A química da arte rupestre

 Na gruta do Escoural, no Alentejo, onde o estudo da arte rupestre começou em Portugal, uma equipa de cientistas e arqueólogos procura extrair mais informação sobre a identidade dos artistas que produziram as enigmáticas gravuras e pinturas do Paleolítico.

Texto e fotografia António Luís Campos

Guilhem Mauran e Cátia Salvador procedem à recolha de amostras de uma colónia que alastra numa das zonas mais remotas da gruta do Escoural. Estas serão posteriormente estudadas em laboratório, usando uma metodologia molecular inovadora: a sequenciação do DNA metagenómico.

Na paisagem luxuriante do Alentejo primaveril, uma porta maciça de aço negro marca a fronteira com outro mundo, subterrâneo e longe do olhar comum. Pela mão de um profundo conhecedor do local, o arqueólogo António Carlos Silva, penetramos na Gruta do Escoural, um dos mais exuberantes locais de pintura rupestre em Portugal. 

Lentamente, as pupilas adaptam-se à iluminação delicada, e um extravagante espectáculo de cor e formas desvenda-se à nossa frente. Ao longo de milénios, este cenário deve ter sido magnético para os seres humanos. Os visitantes modernos, porém, são mais prosaicos. São cientistas que entram aqui de bata e capacete de espeleólogo para estudarem este espaço tão especial. É a primeira vez que se fazem estudos dos pigmentos utilizados em pintura rupestre em Portugal, com equipamentos revolucionários e não invasivos. Com este projecto experimental, a equipa do laboratório HERCULES da Universidade de Évora procura ampliar o conhecimento sobre a ocupação da gruta ao longo dos tempos, testando abordagens complementares à arqueologia tradicional. 

O arqueólogo António Carlos Silva auxilia a equipa de cientistas neste estudo experimental de pinturas rupestres, o primeiro em Portugal com recurso a um espectrómetro de fluorescência de raios X. 

 Integrada no projecto HIT3CH, que busca criar pontes entre a ciência e a comunidade, esta campanha científica multidisciplinar debruça-se igualmente sobre a biodiversidade da gruta, analisando bactérias, fungos e outros microrganismos e tentando perceber se estes estarão a colonizar e a deteriorar as pinturas e que acções de conservação poderão ser desenvolvidas, com vista à sua preservação. 

O estudo de um ambiente como este procura entreabrir uma janela de conhecimento para um habitat onde as perguntas superam as respostas. Aliás, a equipa não esconde a vontade de testar novas soluções para aplicação prática em ramos como a indústria ou conservação de património, como aliás já o fez no passado, ao desenvolver um bactericida natural.

O estudo de um ambiente como este procura entreabrir uma janela de conhecimento para um habitat onde as perguntas superam as respostas.

No interior da gruta, António Carlos Silva faz o enquadramento histórico do sítio arqueológico, que herdou o nome da aldeia mais próxima, Santiago do Escoural. Apoiado em posição acrobática no passadiço de madeira, com um equipamento em punho que se assemelha a uma grande “pistola” (um espectrómetro de fluorescência de raios X), o arqueólogo aponta a uma figura zoomórfica complexa, a primeira pintura identificada no monumento. “A gruta foi descoberta em 1963 durante trabalhos numa pedreira vizinha. Só mais tarde, pela primeira vez em Portugal, foram identificadas pinturas e gravuras rupestres do Paleolítico Superior, pelo arqueólogo Farinha dos Santos”, diz. 

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