O Rei que coleccionava vitrais

Se viajasse no tempo, até à segunda metade do século XIX, e visitasse o Palácio das Necessidades em Lisboa, ficaria abismado com a sala de jantar.

Texto Gonçalo Pereira   Fotografia Parques de Sintra/Luís Pavão

O meticuloso processo de restauro demorou quase um ano, e actualmente os preciosos vitrais podem ser vistos na Sala dos Veados do Palácio da Pena, em Sintra.

Neste palácio que D. Fernando II (1816-1885) moldou a seu gosto, uma colecção impressionante de vitrais decorava os vãos, testemunhando o gosto que o monarca cultivava por esta expressão artística, ao ponto de assim também mandar decorar o Salão Nobre do Palácio da Pena, em Sintra.
Depois de terem testemunhado refeições da família real portuguesa, os vitrais foram desmontados e transferidos para o Palácio da Ajuda e depois para a Pena, sofrendo ali as agruras do tempo. Durante seis décadas, permaneceram fechados até ao momento em que António Lamas, presidente do Conselho de Administração da Parques de Sintra – Monte da Lua (PSML), sociedade gestora da Paisagem Cultural de Sintra, iniciou um projecto de restauro e estudo da colecção de vitrais e vidros de D. Fernando II. Para tal, pediu a colaboração do Departamento de Conservação e Restauro (DCR) da Universidade Nova de Lisboa.

Três épocas. Na base, o exemplar mais antigo (c. 1314) representa uma freira do convento de Seligenthal.

Márcia Vilarigues, do DCR, já tinha estudado os vitrais do Mosteiro da Batalha no âmbito do seu doutoramento, pelo que tinha uma ideia da dificuldade que a esperava. “Havia centenas de fragmentos. O puzzle foi relativamente rápido, mas a remontagem foi morosa pois havia danos consideráveis em algumas peças”, conta. “Por outro lado, esta é a colecção mais rica de vitrais do nosso país, na medida em que abrange quase todos os períodos relevantes desta expressão, desde o medieval do século XIV à expressão mais trabalhada do século XVI, passando também pela laicização dos temas e técnicas, e terminando no século XIX.”

Esta é a colecção mais rica de vitrais do nosso país.

Bruno Martinho, da PSML, debruçou-se sobre o arquivo de D. Fernando II, comprovando que o monarca fez várias aquisições na década de 1860, embora subsista a convicção de que alguns vitrais mais antigos lhe poderiam ter pertencido por herança.
Realizado pela conservadora Cristina Gomes, o restauro demorou quase um ano e obrigou a equipa a montar equipamento no Palácio Nacional da Pena. A maioria dos painéis foi encontrada no seu estado actual, tendo necessitado apenas de colagens e preenchimento de lacunas com vidro fosco ou transparente. A colecção está agora exposta na Sala dos Veados da Pena.

Evolução técnica dos vitrais

Os primeiros vitrais do século XIV juntavam vidro de várias cores com calhas de chumbo. A única técnica de pintura conhecida era a grisalha, que consistia em vidro moído, óxidos de chumbo e óxidos de ferro para os pigmentos. A cor variava assim do preto para o castanho.
No século XV, junta-se o amarelo de prata: um composto de prata, aplicado no reverso do painel, era cozido a uma temperatura inferior à das grisalhas. Os iões de prata penetravam na matriz do vidro. “Era uma espécie de nanotecnologia primitiva”, brinca Márcia Vilarigues.
No século XVI, o vitral pintado generaliza-se. A cor transmite intensidade e expressão à obra. Com o fim do gótico, o vitral deixa de ser associado

Fonte: Márcia Vilarigues (Departamento de Conservação e Restauro e Unidade de ID Vidro e Cerâmica para as Artes, Faculdade de Ciências da Universidade Nova de Lisboa).

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