A galeria da serra dos Passos

Em 1989, durante uma escavação de emergência no abrigo do Buraco da Pala, a equipa de arqueólogos coordenada por Maria de Jesus Sanches (Departamento de Ciências e Técnicas do Património da Universidade do Porto) descobriu outro abrigo que incluía painéis com figuras pintadas avermelhadas.

Texto Gonçalo Pereira Imagens Luís Bravo Pereira

Em 1989, durante uma escavação de emergência no abrigo do Buraco da Pala, a equipa de arqueólogos coordenada por Maria de Jesus Sanches (Departamento de Ciências e Técnicas do Património da Universidade do Porto) descobriu outro abrigo que incluía painéis com figuras pintadas avermelhadas.

Depois de uma primeira passagem apressada, quis o destino que a equipa ali parasse o jipe durante uma tarde de Verão, altura em que a luminosidade rasante permitia melhores condições de visibilidade. Nesse dia, as figuras do abrigo 2 do Regato das Bouças miravam os arqueólogos, inquisitórias. Foi a primeira de uma série de descobertas únicas na serra dos Passos, na região de Mirandela, que permitiu a identificação no território da maior concentração portuguesa de pintura esquemática de ar livre pós-glaciária datável do quarto e terceiro milénios antes de Cristo.

Maria de Jesus Sanches acredita que o número de abrigos e painéis conhecidos aumentará quando se proceder à prospecção sistemática com novos meios.

“Perfazem mais de três dezenas de abrigos e cerca de oito dezenas de painéis pintados de cor vermelho-vinhoso, vermelho-claro, laranja e amarelo, cores derivadas de ocres, embora não se tenham ainda feito análises químicas para determinar com acuidade a composição das tintas”, diz a arqueóloga. “Só num caso aparece o azul, no interior de um motivo.” Maria de Jesus Sanches acredita que o número de abrigos e painéis conhecidos aumentará quando se proceder à prospecção sistemática com novos meios, recorrendo por exemplo à escalada, ao registo multiespectral de algumas superfícies danificadas pelos agentes atmosféricos e até a drones. Aliás, idênticas campanhas já produziram descobertas pontuais no próprio vale do Alto Côa. Em contrapartida, os trabalhos intensivos de campo no vale do Sabor, promovidos no âmbito das obras hidroeléctricas, comprovaram que “a pintura tinha ali pouca ou quase nula expressão, ao contrário da gravura de outras épocas, sobretudo da Idade do Ferro”, diz a arqueóloga.

No Norte de Portugal, há três categorias de arte rupestre da Pré-História recente: os dólmenes incluem pintura e gravura, os rochedos de ar livre apresentam sobretudo gravura e os abrigos rochosos protegidos por pala, como os da serra de Passos, contêm sobretudo pintura.

 A documentação fotográfica de pintura erodida pelo tempo exige técnicas específicas. Luís Bravo Pereira, doutorado em fotografia científica e membro do Centro de Estudos em Arquitectura e Urbanismo da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, trouxe ao projecto da serra dos Passos um modelo que obtém mais informação em certos comprimentos de onda do espectro electromagnético, seja com luz visível ou com radiação ultravioleta ou infravermelha. É uma técnica não invasiva, “pois regista a radiação num número de bandas superior às habituais três bandas das máquinas fotográficas e do olhar humano”, diz o autor. Desta colaboração, nasceram sequências de imagens como as do topo, em escala de cinza (ao centro) ou com cor virtual (à direita), capazes de detectar pormenores incríveis nas representações esquemáticas, facilitando a leitura e identificando sobreposições de motivos.

O registo para memória futura da pintura é difícil e os métodos tradicionais de decalque apresentam evidentes debilidades, colocando em risco os próprios registos originais. O modelo de imagiologia de Luís Bravo Pereira tem permitido o registo sem distorções das superfícies pintadas, faltando agora a modelização 3D e a confrontação das imagens obtidas com as próprias superfícies. “Em 1990, após o registo por decalque de um dos painéis do abrigo 3, esse painel desapareceu. Era fácil soltá-lo e levá-lo”, conta Maria de Jesus Sanches. “Um bom registo torna-se por isso fulcral”, permitindo pelo menos salvaguardar memória fidedigna da representação.

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