As forcas de Portalegre

Na edição de 10 de Julho de 1867 do “Diário de Notícias”, o romancista francês Victor Hugo publicou uma carta ao director, escrevendo: “Felicito o vosso Parlamento, os vossos pensadores, os vossos escritores e os vossos filósofos. Felicito a vossa Nação. Portugal dá o exemplo à Europa. A Europa imitará Portugal.” 

O autor de “Os Miseráveis” celebrava assim a inédita decisão de abolir a pena de morte para crimes civis em Portugal, definida em 1867, quinze anos depois de a mesma decisão ter sido tomada para os crimes políticos. Os mecanismos de execução das sentenças foram sendo esquecidos nos 146 anos entretanto decorridos, mas um projecto da Universidade de Évora, liderado por Jorge de Oliveira, tem procurado preservar essa memória histórica no distrito de Portalegre.

Através de documentos escritos, de marcas toponímicas e da memória oral das populações, o arqueólogo conseguiu identificar os locais onde em tempos se ergueram 37 forcas no distrito, embora apenas três (em Cabeço de Vide, Monte da Pedra e Monforte) permaneçam de pé. As estruturas de madeira foram destruídas nos anos seguintes à abolição, mas as de alvenaria foram mais persistentes. A aplicação do mesmo método de pesquisa já permitiu igualmente descobrir os restos de forcas em distritos vizinhos, como Évora e Beja. 

Curiosamente, algumas forcas poderão nunca ter funcionado. A sua função seria mais pedagógica, em jeito de aviso, simbolizando igualmente o poder. Outras, em contrapartida, tiveram uma longa história, remontando a mais de setecentos anos.

Apesar de lidar com um tema severo, este projecto de levantamento das memórias materiais do distrito de Portalegre tem uma evidente função histórica, “para que os vindouros não esqueçam as terríveis formas de aplicar a justiça e que, igualmente, Portugal foi pioneiro na sua abolição”, refere o arqueólogo.

 

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