Nem todas as condenações póstumas foram cumpridas. A renovação do Teatro Romano de Lisboa foi dedicada ao imperador Nero no ano 57 d.C. por um liberto poderoso. Quando Nero caiu em desgraça, o seu nome não foi apagado.

Texto Gonçalo Pereira Rosa   Fotografia José Avelar/Museu de Lisboa e António Rafael/Museu de Lisboa   Ilustração Anyforms

Estátua de sileno - Mármore (Vila Viçosa), Meados ou finais séc. I d.C. Este tipo de estátuas ornamentava a parte superior do muro do proscénio (o muro que separava o palco da área dos espectadores). O sileno era um dos seguidores do deus Dionísio e seu professor e tinha poderes divinatórios quando ébrio. Da sua mão sairia um cano de onde jorraria água para a parte inferior do proscénio. A volumetria, o contraste de volumes e consequentes efeitos de claro/escuro evidenciam uma qualidade do atelier que produziu esta peça, recolhida em 1798.

No ano 68 depois de Cristo, o imperador Nero foi assassinado nos arredores de Roma e o seu nome, o último da linhagem dos Júlios-Cláudios, foi ostracizado. No período conturbado que se seguiu até Vespasiano assumir o trono e iniciar um período de apaziguamento, no Verão de 69, foi emitida uma damnatio memoriae, uma condenação póstuma do imperador tombado, que levou ao desfiguramento de estátuas e à destruição de epígrafes em vários pontos do império. Em Felicitas Iulia Olisipo, porém, tal não sucedeu.

No ano 57 d.C., o teatro da cidade fora restaurado com requinte, sem poupar despesas.

Recuemos alguns anos. No ano 57 d.C., o teatro da cidade fora restaurado com requinte, sem poupar despesas: o mármore provinha de Trigaches, no Alentejo, e da serra de Sintra; foram contratados os melhores executantes do império para concluir aquilo que a arqueóloga Lídia Fernandes, coordenadora do Museu do Teatro Romano (MTR) de Lisboa, designa por “uma obra de regime”. O poeta Terêncio revela que, no mesmo ano, em Roma, Nero inaugurou um anfiteatro de madeira. “Não foi certamente coincidência a remodelação de um teatro em Lisboa precisamente no mesmo ano”, diz Lídia Fernandes.

Pedras que constituíam o proscénio (proscaenium) do teatro romano de Lisboa, datado de 57 d.C., executado em mármore de Trigaches (cinzento) e calcário margoso (cor rosa) da zona de Sintra. Fotografia José Avelar/Museu de Lisboa.

No proscénio, o muro que delimitava a zona dos espectadores da área destinada aos actores, foi gravada uma inscrição requintada, encimada por dois ou mais silenos, estátuas de mármore nobre, proveniente de Vila Viçosa. O texto, colocado no ponto central do teatro, no local para onde todos os olhos se concentravam, prestava tributo a Nero, listando o pai, avô e bisavô do imperador e sublinhando a ligação dinástica a Augusto, o pai da pátria. Depois, o texto referia o benfeitor, o membro da oligarquia de Felicitas Iulia Olisipo que custeara a intervenção arquitectónica e que tinha “a intenção clara de, honrando o imperador, colocar o seu nome na mesma sequência”. Esse homem era Caius Heius Primus.

 

Reconstituição parcial da zona do proscénio do Teatro Romano de Lisboa. Ilustração: Anyforms. Modelo 3D: Carlos Cabral Loureiro (Museu de Lisboa/EGEAC). Consultora: Lídia Fernandes (Museu de Lisboa-Teatro Romano/EGEAC).

“Temos alguma informação biográfica sobre Caius”, conta Lídia Fernandes. “Era um liberto, como havia muitos no reinado de Nero, mas fora libertado por uma família importante, que figura em inscrições por todo o Mediterrâneo, revelando a extensão dos seus negócios.” Estavam vedadas aos libertos algumas carreiras na administração, mas não a possibilidade de ascensão social e de enriquecimento. “Caius era um homem com influência, que apoiou projectos na cidade e que fez questão de neles gravar o seu nome. Era mecenato, mas não anónimo. Era uma afirmação de autoridade.”

Reconstituição do Teatro Romano de Lisboa e localização da zona do proscénio (ampliada na imagem anterior). Tradução da inscrição em latim: “A Nero Cláudio Augusto Germânico, filho do divino Cláudio Germânico, neto do César Germânico, bisneto de Tibério César, trineto do Divino Augusto, pontífice máximo, no seu terceiro poder tribunício, imperador pela terceira vez, cônsul duas vezes e designado para a terceira. O proscénio e a orquestra com ornamentos, o augustal perpétuo Caius Heius Primus ofereceu.”

 A investigação nas duas últimas décadas apurou que Caius também teve escravos. Um deles, Notus Heius Primus, figura numa epígrafe de Mérida de cerca do ano 40 d.C., onde foi aprender medicina e honrou o seu mestre, igualmente escravo, com uma inscrição. Outra epígrafe, encontrada em 1798 e mais tardia, dá conta de que Notus, à data do restauro do teatro, era já um liberto, como o seu patrono Caius. “É todo um modelo de ascensão social numa das províncias mais remotas do império”, explica Lídia Fernandes.

A inscrição do teatro não foi riscada nem martelada.

A inscrição do teatro não foi riscada nem martelada. Não foi caso único na Hispânia, mas representa, apesar de tudo, uma circunstância peculiar. Alguns especialistas acreditam que o facto de Olisipo se posicionar na periferia do império poderá ter implicado a chegada tardia da condenação ao esquecimento e que o rápido apaziguamento, promovido por Vespasiano em Roma, terá poupado a dedicatória. “Creio que a explicação poderá ser outra”, defende a coordenadora do MTR. “A oligarquia que controlava Olisipo era poderosa e independente. Caius seria uma figura social incontornável da cidade. Ninguém se atreveria a riscar uma obra que ele mandara construir e onde figurava o seu nome. Riscar o nome de Nero seria uma ofensa a Caius.” E o teatro permaneceu incólume.

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