Quanto mais ciência houver na ciência forense, melhor será a aplicação da justiça.

Texto Veronique Greenwood   Fotografia Max Aguilera-Hellweg

Este analista do FBI tem 20 anos de experiência na comparação balística. A sua opinião é especializada. Mas será científica?

Na manhã de 23 de Novembro de 2009,um ciclista que passeava junto de Lake Charles, no estado de Louisiana, descobriu o corpo de uma jovem mulher nas proximidades de uma estrada rural. O seu rosto fora tão espancado que se tornara irreconhecível, mas uma tatuagem invulgar permitiu à polícia identificá-la como Sierra Bouzigard, de 19 anos. Investigadores chefiados pelo xerife Tony Mancuso começaram de imediato a reconstituir as suas horas finais. As últimas pessoas que tinham observado Sierra viva tinham-lhe permitido usar o telefone. O número que tinha marcado deu outra pista à polícia.

Os detectives conseguiram recolher uma amostra clara de DNA a partir de tecido retido na parte inferior das suas unhas enquanto ela lutava pela vida. Para identificar o assassino, faltava apenas uma correspondência. O número marcado por Sierra conduziu a polícia a um grupo de trabalhadores mexicanos ilegais. “Começámos a pedir mandados para podermos realizar esfregaços de DNA e contratámos intérpretes, cooperando com os serviços de imigração”, recorda o xerife.

O número marcado por Sierra conduziu a polícia a um grupo de trabalhadores mexicanos ilegais. 

No entanto, nenhum dos mexicanos possuía DNA correspondente ao encontrado no local do crime. Também não se encontrou qualquer correspondência nos registos da base de dados do FBI onde figuram pessoas anteriormente condenadas por crimes, desaparecidas e detidas, um sistema conhecido como CODIS – Combined DNA Index System.

Em Junho de 2015, por fim, Monica Quaal, uma das principais analistas de DNA do laboratório que colabora com o gabinete do xerife, descobriu uma nova e intrigante forma de explorar a informação contida numa amostra de DNA. Denominada fenotipagem de DNA, esta técnica permite apurar a aparência física da pessoa que deixou a amostra, incluindo características como a ancestralidade geográfica, a cor dos olhos, a cor natural do cabelo e até um possível formato fisionómico. Monica lembrou-se imediatamente do homicídio de 2009. Contactou o xerife e o tenente Les Blanchard, um detective que trabalhara no caso. Enviaram a amostra para Ellen Greytak, da Parabon NanoLabs, uma empresa especializada em fenotipagem de DNA.

Um memorial à beira da estrada assinala o local onde foi descoberto o corpo de Sierra Bouzigard, há sete anos, no Louisiana (EUA). Não há testemunhas do homicídio e o DNA encontrado sob as suas unhas não correspondeu ao de nenhum suspeito. O detective Les Blanchard (aqui revisitando o local) tem esperança de que uma nova técnica forense ajude a resolver este caso arquivado.

Nesse momento, a investigação deu uma reviravolta inesperada. Com base nas provas disponíveis, os detectives ainda suspeitavam de que o assassino seria provavelmente hispânico – talvez membro do grupo mexicano que fugira da zona após o crime. No entanto, o retrato gerado pela Parabon através do DNA aparentava pele pálida e sardas. Era um indivíduo do sexo masculino com cabelo castanho e olhos possivelmente verdes ou azuis. Segundo a análise, os seus antepassados seriam originários do Norte da Europa.

“Tivemos de dar um passo atrás e reconhecer que, durante todo aquele tempo, nem sequer estivéramos a olhar na direcção certa”, conta Tony Mancuso. Munido destas novas provas, o agente mostra-se agora optimista. “Mais cedo ou mais tarde, vamos conseguir resolver este caso porque temos uma excelente amostra de DNA e agora temos este perfil”, afirma. “Sabemos como é o assassino. Só não sabemos quem é o assassino.”

Denominada fenotipagem de DNA, esta técnica permite apurar a aparência física da pessoa que deixou a amostra, incluindo características como a ancestralidade geográfica, a cor dos olhos, a cor natural do cabelo e até um possível formato fisionómico.

A fenotipagem de DNA é um elemento relativamente novo na ciência forense e alguns críticos questionam a sua utilidade. As composições faciais geradas pela fenotipagem são previsões com base na genética, não são fotografias. Muitos aspectos da aparência de uma pessoa (por exemplo, se tem barba ou cabelo pintado) não estão codificados no DNA e, por consequência, não podem jamais ser obtidos através dele. Apesar disso, a Parabon, que chamou Snapshot ao seu serviço de composição facial, tem mais de quarenta instituições ligadas à luta contra o crime entre os seus clientes. Na sua empresa de cuidados de saúde personalizados, a Human Longevity, o pioneiro do genoma humano Craig Venter está também a investigar a reconstituição facial a partir do DNA, como acontece com vários laboratórios académicos.

Entretanto, outros métodos de alta tecnologia forense têm vindo a entrar em cena. O equipamento de TAC permite aos médicos realizar autópsias virtuais, espreitando para o interior dos corpos em busca de sinais de homicídios não detectados pelas autópsias convencionais. Os investigadores estão a estudar se as bactérias presentes nos cadáveres podem fornecer um relógio mais exacto para estimar a hora da morte. E estão até a investigar se os culpados podem ser identificados não só pelo DNA deixado no local do crime, mas também pela assinatura microbiana das bactérias que deixaram atrás de si.

As unhas de uma vítima talvez revelem DNA de tecidos retido sob elas e, por sua vez, talvez exista correspondência com a base de dados de DNA. Uma nova técnica conhecida como fenotipagem de DNA permite reveler a cor da pele, olhos e cabelo do aggressor ou mesmo sugerir os contornos de um rosto.

As técnicas forenses com que nos familiarizámos a partir de filmes e séries televisivas como “CSI” têm um historial muito mais antigo. Em 1910, Thomas Jennings tornou-se o primeiro cidadão dos EUA condenado por homicídio essencialmente com base em impressões digitais. Fora acusado de alvejar Clarence Hiller durante um assalto mal organizado. O culpado deixara as suas impressões no parapeito pintado de fresco de uma janela e a argumentação conducente ao veredicto de culpado e à sua condenação à morte baseou-se quase exclusivamente nos depoimentos de quatro peritos em impressões digitais. Na resposta ao seu recurso, um tribunal superior apontou o longo passado da utilização de impressões digitais para identificação – os faraós utilizavam impressões digitais como assinaturas, afirmaram – e o “grande sucesso do sistema em Inglaterra, onde era utilizado desde 1891 em milhares de casos e sem erro”. O tribunal advertiu que, uma vez que tais provas pertenciam a um domínio para lá do alcance da experiência da pessoa comum, deveriam ser apresentadas por peritos capazes de explicá-las ao júri. O veredicto manteve-se e Thomas Jennings foi enforcado.

No fim do século XX, os tribunais recorriam a um leque numeroso de técnicas de investigação. Analistas do FBI apresentavam depoimentos onde comparavam cabelos encontrados num local de crime com cabelos de suspeitos. Os peritos em análise capilar observam a forma das escamas microscópicas que revestem os cabelos, a sua grossura e cor e a organização dos grânulos de pigmento que contêm, entre outras características.

No fim do século XX, os tribunais recorriam a um leque numeroso de técnicas de investigação. Analistas do FBI apresentavam depoimentos onde comparavam cabelos encontrados num local de crime com cabelos de suspeitos. Os peritos em análise capilar observam a forma das escamas microscópicas que revestem os cabelos, a sua grossura e cor e a organização dos grânulos de pigmento que contêm, entre outras características. A análise de marcas de mordedura, em que peritos comparam o padrão deixado por uma dentada numa vítima com os dentes do suspeito, foi amplamente adoptada em inícios da década de 1970. Outras comparações visuais – como marcas de pneus, marcas de pegadas e padrões em cartuchos de balas – também evoluíram, deixando de ser pistas utilizadas pelos agentes da lei para identificar suspeitos e passando a provas de culpa apresentadas em tribunal. Em milhares de casos, os juízes incumbidos de decidir se as provas eram, ou não, fiáveis basearam-se em precedentes para permitir a admissão desses resultados forenses em tribunal. Especialistas com anos de experiência testemunharam com convicção.

O crânio de um homem assasinado forneceu poucas pistas sobre a sua identidade, quando foi encontrado nnum contentor de lixo em Maryland, em 1985. O Parabom NanoLabs conseguiu recriar o rosto da vítima recorrendo à fenotipagem de DNA e combinando-a com pormenores essenciais do crânio. A polícia espera que alguém recinheça a imagem composta.

No entanto, ao longo da última década, foi sugerido que muitas metodologias forenses oferecem menos certezas do que as séries televisivas antecipam. E quando as provas forenses são exacerbadas em tribunal, pessoas inocentes vão parar à prisão… ou pior.

Em 1981, uma mulher de Washington, D.C. foi atacada no seu apartamento. Mais tarde, colaborou com um desenhador que trabalhava com as forças policiais para criar um retrato-robot do seu agressor. Cerca de um mês mais tarde, um agente mencionou aos detectives o nome de Kirk Odom, de 18 anos, que, na sua opinião, parecia-se com o desenho. A mãe de Odom testemunhou que ele estivera em casa. A vítima escolheu a fotografia de Odom a partir de um conjunto de fotografias e depois identificou-o quando viu vários suspeitos alinhados à sua frente. Subsequentemente, um analista do FBI testemunhou que o cabelo de Odom era, em termos microscópicos, indistinguível de um só cabelo encontrado na camisa de noite da vítima, contribuindo para encerrar o caso. Odom passou 22 anos na prisão e oito anos em liberdade condicional como agressor sexual antes de o Serviço de Defensores Públicos da capital avaliar provas que confirmaram a sua inocência.

Em 1992, Cameron Todd Willingham foi acusado de atear um incêndio na sua casa de Corsicana, no estado do Texas. O fogo encurralou as suas três filhas pequenas. Investigadores especializados em incêndios interpretaram padrões de queimadura no soalho da casa e aquilo que pareciam múltiplos locais de deflagração do fogo como indicadores de um fogo intencionalmente posto com recurso a gasolina. Em 2011, o estado do Texas concluiu que a interpretação das provas do caso tinha falhas fatais. Porém, Cameron fora executado sete anos antes.

Mark Odom foi condenado por violação depois de um perito testemunhar  que um cabelo encontrado na camisa de noite da vítima correspondia ao seu. Passou mais de 22 anos na prisão e oito em Liberdade condicional até os testes de DNA identificarem o verdadeiro culpado. O FBI está agora a rever centenas de outros casos nos quais o valor da análise capilar possa ter sido exacerbado.

E depois há ainda o caso de Brandon Mayfield, advogado de Oregon, detido pelo FBI no seu escritório em Maio de 2004. As suas impressões digitais tinham aparecido numa pesquisa do sistema Integrated Automated Fingerprint Identification. Examinadas por agentes especializados do FBI, concluiu-se que existia correspondência entre elas e impressões encontradas num recipiente de plástico contendo materiais utilizados nos atentados terroristas de Madrid de 2004, que mataram 191 pessoas. As autoridades espanholas, porém, não concordaram. Duas semanas após a detenção do advogado, comunicaram-lhe que tinham encontrado a sua própria correspondência para as impressões digitais – um homem argelino, ainda a monte, actualmente considerado um dos principais responsáveis pelo planeamento dos ataques terroristas.

Estas histórias têm em comum o seguinte facto: em todas recorreu-se a métodos e interpretações que envolvem mais técnica do que ciência. A importância da análise capilar, por exemplo, tem sido bastante sobrestimada. O FBI reconhece que os seus analistas prestaram declarações erróneas em mais de 90% dos casos de comparação de cabelos ao microscópio que analisaram.

As provas referentes a fogo posto também estão a ser questionadas. Durante muitos anos, os investigadores examinaram padrões em janelas nos locais de incêndio. Examinavam se um parapeito metálico tinha derretido ou se um piso de betão fragmentara com o calor. Se as temperaturas fossem suficientemente altas para causar tais danos, estes seriam considerados provas de que uma substância inflamável fora utilizada para atear o fogo. No entanto, segundo o investigador John Lentini, co-autor de um relatório encomendado sobre o caso Cameron Willingham, esses pressupostos estão ultrapassados.

Investigações posteriores demonstraram que, muito mais do que o catalisador do incêndio, é a ventilação que determina a temperatura e a velocidade de um fogo. 

“Havia a teoria de que, passado um curto espaço de tempo, um incêndio deflagrado com gasolina liberta muito mais calor do que um que só consuma madeira”, afirma John Lentini. “Consequentemente, a temperatura das chamas deve ser mais alta, certo? Errado!” Investigações posteriores demonstraram que, muito mais do que o catalisador do incêndio, é a ventilação que determina a temperatura e a velocidade de um fogo.

Até a fiabilidade das impressões digitais como prova tem sido questionada. Embora os computadores façam um bom trabalho na correspondência de impressões digitais recolhidas com tinta ou digitalizadas electronicamente, continuam a não ser tão bons como o olho humano no que diz respeito à comparação de impressões latentes com as de um suspeito. E uma vez que as impressões latentes são frequentemente distorcidas ou manchadas, as correspondências acabam por depender da avaliação de peritos que, por mais qualificados que sejam, fornecem opiniões subjectivas. Um estudo concluiu que os examinadores chegavam por vezes a conclusões diferentes em relação à mesma impressão digital se lhes fosse dito que a impressão provinha de um suspeito que tinha confessado o crime ou que estava detido. No caso de Brandon Mayfield, um relatório federal revelou que os analistas se convenceram de semelhanças que não existiam.

Em 2009, a Academia Norte-Americana de Ciências (NAS, na sigla original) publicou um relatório crítico, questionando a validade científica de muitos componentes da investigação forense. 

Em 2009, a Academia Norte-Americana de Ciências (NAS, na sigla original) publicou um relatório crítico, questionando a validade científica de muitos componentes da investigação forense. Concluiu que, com uma excepção, nenhum método forense pode ser fiável com elevado grau de certeza para “demonstrar uma ligação entre provas e um indivíduo ou fonte específicos”.

Não é por acaso que a única metodologia forense considerada válida pelo relatório da NAS tenha sido desenvolvida pelo cientista de um laboratório universitário e não pelas forças de aplicação da lei para auxiliar na investigação de crimes. Em 1984, o geneticista britânico Alec 
Jeffreys tropeçou numa verdade surpreendente: conseguia distinguir as pessoas da sua experiência unicamente pelos padrões presentes em secções fraccionadas no seu DNA: o código genético que todos herdamos dos nossos pais.

O problema dos dentes - Um dentista testemunhou que as possibilidades de uma marca de mordedura no braço de uma vítima pertencer a outra pessoa para além de Steven Mark Chaney (em baixo) eram de uma num milhão e ele foi condenado em 1987. Contudo, existe pouca ciência na validação das marcas de mordedura. Num estudo, 30 dentistas analisaram marcas criadas por um Bite-o-matic, utilizando pele de porco como substitute de carne humana. Até os mais experientes cometem erros. Steven foi libertado em Outubro de 2015, depois de o teste de mordedura ter sido considerado nulo.

A descoberta de Jeffreys constituiu a base da primeira geração de testes de DNA. Três anos mais tarde, o laboratório processou o DNA de um indivíduo com 17 anos, suspeito da violação e homicídio de duas raparigas adolescentes no centro de Inglaterra e concluiu que não correspondia ao DNA do sémen encontrado nas vítimas. Assim, a primeira utilização de DNA num caso criminal não resultou numa condenação, mas numa ilibação. O verdadeiro assassino confessou mais tarde, depois de tentar escapar à acção de recolha de DNA de um grupo de homens da região.

Outros testes, mais sensíveis, não tardaram a estar disponíveis e, em 1997, o FBI recorria a um teste que examinava 13 pontos do genoma onde ocorriam repetições no código de DNA. As probabilidades de duas pessoas não aparentadas exibirem os mesmos 13 padrões eram uma em pelo menos centenas de milhares de milhões. Foram estes padrões que vieram a servir de alicerce para a base de dados CODIS do FBI. Na década de 1990, os perfis de DNA eram amplamente utilizados em casos de tribunal em todo o mundo.

Outros testes, mais sensíveis, não tardaram a estar disponíveis e, em 1997, o FBI recorria a um teste que examinava 13 pontos do genoma onde ocorriam repetições no código de DNA. As probabilidades de duas pessoas não aparentadas exibirem os mesmos 13 padrões eram uma em pelo menos centenas de milhares de milhões. 

As provas de DNA podem ser comprometidas por contaminação de DNA estranho em qualquer ponto da cadeia de custódia, desde o local do crime ao laboratório onde a amostra é sequenciada. Um sinal robusto proveniente de sémen, saliva ou tecido pode diminuir a probabilidade de um falso positivo para quase zero, mas quantidades vestigiais de DNA deixadas num objecto manuseado por um suspeito podem fornecer resultados muito menos exactos. E uma sequência de DNA obtida num laboratório será tão boa quanto a formação da pessoa responsável pela análise. Em Abril de 2015, a realização de análises de DNA efectuadas no laboratório criminal de Washington foi suspensa durante dez meses e mais de cem dos casos tratados foram revistos depois de uma comissão concluir que os analistas “não eram competentes” e utilizavam “procedimentos 
inadequados”.

Numa “quinta de cadavers”, a entomóloga forense Sibyl Bucheli estuda o número e tipo de insectos que infestam um corpo de um homem em decomposição para determiner a hora da morte. Os cientistas estão agora a investigar a forma como as alterações nas bactérias podem fornecer pistas mais rigorosas sobre o momento em que um indivíduo morreu.

Passaram sete anos desde que o relatório da Academia Norte-Americana das Ciências pediu uma revisão total da ciência forense. Segundo fontes da administração pública, é improvável que algumas das suas recomendações – como a criação de um Instituto Nacional de Ciências Forenses, por exemplo – venham a ser aprovadas, por motivos financeiros. Outras, como o reforço da investigação para determinar a fiabilidade do uso de impressões digitais, marcas de mordedura e outros padrões para identificação de indivíduos, estão em curso.

Em 2012, o governo federal publicou novas directrizes para uma metodologia de análise de impressões digitais com o objectivo de evitar possibilidades de erro. 

“Já podemos observar os rudimentos de algumas mudanças importantes nas provas provenientes de impressões digitais”, comenta Jennifer Mnookin, da Faculdade de Direito da UCLA. Em 2012, o governo federal publicou novas directrizes para uma metodologia de análise de impressões digitais com o objectivo de evitar possibilidades de erro. Alguns peritos em impressões digitais afirmam estar no meio de uma mudança de paradigma, afastando-se do duradouro protocolo profissional vigente que exigia aos analistas de impressões digitais apresentarem as suas opiniões em tribunal com certeza absoluta. Em vez disso, estes peritos defendem agora que deveriam poder apresentar as suas conclusões em intervalos de probabilidade, como fazem os peritos em DNA.

Cedric Neumann, professor de estatística na Universidade Estadual do Dakota do Sul e especialista em impressões digitais, está entre os defensores da implementação de uma forma mais adequada para os analistas exprimirem incerteza nos seus resultados. Neumann e outros esperam igualmente desenvolver uma forma mais objectiva de examinar os laços, arcos e espirais utilizados para comparar impressões digitais.

O desenvolvimento de tais normas é essencial para tornar a ciência forense… científica. O Instituto Norte-Americano de Normas e Tecnologia (NIST) está a contribuir para a elaboração de uma lista de boas práticas na calibragem de instrumentos, de processos recomendados para utilização na comparação de impressões digitais e de métodos de interpretação de cartuchos de bala, resultados de tipologias de DNA e análises toxicológicas, além de muitos outros dados. “Um dia existirá um registo de normas que servirá de bitola”, afirma John Butler, químico analista e assistente especial do director de ciência forense do NIST. “Agora não existe nada.”

Ciência forense, agora com mais ciência - Um relatório da Academia Norte-Americana de Ciências criticou em 2009 a investigação de fogo posto e a análise de impressões digitais, argumentando que eram mais técnicas do que ciência. No topo, um laboratório especializado em análise de incêndios queima um quarto para recolher dados sobre calor, fumo e gases libertados pelo fogo. E estão a ser desenvolvidos novos protocolos de identificação de impressões digitais. Em baixo, Sylvia Buffington-Lester, perita em impressões digitais há 45 anos, diz que se deve estudar as impressões recolhidas no local do crime antes de analisar as impressões de um suspeito: “Se começarmos com uma impressão perfeita, somos influenciados.”

Mesmo quando a bitola estiver fixada, porém, o NIST não pode obrigar os laboratórios a cumprirem as suas directrizes. É provável que os laboratórios capazes de demonstrar capacidade para cumprir as normas de procedimento sejam elegíveis para acreditação – um processo de certificação opcional realizado por terceiros.

Actualmente, mais de 80% dos laboratórios forenses possuem uma acreditação genérica, que certifica os requisitos elementares de boas práticas. No entanto, muito trabalho forense é feito fora dos laboratórios, nas unidades forenses dos departamentos de polícia. Já este ano, um levantamento examinou mais de mil serviços forenses, incluindo laboratórios e departamentos de polícia e os autores concluíram que mais de 70% não possuíam acreditação genérica.

Outro obstáculo, segundo Jennifer Mnookin, é o facto de os juízes, guardiões dos tribunais, continuarem a admitir provas forenses questionáveis – incluindo análises a cabelos e marcas de mordedura.

Outro obstáculo, segundo Jennifer Mnookin, é o facto de os juízes, guardiões dos tribunais, continuarem a admitir provas forenses questionáveis – incluindo análises a cabelos e marcas de mordedura. Enquanto estes testemunhos continuarem a ser admitidos em tribunal, há poucos incentivos para os peritos forenses fazerem alterações substanciais. “Os juízes não levaram realmente a sério a necessidade de estabelecer a validade e de acertar determinada taxa de erro”, diz. “Em grande medida, o sistema judiciário tem adiado essa matéria.”

Embora o ritmo da mudança seja lento, existem sinais de esperança. Em Fevereiro deste ano, a Comissão de Ciências Forenses do Texas foi a primeira dos EUA a recomendar uma moratória à utilização de marcas de mordedura como prova admissível em tribunal até a sua validade ser confirmada. A decisão foi em parte instigada pela libertação, no Outono, de Steven Mark Chaney, um texano que cumprira 28 anos de prisão após uma condenação por homicídio que se baseara em provas de marcas de mordedura, entretanto anuladas por serem consideradas cientificamente inválidas.

Com as técnicas forenses tradicionais sob escrutínio, conseguirá uma nova técnica, como a fenotipagem de DNA, oferecer mais esperança ou será mais uma fonte de incerteza?

No dia 1 de Setembro de 2015, o gabinete do xerife de Lake Charles, no estado de Louisiana, entregou à comunicação social um esboço de um indivíduo do sexo masculino, branco, suspeito do homicídio de Sierra Bouzigard. A imagem (ver páginas 8-9) exprime o grau da aparência de uma pessoa que pode ser inferido a partir do DNA, mas há aspectos que não podem. O rosto é estranhamente desprovido de personalidade ou afecto. Nada escondido nos olhos sugere uma infância problemática, não há nenhum esgar nos lábios carnudos que possa denunciar um pendor para a maldade ou desprezo pela lei. Poderia ser o nosso primo em segundo grau, o senhor da mercearia. Ou poderia ser o homem que espancou uma mulher até à morte em 2009.

O caso Bouzigard não é o primeiro em que a fenotipagem de DNA veio em auxílio de uma investigação criminal. Uma forma mais rudimentar da tecnologia, utilizando DNA para identificar apenas a ancestralidade geográfica de um suspeito, foi instrumental para a captura de um assassino em série no Louisiana em 2003. À semelhança do que sucedeu no caso Bouzigard, a polícia procurava alguém com determinada ancestralidade e o perfil de DNA indicou que a busca apontava para o segmento errado da população.

Os seres humanos oriundos da Ásia Oriental e da Europa têm por norma pele pálida, mas isso resulta de influências genéticas subjacentes. A pele pálida dos europeus está associada a uma versão específica de um gene, o SLC24A5. Quase todos os europeus têm duas cópias dessa versão do gene.

Esta técnica acrescenta características físicas com raízes genéticas conhecidas aos perfis de ancestralidade. Os seres humanos oriundos da Ásia Oriental e da Europa têm por norma pele pálida, mas isso resulta de influências genéticas subjacentes. A pele pálida dos europeus está associada a uma versão específica de um gene, o SLC24A5. Quase todos os europeus têm duas cópias dessa versão do gene. Os não-europeus que possuem uma das cópias da versão têm a pele mais clara do que os que não possuem nenhuma. “Consigo sentar-me numa sala com norte-americanos de ascendência africana e indicar-lhe, com bastante rigor, qual deles possui este gene”, afirma Mark Shriver, professor de antropologia biológica na Pensilvânia.

Além de identificarem versões de genes conhecidos pela codificação de certas características, os criadores de um fenótipo de DNA podem procurar variações minúsculas, denominadas polimorfismos num único nucleótido (SNP), dispersas ao longo do genoma. Sabe-se que os polimorfismos estão associados a características físicas.

É pedido aos voluntários que preencham questionários sobre a sua aparência, incluindo pormenores como a existência de sardas. 

Investigadores da Parabon e da Venter’s Human Longevity utilizam enormes bases de dados informáticas para procurar ligações entre um padrão de SNP e a fisionomia de uma pessoa. É pedido aos voluntários que preencham questionários sobre a sua aparência, incluindo pormenores como a existência de sardas. Depois, uma amostra do DNA de cada voluntário é verificada em milhões de pontos onde se conhece a ocorrência de SNP. Um digitalizador 3D regista a fisionomia do voluntário para criar uma imagem computorizada do rosto. Algoritmos informáticos procuram então, nos exames 3D do mesmo indivíduo, ligações entre padrões específicos de SNP com características salientes, como os maxilares ou o formato do nariz – uma análise exaustiva dos dados pode demorar semanas, exigindo processamento em centenas de computadores. As correlações encontradas entre padrões de SNP e características conhecidas podem então ser utilizadas para, através de um processo de engenharia inversa, criar um rosto a partir de uma amostra de DNA de um indivíduo desconhecido, como o assassino cujo tecido foi encontrado sob as unhas de Bouzigard.

Num cenário de treino do FBI, um investigador forense aprende a utilizer lasers para melhor avaliar o trajecto das balas e reconstruir tiroteios. Segundo os peritos, uma formação rigorosa e a utilização de métodos cientificamente provados são necessárias para colocar a ciência forense no caminho certo.

Como é evidente, o problema está no grau de parecença entre esse rosto e o da pessoa que forneceu o DNA a partir do qual foi elaborado, excluindo outras pessoas, mesmo aquelas com ancestralidade geográfica semelhante. Em teoria, quanto mais pessoas de etnias e fisionomias diferentes contribuírem para a base de dados de DNA, melhor esta será na previsão dos rostos de suspeitos de crime. Até à data, tem faltado uma prova clara de que os modelos construídos a partir de uma base de dados, mesmo com vários milhares de pessoas, possam gerar uma imagem exacta de alguém que não conste dessa base de dados, explica Manfred Kayser, professor na Universidade Erasmo de Roterdão que desenvolveu um teste que prevê a cor dos olhos e do cabelo a partir do DNA. “A questão essencial é que tudo o que fazem tem de ser validado e reproduzido”, diz.

Steven Armentrout, director-geral da Parabon, diz que a clareza sobre a melhor maneira de utilizar as reconstituições faciais da empresa é fundamental: não para identificar um suspeito em particular, mas para eliminar outros que não se assemelhem claramente à imagem, começando por pessoas que evidentemente não correspondem, como os trabalhadores mexicanos no caso Bouzigard. “No futuro, isto será feito no início da investigação”, explica ele. “Comprovando quem deve ou não figurar na lista de suspeitos.”

À medida que o leque de suspeitos for diminuindo, o DNA de um suspeito não excluído pelo Parabon Snapshot poderá ser testado e comparado com a amostra deixada no local do crime. E a fenotipagem da Parabon não se destina a identificar indivíduos específicos.

À medida que o leque de suspeitos for diminuindo, o DNA de um suspeito não excluído pelo Parabon Snapshot poderá ser testado e comparado com a amostra deixada no local do crime. E a fenotipagem da Parabon não se destina a identificar indivíduos específicos. “As novas tecnologias estão apenas a tornar o processo da aplicação da lei mais eficiente”, diz Steven Armentrout.

Les Blanchard, o detective de Lake Charles que espera resolver o homicídio de Sierra Bouzigard, conta que recebeu várias informações desde que divulgou publicamente o Parabon Snapshot em Setembro de 2015. À data desta reportagem, ainda não tinham sido encontradas correspondências.  

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar