Vontade de mudança

Texto  Robert Kunzig   Fotografias  Luca Locatelli

Hamburgo sabia que as bombas estavam a chegar e, por isso, os prisioneiros de guerra e os condenados a trabalhos forçados tiveram apenas meio ano para construir um gigantesco abrigo defendido por artilharia antiaérea. Em Julho de 1943, a construção ficou completa. Um cubo de betão reforçado, sem janelas, com paredes de dois metros de espessura e um telhado ainda mais grosso, erguia-se como um castelo medieval sobre um parque junto do rio Elba. De acordo com o projecto nazi, as peças de artilharia que espreitavam dos seus quatro torreões eliminariam os bombardeiros aliados dos céus, ao mesmo tempo que dezenas de milhares de cidadãos encontrariam abrigo nas suas muralhas inexpugnáveis.

Aproximando-se durante a noite, vindos do mar do Norte, poucas semanas depois de terminar a construção do abrigo, os bombardeiros britânicos apontaram ao pináculo de São Nicolau, despejando fitas de folha metálica para despistar os radares e os operadores de artilharia antiaérea. Definindo como alvo os bairros residenciais populosos, os bombardeiros desencadearam um incêndio imparável que destruiu metade de Hamburgo e matou mais de 34 mil pessoas.

O pináculo de São Nicolau, que conseguiu resistir não se sabe bem como, ergue-se hoje como um memorial que recorda à Alemanha o inferno da guerra. O abrigo antiaéreo também. Mas agora tem outro significado: deixou de ser uma lembrança do passado da Alemanha para se transformar numa visão esperançosa do futuro.

A Alemanha é pioneira de uma transformação a que chama Energiewende, a revolução que, segundo os cientistas, todos os países precisam de levar a efeito para evitar uma catástrofe climática.

No espaço central do abrigo, um reservatório de água com seis andares e capacidade para dois milhões de litros de água fornece calor e água quente a cerca de 800 agregados familiares na vizinhança. A água é aquecida por combustão de gás obtido a partir do tratamento de águas residuais, do calor residual de uma fábrica nas proximidades e por painéis solares. O abrigo também transforma luz solar em energia eléctrica: uma estrutura de painéis fotovoltaicos (FV) montada na fachada meridional fornece electricidade suficiente à rede para abastecer um milhar de lares. No parapeito norte, do qual os artilheiros avistaram outrora as chamas que se erguiam do centro da cidade, uma esplanada ao ar livre proporciona um panorama do horizonte modificado – agora marcado por 17 turbinas eólicas.

A Alemanha é pioneira de uma transformação a que chama Energiewende, a revolução que, segundo os cientistas, todos os países precisam de levar a efeito para evitar uma catástrofe climática.

A Alemanha lidera este processo entre os grandes países industriais. No ano passado, cerca de 27% da sua electricidade foi gerada a partir de fontes renováveis, como a energia eólica e solar.
O valor é três vezes superior ao da década passada. As mudanças aceleraram após o acidente de 2011 na central nuclear de Fukushima no Japão, que levou Angela Merkel a anunciar que a Alemanha encerraria os seus 17 reactores até 2022. Nove já foram desactivados e as energias renováveis compensaram a produção desactivada.

No entanto, o carácter exemplar da experiência alemã encontra-se na demonstração de que é possível abandonar os combustíveis fósseis. Segundo a comunidade científica, até ao fim deste século as emissões de carbono responsáveis pelo aquecimento do planeta teriam de reduzir-se a praticamente zero. A Alemanha, quarta maior potência económica mundial, tem prometido alguns dos cortes de emissões mais radicais – até 2020, um corte de 40% relativamente aos níveis de 1990, e até 2050 pelo menos 80%.

Neste momento, o destino dessas promessas pende por um fio. A revolução nasceu de um movimento de base: os cidadãos e as associações cívicas fizeram metade do investimento em renováveis, mas as empresas convencionais, que não se aperceberam da génese da revolução, estão a pressionar o governo para abrandar a mudança. O país ainda gera mais electricidade a partir do carvão do que das renováveis. E a Energiewende tem um caminho mais longo a percorrer nos sectores dos transportes e do aquecimento, responsáveis pela emissão de mais dióxido de carbono do que as centrais electroprodutoras.

A Energiewende continuará a exigir a participação de todos os cidadãos. Mais de 1,5 milhões, quase 2% da população, já estão a vender electricidade à rede. “Trata-se de um projecto para uma geração: vai prolongar-se até 2040 ou 2050 e implicará dificuldades”, disse Gerd Rosenkranz, analista num grupo de reflexão sediado em Berlim. “Vai tornar a electricidade mais cara para os consumidores, mas, nas sondagens, 90% do público reconhece que quer a Energiewende.”

Por que motivo o futuro da energia está a jogar--se aqui, num país que há 70 anos estava devastado? E será que pode acontecer em todo o lado?

Segundo um mito sobre as suas origens, os alemães vieram do coração escuro da floresta. Esse mito foi contado pelo historiador romano Tácito, que escreveu sobre o massacre das legiões romanas pelas hordas teutónicas, e foi embelezado pelos românticos alemães do século XIX. A floresta tornou-se o lugar onde os alemães se dirigem quando querem retemperar a alma, um hábito que os predispõe a preocuparem-se com o ambiente.

Por isso, em finais da década de 1970, quando as emissões geradas pelos combustíveis fósseis e a chuva ácida mataram florestas alemãs, a indignação generalizou-se à escala nacional. A ameaça da morte das florestas gerou ainda mais reflexão. O governo e as empresas públicas do sector energético defendiam a energia nuclear, mas muitos alemães rejeitavam-na.  “Existe uma certa rebeldia que resulta da Segunda Guerra Mundial”, contou-me um cinquentenário chamado Josef Pesch. “Não se pode aceitar cegamente a autoridade.”

Josef Pesch conversava comigo num restaurante no cume de uma montanha da Floresta Negra, nos arredores de Friburgo. Numa clareira nevada no alto de uma colina, mesmo acima de nós, viam-se turbinas eólicas com 98 metros de altura financiadas pelos 521 cidadãos mobilizados pelo meu interlocutor, mas a nossa conversa ainda não derivara para as turbinas. Na companhia de um engenheiro chamado Dieter Seifried, conversávamos sobre o reactor nuclear que nunca chegou a ser construído, perto da aldeia de Wyhl, a 30 quilómetros de distância, junto do rio Reno.

A oposição à energia nuclear, numa época em que pouco se falava de alterações climáticas, foi decisiva.

O governo estadual insistira que o reactor tinha de ser construído ou Friburgo ficaria sem energia. No início de 1975, agricultores e estudantes locais ocuparam o sítio. Durante quase uma década, houve aqui protestos e manifestações que obrigaram o governo a abandonar o projecto. Era a primeira vez que se travava a construção de um reactor nuclear na Alemanha.

As luzes não se apagaram e Friburgo transformou-se numa cidade solar. A delegação local do Instituto Fraunhofer é líder mundial da investigação em energia solar. A sua Aldeia Solar, projectada pelo arquitecto Rolf Disch, que participara nas manifestações de Wyhl, é composta por 50 habitações que produzem mais energia do que consomem. “Wyhl foi o ponto de partida”, afirmou Dieter Seifried. Em 1980, um instituto do qual ele era co-fundador publicou um estudo intitulado “Energiewende”, dando assim nome a um movimento que nem sequer nascera.

A oposição à energia nuclear, numa época em que pouco se falava de alterações climáticas, foi decisiva. Quando parti para a Alemanha, pensava que os alemães tinham perdido o juízo ao renegarem uma fonte de energia sem emissões de carbono que, até Fukushima, fora responsável pela geração de um quarto da sua electricidade. Quando me vim embora, já pensava que não teria sido possível qualquer revolução sem o sentimento antinuclear, pois o medo de um acidente é um motivo mais forte e imediato do que o medo da subida lenta das temperaturas e do nível do mar.

Em toda a Alemanha, contaram-me a mesma história. Contou-ma Rolf Disch, sentado na sua própria casa cilíndrica, que roda sobre o seu eixo para acompanhar o Sol. Contou-ma Gerd Rosenkranz em Berlim, ele que, em 1980, abandonou a licenciatura em física durante vários meses para ocupar o local proposto para construção de um depósito de resíduos nucleares. E contou--ma Wendelin Einsiedler, proprietário de uma exploração de lacticínios na Baviera, que ajudou a transformar a sua aldeia numa central de produção energética ecológica.

Na opinião de todos eles, a Alemanha precisava de abandonar a energia nuclear e os combustíveis fósseis num único impulso. “Não se pode expulsar o diabo com a ajuda de Belzebu”, brincou Hans-Josef Fell, um político destacado do Partido Verde. “Temos de renegar os dois.” O investigador em assuntos energéticos Volker Quaschning explica o problema de outra maneira: “A energia nuclear afecta-me pessoalmente. As alterações climáticas afectam os meus filhos. Eis a diferença.”

Quando o Partido Verde alemão foi fundado na década de 1980, o pacifismo e a oposição à energia nuclear eram dois pilares essenciais. Em 1983, os primeiros deputados dos Verdes foram eleitos para o parlamento alemão e começaram a introduzir ideias ecológicas na vida política. Quando a central nuclear de Chernobyl explodiu em 1986, a ala esquerda dos sociais-democratas (SPD), um dos dois principais partidos da Alemanha, converteu-se à causa antinuclear. Embora Chernobyl se localizasse a mais de mil quilómetros de distância, a sua nuvem nuclear sobrevoou a Alemanha e os pais foram encorajados a manterem os filhos dentro de casa. Segundo Josef Pesch, ainda hoje não é garantidamente seguro ingerir cogumelos e javali provenientes da Floresta Negra.

Mesmo assim, foi preciso acontecer a tragédia de Fukushima 25 anos mais tarde para convencer Merkel e a sua União Democrata-Cristã (CDU) de que todos os reactores nucleares deveriam ser encerrados até 2022. À data desse acontecimento, já as energias renováveis estavam em crescimento explosivo, devido à legislação que Hans-Josef Fell ajudara a preparar e aprovar em 2000.

A casa de Fell em Hammelburg, cidade do Norte da Baviera onde nasceu e cresceu, é fácil de identificar: foi construída em madeira escura de larício, com um telhado coberto de relva. Na fachada sul, a relva está parcialmente revestida por painéis fotovoltaicos. Quando o Sol não brilha e não gera electricidade ou calor, um co-gerador instalado na cave queima óleo de girassol e de colza para produzir ambos.

Numa manhã de Março, o interior de madeira da casa apresentava-se invulgarmente quente.Homem alto, vestido informalmente, calvo e com uma franja de barba grisalha, Hans-Josef fala por vezes como se fosse um pregador, mas ele não é um asceta ecologista. Uma cabana nas traseiras de casa, perto da piscina, acolhe uma sauna, aquecida pela mesma “energia verde” que alimenta a casa e o automóvel. “O maior erro do movimento ambientalista tem sido a focagem da mensagem na redução do consumo, no apelo a que se aperte o cinto e se faça menos”, disse. “O público associa isso a menos qualidade de vida. Ora a mensagem deveria ser: ‘Faz as coisas de maneira diferente, com electricidade barata e renovável’.” Hans-Josef foi eleito vereador da cidade de Hammelburg.

1990: o ano da reunificação da Alemanha coincidiu também com a discussão e votação de uma lei que dinamizava a Energiewende. O projecto-lei fez todas as etapas do seu percurso no Bundestag, sem ser muito notado. Em escassas duas páginas, consagrava um princípio decisivo: os produtores de energia eléctrica tinham o direito de introduzi-la na rede e as empresas públicas do sector eléctrico ficavam obrigadas a pagar-lhes uma “tarifa de fornecimento”. As turbinas eólicas começaram a emergir no Norte ventoso.

Por essa altura, Hans-Josef Fell apercebeu-se de que a nova lei nunca conduziria a um crescimento explosivo à escala nacional. É verdade que remunerava os produtores de energia, mas não o suficiente. Em 1993, ele convenceu o executivo camarário a aprovar uma portaria que obrigava a empresa municipal a garantir a qualquer produtor de energias renováveis um preço que superasse os custos e imediatamente dinamizou uma associação de investidores locais para construir uma central electroprodutora solar de 15 kilowatts — minúscula pelos padrões modernos, mas tratava-se de uma das primeiras instituições deste género.

Em 1998, Hans-Josef aproveitou a vaga ecologista e o seu sucesso em Hammelburg e foi eleito para o Bundestag. Os ecologistas formaram uma coligação governamental com o SPD e Hans-Josef juntou esforços com Hermann Scheer, um destacado defensor da energia solar do SPD. Ambos prepararam um pacote legislativo que, em 2000, transpôs a experiência de Hammelburg para a escala nacional e desde então tem sido imitada em todo o mundo. As suas tarifas de fornecimento ficaram garantidas por 20 anos e compensaram.

O biogás, os painéis solares que revestem muitos telhados e, em especial, as turbinas eólicas permitem a Wildpoldsried produzir cinco vezes mais electricidade do que a quantidade consumida

“A lógica de base defendia que o pagamento teria de ser suficientemente elevado para que os investidores pudessem ter lucro”, afirmou o deputado. “Vivemos numa economia de mercado, afinal de contas. É lógico.”

Quase todos os alemães com quem travei conhecimento reconheceram que o crescimento explosivo deste projecto os colheu de surpresa. “Não imaginei que atingisse esta escala”, reconheceu o produtor de lacticínios Wendelin Einsiedler. Fora da sua estufa, com vista para os Alpes, nove turbinas eólicas rodavam preguiçosamente sobre a cumeeira atrás do curral das vacas. O cheiro a estrume insinuava-se pelas narinas. Wendelin iniciara a sua Energiewende pessoal na década de 1990 com uma só turbina e um fermentador de estrume gerador de metano. Juntamente com o seu irmão, Ignaz, também produtor de lacticínios, queimava o metano num co-gerador de 28 kilowatts, produzindo calor e electricidade para as suas explorações agrícolas. “Não foi para ganhar dinheiro”, disse. “Foi por idealismo.”

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