Poderá um produto como a saliva ser a solução para muitos trabalhos de conservação e restauro de obras de arte?

A resposta está na Divisão de Património Móvel, Imaterial e Arqueológico dos Açores. Ali jaz uma pintura de grandes dimensões, encostada à parede, deixando um anjo rosado estranhamente de pernas para o ar. A grande tela de anjos turibulares em restauro, de finais do século XVII, provém da Igreja do Colégio, em Angra do Heroísmo, e foi retirada na sequência imediata do grande sismo de 1 de Janeiro de 1980, receando-se réplicas e consequente derrocada dos edifícios mais fragilizados.

Os investigadores Paula Romão, Adília Alarcão e César Viana  receberam em 2018 o prémio internacional IgNobel, atribuído na Universidade de Harvard. Trata-se de um galardão que premeia investigações científicas bizarras, mas válidas. A equipa provou que a saliva, pelas propriedades químicas que apresenta (de que se destaca a acção da enzima amílase) actua com eficácia na remoção de sujidade em vários suportes, sem deixar resíduos, sendo particularmente adequada para pinturas a óleo. 

Naturalmente, nem todas as salivas são igualmente e capazes. No âmbito do seu projecto de investigação, Paula Romão testou saliva de diferentes indivíduos. Uma das conclusões é que a sua adequação para limpeza depende do pH e que, por sua vez, este é bastante variável – com a hora do dia, alimentação e consumo de tabaco e álcool, entre outros. Curiosamente a saliva é um dos compostos orgânicos utilizado para este fim, mas não o primeiro. Ao longo da história, outros foram aplicados na limpeza de obras de arte - com variáveis graus de sucesso – como a urina, a batata, a cebola, o vinho branco e o óleo de linhaça.

Na galeria, a conservadora-restauradora Eugénia Silva humedece o cotonete num pouco da saliva que depositara na palma da mão e começa a desenhar movimentos circulares sobre o rosto do anjo. A área do queixo evidencia claramente a capacidade de limpeza da saliva natural que, além de inesgotável e gratuita, apresenta vantagens sobre muitos solventes químicos, prejudiciais a certo tipo de pinturas. 

 

 

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