Com as suas casas sob ataque em Ayn al-Arab, na Síria, indivíduos de etnia curda avançam na direcção de uma vedação de arame farpado na fronteira turca.

 

 

O QUE ACONTECE QUANDO ALGUÉM SE TORNA REFUGIADO DE GUERRA?

CAMINHA.

Na verdade, para salvar a vida, pode ser necessário fugir a toda a velocidade, recorrendo a quaisquer meios disponíveis. No carro da família. No camião de fruta do vizinho. Num autocarro roubado. Dentro de um atrelado puxado por um tractor. Tarde ou cedo, porém, surge uma fronteira. E é aqui que se torna necessário caminhar pelo próprio pé porque os homens fardados vão pedir-lhe documentos. Não tem documentos? Deixou-os em casa? Em vez de os trazer, preferiu agarrar a mão do seu filho, nesse derradeiro momento do frenesim? Ou talvez tenha empacotado um saco com comida ou dinheiro? Não importa. Saia da viatura. Aguarde. Agora, com ou sem documentos, começa verdadeiramente a sua vida como refugiado: a pé, impotente.

 

EM FINAIS DE SETEMBRO, perto do posto fronteiriço de Mürşitpınar, na Turquia, dezenas de milhares de refugiados sírios atravessavam os campos de pimentos em pousio. De etnia curda, fugiam às balas e facas do proclamado Estado Islâmico (EI). Muitos viajavam em automóveis, levantando nuvens de poeira branca e fina em alguns dos mais antigos campos agrícolas continuamente lavrados de todo o mundo. Os turcos não permitiram a entrada desta caravana heterogénea. Um parque de estacionamento de carros abandonados foi crescendo junto da fronteira. Certo dia, um grupo de combatentes islamitas completamente vestidos de negro chegou, apoderou-se dos veículos e roubou-os debaixo do nariz dos soldados turcos.

É assim que começa: dá-se um passo, sai-se de uma vida e entra-se noutra. A travessia de um buraco aberto numa vedação fronteiriça transforma o fugitivo num ser apátrida, vulnerável, dependente e invisível. Torna-se um refugiado.

 

“A CIDADE FOI INCENDIADA DUAS VEZES”, contou Atilla Engin, de pé no alto de Oylum Höyük, um estéril barranco artificial no Sudeste da Turquia. “Não sabemos por quem, nem porquê. Houve tantas guerras naquele tempo.”

Attila é um arqueólogo turco da Universidade de Cumhuriyet. Olhava para o interior de uma trincheira quadrada aberta no cume pelos aldeãos, sob a direcção dos seus alunos de pós-graduação. O buraco tinha dez metros de profundidade e o monte era um dos maiores existentes na Turquia: 37 metros de altura por 460 metros de comprimento. A mais antiga prova de ocupação encontrada ali data do Neolítico e tem cerca de nove mil anos. Sobre esta, contudo, ficam os destroços de pelo menos nove ocupações humanas. Alvenaria do Calcolítico. Tabuinhas da Idade do Bronze inscritas com caracteres cuneiformes. Um edifício de tijolo romano e bizantino.

Muitos impérios calcorrearam, para trás e para diante, o frequentemente atacado território central da Ásia Menor. Attila Engin focou-se num povoado amuralhado da Idade do Bronze, possivelmente uma poderosa cidade-estado chamada Ullis, mencionada em antigos registos hititas e em papiros da Idade do Ferro. Para alcançar esta cidade perdida, a sua equipa escavara através de estratos semelhantes a electrocardiogramas de convulsões: horizontes enrugados de solo, cinza e escombros, nove mil anos de sístoles e diástoles, de construção e destruição.

“As coisas nunca mudam”, disse Attila. Esboçava o meio-sorriso cansado de um homem que pensa em termos de milénios. “As potências estrangeiras ainda batalham pelo controlo desta planície. É o ponto de encontro entre África, a Ásia e a Europa. É uma porta de entrada do mundo.”

Do alto de um escadote utilizado para fotografar a extensa área da sua escavação, Engin quase conseguia avistar o campo de refugiados instalado perto de Kilis, uma cidade turca vizinha junto da fronteira síria. Há dois anos e meio que as 14 mil pessoas para ali fugidas da guerra civil da Síria esperam com impaciência, entorpecidas pelo tédio. Uma população suplementar de noventa mil sírios amontoa-se na cidade arruinada, duplicando o número de habitantes original e fazendo aumentar as rendas.

Vivem na Turquia cerca de 1,6 milhões de refugiados da guerra síria. Oito milhões, ou mais, vivem deslocados na Síria, ou lutam pela sobrevivência em poisos temporários como o Líbano ou a Jordânia. Como é evidente, a guerra alastrou também ao vizinho Iraque, onde os fanáticos do EI provocaram o desenraizamento de mais dois milhões de civis. Tudo somado, talvez existam 12 milhões de almas à deriva pela região. A situação assemelha-se à crise de refugiados provocada pela guerra soviético-afegã da década de 1980, cujo arrastamento fez deslocar, e de seguida simplesmente ignorou, milhões de pessoas iradas e desesperadas, desencadeando anos de terrorismo islamita internacional. As repercussões do que acontece aqui são incomensuráveis e durarão muito.

“Já não se trata só da Turquia e da Síria”, disse Selin Ünal, porta-voz do ACNUR, a agência da ONU para os refugiados, no campo de Kilis. “Este problema afectará o mundo inteiro. Está a acontecer aqui um evento de importância histórica.”

Eu caminhara a pé até ao barranco de Oylum, no Sudeste da Turquia, no âmbito da minha jornada de sete anos que reconstitui a primeira diáspora da humanidade para fora de África até ao derradeiro território atingido pela nossa espécie no limite meridional da América do Sul. Ao longo do trilho percorrido no Médio Oriente, eu tinha encontrado homens e mulheres desesperados por toda a parte, como destroços de um naufrágio. Recebiam dez euros por dia para a apanha de tomate na Jordânia. Pedinchavam trocos em ruas da Turquia. Descobri alguns vivendo sob lonas na estepe da Anatólia, depois de escaparem à fúria das multidões nacionalistas nas cidades.

Oylum ergue-se no coração do Crescente Fértil, a antiga zona levantina de clima temperado onde nasceu a modernidade. Foi aqui que a espécie humana se sedentarizou pela primeira vez, fundando cidades e inventando o conceito de um lar fixo. E contudo há meses que eu tropeçava num panorama maciço de gente sem-abrigo. Perguntei a Attila Engin o que acontecera aos pioneiros da vida urbana em Oylum, depois de a sua cidadela ter sido invadida e incendiada por um invasor há 3.800 anos. Não tinha a certeza. “Regressaram ao campo”, sugeriu. Poisou a palma da mão sobre a frágil muralha do fosso. “Esqueceram-se das cidades. Tornaram-se mais pobres.”

E, sem dúvida, alguns reagruparam-se. Talvez tivessem conquistado os seus conquistadores. Das migrações forçadas nascem os impérios.

 

SEGUNDO AS ESTIMATIVAS DA ONU, em finais de 2013, mais de 51 milhões de pessoas em todo o mundo constituíam o grupo dos deslocados devido a guerra, violência e perseguições. Mais de metade eram mulheres e crianças. Entre os refugiados sírios deslocados na Turquia, a proporção de mulheres e crianças dispara para 75%. Os homens ficam para trás para combater ou proteger os seus bens. As mulheres e as crianças transformam-se em mendigos errantes. Os jornalistas raramente acompanham os destinos destas mulheres até aos bairros-de-lata urbanos, aos campos superlotados, aos abrigos de plásticos improvisados em plantações de melancia. Até aos bordéis. Os seus queixumes não são telegénicos. Há poucas efusões dramáticas.

Não existem bandeiras nem linhas da frente para disputa entre o ditador Bashar al-Assad e as inúmeras forças rebeldes. As mulheres sofrem as suas guerras sozinhas, em silêncio, em terra estrangeira.

“É um enorme problema encapotado”, afirmou a assistente social Elif Gündüzyeli, colaboradora da organização de ajuda humanitária turca Support to Life. “E a vulnerabilidade destas mulheres está a transformar a sociedade.”

Na laica Turquia, uma vaga gigantesca de mulheres sírias não acompanhadas está a revivescer tradições islâmicas proibidas, como a poligamia. Na Jordânia, as famílias de refugiados casam as suas filhas logo aos 13 anos, na esperança de que isso contribua para afastá-las dos campos, das ruas, da pobreza.

“Ninguém nos protege”, afirmou Mona (nome fictício), uma jovem síria retida na cidade turca de Şanlıurfa. “Somos constantemente assediadas. Três homens tentaram puxar-me para dentro de um carro. Agarraram-me o braço. Gritei. Os transeuntes não fizeram nada. Quero sair deste lugar. Pode ajudar-me? Para onde posso ir?”

“Quatro vezes, não… cinco”, conta uma síria curda chamada Rojin (também pseudónimo) sobre o número de vezes que lhe propuseram casamento na Turquia ao longo da última semana. “Duas”, acrescentou a sua irmã. “Três”, disse uma terceira irmã. As mulheres estavam sentadas, de pernas cruzadas no chão de um quarto de onde raramente saem. Uma quarta parente não recebera propostas. Era a avó, já senil. A velha senhora permanecia sentada, piscando os olhos, perdida nos seus sonhos. Era difícil olhar para ela. Não compreendia o que perdera. Nascera em Alepo quando a Síria ainda se encontrava sob administração francesa. As netas tinham esperança de conseguir asilo político em França.

Nas ruínas carbonizadas da sua cidade antiga, sob o barranco de Oylum, Attila descobriu dois cadáveres. As duas vítimas da destruição misteriosa da cidade eram ambas mulheres. Não sabemos quase nada sobre elas, a não ser talvez o sofrimento associado ao seu estatuto social. Os seus esqueletos jaziam, encaracolados sobre si, na cozinha de um grandioso palácio de adobe.

 

O ARQUEÓLOGO JASON UR estuda mutações dos padrões de povoamento na Assíria antiga. “Existe na região uma longa história de deslocações de população”, diz. Elas aconteceram “repetidamente ao longo, pelo menos, dos últimos três mil anos”.

Esculturas em baixo-relevo encontradas na Mesopotâmia representam exércitos da Idade do Ferro fazendo marchar populações inteiras à sua frente. Estas cenas da Antiguidade mostram os civis cativos. Presos com correntes. Comunidades inteiras eram transferidas desta maneira, pela violência, fornecendo trabalho agrícola forçado a um dos mais antigos impérios do mundo. Num artigo já no prelo, Jason e o seu colega James Osborne sugerem que os povoados começaram a surgir na região oriental da Síria entre 934 e 605 a.C., num “padrão repetitivo de pequenas aldeias regularmente espaçadas umas das outras” definido pelos reis neo-assírios.

Saddam Hussein, o “carniceiro de Bagdade”, fez mais ou menos o mesmo no Norte do Iraque, substituindo os “desordeiros” curdos por obedientes agricultores de etnia árabe. Há um século, os turcos eliminaram os arménios “desleais”, matando talvez 1,5 milhões de pessoas e doando terras aos vizinhos turcos. Esta história soaria familiar aos sioux e aos apaches. Limpeza étnica, engenharia social implacável: são conceitos que nada têm de novo. Foram cunhados com o aparecimento da cidade-estado. 

Algumas inscrições encontradas num templo construído pelo rei neo-assírio Assurbanípal II, que reinou em Nimrud de 883 a 859 a.C., a sul da actual cidade de Mosul, no Iraque: “Capturei muitos soldados vivos: de tempos a tempos, cortava-lhes os braços [e] as mãos; a outros cortei o nariz, as orelhas, as extremidades. Vazei os olhos a muitos soldados. Fiz uma pilha com os vivos [e] outra com cabeças. Pendurei as suas cabeças em árvores em redor da cidade.” E “limpei as minhas armas no Grande Mar e ofereci sacrifícios aos deuses”.

Esta gabarolice primitiva tem semelhanças no presente. Basta lembrarmos qualquer vídeo do EI publicado no YouTube.

 

ANATÓLIA, A VASTA PENÍNSULA asiática da Turquia oriental. Encruzilhada continental e cultural. Eterna fronteira de impérios. Palimpsesto de migrações forçadas.

Caminhei pelas suas estradas poeirentas, passando pelos alicerces arruínados das cidades da Assíria. Vi frontões de colunas gregas engolidos por jardins de ervas daninhas. Passei por igrejas arménias degradadas, convertidas em mesquitas. Pisei auto-estradas de pedra polida por filas intermináveis de pés romanos. Na velha Harran, antigo centro de aprendizagem no tempo dos romanos, bizantinos e árabes, milhares de estudiosos muçulmanos fizeram outrora experiências de física e engenharia. Ali se erguia um minarete sobre uma planície vazia. Era tudo o que restava da cidade arrasada pelos mongóis. Passei pelas tendas dos sírios. Estavam por todo o lado. A sua presença na paisagem antiga parecia um sinal de alteração tectónica, algum portento incomensurável. Debaixo dos meus pés, a história vibra. As tendas dos refugiados emitem um fulgor amarelo de noite, qual nova constelação.

“O mundo pensou que isto seria temporário”, lembrou o padeiro turco Mustafa Bayram em Kilis. Lançou as mãos ao ar. Ele queria ser sensato. Afinal, a Turquia fora amigável, despendendo milhares de milhões de euros em habitação e alimentação para os refugiados. Mas os sírios continuavam a chegar. Estavam a arruinar Bayram. Trabalhavam por salários de miséria. Abriam lojas ilegais, praticando preços muito mais baixos do que os seus. “Na minha opinião, devíamos juntá-los todos”, disse, com amargura. “Devíamos metê-los todos num só campo gigante.”

A guerra na Síria continuou em ebulição. Attila Engin foi perdendo os seus trabalhadores. Todos os dias havia alguns que não se apresentavam à chamada. Abandonavam o sítio arqueológico em Oylum e esgueiravam-se, atravessando a fronteira. É possível que engrossassem as fileiras da jihad.

Fui caminhando até chegar o Outono. As temperaturas caíram. Dei comigo a pisar colunas de formigas que rastejavam, frenéticas, através da erva amarela e quebradiça. Tinham um brilho negro envernizado. Desapareciam para os formigueiros. Transportavam enormes quantidades de sementes. Estes preparativos e armazenamento de víveres pareciam transmitir uma mensagem: depois de uma falsa Primavera Árabe, um duro Inverno estava prestes a chegar ao Médio Oriente.

 

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