Fotografias  Luís Quinta   Ilustração Anyforms   Consultor Mário Estevens

Os documentos históricos fazem referência à colheita dos fósseis na zona da Adiça, mina de ouro ainda activa no início do século XVIII. Localizar-se-ia entre a Fonte da Telha e a Lagoa de Albufeira, de acordo com o historiador Marques Duarte.

As baleias da Adiça pertencem a um grupo de misticetes actualmente extintos, conhecidos como “cetoterídeos”. Estas baleias de barbas mais primitivas dominaram os mares durante a maior parte do Miocénico, há cerca de 10 milhões de anos, dando origem aos rorquais modernos.

"Achão-se tambem espalhados na costa petrificados de vertebras de peixes, e nas areias da praia da lavra de oiro da Adiça se descobrio tambem huma cabeça grande petrificada, que parece ser de um cetáceo, que bem merecia ser examinada por hum Cuvier (…)" Esta referência do barão de Eschwege em 1831, complementada por Alexandre Vandelli, comprova que, no início do século XIX, três crânios de cetáceos foram recolhidos a sul do Tejo, nos arenitos da arriba fóssil da Costa da Caparica.

No seu doutoramento em 2006, o paleontólogo Mário Estevens estudou estes e outros materiais do Miocénico (24 a 5 milhões de anos) e contou 12 propostas diferentes de classificação sistemática dos crânios, comprovando o caminho atribulado do conhecimento científico destes fósseis nos últimos 180 anos. “Estes crânios fazem parte do histórico conjunto de material que esteve na origem das primeiras referências bibliográficas a mamíferos marinhos fósseis em Portugal (…) São os espécimes portugueses mais citados na literatura internacional”, diz.

Remington Kellogg, um especialista americano, foi o primeiro a atribuir uma classificação científica fundamentada aos crânios em 1940, mas o debate científico não está encerrado. Uma bolsa da Fundação Amadeu Dias permitiu a Pedro Mocho, colaborador do Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC) reanalisar os materiais tantas vezes estudados no passado. Concluiu que um dos crânios partilha o mesmo género com outro mais incompleto nos Estados Unidos, podendo inclusivamente pertencer à mesma espécie. “Este será o espécime-referência que pode ajudar a compreender a evolução do grupo”, diz.

Tal como os três mosqueteiros eram na verdade quatro, também as três baleias da colecção de cetáceos do MUHNAC foram em tempos quatro. Um dos exemplares é referido num inventário de 1914, mas perdeu-se-lhe o rasto. Restam portanto três, à espera de um mecenas que possa contribuir para o seu restauro.

A confirmar-se a hipótese de 2010 de Pedro Mocho e Liliana Póvoas para revisão sistemática deste exemplar como Cephalotropis coronatus, tratar-se-á do mais completo crânio da espécie e representaria portanto um espécime-referência. Muito completos, com estruturas anatómicas bem preservadas, estes crânios do Miocénico superior contêm pistas valiosas sobre a evolução das baleias-de-barbas mais primitivas. Os três crânios apresentam notórias necessidades de restauro e consolidação. Alguns trabalhos precedentes usaram materiais pouco adequados e a própria fadiga do material, em exposição há quase duzentos anos, prejudica a conservação.

Ancestrais dos rorquais: As baleias da Adiça pertencem a um grupo de misticetes actualmente extintos, conhecidos como “cetoterídeos”. Estas baleias de barbas mais primitivas dominaram os mares durante a maior parte do Miocénico, há cerca de 10 milhões de anos, dando origem aos rorquais modernos.

Fontes “On the Cetotheres figured by Vandelli” (1940) de Remington Kellogg;  “Mamíferos marinhos do Neogénico de Portugal” (2006) de Mário Estevens;  “Contribuição para a revisão sistemática de um crânio de Cephalotropis (.)” (2010)  e “Crânios fósseis de cetáceos (Mysticeti, Cetotheriidae) do Museu Nacional de História Natural (…)” (2010) de Pedro Mocho e Liliana Póvoas 

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