Como vemos a luz

Texto Ed Yong   Fotografias David Liittschwager

O manto da vieira está dotado de quase uma centena de olhos azuis brilhantes. Cada um contém uma camada espelhada que funciona como lente de focagem e duplica as possibilidades de captação de luz.

Para que servem os olhos dos animais? Para muitos, eles têm a mesma função dos olhos humanos.

Mas não é verdade. Não é mesmo verdade.

No seu laboratório da Universidade de Lund, na Suécia, Dan-Eric Nilsson contempla os olhos de um cubozoário. Os olhos de Dan-Eric são azul-claros e, claro, estão virados para a frente. Já o cubozoário possui 24 olhos castanho-escuros e agrupados em quatro aglomerados, os ropálios. No seu gabinete, o investigador mostra-me o modelo de um deles: parece uma bola de golfe na qual cresceram tumores. Uma haste flexível fixa-o ao cubozoário.

“Quando os vi pela primeira vez, nem acreditei”, comenta ele. “São mesmo estranhos.”

Quatro dos seis olhos existentes em cada ropálio são simples ranhuras e cavidades detectoras de luz. As outras duas, porém, são surpreendentemente sofisticadas. À semelhança dos olhos humanos, possuem lentes que focam a luz e processam imagens, mas em baixa resolução.

Com a ajuda dos olhos, a massa acéfala consegue encontrar alimento, evitar obstáculos e sobreviver.

Entre outras funções, Dan-Eric Nilsson utiliza os olhos para reunir informação sobre a diversidade da visão animal. Mas como interpretar aquela alforreca? É um dos animais mais simples do planeta: uma massa gelatinosa e pulsante que arrasta quatro conjuntos de tentáculos urticantes. Nem sequer possui um cérebro digno desse nome, apenas um anel de neurónios circundando a sua campânula. Que informação poderia fazer-lhe falta?

Em 2007, Dan-Eric e a sua equipa demonstraram que o cubozoário da espécie Tripedalia cystophora utiliza os seus olhos inferiores, equipados com cristalinos, para detectar obstáculos nas proximidades, como as raízes de mangue no meio das quais nada. Demoraram mais quatro anos a descobrir a utilidade dos olhos superiores. O primeiro grande indício foi um peso livre que existe no sector inferior do ropálio, destinado a assegurar que o olho superior está sempre apontado para cima. Se este olho detectar manchas escuras, a alforreca sente que está a nadar sob o mangue, onde poderá encontrar os pequenos crustáceos de que se alimenta. Se só vir luz intensa, é sinal de que se desviou para mar alto e arrisca-se a passar fome. Com a ajuda dos olhos, a massa acéfala consegue encontrar alimento, evitar obstáculos e sobreviver.

 

São olhos com lentes bifocais, olhos com espelhos e olhos que espreitam para cima, para baixo e para os lados em simultâneo.

Os olhos do cubozoário fazem parte de uma variedade quase interminável de olhos do reino animal. Alguns vêem apenas a preto e branco, outros são capazes de apreciar um arco-íris completo, incluindo espectros de luz invisíveis aos nossos olhos. Alguns não conseguem sequer perceber a direcção de onde provém a luz, mas outros conseguem detectar presas em fuga a quilómetros de distância. Os mais pequenos olhos de animais estão implantados na cabeça das vespas da espécie Gonatocerus ashmeadi: são pouco maiores do que uma amiba. Em contrapartida, os maiores são do tamanho de pratos e pertencem a espécies de lulas gigantes. À semelhança dos nossos, o olho da lula funciona como uma câmara, com um cristalino que foca a luz numa única retina repleta de fotorreceptores, as células que absorvem fotões e convertem a energia num sinal eléctrico. Pelo contrário, o olho composto de uma mosca divide a luz recebida em milhares de unidades separadas, cada qual munida de um cristalino e fotorreceptores próprios. Os olhos do ser humano, da mosca e da lula existem aos pares na cabeça dos seus donos. Mas as vieiras têm filas de olhos dispostos ao longo dos seus mantos, as estrelas-do-mar possuem olhos na extremidade dos braços e todo o corpo do ouriço-do-mar funciona como um único olho gigante. São olhos com lentes bifocais, olhos com espelhos e olhos que espreitam para cima, para baixo e para os lados em simultâneo.

De certo modo, esta diversidade é intrigante. Todos os olhos detectam luz e a luz comporta-se de forma previsível. No entanto, tem uma multiplicidade de usos. A luz revela a altura do dia, a profundidade da água e a presença de sombra.

É reflectida pelos inimigos, pelos companheiros e pelos locais de abrigo. O cubozoário utiliza-a para encontrar pastagens seguras. Nós utilizamo-la para investigar paisagens, interpretar expressões faciais e ler estas palavras. A variedade de tarefas que os olhos desempenham só é limitada pela fecundidade da natureza. Para compreender a maneira como os olhos evoluíram, a comunidade científica precisa de fazer mais do que examinar estruturas. Terá de compreender como os animais utilizam os seus olhos.

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