O Demónio da Casa da Severa na Mouraria

 CAsa da Severa

Fotografia de Tânia Casemiro e António Marques

No edifício da Mouraria, em Lisboa, onde terá vivido a fadista Maria Severa Onofriana, falecida em 1846, uma escavação arqueológica descobriu um curioso vestígio do passado medieval da cidade e da evolução das superstições. Mais do que um molde, este pequeno artefacto é o reflexo de como a própria cidade era uma encruzilhada de crenças e superstições que raramente se encontram no contexto arqueológico, defendem os arqueólogos Tânia Casimiro, do Instituto de Arqueologia e Paleociências da Universidade Nova de Lisboa, e António Marques, do Centro de Arqueologia de Lisboa.

A peça emergiu num sector de Lisboa tradicionalmente dedicado às comunidades muçulmanas, autorizadas, desde o reinado de Dom Afonso Henriques, a permanecer em bairros específicos da urbe. Encontrado num estrato correspondente ao século XIV, só após a produção de um molde de silicone foi possível obter a descrição da figura antropomórfica ali representada, com feições quase grotescas e o topo da cabeça coroado com dois chifres. Os membros superiores terminam no que parecem ser duas garras e os inferiores em cascos, destacando-se o seu carácter marcadamente sexual.

Embora raras na Idade Média, as representações conhecidas do demónio coincidem com a figura deste molde. No levantamento realizado sobre manifestações demoníacas na Idade Média em Portugal, a historiadora Lurdes Rosa notou igualmente que a maior parte dos demónios estão associados ao registo de exorcismos e muitos visitam mulheres para encontros sexuais, as suas vítimas preferenciais, numa alegoria à crença de que o diabo entra pelos buracos do corpo.

A adoração de imagens não canónicas foi proibida desde o reinado de Dom João I, mas certamente não foi extinta. “Raramente os lados ocultos da subjectividade humana se consubstanciam. Tivemos a sorte de nos depararmos com uma dessas raras realidades”, diz Tânia Casimiro, em relação à Casa da Severa.

CAsa da Severa

Um dos desafios da interpretação desta peça é a atribuição cultural: teria pertencido a um membro da comunidade muçulmana ou seria, ao invés, propriedade de um cristão? As referências documentais e literárias que se conhecem são todas referentes às comunidades cristãs e estas imagens alimentariam um imaginário plasmado na obra de Gil Vicente. Quem não se recorda do desbocado diabo do “Auto da Barca do Inferno”: “À barca, à barca, houlá! / que temos gentil maré!”? Desenho de Luísa Batalha.

 

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