Terra Sagrada

 

A paleta de cores nos frascos exibe uma variada gama de castanhos. A argila vermelha e rica pode encontrar-se em todo o estado do Alabama, onde homens e mulheres trabalhavam arduamente a terra do nascer ao pôr do Sol. A terra escura e fértil do “cinturão negro”, o Centro do Alabama e o Nordeste do Mississipi.
O solo arenoso da costa do golfo.

“A terra é realmente um meio poderoso para contar esta história”, diz Bryan Stevenson, enquanto passamos pelos frascos. “De muitas maneiras, o suor das pessoas escravizadas está enterrado neste solo. O sangue das vítimas de linchamento está aqui.” A terra guardada nestes frascos representa a vida de inúmeros americanos que nunca tiveram um enterro digno e enfrentaram mortes indescritivelmente violentas. Estas são as vítimas homenageadas no novo Museu Memorial do Legado, no Alabama, no âmbito da Iniciativa de Igualdade de Justiça (IIJ).

Bryan Stevenson é um dos interlocutores mais eloquentes que já conheci. Fundador da IIJ, dedicou a sua vida a procurar justiça para os mais vulneráveis. Durante a minha visita à exposição, vi 11 filas compostas por dezenas de frascos; cada um ostentava o nome do indivíduo linchado.
A maioria era do Alabama. Enquanto olhava para os frascos, lia os nomes ali escritos: Jordan Corbin... Sidney Johnson... Joe Leads... Will McBride... Bush Withers... Lillie Cobb. Interroguei-me sobre as suas vidas, como tinham morrido e aqueles que tinham deixado para trás.

Os linchamentos ocorriam por muitas razões: alegações de um crime grave ou uma transgressão pontual, medo de relações inter-raciais ou o desejo de espectáculo público. O terror que induziam é indescritível, um fardo que subsiste até hoje. Ainda não aprendemos a falar sobre o linchamento de forma aberta e honesta. É difícil enfrentar o passado, reconhecer o papel de alguns dos nossos antepassados na brutalidade praticada contra outros seres humanos. Bryan Stevenson olha para os frascos. “Podemos fazer crescer algo com isto”, disse. “Podemos criar algo com um novo significado.” Afinal, a terra que nos envolve depois da morte é também o terreno onde se podem plantar as sementes da esperança num novo recomeço.

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Bryan Stevenson segura um dos frascos que contêm terra recolhida em locais de linchamento e que ficarão em exibição num museu de Montgomery, no Alabama (EUA).

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