quarentena

MILÃO, ITÁLIA. Precocemente declarada como foco epidémico da COVID-19, a Itália foi o primeiro país europeu a ordenar um confinamento quase total. No seu apartamento, a fotógrafa  Camilla  Ferrari e o seu companheiro repararam na forma como os edifícios do exterior começavam a fundir-se com as cenas do interior. Fotografia: Camilla Ferrari

As circunstâncias que escapam ao nosso controlo obrigaram-nos ao distanciamento. Como consegue o espírito humano aguentar?

Texto: Daniel Stone

Quandoo mundo se mostrasombrio, “a nossa casa é o lugar onde… têm de nos acolher”, escreveu o poeta Robert Frost. No entanto, face a um vírus mortífero que exige auto-isolamento durante semanas a fio, as nossas casas transformaram-se em mais do que fontes de conforto e ambiente familiar. Transformámo-las em escolas e escritórios, locais de entretenimento e pontos de grande tensão. Se fosse possível converter o aborrecimento, o stress e a ansiedade em energia, talvez isso pudesse abastecer o planeta!

Fotógrafos de todo o mundo têm procurado documentar esta época estranha em que nos encontramos separados por paredes e janelas.

Gabriele Galimberti instalou dois suportes de iluminação fotográfica em frente da janela de uma casa. Afastou-se para que os seus habitantes pudessem ter acesso às luzes com a distância social recomendada. Gritando através da janela, deu-lhes instruções sobre o posicionamento das luzes e das pessoas e depois captou as imagens. É a arte do retrato em quarentena.

 

Analisadas em conjunto, estas fotografias levam-nos a conjecturar o que será, ao certo, um lar. Num planeta assolado pela COVID-19, a resposta tem-se tornado uma forma de avaliar a situação privilegiada de cada indivíduo. Tem uma casa? Sente-se bem lá? Acredita que vai ser capaz de lá ficar? As imagens mostram também maneiras diferentes de reagir à crise e aquilo que consideramos essencial. A idade, a localização e, por vezes, a fé tendem a influenciar o nível de preocupação e a sensação de vulnerabilidade de cada um. Pensemos no casal italiano em reclusão domiciliária auto-imposta; ou nos brasileiros, que adoram praia e se mostram ansiosos por sair à rua; ou nos amantes da natureza, confinados a contextos urbanos na África do Sul, em Nova Iorque ou na Rússia, que procuram varandas ou escadas de incêndio em busca de lufadas de ar fresco.

Embora a sombra da doença espreite, continua a haver um lado positivo. Os seres humanos vão-se adaptando continuamente: o terraço de um prédio transforma-se num estúdio para exercício físico; uma parede passa a ser uma tela para jogos de sombras. Quando começamos a reparar mais no mundo, até flores moribundas se transformam em obras de arte. Ninguém sabe quanto tempo isto vai durar, nem em que estado estaremos quando tudo terminar. Enquanto estamos separados, porém, o mínimo que podemos dizer é que estamos juntos nesta separação.

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