Texto: Jacqueline Charles

Fotografias: Charles Fréger

No continente americano, o carnaval e outras celebrações são pretextos para evocação de raízes africanas, indígenas e europeias em cada cultura. Os trajes alegóricos são uma forma curiosa de desforra sobre os antigos opressores. 

Durante uma viagem ao Haiti há alguns anos, fugi às estradas principais e visitei a cidade portuária de Jacmel, no Sudeste da ilha, onde o Kanaval (a grafia do crioulo haitiano) se comemora uma semana antes do Carnaval Nacional em Port-au-Prince.

Ao contrário das festividades centradas nas méringues, as melodias de Carnaval neste país de expressão francesa, Jacmel proporciona uma experiência mais enraizada na tradição local. Dos rapazes cobertos de fuligem negra ao som dos rara (os ritmos vodu são uma componente essencial das celebrações carnavalescas no Haiti), passando pelos músicos a tocar tambores ou trombetas feitas de metal reciclado e trompas de bambu, cada ritmo conta a sua própria história e convida-nos a dançar. Vi interpretações assustadoramente belas do diabo, grandes animais míticos e máscaras de aspecto grotesco confeccionadas com pasta de papel. 

Em algumas regiões das Caraíbas, o Carnaval é mais do que a folia que transformou as festividades tradicionais desta época numa atracção turística vistosa. É um espaço artístico, um megafone público, uma expressão descarada de identidade cultural por parte dos descendentes dos escravos africanos. Proibidos de prestar culto às suas divindades, impedidos de participar nos bailes de máscaras pré-quaresmais dos senhores franceses e britânicos do século XVIII, os escravos fundiram as tradições e o folclore africanos com rituais coloniais, criando assim a sua própria festa.

Actualmente, celebrações como o Corpo de Deus, o Dia de Reis e o Dia de Finados assumem formas diferentes na diáspora africana e podem ser organizadas noutras épocas do ano, mas são festividades com elementos em comum. Personagens vestidas com roupa garrida e desrespeitando as normas sociais combinam o cristianismo, o folclore e as interpretações indígenas num ritual de rebelião vivaz. 

Com as suas identidades disfarçadas atrás de máscaras ornamentadas, os foliões contam histórias, libertam frustrações e, em lugares como o Haiti, promovem agitação em prol da mudança política e social tendo como pano de fundo desfiles e paródias vibrantes. Os figurinos e as canções representam comentários sociais e críticas políticas. 

“É um tipo de rebelião que também configura uma resistência cultural”, afirma Henry Navarro Delgado, professor associado da Universidade Ryerson que tem explorado o papel da moda no Carnaval.

Alguns foliões têm os corpos cobertos de tinta e de lama. Outros vestem-se com as cores garridas das divindades africanas, como o vermelho flamejante e o negro de Ogun, o deus africano da guerra e do ferro, ou o azul e o dourado de Erzulie Dantor, a deusa do ciúme e da paixão no paradigma vodu haitiano. 

Uma figura central em muitos carnavais é o diablo maroto, o diabo. Na República Dominicana, ele pode aparecer como um vigarista que coxeia, pavoneando-se por todo o lado com um chicote. Em Trindade e Tobago, é por vezes um demónio azul troçado e espancado por outros diabos, para simbolizar a brutalidade da escravatura. E no Panamá surge frequentemente como o capataz, de chicote em punho, combatendo os escravos fugidos (quilombolas), numa dança tradicional do Congo que comemora a resistência dos escravos aos senhores espanhóis. O diabo, como é evidente, é mau no contexto católico romano ou europeu. Durante o Carnaval, porém, é habitualmente o espírito endiabrado necessário para equilibrar o mundo e agitar as coisas.

Nenhum Carnaval fica completo sem as danças mascaradas que retratam a relação entre os escravos e os colonizadores ou, em alguns casos, fazem troça dos opressores. Muitas danças exigem treino, segundo Amy Groleau, curadora das Colecções Latino-Americanas e Caribenhas do Museu de Arte Popular Internacional em Santa Fé (EUA). A investigadora salienta temas comuns, representando diferentes classes sociais, etnias e até animais. “Há uma espécie de elemento sagrado nas personagens”, diz.

Tanto nas personagens de animais da Colômbia como na dança Qhapaq Negro que descreve os afro-peruanos como trabalhadores escravizados que chegaram com os conquistadores espanhóis, o Carnaval é mais do que um ritual sazonal. 

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