Dos Cabarets ao Hotel Ritz, uma história iluminada a néon

Dois designers apaixonados pela história de Lisboa conduziram um levantamento exaustivo sobre os letreiros de néon que em tempos povoaram as ruas da capital. Os primeiros resultados do projecto estão agora exibidos numa exposição organizada pelo MUDE – Museu do Design e da Moda através do programa "MUDE Fora de Portas".

Texto Gonçalo Pereira

O letreiro néon da sapataria Império é um dos exemplares recuperados e em exibição na exposição.

Começou por acaso, como quase todas as boas ideias. Rita Múrias e Paulo Barata, designers apaixonados pela história de Lisboa, caminhavam como a maioria dos lisboetas – de olhos postos no solo, alheios à destruição silenciosa de um ícone do século XX. Fragmento a fragmento, os letreiros de néon que em tempos abundavam nas ruas das cidades portuguesas foram sendo removidos. “Alguns são deitados fora quando o estabelecimento comercial sofre obras ou vai à falência; outros perdem eficácia e são substituídos por letreiros mais padronizados e mais económicos; outros podem ser comprados por coleccionadores, mas a maioria vai-se degradando silenciosamente”, diz Paulo Barata, à entrada da nova exposição temporária organizada pelo MUDE – Museu do Design e da Moda até Março de 2017, um evento só possível pelo esforço da vereação da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa e da direcção do Museu.

Os edifícios jogam arquitectonicamente bem com as casas que os rodeiam. Têm grandeza, imponência, linha.

O néon entrou de rompante na capital. Num artigo publicado na revista Animatógrafo, em Março de 1933, o cinéfilo Silva Machado contrastava as fachadas de Lisboa com as de Madrid, onde o cinema «já é olhado como uma coisa séria e não como um negócio de feirantes, tão quadrúpedes como as alimárias que marcam. Os edifícios jogam arquitectonicamente bem com as casas que os rodeiam. Têm grandeza, imponência, linha. Os directores decoram as fachadas a capricho, muitas vezes com indiscutível bom gosto, e sabem distribuir os reclamos luminosos – onde prevalece a luz de néon, sossegada, discreta e não, como em Lisboa, a brutalidade irritante das lâmpadas de incandescência.»
Seis anos depois, o panorama mudara. Numa crónica publicada na Olisipo, Luiz Moita, eminente olisipógrafo, gabava a extraordinária transformação da Praça do Rossio, «lugar-bruxo que nos sabe sempre bem atravessar, mesmo sem pretexto aparente, sem necessidade. Pincelada à noite, em suas mansardas, pelo vermelho, o azul, o verde-luminoso dos tubos néon, dir-se-ia que a Praça do Rossio, escovada a moderna, ganha outro carácter. Os novos estabelecimentos e cafés, decorados por uma publicidade bela, desenhados por luz sapiente, colorida e bem distribuída, como que surgem transformando o estilo».

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