mesas do castelinho

Reconstituição de duas fases do povoamento do local: uma no período romano (no topo) e outra, de cariz militar, no período islâmico. Sem solos agrícolas férteis, nem recursos mineiros abastados, o território poderia servir para o pastoreio e valeria pela sua posição estratégica. Foram encontrados numerosos vestígios osteológicos de veados nos níveis correspondentes à ocupação islâmica 

Infografia: Anyforms
Fotografias: Projecto de Mesas do Castelinho e Pedro Barros

Escavado sistematicamente desde 1989, o sítio arqueológico de Mesas do Castelinho, perto da vila alentejana de Almodôvar, é um dos exemplos mais completos em Portugal de conhecimento acumulado sobre um local do interior e da sua reutilização ao longo dos séculos.
“Não é comum escavar um local em Portugal durante tantos anos e de forma tão sistemática, mesmo sabendo que ainda só colocámos a descoberto cerca de 10% da área total”, diz Carlos Fabião, do Centro de Arqueologia (Uniarq) da Faculdade de Letras de Lisboa, que, a par de Amílcar Guerra, dedica um mês por ano à escavação do local.

Em 1986, a acção de um bulldozer destruiu parte do sítio arqueológico e desencadeou uma intervenção de emergência para salvaguarda do local. Mesas do Castelinho proporcinou então uma surpresa: com mil anos de intervalo, ocorreram ali duas fases de povoamento, indício da sua importância enquanto posto de controlo de uma das antigas vias de travessia da serra do Caldeirão.

cara

Esta cabeça humana de terracota, actualmente exposta no Museu da Escrita do Sudoeste, foi encontrada em contexto da Idade do Ferro. Os arqueólogos sublinham a curiosa “síntese cultural”: a cabeça é calva e a face foi escanhoada, à maneira das iconografias de tradição mediterrânea, mas os olhos são redondos e frontais e o nariz quase inexistente, em conformidade com as iconografias de matriz céltica.


O primeiro povoamento decorreu entre a Idade do Ferro (no fim do século V a.C.) e a época romana (até ao fim do século I d.C. ou início do II) e a segunda produziu-se já num contexto de fortificações islâmicas, implantadas na região entre os séculos IX ou X até ao século XII. À data do segundo povoamento, não haveria vestígios visíveis da ocupação anterior, pelo que é legítimo calcular que o factor que levou à decisão de ocupação do espaço foi a posição geográfica.
“Era um povoado de ribeiro, um aglomerado constituído junto de uma linha de água, controlando uma via de acesso à serra”, diz Fabião.

Para além da informação sobre diferentes processos de urbanização, o sítio tem fornecido dados que documentam os contactos desta população do interior com áreas costeiras. Outras descobertas sugerem pistas sobre o quotidiano do período romano: uma pedra que, em tempos, terá sido a soleira de uma porta, reservava numerosas inscrições latinas, à semelhança dos graffiti modernos, “testemunhando um dos indícios mais antigos de iliteracia em latim neste
território”. Moedas cunhadas em Mértola dão conta também de uma rede de trocas comerciais durante o período republicano romano.

moeda

Esta moeda foi cunhada em Mértola, a cerca de cinquenta quilómetros, um importante centro urbano do período romano. Documenta a frequência de contactos comerciais deste povoado.

Após mais de duas décadas de trabalhos arqueológicos e de mais de dois mil anos de repouso, o sítio arqueológico foi valorizado e deverá contar com um centro interpretativo nos próximos meses, tornando novamente palpável o que em tempos foi exuberante. Aliás, na poesia clássica de Horácio, o autor romano exalta as virtudes de “um monumento mais duradouro do que o bronze (…) que nem a inumerável série dos anos, nem a fuga do tempo poderão destruir”.
Poderia ser uma descrição de Mesas do Castelinho.

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