrada, como o eram a arquitectura e o planeamento urbano. Guillermo e Arturo agora pensam que os outros cenotes também poderão ter desempenhado um importante papel na determinação dos locais de construção dos edifícios. O Cenote Sagrado situa-se a norte de El Castillo. Dois outros cenotes localizam-se a sul e a sudeste da estrutura. O cenote de Holtún, directamente a noroeste da pirâmide, completava possivelmente a configuração em forma de losango que permitiu ao povo de Itzá escolher o sítio para construir a sua cidade sagrada e revelou a maneira de orientar a sua pirâmide principal. Se os estudos posteriores vierem a confirmar tudo isto, as mais importantes coordenadas do projecto global de Chichén Itzá encaixar-se-ão perfeitamente no seu sítio.
Essa é, pelo menos, a esperança de Guillermo de Anda. Mas naquele dia ele e Arturo Montero já tinham conseguido muito. O Sol retirou as suas lanças de luz e prosseguiu o seu curso, sobre a face da Terra, enquanto lá em baixo, na escuridão renovada, os dois tagarelavam entusiasmados sobre aquilo que haviam presenciado e o seu 
significado. “Un abrazo, hermano!”, exclamou Arturo, e os dois homens atiraram-se um contra o outro no meio da água, chapinhando 
num abraço.

Lá em cima, a equipa de agricultores teve de trabalhar arduamente para içar os exploradores de volta. Havia ali milharais roçagantes que haviam esperado pela chuva tempo de mais, mas o chefe da equipa, Luis Un Ken era um optimista por natureza. “No outro dia, caiu uma boa chuvada”, disse. “Chaak moveu-se.”

Chaak é uma e muitas coisas: cada trovão é um Chaak separado em acção, quebrando uma vasilha e deixando a chuva cair.

Para homens como Luis, os deuses antigos ainda estão bem vivos e Chaak, senhor dos cenotes e das grutas, é um dos deuses mais importantes. Ele faz cair do céu a água que guarda em vasilhas de barro nas cavernas. Chaak é uma e muitas coisas: cada trovão é um Chaak separado em acção, quebrando uma vasilha e deixando a chuva cair. Cada deus habita uma camada distinta da realidade, juntamente com dezenas de deuses ora complacentes, ora ferozes, que vivem nos treze outros mundos situados acima e nos nove que ficam por baixo. No seu conjunto, impregnavam as vidas das populações maias com sonhos, visões e pesadelos: um complexo calendário de estações agrícolas e de rituais de fertilidade e um firme sentido da forma como as coisas têm de ser feitas.

Chamamos a isto desflorestação, mas para os maias significava sobrevivência.

A ausência de Chaak pode causar catástrofes no Iucatão, mas essas tragédias só são verdadeiramente entendidas quando caminhamos sobre a superfície dura e lunar do que foi o seu antigo império, uma interminável plataforma cársica. 
A chuva infiltra-se directamente através do calcário até aos níveis dos lençóis freáticos e, por essa razão, a terra não é atravessada por qualquer rio ou riacho. Em rigor, os cenotes são sumidouros que se prolongam até ao aquífero. A floresta tropical é esparsa, com árvores magras e compridas cujas raízes teimosas se adaptaram às bolsas de solo que polvilham o calcário. Em todos os locais onde as depressões no solo são suficientemente grandes, planta-se milho ou milpa, uma combinação equilibrada do milho, feijões e abóbora que constituem a base essencial de proteína na região. Durante milhares de anos, os agricultores dedicados ao plantio de milpa asseguravam a produtividade contínua dos seus pequenos campos queimando todos os anos um segmento diferente de árvores e pondo-lhe por cima as cinzas amigas do milho. Chamamos a isto desflorestação, mas para os maias significava sobrevivência.

CENOTES 2

Rapazes da aldeia de Yaxuná refrescam-se num cenote de calcário. A escada de 20 metros permite-lhes sair após cada mergulho. Esculpida por um artista local, a estátua é a versão de um espírito brincalhão do folclore maia. Os aldeãos puseram-na ali para os turistas em busca dos sítios arqueológicos da região.

Quanto à água necessária aos campos… bem, é aqui que Chaak faz a sua entrada. Só as chuvas são capazes de fazer o milho crescer e precisam de cair segundo um padrão exacto: ausência total de chuva no Inverno, para que os campos e a floresta possam estar secos em Março para poderem ser queimados; alguma chuva no início de Maio, para que o solo amoleça para o plantio; de seguida, chuva muito suave para permitir que as sementes plantadas possam germinar; e, por fim, chuva em abundância para levar os caules do milho a crescer rumo ao céu e engordar os grãos do milho maduro. Chuvas irregulares significam menores porções de alimento para uma família.
A pergunta arqueológica que continua por responder é: por que razão as cidades-estado maias do Iucatão se foram desmoronando? Ou, na verdade, talvez faça mais sentido perguntar como sobreviveram de todo, alimentadas pelo crescimento do milho num ambiente tão inóspito.

E contudo sobreviveram e prosperaram. Por vezes, beneficiando de colheitas abundantes e, outras vezes, colocando oferendas dentro de um cenote durante um período de seca prolongada, quando o aquífero podia afundar-se cerca de seis metros. Com uma população estimada em vários milhões de habitantes há mil anos, os maias setentrionais construíram inúmeras cidades no Norte seco, sempre perto de um cenote gerador de vida. Qualquer viajante pode tropeçar numa ruína nunca antes perturbada.

Para os maias, a gruta teria sido uma abertura, as mandíbulas escancaradas de uma devoradora divindade da Terra ou um dos lugares de morada de Chaak.

Com efeito, dois ou três dias depois do dia do zénite no Iucatão, andava eu caminhando penosamente por um trilho entre milpas e floresta, a vários quilómetros de distância de Chichén Itzá, na companhia do arqueólogo e espeleólogo Donald Slater, quando ele acenou para a direita com a cabeça e disse: “Ali está ele.” Aquilo que parecia ser um espessamento indistinto da floresta, cerca de cinquenta metros fora do trilho, veio a revelar-se uma colina acentuadamente inclinada. Como é evidente, não existem colinas íngremes na vizinhança. Mas há pirâmides. Esta era particularmente alta e, directamente de frente para a sua esquina sudoeste, avistava-se uma caverna muito grande.
Para os maias, a gruta teria sido uma abertura, as mandíbulas escancaradas de uma devoradora divindade da Terra ou um dos lugares de morada de Chaak. Donald queria testar a sua hipótese de que esta caverna era um ponto de observação sagrado, a partir do qual se davam boas-vindas à chegada do Sol no dia do seu zénite e que esta pirâmide fora construída (ou pelo menos especificamente orientada) em função da gruta.

Na entrada da caverna, viam-se vestígios de um conjunto de degraus entalhados na pedra séculos antes, talvez para proporcionar aos xamãs acesso a esta bocarra da Terra. Segundo conjecturas de Donald, os sacerdotes do Sol teriam passado a noite anterior ao Sol no zénite jejuando, dançando e entoando cânticos, ao som de tambores e de flautas de barro com dupla câmara, semelhantes às que foram encontradas nas profundezas da gruta, louvando o Sol por trazer de novo o dia do zénite e, com ele, as chuvas.

Séculos atrás, nos dois dias do zénite solar, esta dança da luz teria sido executada sobre o que hoje são as ruínas de uma plataforma.

Enquanto permanecíamos de pé no local onde os homens santos outrora poderiam ter estado, a massa da pirâmide erguia-se diante de nós. Esperámos. Às 8h07 da manhã, um globo cor de laranja formou-se por detrás da pirâmide e mostrou-se em todo o seu esplendor enquanto iluminava o topo, inundando a nossa caverna com a sua luz fulgurante. Séculos atrás, nos dois dias do zénite solar, esta dança da luz teria sido executada sobre o que hoje são as ruínas de uma plataforma no topo da esquina sudoeste da estrutura.
Para os maias, as pirâmides, algumas das quais alinhadas com o Levante e Poente dos dias do equinócio e do zénite, ter-se-iam assemelhado a guardiões do tempo cósmico. E a interacção de K’inich Ajaw, o Sol, com as águas sagradas de Chaak, era a dança da vida que tornava possíveis os milharais.

Eu prosseguia a minha própria e humilde demanda por Chaak. Deambulando pela península do Iucatão, procurava marcas dos rituais e crenças dos “maias” da actualidade que pudessem ajudar-me a compreender os elos que os unem aos seus gloriosos antepassados. 
A maioria dos maias de hoje vive em comunidades agrícolas pobres, e Chaak, que continua a ser tão importante para eles, é glorificado sazonalmente através de uma longa oração invocadora das chuvas conhecida como Cha Chaak.

“Os Cruzoob são, no essencial, os maias sobreviventes”, disse-me Pastor

Cerca de 130 quilómetros a sudeste de Chichén Itzá, ao aproximarmo-nos da Riviera Maia, fica a aldeia de Chunpón. Integra-se num território classificado pela administração pública como Zona Maia e abrange uma superfície considerável da península do Iucatão. Visitei Chunpón acompanhada por um homem chamado Pastor Caamal. À semelhança de muitos dos seus vizinhos, e de Luis Un Ken, ele é um Cruzoob, ou crente na Cruz Falante, uma relíquia do levantamento popular oitocentista conhecido como Guerra das Castas. Descendente dos guerreiros maias que combateram contra as tropas governamentais, ele ainda participa na guarda contínua prestada pela guarnição da cruz sagrada, dedicando-lhe duas semanas por ano.
“Os Cruzoob são, no essencial, os maias sobreviventes”, disse-me Pastor numa tarde de Verão, enquanto percorríamos velozmente de automóvel uma auto-estrada da Zona Maia rumo à sua cidade natal. A sua afirmação era algo exagerada: a Guerra das Castas foi um assunto estritamente local e existem aproximadamente cinco milhões de maias numa região que abrange o terço inferior do México, bem como na maior parte do Belize e da Guatemala, da zona ocidental das Honduras e da região ocidental de El Salvador. Mas é verdade que, no Iucatão, a guerra afectou quase todas as aldeias.

CENOTES 8

Iluminando o seu achado, Guillermo de Anda indica o único sacbe (ou trilho sagrado) conhecido no interior de uma gruta. Junto à coluna rochosa, este caminho de pedra vira para oeste, na direcção do cenote. Os antigos maias acreditavam que essa era a direcção para o mundo subterrâneo, uma paragem na rota para os céus.

Perguntei a Pastor Caamal de que maneira superava as divergências entre os antigos deuses maias e Jesus Cristo, frequentemente invocado pelo povo maia. “Somos politeístas”, respondeu. Surpreendentemente, não existe praticamente qualquer presença católica nesta zona: em vez disso, há hmem, xamãs, curandeiros e encantadores que normalmente descobrem a sua vocação em sonhos, servindo depois de mediadores entre os deuses e os seus necessitados devotos.
Respondendo às minhas perguntas sobre onde poderia presenciar um ritual da chuva de Cha Chaak, Pastor disse-me que o seu próprio hmem talvez pudesse saber de um Cha Chaak a ser celebrado em algum lugar, embora a época já fosse adiantada.

Hmem, xamãs, curandeiros e encantadores que normalmente descobrem a sua vocação em sonhos, servindo depois de mediadores entre os deuses e os seus necessitados devotos.


Debaixo do calor abrasador do meio-dia, fizemos uma breve paragem em Chunpón, no complexo residencial da família de Pastor. Na cabana oval da cozinha, estava pendurada uma fieira de redes, todas ocupadas por familiares que tagarelavam e se balouçavam suavemente. Ficaria mais fresco sem a fogueira do lar, mas as brasas da cozinha estão sempre acesas. A mãe de Pastor, pequenina e determinada, fitou-me nos olhos, a mim, uma visitante “espanhola”, ou não-maia, mas cozinhou tortilhas para mim, oferecendo-mas com carne e malaguetas. Mais tarde, ela perguntaria insistentemente ao seu filho quando é que eu tencionava sair da sua rede e partir, mas as regras da hospitalidade, tão precisas como o movimento das estrelas, mandavam que os alimentos fossem oferecidos.
De regresso à estrada, vimos árvores delgadas despontando da superfície calcária, branca e dura como osso. Detivemo-nos na aldeia de Chun-Yah, a qual, à semelhança de muitas outras na Zona Maia, não possui comunicações telefónicas fixas ou móveis com o mundo exterior, dispondo apenas de escolas rudimentares. Dentro do seu próprio complexo residencial poeirento, composto por cabanas ovais com telhados de colmo, o guia espiritual e hmem Mariano Pacheco Caamal saudou-me com um sorriso rasgado.

Em sonhos, aprendera o que pedir a cada deus e em que dia da semana o devia fazer. Ele sabia onde encontrar as grutas sagradas.

Don Mariano disse-me saber utilizar quarenta tipos diferentes de plantas para curar doenças, fracturas ósseas e mordeduras de serpentes. Numa época de especial vulnerabilidade para Pastor, Don Mariano criara um anel protector de fogo invisível em redor do seu amigo. Em sonhos, aprendera o que pedir a cada deus e em que dia da semana o devia fazer. Ele sabia onde encontrar as grutas sagradas.
Don Mariano vestia calções cortados a partir de antigas calças e chinelos e parecia ter posses admiravelmente limitadas para um homem da sua idade e prestígio. Perguntei a Don Mariano como sabia ele que era maia. De modos suaves, o hmem pestanejou, por detrás dos seus óculos de lentes grossas. “Porque somos pobres”, respondeu. Fiz-lhe de novo a pergunta. “Por causa dos alimentos que comemos, por causa da cor da nossa pele, por causa da nossa altura”, veio a resposta, mas depois pensou noutra melhor. “Porque aqui não há fábricas, nem máquinas, nem fumo. De noite, temos sossego e silêncio. De manhã, eu digo: hoje vou fazer isto ou aquilo. O nosso trabalho é nosso. Quando trabalhamos para forasteiros, eles exigem o teu tempo. Mas os maias mandam neles próprios.”

Imitou os rapazinhos a fazer de rãs. Sorriu de novo. “É um costume muito bonito.” O seu rosto abriu-se num grande sorriso. “Não fazemos isso aqui.”

Sabia ele de algum Cha Chaak que estivesse para breve? Infelizmente, Don Mariano pôde apenas confirmar que eu chegara tarde de mais. Em Chun-Yah, como noutros lugares, a altura certa para plantar e invocar a chuva já passara. Então, ele explicou-me com elegância a forma como uma oferenda é feita a Cha Chaak na sua pequena parte do universo maia. Um altar rectangular, ou mesa de oferendas, com menos de um metro de largura e feito com troncos esguios e algumas tábuas, representa o mundo. Os diversos alimentos para Chaak são dispostos numa ordem previamente estabelecida, com taças feitas a partir de meia cabaça contendo balché, uma bebida fermentada sagrada preparada com casca de árvore, e cabaças cheias de água sagrada retirada de um cenote ou gruta escondidos. O alimento especial é composto por 13 unidades de “pão”, tortilhas espessas com 13 camadas de massa de pão de milho, representando as 13 camadas do outro mundo situado acima. O pão vem envolto em folhas de uma videira local, e é cozido num fosso escavado nas proximidades do altar. Uma cruz é posicionada na parte de trás da mesa, ao meio, para supervisionar todo o processo. Atrevi-me a dizer que ouvira falar nos sapitos, rapazes pequenos que se acocoram na base do altar e incentivam Chaak a comparecer imitando o chamamento das rãs durante a estação das chuvas. Pastor e o hmem entreolharam-se e sorriram. “Ouviu falar nisso [perto de Chichén Itzá], certo?”, perguntou Pastor. Imitou os rapazinhos a fazer de rãs. Sorriu de novo. “É um costume muito bonito.” O seu rosto abriu-se num grande sorriso. “Não fazemos isso aqui.”
Em Yaxuná, uma vila no centro da península onde se celebrava uma cerimónia sazonal tardia em honra de um Chaak atrasado, fazem-no. Yaxuná dista cerca de vinte quilómetros de Chichén Itzá e, nesta zona do Iucatão, ainda existe grande dependência da colheita de milpa, o que torna as populações locais súbditas angustiadas de Chaak.

A cerimónia em Yaxuná estava quase terminada quando lá cheguei. Durante quase dois dias, os aldeãos desesperados e o seu hmem tinham orado sem descanso nem sono para convencer Chaak a vir até eles. Tinham percorrido um longo caminho através da floresta até uma gruta secreta, e descido até ao seu centro, servindo-se de um assustador sistema de cordas, para obterem a água exigida pela cerimónia. 


A chuva começou a cair, sinal de que o Chaak recebera a sua oferenda e estava satisfeito.

Haviam construído o altar, escavado o pib, incorrido em enorme despesa para disponibilizar as 13 galinhas gordas necessárias à refeição ritual, mantido o altar sob vigilância protectora de um dia para o outro, enquanto rezavam e bebiam balché, amassado as pilhas de pães de 13 camadas de milho e abóbora nas quais nenhuma mulher fora autorizada a tocar, cozendo os pães dentro do pib, e retirando-os de novo do seu leito de fogo, deixando o fosso aberto para que o vapor pudesse erguer-se directamente até ao deus das chuvas como oferenda.
E agora o hmem, Hipólito Puuc Tamay, estava de pé em frente ao altar a orar a Chaak, a Jesus Cristo e a todos os santos, a São João Baptista, às forças da Terra e do Céu, e de novo a Chaak, para permitir que a bênção sagrada da chuva caísse sobre eles e sobre todas as comunidades maias das redondezas, a fim de poderem sobreviver a mais um ciclo completo do Sol. Cumprindo instruções dadas pelo hmem, um dos aldeãos acocorou-se sobre uma rocha, mantendo-se muito quieto, soprando apenas de vez em quando numa das cabaças dentro das quais Chaak armazena o vento. Era apenas um dos vizinhos, mas naquele momento era também o deus das chuvas, e sentou-se de olhos fechados de maneira a não perturbar a cerimónia com o seu terrível olhar.

E também estavam lá os sapinhos, cinco rapazes ligeiramente envergonhados, acocorando-se junto à base do altar do mundo, um rapazinho em cada esquina e um no centro, quatro deles entoando hmaa, hmaa, hmaa, e o quinto lek lek lek lek lek, um som indistinto, admiravelmente semelhante ao que as rãs produzem quando cai chuva de noite. Vindo não se sabe de onde, o vento soprou através da clareira. E o trovão ribombou à distância.
Quando a refeição cerimonial de galinha e pão de milho e sementes estava a ser distribuída aos homens exaustos, a chuva começou a cair, um aguaceiro leve e refrescante de Verão. Segundo afirmou o hmem, era um sinal de que Chaak recebera a sua oferenda e estava satisfeito com a oração do seu povo. Em breve, talvez a terra voltasse a ficar pronta para o plantio.

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