grutas

Há alguma vantagem em apresentar um projecto de valorização de património natural a um autarca que já foi espeleólogo. Em Torres Novas, essa questão tornou-se muito real quando um geógrafo e um geólogo apresentaram a Pedro Ramos Ferreira, presidente da Câmara Municipal local, um projecto de requalificação das chamadas Grutas de Lapas, uma aldeia do concelho. Na década de 1970, Ramos Ferreira foi um dos percursores da espeleologia na zona das serras de Aires e Candeeiros enquanto chefe da Patrulha Morcego do Agrupamento 65 do Corpo Nacional de Escutas. “Mal ouvi a proposta, aceitei-a de imediato”, conta, com um sorriso, na cerimónia singela de atribuição a Torres Novas do Prémio Geoconservação 2019.

Há muitas gerações que esta aldeia medieval está implantada num terraço fluvial esculpido pelo rio Almonda. As casas empoleiram-se, apoiadas umas nas outras, numa malha densa e inconfundível, que aproveita cada centímetro quadrado disponível. Por baixo, porém, abunda o espaço que falta à superfície. A aldeia situa-se acima de uma vasta rede de galerias artificiais escavadas pelo homem numa formação rochosa muito típica desta região – o tufo calcário.

As obras de requalificação foram concluídas em Abril do ano passado e permitem redescobrir um espaço subterrâneo que, durante muito tempo, foi ocupado de formas criativas. Foi palheiro em alguns casos; noutros, serviu de curral improvisado. Terá sido igualmente um celeiro ou armazém, tirando partido de uma temperatura ambiental muito menos sujeita às flutuações do Verão e do Inverno. “Temos, porém, noção de que ainda só requalificámos uma pequena fracção destas galerias”, diz o geógrafo Jorge Simões, um dos entusiastas do projecto e chefe de divisão da autarquia torrejana. “Há um mundo por descobrir e consolidar.”

Conhecidas da população local, as grutas que não são grutas (a gruta é, à partida, uma cavidade natural – existe a possibilidade de as galerias de Lapas terem começado por ser uma pequena cavidade, mas não restam dúvidas de que foram abertas e ampliadas por mãos humanas) escondem uma história que permanece por explicar. Na aldeia, abundam justificações mais ou menos hiperbolizadas para os “túneis por baixo da gente”. Algumas recuam a sua utilização à pré-história; outras atribuem a sua utilização ao período romano, onde teriam sido utilizadas como fonte do precioso tufo para a construção. Outros ainda ecoam lendas extravagantes sobre galerias de mouros e túneis clandestinos ligados ao Castelo de Torres Novas. “A verdade é que não sabemos”, diz Jorge Simões. Está confirmada apenas a sua desactivação como pedreira no século XVIII.

Na última década, com apoio da autarquia, foram promovidas sondagens arqueológicas nas galerias e os resultados não foram conclusivos. Os vestígios mais antigos recuam “apenas” ao século XV, altura em que as galerias teriam servido para a actividade produtora de pólvora, famosa na região. O topónimo Lapas, porém, evoca um mundo subterrâneo e é conhecido desde pelo menos um documento de 1212, o que sugere uma relação próxima da aldeia com o labirinto que se esconde por baixo.

A adensar o mistério, na Villa romana de Cardilio, nas proximidades de Torres Novas, surgiram algumas lápides que poderão estar associadas a este sistema subterrâneo. Em 2017, o realizador João Botelho aproveitou essa intemporalidade das galerias para aqui gravar cenas de “Peregrinação”, o filme inspirado na narrativa com o mesmo título de Fernão Mendes Pinto.

Independentemente da controvérsia sobre a origem e história das Grutas de Lapas, o grupo português da Progeo, associação de promoção e conservação do património geológico, atribuiu esta semana o Prémio Geoconservação ao município de Torres Novas pelo projecto de requalificação destas cavidades e respectiva abertura ao público (a entrada é gratuita). A edição portuguesa da National Geographic associou-se uma vez mais ao prémio, participando no júri. Para lá da história humana, “há uma história geológica que interessa contar”, disse Paulo Pereira, da Progeo. “É um dos conjuntos geológicos mais singulares do país, pois permite-nos percorrer o interior de um terraço fluvial e ver os tufos calcários”, percebendo como esse património molda a própria aldeia que, ciosa do seu legado, vive “lá em cima”.

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