Cientistas portugueses desvendam o mistério das flores do Cretácico

Darwin chamou-lhe o abominável mistério: como surgiram as plantas com flor no Cretácico? Um projecto português junta pistas para responder.

Texto Gonçalo Pereira

Dois dos três investigadores do projecto ANGIOGAL escavam afincadamente em Rio de Mouro neste escaldante mês de Julho. Pela estrada que serpenteia entre urbanizações nesta freguesia dos subúrbios de Lisboa, passam veículos ocasionais. Os tripulantes pasmam, sem excepção, com os dois vultos que, de picareta na mão e suando em bica, descascam o barranco argiloso. Não valeria a pena explicar-lhes que se trata de uma campanha paleontológica ou que, no coração de Rio de Mouro, está acessível uma das camadas mais importantes do Cretácico. Ninguém acreditaria, de qualquer maneira. E, no entanto, João Pais, da Universidade Nova de Lisboa (UNL), e Mário Mendes, docente da Universidade de Évora (UE), retiram freneticamente blocos rectangulares de argila, datados de há cerca de 130 milhões de anos, um dos intervalos mais quentes da vida no Cretácico, durante a qual as temperaturas elevadas cobriram os pólos de vegetação, permitindo que espécies de dinossauros ali afluíssem. Na verdade, os dois investigadores pro-curam pistas para solucionar um mistério da evolução, formulado pelo evolucionista dos evolucionistas, Charles Darwin, em 1879. E talvez estejam um pouco mais próximos da solução.

A “Origem das Espécies” é publicada em 1859 e Darwin já é a autoridade na matéria, mas não perdeu a curiosidade.

Recuemos até ao século XIX. O mundo fervilha com as possibilidades abertas pela teoria darwiniana da evolução. A história da Terra é revisitada sob o pressuposto de que cada população de seres vivos pode, em circunstâncias particulares, mudar as características hereditárias da geração seguinte de maneira aleatória ou não-aleatória. A “Origem das Espécies” é publicada em 1859 e Darwin já é a autoridade na matéria, mas não perdeu a curiosidade. Em cartas trocadas com naturalistas, o britânico descreveu o enigma que então o atormenta: a origem e o processo evolutivo das plantas com flor, que surgem subitamente no registo fóssil do Cretácico Inferior. Haveria ainda ilhas no hemisfério sul por descobrir onde estivesse depositada a resposta? Para desgosto de Darwin, o paleontólogo francês Gaston de Saporta parece ter formulado a resposta correcta, embora parcial: o papel decisivo para a expansão global destas plantas terá sido desempenhado pela capacidade polinizadora dos insectos. Com fair-play, Darwin responde: “Parece-me uma ideia esplêndida. Estou surpreendido por não me ter ocorrido!”

No slideshow: Coloridas artificialmente e ampliadas, estas imagens microscópicas dão conta do exuberante mundo vegetal que despontou no Cretácico. Pólenes e sistemas de reprodução de várias espécies têm sido descobertos em jazidas portuguesas, ao abrigo do projecto ANGIOGAL. Imagens microscópicas cedidas pelo Projecto ANGIOGAL.

Estamos num laboratório da Universidade Nova de Lisboa, no Monte de Caparica. Passamos apressadamente por cartazes que anunciam o GSI, programa educativo de Geologia sob Investigação, tentativa gloriosa do Departamento de Ciências da Terra para cativar alunos para a ciência dos solos e da evolução da Terra. Os blocos de argila de jazidas como as de Rio de Mouro já foram lavados, secos numa estufa a 30ºC, transformados numa papa e lavados num crivo com malha de 0,125mm. Restam pequenos fragmentos carbonosos, imperceptíveis a olho nu, mas com material potencialmente novo para a ciência.

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