droga

Falei com esta mulher sobre a sua vida na rua e vi fotografias dela dos velhos tempos. Depois de acordar da sesta que estava a dormir encostada à parede, vi-a espreitar para um fragmento de espelho para aplicar rímel. Tive um vislumbre da mulher naquelas fotografias antigas.

Num esforço para aliviar as dores, muitos norte-americanos ficam viciados em opióides de prescrição médica, passando de seguida a consumir heroína, fentanil ou outros fármacos. 

É uma crise que abrange todo o país.

Na Kensington Avenue, em Filadélfia, o sofrimento das vidas destroçadas pela droga é visível a olho nu. 

Reportagem e fotografia: David Guttenfelder

 Há algo que devia saber”, aconselhou-me um homem. “Ninguém nesta rua imaginou que acabaria assim. Todos pensavam que tinham tudo sob controlo.” Esta rua podia existir em qualquer região onde reine a toxicodependência. Mas esta chama-se Kensington Avenue, um troço deprimente que se estende por Filadélfia. Fui até lá para testemunhar a crise dos opióides, para perceber como as pessoas que procuraram alívio da dor acabaram nas ruas.

Já presenciei cenas de miséria extrema em guerras e desastres naturais, mas fiquei espantado com o que encontrei no meu próprio país. As regras da sociedade pareciam ter desaparecido. Aquilo que restava era uma luta brutal por um objectivo: a sensação de bem-estar proporcionada pelo alívio da dor.

Em 2018, 1.116 pessoas morreram devido a sobredosagem de droga em Filadélfia: um valor mais de duas vezes superior ao registado cinco anos antes. Oito dessas dez mortes deveram-se a opióides.

Centenas de pessoas vivem na rua. Com os sentidos alterados ou em busca dessa sensação, vagueiam sem rumo. Muitas estão magras, fracas, têm cicatrizes por se injectarem. Desesperadas, perfuram braços, pescoços e tornozelos com agulhas.

Fernando Irizarry vive nesta rua. Tem 33 anos, é alto e tem barba escura. Caminha com dificuldade, trocando as pernas. É divertido, atencioso e simpático, embora distraído, sempre de olhos no chão em busca de tampas de garrafa, usadas para misturar droga. Quando consegue recolher suficientes, raspa os restos para a dose seguinte.

As regras da sociedade parecem ter desaparecido. Só restava uma luta brutal por um objectivo: a sensação de bem-estar proporcionada pelo alívio da dor.

No dia 11 de Setembro de 2005, bateu contra a traseira de um automóvel com a sua moto. Quando era miúdo, adorava a escola. A substância mais forte que provara fora tabaco de mascar. Após meses passados numa clínica de reabilitação, recebeu alta e uma prescrição de Percocet. Quando o seu médico de família morreu, o novo médico recusou-se a renovar-lhe a prescrição. Na rua podia pagar dez dólares por dois comprimidos ou cinco por uma dose de heroína. “Foi assim que fiz a minha escolha.”

A princípio, senti-me intimidado. Não sabia como deveria abordar as pessoas. Quando o fiz, porém, as suas histórias eram familiares. Histórias sobre dor, mas também sobre tempos felizes. Vi as provas das suas vidas anteriores em ecrãs de telemóvel partidos. Recordando os seus tempos como bailarina, uma jovem escanzelada descalçou uma bota e fez uma pirueta en demi-pointe

Os viciados em opióides que conheci são familiares. Estejam a suportar uma doença crónica ou a tentar recuperar de um acidente, poderiam ser qualquer um de nós.

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