Texto  David Quammen   Fotografias  Pete Muller

Em Dezembro de 2013, ninguém podia prever que o rapazinho que adoeceu numa aldeia chamada Méliandou, na Guiné, constituiria o ponto de partida de uma terrível epidemia que devastou três países e suscitou medos, preocupações e discussões em todo o planeta.

Ninguém imaginou que a morte desta criança, após poucos dias de sofrimento, seria apenas a primeira de muitos milhares. O seu nome era Emile Ouamouno. Apresentava sintomas graves, como febre intensa, fezes negras e vómitos, mas comuns a outras doenças, incluindo a malária. Infelizmente, a morte de crianças por febres não identificadas e doenças diarreicas acontece com demasiada frequência nas aldeias africanas. Pouco depois, a irmã do rapaz também morreu, seguindo-se as mortes da mãe, da avó, de uma parteira da aldeia e de um enfermeiro. O contágio disseminou-se de Méliandou para outras aldeias da região austral da Guiné. Estes acontecimentos deram-se quase três meses antes de a palavra “Ébola” começar a piscar de forma sinistra nas comunicações de correio electrónico entre a Guiné e o resto do mundo.

As autoridades de saúde pública sediadas em Conacri, a capital da Guiné, e os rastreadores estrangeiros da doença viral não se encontravam presentes em Méliandou quando Emile Ouamouno morreu. Se lá estivessem e tivessem percebido que ele era o primeiro caso de um surto do vírus Ébola, poderiam, em tempo útil, ter dado atenção a uma importante incógnita: como adoecera o rapaz? O que fizera, em que tocara, o que comera? Se o Ébola estava no seu organismo, de onde provinha?

Não se trata de um micróbio subtil que fervilha delicadamente entre humanos. Se tivesse circulado entre populações humanas durante esses 17 anos, teríamos sabido.

Um dos aspectos mais intrigantes deste vírus, desde a sua primeira manifestação identificada, há quase quatro décadas, é a sua capacidade para desaparecer durante vários anos seguidos. Desde um surto ocorrido em 1976 no antigo Zaire (actual República Democrática do Congo) e um episódio simultâneo com um vírus estreitamente aparentado na antiga região meridional do Sudão (actual Sudão do Sul), a sequência de manifestações do Ébola, grandes e pequenas, tem sido esporádica. Durante 17 anos (1977-1994), não houve uma única morte humana confirmada devido a infecção pelo vírus Ébola. Não se trata de um micróbio subtil que fervilha delicadamente entre humanos, causando pouco mais do que dores de cabeça e resfriados moderados. Se tivesse circulado entre populações humanas durante esses 17 anos, teríamos sabido.

Nenhum vírus consegue sobreviver muito tempo, nem reproduzir-se, se não estiver dentro de outro ser vivo. Isso significa que precisa de um hospedeiro – pelo menos um tipo de animal ou planta, fungo ou micróbio, cujo corpo lhe sirva de ambiente primário e cuja maquinaria celular possa ser posta ao serviço da sua reprodução. Alguns vírus nocivos residem em animais não-humanos e só ocasionalmente saltam para as pessoas, provocando assim doenças apelidadas pelos cientistas de zoonoses. O Ébola é uma zoonose, de um tipo particularmente nefasto e desconcertante, pois mata várias vítimas humanas em poucos dias antes de desaparecer. Onde se esconderá, silencioso e discreto, entre surtos?

Há muitas teorias sobre o hospedeiro reservatório do Ébola. Provavelmente, já terá ouvido dizer que a resposta está, mais uma vez, nos morcegos frugívoros, mas isso são suposições apresentadas como factos. Apesar de árduos esforços desenvolvidos por alguns cientistas intrépidos, o vírus Ébola nunca foi rastreado até à sua fonte selvagem.

Sabemos que não é nos chimpanzés, nem nos gorilas. Vários estudos já demonstraram que o Ébola também os mata. Dramáticas mortes colectivas de chimpanzés e gorilas ocorreram na mesma altura e na mesma zona em que se verificaram surtos do Ébola em humanos. As autópsias de alguns cadáveres deram resultados positivos. Com efeito, o consumo de carcaças de símios tem sido umas das vias através das quais os seres humanos são infectados com Ébola. Tem de esconder-se noutro sítio.

A criatura que alberga um vírus zoonótico a longo prazo, geralmente sem sofrer sintomas, é conhecida como hospedeiro reservatório. Os macacos são hospedeiros reservatórios do vírus da febre-amarela. Morcegos frugívoros são reservatórios no vírus Nipah, que matou mais de cem pessoas num surto ocorrido na Malásia entre 1998 e 1999.
Na Austrália, os morcegos frugívoros são igualmente hospedeiros do vírus Hendra, transmitido pelos morcegos aos cavalos com efeitos devastadores e, posteriormente, aos tratadores de cavalos e veterinários, matando-os frequentemente. O momento de transmissão, quando um vírus passa do seu hospedeiro reservatório para outro tipo de criatura, é designado pelo termo “salto”.

Há muitas teorias sobre o hospedeiro reservatório do Ébola. Provavelmente, já terá ouvido dizer que a resposta está, mais uma vez, nos morcegos frugívoros, mas isso são suposições apresentadas como factos. Apesar de árduos esforços desenvolvidos por alguns cientistas intrépidos, o vírus Ébola nunca foi rastreado até à sua fonte selvagem.

Morcegos frugíveros invadem uma aldeia da Costa do Marfim. estes mamíferos, suspeitos de serem portadores de Ébola, abundam em África e são frequentemente comidos.

“Por onde anda ele quando não está a infectar seres humanos?”, perguntou recentemente Karl M. Johnson. Karl é um eminente virologista, pioneiro na investigação do Ébola. Liderou a equipa de resposta internacional contra o primeiro surto ocorrido no Zaire em 1976, uma incursão atribulada ao desconhecido. Também liderou uma equipa que isolou o vírus num laboratório do CDC, demonstrando que ele ainda era desconhecido pela ciência e deu-lhe o nome de uma modesta via fluvial do Zaire, o rio Ébola. À época, Karl perguntou a si mesmo onde se esconderia o vírus na natureza. No entanto, a urgência de ajuda humanitária durante um surto de Ébola torna as investigações em ecologia viral difíceis e impopulares. Um aldeão africano não quer ver estrangeiros com fatos espaciais a dissecar metodicamente pequenos mamíferos enquanto os seus entes queridos são transportados para longe em sacos mortuários. Trinta e nove anos mais tarde, embora comecemos a saber mais, a identidade do hospedeiro reservatório “permanece, no essencial, um gigantesco ponto de interrogação”, lembra Karl.

CHUVA DE MORCEGOS

Falaram-lhes de morcegos pequenos, velozes, que utilizam ecolocalização e alimentam-se de insectos. Os autóctones chamam-lhes lolibelo. São delicados como ratinhos e malcheirosos, com caudas torcidas que se prolongam para lá das suas membranas traseiras. Mostrando fotografias e tomando nota das descrições, a equipa concluiu que os aldeãos se referiam provavelmente ao Mops condylurus.

Em Abril de 2014, Fabian Leendertz chegou ao local acompanhado por uma equipa de investigadores. Fabian é um ecologista especializado em doenças e veterinário alemão sediado no Instituto Robert Koch, em Berlim. Estuda zoonoses mortais, focando-se especialmente na África Ocidental. Desta vez, chegou ao Sul da Guiné viajando de automóvel desde a Costa do Marfim, onde trabalhou durante 15 anos no Parque Nacional Taï, investigando surtos entre chimpanzés e outros animais. Trouxe três veículos de grandes dimensões, carregados de investigadores e equipamento. Duas hipóteses assolavam-no: houvera recentemente mortes colectivas de chimpanzés ou de outros animais selvagens, possivelmente colocando seres humanos com fome de carne em risco através do consumo de carcaças infectadas? Ou, em alternativa, houvera transmissão directa do hospedeiro reservatório do Ébola, seja ele qual for, para a primeira vítima humana? Nesse momento, Fabian nada sabia sobre Emile Ouamouno. Os membros da sua equipa conversaram com funcionários governamentais e autóctones e percorreram percursos de vistoria em duas reservas florestais, sem encontrarem testemunhos ou provas físicas de quaisquer mortes a assinalar entre chimpanzés ou outros mamíferos de grande porte. De seguida, desviaram a sua atenção para a aldeia de Méliandou, falaram com os seus habitantes e ouviram uma história muito interessante sobre uma árvore oca cheia de morcegos.

Falaram-lhes de morcegos pequenos, velozes, que utilizam ecolocalização e alimentam-se de insectos. Os autóctones chamam-lhes lolibelo. São delicados como ratinhos e malcheirosos, com caudas torcidas que se prolongam para lá das suas membranas traseiras. Mostrando fotografias e tomando nota das descrições, a equipa concluiu que os aldeãos se referiam provavelmente ao Mops condylurus. Estes morcegos tinham-se instalado em grande número no interior de uma árvore grande e oca localizada junto de um trilho nas proximidades da aldeia. Poucas semanas antes, a árvore fora queimada, possivelmente numa tentativa de colher mel. Da árvore em chamas surgira aquilo que as pessoas recordavam como “uma chuva de morcegos”. Os morcegos mortos foram reunidos em meia dúzia de sacas com 45 quilogramas cada e poderiam ter sido comidos caso não tivesse havido um aviso governamental súbito, proibindo o consumo de animais selvagens devido ao Ébola. Por isso, os aldeãos de Méliandou deitaram fora os morcegos mortos.

Havia mais uma coisa naquela árvore oca, disseram os aldeãos à equipa de Fabian Leendertz. As crianças, possivelmente o próprio Emile Ouamouno, costumavam brincar nela, por vezes capturando morcegos. Até os assavam, espetados em paus, e comiam-nos.

Fabian averiguou a possibilidade de encontrar sob a árvore material biológico suficiente para identificar a espécie de morcego que ali se instalara. De volta a Berlim, testes de sequenciação genética confirmaram a presença de Mops condylurus. Foi assim que esta criatura, um morcego insectívoro, não frugívoro, se juntou à lista de candidatos ao papel de hospedeiro reservatório do Ébola.

 

Em 1967, nove anos antes de o Ébola ser identificado, um carregamento de macacos proveniente do Uganda, destinado a investigação médica, chegou a Frankfurt e Marburgo, na Alemanha Ocidental, e a Belgrado, na Jugoslávia, trazendo um vírus desconhecido.

À BOLEIA

As primeiras pistas deste longo mistério que pareciam apontar na direcção dos morcegos surgiram em surtos causados pelo vírus de Marburgo, um parente ligeiramente menos famoso do Ébola pertencente ao grupo conhecido como filovírus. A história do Ébola tem ligações próximas com o Marburgo, segundo um experiente virologista sul-africano chamado Robert Swanepoel.

“Os dois estão interligados”, disse-me, quando nos sentámos diante de um ecrã de computador na sua casa, em Pretória (Tshwane), examinando fotografias. Robert esconde um coração generoso por baixo de uma aparência rude. Está reformado do Instituto Nacional para as Doenças Transmissíveis (NICD), em Joanesburgo, onde foi responsável pela Unidade de Patogénios Especiais durante 24 anos, mas ainda trabalha em investigação.

Em 1967, nove anos antes de o Ébola ser identificado, um carregamento de macacos proveniente do Uganda, destinado a investigação médica, chegou a Frankfurt e Marburgo, na Alemanha Ocidental, e a Belgrado, na Jugoslávia, trazendo um vírus desconhecido. Os funcionários do laboratório foram infectados em cada local, tendo transmitido secundariamente a infecção a alguns familiares e prestadores de cuidados de saúde. Entre os 32 casos confirmados, sete pessoas morreram. O novo vírus, assustador e filamentoso, parecido com um fio de vermicelli tóxico, recebeu o nome de vírus de Marburgo. Oito anos mais tarde, um estudante australiano morreu devido ao vírus de Marburgo num hospital em Joanesburgo depois de uma viagem à boleia atravessando a Rodésia (actual Zimbabwe). Ele e a namorada (ela adoeceu, mas recuperou) tinham feito várias actividades que os poderiam ter exposto à infecção, como uma visita às grutas Chinhoyi, um complexo de grutas e dolinas no Norte do Zimbabwe que, à semelhança de muitas grutas em África, era conhecido por albergar morcegos. Durante a viagem, o jovem também foi mordido por algum tipo de insecto ou aranha, tendo desenvolvido uma pápula vermelha e dolorosa nas costas. Investigações do caso, conduzidas imediatamente após a sua morte, centraram-se muito na mordedura e pouco nas grutas.

Dois caçadores camuflados perseguem macacos numa floresta no Nordeste da RCA. A caça nem sempre é uma questão de subsistência. Por vezes, a venda de carne permite custear despesas de educação e cuidados de saúde.

Dois outros casos iniciais do vírus de Marburgo geraram suspeitas sobre as grutas e os morcegos que nelas se instalam. Em 1980, um engenheiro francês na região ocidental do Quénia, aventurou-se na gruta de Kitum, uma passagem profunda dentro da rocha vulcânica da montanha.
A visita do engenheiro à gruta foi, evidentemente, má ideia: morreu num hospital de Nairobi devido ao vírus de Marburgo. Em 1987, um rapaz dinamarquês escalou a montanha e explorou a mesma gruta durante as férias familiares e morreu de uma infecção causada por um vírus (actualmente conhecido como Ravn) estreitamente aparentado com o de Marburgo. Estes acontecimentos chamaram a atenção de Robert Swanepoel, que à época residia em Joanesburgo.

Em 1995, deu-se outro surto (desta vez de Ébola, não de Marburgo) em volta da cidade de Kikwit na actual República Democrática do Congo (RDC). A cadeia de infecções entre seres humanos, que totalizou 315 casos e 254 mortes, começou com um homem que vendia mandioca e fabricava carvão numa zona florestal nos arredores da cidade. A tarefa principal de Robert era procurar o hospedeiro reservatório, concentrando-se no mesmo ecossistema onde o surto começara naquela mesma altura do ano. “Mesmo naquela fase, eu já estava a pensar nos morcegos”, disse-me.

Cada surto parecia começar por uma pessoa azarada, geralmente um caçador.

Robert e a sua equipa de Kikwit colheram amostras de sangue e tecidos, não só de morcegos mas também de uma ampla selecção de outros animais, incluindo vários insectos. Examinando as amostras no seu laboratório em Joanesburgo, ele não encontrou sinais de Ébola. Trabalhando na sala de alta contenção do NICD, no nível de biossegurança 4 (BSL-4), o mais elevado, injectou pessoalmente vírus Ébola vivos colhidos durante o surto de Kikwit em 24 tipos de plantas e 19 tipos de animais, desde aranhas e milípedes a lagartos, aves, ratos e morcegos, e monitorizou-os ao longo do tempo. Apesar de o Ébola não ter dominado a maioria dos organismos, um nível baixo do vírus foi detectado numa única aranha e os morcegos mantiveram-se infectados durante pelo menos 12 dias. Um desses morcegos era frugívoro. Outro era um morcego Mops condylurus, o mesmo pequeno insectívoro que mais tarde captaria a atenção de Fabian Leendertz em Méliandou. Era uma prova sugestiva, mas não um facto provado: talvez estas criaturas fossem hospedeiros reservatórios.

DEZ MIL PALHEIROS

Os acontecimentos de Kikwit sublinharam uma diferença importante entre os vírus de Marburgo e Ébola que tem persistido: enquanto os surtos do vírus de Marburgo costumam iniciar-se junto de grutas e minas, os surtos do vírus Ébola começam habitualmente com caça e consumo de carcaças, que são actividades florestais. Isto sugere que os dois vírus podem emergir de dois tipos de hospedeiros reservatórios diferentes ou, se os morcegos forem os hospedeiros, dois tipos de morcegos diferentes, habitantes de grutas e habitantes de árvores.

O padrão repetiu-se no decurso de um conjunto de surtos de Marburgo, entre 1998 e 2000, centrado numa antiga cidade mineira de exploração aurífera chamada Durba, na RDC. Robert Swanepoel liderou outra expedição e encontrou múltiplas cadeias de infecção. Os mineiros que trabalhavam a céu aberto, à luz do dia, tinham muito mais probabilidades de se manterem saudáveis. Isto levou-o a suspeitar de Rousettus aegyptiacus, morcegos frugívoros habitantes de grutas, embora não publicasse as suas suspeitas na altura.

Depois, entre finais de 2001 e até 2003, outra série de pequenos surtos independentes (novamente de Ébola, não de Marburgo) afectou aldeãos nas zonas fronteiriças densamente florestadas do Gabão e da República do Congo (a oeste da RDC, do outro lado do rio Congo). Cerca de trezentas pessoas foram infectadas; quase 80% morreram. Enquanto isso, gorilas, chimpanzés e pequenos antílopes da floresta chamados duikers começaram a aparecer mortos na mesma região. Cada surto humano parecia começar por uma pessoa azarada, geralmente um caçador, que mexera numa carcaça de animal.

“Morriam pessoas e morriam animais diferentes”, disse Janusz Paweska, actual sucessor de Robert Swanepoel como responsável pela unidade de Patogénios Especiais no NICD, quando o visitei em Joanesburgo. “Por isso, pensámos que era boa altura para caçar o reservatório do Ébola.”

Robert recrutou Janusz, entre outros, e organizou uma expedição conjunta com Eric Leroy, um virologista francês sediado no Gabão que participara em antigos surtos de Ébola no local. Encontrou-se com Eric na capital do Gabão, Libreville, antes de partir para o campo.

“Contei-lhe uma longa história sobre a maneira como os morcegos têm estado historicamente implicados no Ébola e no Marburgo”, lembrou Robert. Comunicou também que a sua equipa encontrara fragmentos de Marburgo, por exemplo, nos morcegos habitantes do subsolo em Durba. Robert trouxera para o Gabão armadilhas para roedores, redes e outros equipamentos de captura. “Embora eu suspeitasse dos morcegos, disse que tínhamos de cobrir todas as possibilidades”, recorda. Isso incluiria uma variedade de mamíferos, aves e insectos. O grupo levou para o seu país um terço dos espécimes e enviou outro terço para o CDC, em Atlanta (EUA), deixando um terço para Eric Leroy examinar. O processamento foi lento no laboratório de Robert Swanepoel e no CDC, devido à existência de muitos outros projectos, e não produziu resultados positivos. “Ficámos em branco.”

A busca do lugar onde o Ébola se esconde levou Fabian Leendertz a colher amostras de sangue e tecido de Mops condylurus, na imagem.

Mas o grupo de Eric Leroy regressou. A sua equipa realizou três visitas de campo à zona fronteiriça, capturando e recolhendo amostras de mais de mil animais, incluindo 679 morcegos. Em 16 desses morcegos, pertencendo a três espécies frugívoras diferentes, encontraram anticorpos (proteínas produzidas pelo sistema imunitário) que tinham reagido contra o vírus Ébola. Noutros 13 morcegos frugívoros, detectaram fragmentos muito curtos de RNA do Ébola. É importante sublinhar que estes dois tipos de evidências, anticorpos e fragmentos virais, são análogos a encontrar as pegadas de um yeti na neve. Podemos, ou não, ter encontrado algo real.

O isolamento de um vírus vivo, ou seja, o “cultivo” de Ébola fresco e infeccioso a partir de uma amostra de tecido, é a maior das evidências, quase como encontrar um pé de yeti verdadeiro, ligado a um yeti verdadeiro, preso numa armadilha. O grupo de Eric não conseguiu cultivar vírus vivos a partir de quaisquer amostras. Apesar disso, em 2005, a revista científica “Nature” publicou um ensaio sobre esses resultados, escrito por Eric e tendo Robert e Janusz como co-autores.

Esse ensaio, embora cauteloso e provisório, é a fonte primária dessas afirmações descuidadas e excessivamente seguras que temos visto circular nos órgãos de comunicação social mais populares ao longo do último ano, segundo as quais o vírus Ébola se aloja em morcegos frugívoros.

É possível que sim. Ou não. O próprio ensaio usa a palavra “talvez”.

Se um único tipo de animal entre a grande diversidade de florestas tropicais representa uma agulha num palheiro, então um indivíduo infectado dentro de uma população de animais no meio de toda essa diversidade representa uma agulha em dez mil palheiros.

 “Tentou isolar o vírus vivo?”, perguntei a Eric no Gabão. “Sim”, respondeu. “Tentei isolar o vírus muitas, muitas, muitas vezes”, disse. “Mas nunca consegui. Porque a carga viral era muito, muito baixa.” A carga viral é a quantidade de vírus presente nas amostras sólidas ou sangue da criatura e tende a ser muito mais reduzida num hospedeiro reservatório do que num animal ou pessoa padecendo de uma infecção aguda.

Essa é apenas uma das três razões pelas quais é difícil encontrar um hospedeiro reservatório, explicou Eric. A segunda é que, além da baixa carga viral de cada animal, o vírus pode existir em prevalência reduzida numa determinada população. A prevalência é a percentagem de indivíduos positivos em dado momento e, se for tão pequena como um animal em cem, “a probabilidade de detectar e capturar este animal infectado é muito reduzida”. Se um único tipo de animal entre a grande diversidade de florestas tropicais representa uma agulha num palheiro, então um indivíduo infectado dentro de uma população de animais no meio de toda essa diversidade representa uma agulha em dez mil palheiros.

E a terceira restrição à busca de um hospedeiro reservatório? “É extremamente caro”, resumiu Eric.

 

FÉRIAS PERFEITAS

O custo das operações de campo em locais isolados da floresta, bem como a disputa competitiva pelos recursos de financiamento institucionais, tem impedido investigadores veteranos como Robert e Eric de realizar estudos contínuos de longo prazo sobre a questão do reservatório do Ébola. Em vez disso, promovem-se expedições curtas, organizadas rapidamente durante um surto ou mesmo no final de uma crise. A deslocação até ao local de um surto humano para fazer investigação sobre a ecologia do vírus é um pesadelo logístico e uma ofensa para os autóctones. Por isso, essas expedições são adiadas. O problema dos adiamentos é que a prevalência do vírus Ébola na sua população hospedeira, a carga viral dentro dos hospedeiros individuais e a abundância de vírus libertados para o ambiente são factores que podem flutuar sazonalmente. Quem perder a estação certa, pode perder o vírus.

Fabian Leendertz tentou superar estas dificuldades organizando uma segunda expedição de campo, desta feita aproximadamente na mesma estação do fatídico salto que matou Emile Ouamouno, mas um ano mais tarde e no país vizinho, a Costa do Marfim. Os morcegos Mops condylurus também abundam nesta região, nidificando sob os telhados das casas de aldeia. A sua própria abundância em tão grande proximidade de seres humanos origina uma pergunta ainda mais intrigante, caso a hipótese do morcego esteja correcta: com o vírus tão perto, porque não ocorrem saltos com maior frequência? Fabian quis capturar o maior número possível desses morcegos e recolher amostras para procurar evidências de Ébola. Eu e o fotógrafo Pete Muller acompanhámo-lo.

Fabian e outros homens examinam um local de nidificação do morcego Mops condylurus, sob o tecto de uma casa numa aldeia da Costa do Marfim.

Fabian e a sua equipa, incluindo uma aluna de pós-graduação chamada Ariane Düx, concentraram-se em duas aldeias nos arredores da cidade Bouaké, um entreposto comercial perto do centro do país. Depois de comprar materiais para armadilhas no mercado de Bouaké, procurar casas cheias de morcegos nas aldeias e prestar homenagem aos anciãos, a equipa pegou no equipamento num fim de tarde, no momento em que os morcegos levantam voo ao pôr do Sol. As armadilhas eram estruturas em forma de cone, construídas de improviso a partir de tábuas e revestidas de plástico translúcido, concebidas para capturar morcegos quando eles emergissem de um buraco nos telhados e afunilá-los para o interior de uma cuba de plástico. Surpreendentemente, o sistema funcionou. Às 18h25 da primeira noite, uma armadilha ganhou vida, como uma panela cheia de pipocas, enquanto dezenas de pequenos corpos cinzentos deslizavam pelo revestimento e caíam dentro da cuba.

Na fase seguinte, Fabian e Ariane equiparam-se com luvas médicas, máscaras respiratórias, fatos e viseiras. Com uma simples lâmpada pendurada sobre a sua mesa de laboratório improvisada, começaram a processar morcegos, pesando e medindo cada animal, tomando nota do seu género e idade aproximada, injectando um chip electrónico do tamanho de uma semente para posterior identificação e, sobretudo, recolhendo sangue de uma veia do minúsculo braço do animal. Bastava uma picada bem apontada com uma agulha delicada e uma gota de sangue aparecia, pronta para ser colhida com uma pipeta fina. Ariane e Fabian trabalharam juntos e a grande proximidade e ocorreu-me que, se ela picasse duas vezes a mesma veia e falhasse na segunda tentativa, espetando o dedo de Fabian, ele seria ferido por uma agulha relacionada com o Ébola. Mas ela não falhou.

Leonce já possuía bom domínio técnico e, à medida que ganhava ritmo, executando estas tarefas exigentes na noite quente africana, reparei na T-shirt que ele vestia sob a sua bata médica, com um logótipo de um hotel e as palavras It’s the perfect holiday (são as férias perfeitas). Para ele, talvez, mas não para toda a gente.

O sangue foi colocado em pequenos recipientes, imediatamente congelados num tanque de azoto líquido, para ser submetido a exames posteriores em Berlim. Uma fracção de todos os morcegos capturados seriam mortos e dissecados para que fragmentos dos seus órgãos internos, mais concretamente do fígado e do baço, onde os vírus frequentemente se concentram, pudessem ser acrescentados ao baú de amostras congeladas. Os outros morcegos seriam libertados. Se uma amostra de sangue de um indivíduo dissecado viesse a dar resultados positivos em testes de anticorpos ou fragmentos virais, os seus órgãos seriam então utilizados numa tentativa (mais perigosa e mais dispendiosa, a realizar apenas num laboratório BSL-4) de isolar um vírus de Ébola vivo.

Após alguns morcegos, Fabian afastou-se do trabalho de processamento e permitiu que um aluno de pós-graduação marfinense, Leonce Kouadio, alto, de modos suaves e magro como um espeto, tomasse o seu lugar. Afinal, era uma missão de formação, além de uma investigação científica, e Fabian queria proporcionar uma experiência rica aos seus protegidos. Leonce já possuía bom domínio técnico e, à medida que ganhava ritmo, executando estas tarefas exigentes na noite quente africana, reparei na T-shirt que ele vestia sob a sua bata médica, com um logótipo de um hotel e as palavras It’s the perfect holiday (são as férias perfeitas). Para ele, talvez, mas não para toda a gente.

HOSPEDEIRO ESTRANHO

De regresso aos Estados Unidos, falei com mais especialistas. Quando lhes perguntei por que razão é importante identificar o hospedeiro reservatório do vírus Ébola, todos concordaram: porque essa informação é essencial para prevenir surtos futuros. Mas havia pontos de discordância. O comentário mais inesperado foi de Jens Kuhn, um virologista do Instituto Nacional de Saúde dos EUA, autor do livro “Filoviruses” e possivelmente o mais proeminente historiador do Ébola. Jens é, para mim, uma fonte honesta, mas também um amigo generoso, desde que nos conhecemos numa conferência organizada por Eric Leroy. Pedi-lhe uma explicação para a ausência de identificação do reservatório do Ébola passados 39 anos sobre a primeira infecção conhecida.

“É um hospedeiro estranho.”

“Um hospedeiro estranho”, repeti, sem certeza de ter ouvido bem.

“É o que eu acho.”

Primeiro, os surtos de doença provocada pelo vírus Ébola têm sido relativamente infrequentes: cerca de duas dezenas em quase 40 anos. Quase todos com origem num único caso humano, infectado por um animal selvagem, seguidos de transmissão entre seres humanos. Isto indica, disse ele, que a sequência de eventos na origem de saltos tem de ser “extraordinária e bizarra”. Em segundo lugar, temos “a espantosa estabilidade do genoma do vírus ao longo dos anos”. Não mudou muito, não evoluiu muito, pelo menos até a última contagem de casos humanos na África Ocidental começar a ser tão elevada, providenciando mais oportunidades de mutação ao vírus. Essa estabilidade poderá reflectir “um estrangulamento genético”, disse Jens. Talvez uma situação constritora que mantém o vírus escasso e a sua diversidade genética reduzida.

O mistério persiste, e as consequências são graves. As amostras da Costa do Marfim ainda não geraram resultados positivos. A busca continua.

Outra possível forma de estrangulamento genético seria um sistema de dois hospedeiros: um hospedeiro mamífero, como um morcego, que só fosse infectado esporadicamente, quando é mordido por determinado insecto ou carraça ou outro artrópode, talvez relativamente raro ou de distribuição limitada, que seria o derradeiro hospedeiro do vírus.

Como ambos sabíamos, essa hipótese fazia-nos recuar àquele estudante que andava à boleia na Rodésia em 1975, fora picado e depois morrera do vírus de Marburgo. Evocava a aranha do laboratório de Robert Swanepoel que fora portadora de Ébola durante duas semanas.

O que farias, perguntei-lhe, se tivesses uma bolsa de investigação gigantesca apenas para procurar o reservatório do Ébola? Jens Kuhn riu.

“Sei que não é a resposta mais popular, mas continuaria a procurá-lo em insectos e outros artrópodes”, disse.

Infelizmente, Jens não tem uma bolsa desse volume - nem ele, nem ninguém. O mistério persiste, e as consequências são graves. As amostras da Costa do Marfim ainda não geraram resultados positivos. A busca continua.

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