livro dos mortos

Ali Faruk el-Quiftaui ilumina a câmara funerária para que a equipa possa captar as primeiras fotografias das paredes cobertas com o “Livro dos Mortos” de Djehuti.

Escrito por volta de 1470 a.C. nas paredes e tecto da câmara funerária de Djehuti, um alto dignitário do Antigo Egipto, este “Livro dos Mortos” com dezenas de sortilégios deveria ajudá-lo a alcançar o Além.

Texto de José Manuel Galán
Fotografias de José Latova  e  José Miguel Parra

A manhã ia a meio quando pedi ao rais Ali Faruk el-Quiftaui que me acompanhasse até ao fundo do poço. Enquanto os restantes membros da equipa se concentravam nas suas tarefas, descemos cerca de oito metros pela titubeante escada de madeira e entrámos na câmara ampla. Da porta de entrada, aberta parcialmente há apenas 24 horas, ainda se libertava um ar quente e húmido.

Entrámos pela pequena abertura e arrastámo--nos sobre o meio metro de terra e rochas que cobriam o solo. Gatinhámos até ao fundo e descobrimos que o solo se abria atrás de grandes blocos empilhados, dando lugar a um segundo poço. Outro poço! Por esta não esperávamos nós: um poço dentro de outro poço! Vestido com a tradicional galabeia até aos pés, Ali passou por cima dos blocos com a agilidade de um gato e desceu pela parede do poço, tal como os antigos egípcios teriam feito antes dele. Lá do fundo, indicou-me onde deveria ir colocando os pés nas cavidades das paredes laterais. Enquanto recuperávamos o fôlego, contemplámos em silêncio o orifício estreito de acesso à segunda câmara.

Ali foi o primeiro a entrar, fazendo incidir a luz sobre o solo: não vendo nenhum caixão nem tesouro funerário, começou a amaldiçoar em árabe o antigo costume egípcio de saquear túmulos. Pus-me a seu lado e iluminei a parede direita com a minha lanterna. O ténue raio de luz fez resplandecer a fina camada de estuque embranquecido que a cobria e, naquele instante, o espaço lúgubre e estreito ganhou vida. A parede estava escrita, completamente escrita e até o tecto estava inteiramente coberto por hieróglifos. “Olha, Ali! Está pintada! Toda pintada!” Pestanejámos várias vezes, engolimos em seco e passados alguns segundos, com os olhos humedecidos pela emoção, Ali exclamou: “Alá u akbar!” Alá é grande.

Ali Faruk compreendeu de imediato a transcendência da descoberta. O encarregado da organização das tarefas da equipa de escavação local trabalha há uma década no “Projecto Djehuty”, a expedição arqueológica hispano-egípcia coordenada pelo Centro de Ciências Humanas e Sociais do Conselho Superior de Investigações Científicas em Madrid que, desde Janeiro de 2002, escava na necrópole tebana de Dra Abu el-Naga, na margem ocidental do Nilo, em frente à cidade de Lucsor.

 

Os relevantes achados dos túmulos de Djehuti e Heri, dois altos dignitários de inícios do século XV a.C. que desempenharam cargos importantes no princípio da XVIII dinastia, foram tema de parangonas na Europa e Norte de África no ano de 2004. Na altura, a sala mais interior do monumento funerário de Djehuti estava repleta de escombros quase até ao tecto e, apesar de esperarmos grandes surpresas, não sabíamos o que nos reservava a escavação. Cinco anos mais tarde, naquela manhã de 2009, descobrimos a entrada do poço que nos conduziria à câmara funerária, iniciando assim a árdua, mas apaixonante, descida em busca de Djehuti. Situada a 12 metros de profundidade, a câmara funerária era quase quadrangular, com 3,5 metros de largura por 1,5 metros de altura. Ao fundo, à esquerda, havia grandes blocos de rocha amontoados. Deslocando-nos com o máximo cuidado, caminhámos até meio da sala: os textos escritos enchiam as paredes e o tecto, salpicados aqui e além por “vinhetas” figurativas. O estudo posterior daqueles textos viria a confirmar a minha primeira impressão: tratava-se, sem dúvida, do “Livro dos Mortos” escrito em benefício de Djehuti, supervisor do tesouro da poderosa rainha Hatchepsut.

Os nossos olhos contemplavam uma das versões mais antigas deste compêndio de textos funerários que perduraria na civilização egípcia durante 1.500 anos, até à época greco-romana. O seu estado de conservação, apesar dos danos causados pelo excesso de humidade, era bastante satisfatório. Tornou-se óbvio que tínhamos descoberto o verdadeiro “tesouro” de Djehuti, o seu guia para alcançar o Além, o seu passaporte para a vida eterna.

Numa cena representada nos relevos da capela, um núbio é estrangulado como parte dos rituais desejados por Djehuti no seu funeral.

O “Livro dos Mortos” começou a ser escrito principalmente sobre as mortalhas e faixas de linho que envolviam os defuntos mais influentes por volta de 1550 a.C. Eram versões concisas, cingindo-se geralmente ao texto. Cem anos mais tarde, aproximadamente em 1450 a.C., começou a difundir-se o costume de escrevê-las sobre papiro, que se depositava dentro do caixão do proprietário, ou junto dele. O papiro permitia traçar os signos mais pequenos, compor versões mais extensas e incluir vinhetas com figuras nos capítulos que necessitavam de uma ilustração. Entre a sobriedade e frugalidade da tela de linho e a exuberância e extensão do papiro, Djehuti dotou o “Livro dos Mortos” de três dimensões na sua câmara funerária, por volta de 1470 a.C. Dando rédea livre ao desejo de alardear o seu conhecimento profundo dos textos sagrados, o seu domínio da escrita e a sua capacidade para jogar com o aspecto visual e decorativo, decidiu escrever integralmente as paredes e tecto com o intuito de ficar, literalmente, rodeado de letras e descansar eternamente envolto na palavra escrita, aquela que não se desvanece com o tempo, feita para ser duradoura.

Barbara Lüscher, da Universidade de Basileia, é uma das maiores especialistas no “Livro dos Mortos” a nível mundial e colaborou connosco na identificação das passagens mais danificadas. A descoberta, comenta, “representa um valioso contributo para o estudo dos textos religiosos escritos sobre papiro ou mortalhas de múmia. É uma das poucas câmaras funerárias decoradas que se conservam da XVIII dinastia e, além disso, contém a mais antiga versão conhecida até à data de alguns sortilégios”.

O "Livro dos Mortos" possuía, supostamente, o poder de ajudar o defunto a superar com sucesso as diferentes dificuldades, obstáculos e situações adversas que o aguardavam no seu caminho até uma vida plena e eterna no Além. Para cada uma destas etapas, era composto um sortilégio específico. Os escribas utilizavam pincel e tinta preta. Reservavam a tinta vermelha para o título de cada capítulo ou para reproduzir o dramatismo de certos diálogos. Com a intenção de dotá-lo de uma aparência arcaica, conferindo-lhe o valor da tradição, em vez da grafia cursiva (“hierático”) da altura, foi utilizada uma forma intermédia em que os signos hieroglíficos são facilmente identificáveis e não se encadeiam uns nos outros devido ao movimento contínuo do pincel, sendo traçados em separado. Além disso, em vez de ser escrito na horizontal como qualquer documento da época, o texto encontra-se disposto em colunas separadas por linhas verticais. Por outro lado, para sublinhar o seu carácter sagrado, inverteu-se o sentido da sua leitura: enquanto o hierático se lê da direita para a esquerda (como o árabe ou o hebraico), o “Livro dos Mortos” lê-se da esquerda para a direita, apesar de os signos estarem orientados de modo a serem lidos da direita para a esquerda.

Cada exemplar poderia conter uma selecção e uma sequência de capítulos próprias, dependendo da moda então dominante nos cartórios dos escribas ou das preferências do cliente que o encomendara. Além de ser dos mais antigos, o livro de Djehuti é um dos mais extensos, conservando-se um total de 41 capítulos. Infelizmente, duas das paredes escritas foram posteriormente picadas e recuadas quase um metro para ampliar a câmara, tendo-se por isso perdido pelo menos uma dezena de capítulos.

Naquela mesma manhã, contactei o egiptólogo José Miguel Parra, que assumira na altura a função de fotógrafo da campanha, pedindo-lhe que se juntasse a mim e a Ali para documentar a extraordinária descoberta, captando as primeiras imagens. Nessa tarde, na nossa sala de trabalho no Hotel Marsam, um edifício um pouco dilapidado e decadente mas carregado de história arqueológica, projectámos as imagens sobre uma parede para partilhar o achado com os restantes companheiros de equipa. As expressões de surpresa e júbilo sucederam-se quando cada investigador contemplou e leu, agora com mais calma, os pormenores do texto escrito. A identificação de todos os capítulos e a análise das particularidades da versão composta para Djehuti levaria muito mais tempo. Em rigor, ainda hoje está em curso.

 

Os primeiros capítulos conservados da versão de Djehuti são compostos por sortilégios cuja finalidade consiste em dar ao morto o poder de se transfigurar e adoptar aparências distintas, cada uma das quais representada por uma figura dentro de una vinheta para não haver dúvidas quanto ao resultado esperado. Por exemplo, um capítulo pretende converter Djehuti em andorinha, de modo a ser-lhe mais fácil subir pelo poço do seu túmulo ao amanhecer para desfrutar das oferendas depositadas na capela e, ao anoitecer, descer de volta à câmara funerária.

O capítulo seguinte transformá-lo-á num lótus, para lhe dar a capacidade de renascer com os primeiros raios de Sol da manhã, como faz a própria flor. Djehuti também poderia transformar-se em crocodilo para desafiar os adversários que quisessem interromper o seu percurso ou em serpente para adquirir a capacidade de renascer ciclicamente como esta criatura parece conseguir ao mudar de pele.

Os capítulos seguintes providenciam ao ilustre defunto a informação necessária para embarcar na barca solar, transpor o subsolo da Terra, seguindo a direcção de ocidente para oriente e renascer com o Sol ao amanhecer do dia seguinte.

É um empreendimento nada fácil, já que primeiro teria de esquivar-se da perigosa cauda de Apófis, a serpente demoníaca da mitologia egípcia que representa o mal, tendo como função impedir o trajecto da barca solar conduzida por Ré. Depois disso, Djehuti teria de responder correctamente ao interrogatório realizado pelas diferentes partes da barca e dizer-lhes o nome sagrado e secreto de cada uma:

“Diz-me o meu nome, diz o mastro.” “Aquele que trouxe de volta a grande deusa depois de esta ter partido para muito longe, esse é o teu nome.” “Diz-me o meu nome, diz a vela.” “Nut é o teu nome.” “Diz-me o meu nome, dizem os remos.” “Os dedos de Hórus o Maior é o teu nome.”

Para não se extraviar nos canais labirínticos do submundo, a descrição mitológica de cada um dos 14 montículos que emergem das águas e definem a paisagem imaginária reúne-se num capítulo escrito propositadamente na área inferior das paredes, percorrendo-as como um rodapé.

Outros sortilégios devolver-lhe-iam as funções da boca, proporcionar-lhe-iam magia, conseguiriam que o seu nome e a sua memória perdurassem na necrópole e evitariam que alguém lhe arrancasse o coração ou que testemunhasse contra a sua pessoa no dia do juízo final.

Num dos capítulos, o corpo de Djehuti está dividido em 18 partes, desde os cabelos aos dedos dos pés, e cada uma é equiparada a uma divindade concreta à qual se solicita protecção. Deste modo, os olhos de Djehuti são os da deusa Hathor, os lábios são os de Anúbis, os caninos os de Ísis, as costas as de Set, o falo o de Osíris, as coxas e pernas as de Nut… Curiosamente, quando o artista egípcio traçava uma quadrícula para desenhar ou para talhar sobre ela o corpo humano seguindo determinadas proporções, também dividia verticalmente o corpo em 18 partes.

Um grupo de capítulos escritos sobre o tecto proporciona a Djehuti o conhecimento das almas que habitam os lugares mais sagrados, as cidades de Hermópolis, Pé e Nekhen, assim como das que habitam a ocidente e a oriente do céu. Em seguida, no eixo central do tecto, que era o espaço mais significativo de toda a câmara funerária, foi escrito aquele que era possivelmente o capítulo mais relevante, em que Djehuti entra por fim no “vestíbulo das Duas Verdades” e tem de refutar as acusações que lhe são imputadas, negar os delitos que um advogado de acusação afirma ter cometido em vida, perante o tribunal constituído por 42 divindades e presidido pelo deus Osíris. É o juízo final, no qual o seu coração – órgão onde os antigos egípcios colocavam as intenções – será pesado nos pratos da balança contra a pluma da verdade (maet).

A narração dramática do juízo é interrompida por uma grande vinheta não directamente relacionada com ele. Trata-se de uma composição independente que ocupa precisamente o centro do tecto, como se fosse uma clarabóia que permite observar o céu nocturno, encarnado na deusa Nut. De vestido azul-escuro justo, Nut mantém os braços levantados e abertos em sinal de protecção, estendidos sobre Djehuti, cujo caixão e corpo deveriam ter sido depositados sob ela. Junto da deusa, um texto destacado sobre um fundo amarelo exprime precisamente esse desejo: “Palavras pronunciadas pelo supervisor do tesouro do rei, Djehuti: “Ó mãe, ó Nut, estende-te sobre mim e coloca-me entre as estrelas imperecíveis, pois eu não hei-de morrer. Ergue-me. Eu sou teu filho. Expulsa de mim a languidez e protege-me dos que agem contra mim.”

Mas onde estava Djehuti? Por razões desconhecidas, tudo parece indicar que o fiel servidor de Hatchepsut nunca foi depositado sob a protecção da deusa Nut. É possível que a sua múmia, o seu caixão e o seu tesouro tenham descido apenas até à antecâmara, tendo algum tempo depois sido saqueados e os seus restos queimados. Existe também a possibilidade de Djehuti nem sequer ter sido enterrado no seu túmulo, uma vez que não encontrámos nenhum objecto com o seu nome que possa confirmá-lo.

Este infeliz destino talvez estivesse relacionado com o facto de o nosso protagonista não ter chegado a casar-se, como parece deduzir-se de não existir em todo o monumento nenhuma referência ou representação de uma esposa. Esta circunstância tê-lo-ia privado da possibilidade de ter um filho (salvo por adopção) que se encarregasse de organizar o seu funeral e de zelar pelos derradeiros pormenores do seu enterro. Por outro lado, é igualmente possível que o tecto da câmara funerária desse sinais de fragilidade e tivesse caído algum bloco. Isso teria forçado os trabalhadores a deixar a câmara funerária sem acabar de esculpi-la e decorá-la e obrigado os que o enterraram a utilizar a antecâmara como destino final do caixão e do tesouro. Esta hipótese é sustentada pela descoberta de blocos do tecto caídos no chão da câmara funerária, nas provas de interrupção abrupta dos trabalhos – o abandono das últimas lascas de pedra amontoadas num canto e uma cova com argamassa escavada no solo – e, em terceiro lugar, no facto de todos os objectos associados a enterros da época de Djehuti e épocas posteriores aparecerem na antecâmara.

Certos pormenores do texto do “Livro dos Mortos” de Djehuti levam a crer que fosse escrito à pressa e que mais de um escriba participasse na sua elaboração. Alguns capítulos foram mal copiados do modelo que foi, sem dúvida, utilizado, com omissão de passagens ou erros. Por vezes, verifica-se que a linha separadora entre as colunas foi transposta ao traçar de um signo e tem-se a sensação de que as vinhetas não foram devidamente concluídas. A que se devem tais descuidos? Talvez Djehuti estivesse nos seus últimos dias ou até já tivesse falecido quando se escreveu o texto.

Em algum momento após a sua morte, o rosto e o nome do dignitário foram sistematicamente golpeados e apagados das paredes da parte superior do seu monumento funerário, a capela dedicada à memória do defunto, que permanecia aberta para permitir a visita dos parentes. 
O objectivo dos agressores era seguramente acabar com a identidade do seu proprietário e, desta forma, com a possibilidade de ser recordado, pondo um fim definitivo aos seus anseios de alcançar a vida eterna.

Djehuti não foi a única vítima desta damnatio memoriae. Os seus familiares mais próximos, representados nas cenas do banquete (a mãe e, de forma especialmente virulenta, o pai) tiveram a mesma sorte. No entanto, para nossa surpresa e sorte, os seus detractores não chegaram a descer à câmara funerária, onde os nomes permaneceram intactos. Agora, 3.500 anos depois de o túmulo de Djehuti ter sido talhado na rocha de Dra Abu el-Naga, sabemos que sua mãe, com o título de “a dona de casa”, se chamava Dediu. E enquanto o seu nome se escreveu sempre da mesma maneira, o do pai “pronunciou-se” de três formas distintas, numa tentativa de reproduzir a sua enunciação, que seria parecida com Abuti, Abti ou Abu. Esta circunstância tão peculiar talvez reflicta a possibilidade de os escribas intervenientes na decoração da câmara funerária o terem escrito como o ouviam porque não o entendiam, ou seja, não estavam familiarizados com ele, de onde se pode deduzir que talvez não fosse um nome egípcio, mas estrangeiro. A variante mais repetida, Abuti, parece derivar de uma raiz semítica, o que talvez indique que o pai de Djehuti era estrangeiro, de origem semita, oriundo da Palestina ou da Síria. Mas são meras conjecturas.

Salima Ikram, professora de egiptologia na Universidade Americana do Cairo, integrou a equipa desde as primeiras campanhas e conhece profundamente as investigações feitas sobre Djehuti. Na sua opinião, “tudo parece indicar que alcançou uma posição elevada na corte de Hatchepsut e possivelmente também na hierarquia religiosa da altura”, comenta. “A existência de câmaras funerárias decoradas nos túmulos de membros da elite é escassa e estaria reservada à realeza. Para construir uma câmara funerária tão magnificamente decorada com uma das versões mais antigas do “Livro dos Mortos”, Djehuti teria de ser uma personalidade deveras singular.”

Com efeito, juntamente com Senenmut, o homem mais influente da rainha Hatchepsut, Djehuti é um dos primeiros altos dignitários da Tebas imperial a decorar a sua câmara funerária. Senenmut cobriu as paredes do seu túmulo, situado junto do templo funerário da rainha em Deir el-Bahari, com sortilégios do “Livro dos Mortos” e também com passagens dos textos funerários mais antigos, que foram inscritos nas paredes das pirâmides quase mil anos antes. Decorou o tecto com motivos astronómicos, como estrelas, decanos, constelações e respectivas divindades. Poderíamos dizer que pretendia ter à sua vista e alcance um guia do céu nocturno para a eternidade, os conhecimentos básicos para poder saber as horas, em qualquer momento da noite.

Enquanto Senenmut optou por representar uma visão “científica” do firmamento no tecto, Djehuti preferiu registar uma narrativa mitológica do céu nocturno, presidido pela deusa Nut, envolta na descrição dos seres que o habitam e no processo do juízo final.

Na verdade, os dois dignitários inspiraram-se em modelos com quinhentos anos de idade, datados de cerca de 2000 a.C., época considerada “clássica”, durante a qual os egípcios voltavam os olhos para o passado. Sabemos hoje que escribas e personagens da corte de Hatchepsut e do seu enteado Tutmés III desenvolveram especial interesse pelo passado e deixaram testemunho das suas visitas a monumentos funerários desse período. Por conseguinte, nas paredes do esplêndido túmulo-capela de uma mulher chamada Senet, associada a Intefiker, um vizir do início da XII dinastia, escreveram-se mais de cinquenta graffiti, dos quais pelo menos cinco mencionam um “escriba Djehuti”. Teria a nossa personagem escrito algum deles? Nessa busca por fontes de inspiração, alguns chegaram a entrar e escrever graffiti no túmulo da princesa Neferu, uma das esposas de Mentuhotep II, o primeiro rei a estabelecer capital em Tebas, no ano 2000 a.C., durante a XI dinastia. Os intrusos e curiosos tinham admirado as paredes da sua câmara funerária, pintadas com os mesmos motivos com que então se decorava o interior dos caixões de madeira: representações dos objectos que costumavam compor o enxoval e excertos dos textos funerários em uso naquela época.

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Um raio de luz matinal percorre  o corredor central do túmulo e ilumina  o conjunto de estátuas de Djehuti  e dos seus pais, como se fossem  a tríade divina de um templo.

Por volta do ano 2000 a.C., o segmento interior da tampa do caixão passou a ser decorado com aquilo que se conhece por “relógio estelar diagonal”, utilizado para calcular a passagem do tempo durante a noite. A composição, que incluía uma representação de Nut levantando os braços e sustentando a abóbada celeste, foi pintada sobre a parte interior do caixão para que o defunto pudesse vê-la e aproveitasse a informação, como acontecia com os tectos das câmaras de Senenmut e Djehuti.

Como acontece com qualquer inovação, a criatividade e originalidade demonstradas por estas duas personagens notáveis nos seus monumentos funerários não partem da estaca zero. Ao invés, desenvolvem-se a partir de ideias previamente existentes e actualizadas por uma nova perspectiva. Djehuti faz gala em manifestar o seu interesse pelo passado e pela cultura “clássica” egípcia, embora tenhamos actualmente indícios de que o pai talvez fosse estrangeiro. Cresceu e estudou nas províncias, na região de Hermópolis, no Médio Egipto, mas foi na capital Tebas, com toda a certeza, que desenvolveu a sua faceta intelectual e literária. Servir na administração pública durante o reinado de uma mulher faraó, situação altamente excepcional, influenciou sem dúvida a sua perspectiva da realidade, a sua capacidade de expressão e acção, tal como influenciaria os restantes altos dignitários da época. O seu monumento funerário reflecte uma vida e personalidade complexas, tanto como o período histórico em que viveu: um momento em que se misturaram e fundiram conceitos antagónicos: tradição e inovação, egípcio e estrangeiro, masculino e feminino. E foi provavelmente essa “confusão” latente a principal impulsora da criatividade “renascentista” que se viveu no Egipto no século XV a.C. na corte da rainha Hatchepsut.

“Nessa época, os túmulos tornaram-se o meio adequado para os altos dignitários exibirem a sua erudição, através de uma cuidadosa selecção dos textos e cenas que decoram as paredes”, diz Chloé Ragazzoli, egiptóloga da Universidade de Sorbonne, que compilou e estudou os graffiti escritos nos túmulos “clássicos” pelos cortesãos de Hatchepsut. “O túmulo de Djehuti reúne um compêndio da cultura escrita da altura”, acrescenta.

Cinco anos após o achado, ainda fico com o coração acelerado de cada vez que desço pelo poço e piso o degrau da porta que conduz ao interior da câmara funerária. Então, sentado no chão no meio da sala e envolto num silêncio absoluto, uma calma inesperada começa a invadir-me. Em meu redor, as longas filas de sortilégios garatujadas nas paredes brancas parecem desenhar o longo caminho de Djehuti até ao Além. Sinto-me a flutuar, isolado do mundo exterior. Sou só eu, sozinho, com o velho dignitário.

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