Caça ao assassino

Texto  David Quammen   Fotografias  Pete Muller

Morcegos frugívoros invadem uma aldeia da Costa do Marfim. Estes mamíferos, suspeitos de serem portadores de Ébola.
Fabian Leendertz a colher amostras de sangue e tecido de Mops condylurus.
Fabian e outros homens examinam um local de nidificação desse pequeno morcego.
Com delírios devido ao Ébola, um homem é erguido depois de tentar trepar o muro de um centro de tratamento de Ébola, na Serra Leoa.
Um casal de Freetown chora enquanto o corpo do seu bebé, de 1 ano, é removido.
No auge da epidemia, em Novembro de 2014, o cemitério recebeu uma média de cinquenta enterros por dia.
Após semanas de internamento no centro Hastings, Molai Kamara está sozinho no mundo.
Um caçador de uma pequena aldeia na República Democrática do Congo ajusta a máscara que usará enquanto persegue a caça.
Dois caçadores camuflados perseguem macacos numa floresta no Nordeste da RDC.
Os surtos costumam ocorrer em aldeias isoladas e ligadas por trilhos em más condições.
Um curandeiro prepara-se para exorcizar uma rapariga em Méliandou.
O pai de Emile mostra fotografias da família: todos morreram, menos ele.

Em Dezembro de 2013, ninguém podia prever que o rapazinho que adoeceu numa aldeia chamada Méliandou, na Guiné, constituiria o ponto de partida de uma terrível epidemia que devastou três países e suscitou medos, preocupações e discussões em todo o planeta.

Ninguém imaginou que a morte desta criança, após poucos dias de sofrimento, seria apenas a primeira de muitos milhares. O seu nome era Emile Ouamouno. Apresentava sintomas graves, como febre intensa, fezes negras e vómitos, mas comuns a outras doenças, incluindo a malária. Infelizmente, a morte de crianças por febres não identificadas e doenças diarreicas acontece com demasiada frequência nas aldeias africanas. Pouco depois, a irmã do rapaz também morreu, seguindo-se as mortes da mãe, da avó, de uma parteira da aldeia e de um enfermeiro. O contágio disseminou-se de Méliandou para outras aldeias da região austral da Guiné. Estes acontecimentos deram-se quase três meses antes de a palavra “Ébola” começar a piscar de forma sinistra nas comunicações de correio electrónico entre a Guiné e o resto do mundo.

As autoridades de saúde pública sediadas em Conacri, a capital da Guiné, e os rastreadores estrangeiros da doença viral não se encontravam presentes em Méliandou quando Emile Ouamouno morreu. Se lá estivessem e tivessem percebido que ele era o primeiro caso de um surto do vírus Ébola, poderiam, em tempo útil, ter dado atenção a uma importante incógnita: como adoecera o rapaz? O que fizera, em que tocara, o que comera? Se o Ébola estava no seu organismo, de onde provinha?

Não se trata de um micróbio subtil que fervilha delicadamente entre humanos. Se tivesse circulado entre populações humanas durante esses 17 anos, teríamos sabido.

Um dos aspectos mais intrigantes deste vírus, desde a sua primeira manifestação identificada, há quase quatro décadas, é a sua capacidade para desaparecer durante vários anos seguidos. Desde um surto ocorrido em 1976 no antigo Zaire (actual República Democrática do Congo) e um episódio simultâneo com um vírus estreitamente aparentado na antiga região meridional do Sudão (actual Sudão do Sul), a sequência de manifestações do Ébola, grandes e pequenas, tem sido esporádica. Durante 17 anos (1977-1994), não houve uma única morte humana confirmada devido a infecção pelo vírus Ébola. Não se trata de um micróbio subtil que fervilha delicadamente entre humanos, causando pouco mais do que dores de cabeça e resfriados moderados. Se tivesse circulado entre populações humanas durante esses 17 anos, teríamos sabido.

Nenhum vírus consegue sobreviver muito tempo, nem reproduzir-se, se não estiver dentro de outro ser vivo. Isso significa que precisa de um hospedeiro – pelo menos um tipo de animal ou planta, fungo ou micróbio, cujo corpo lhe sirva de ambiente primário e cuja maquinaria celular possa ser posta ao serviço da sua reprodução. Alguns vírus nocivos residem em animais não-humanos e só ocasionalmente saltam para as pessoas, provocando assim doenças apelidadas pelos cientistas de zoonoses. O Ébola é uma zoonose, de um tipo particularmente nefasto e desconcertante, pois mata várias vítimas humanas em poucos dias antes de desaparecer. Onde se esconderá, silencioso e discreto, entre surtos?

Há muitas teorias sobre o hospedeiro reservatório do Ébola. Provavelmente, já terá ouvido dizer que a resposta está, mais uma vez, nos morcegos frugívoros, mas isso são suposições apresentadas como factos. Apesar de árduos esforços desenvolvidos por alguns cientistas intrépidos, o vírus Ébola nunca foi rastreado até à sua fonte selvagem.

Sabemos que não é nos chimpanzés, nem nos gorilas. Vários estudos já demonstraram que o Ébola também os mata. Dramáticas mortes colectivas de chimpanzés e gorilas ocorreram na mesma altura e na mesma zona em que se verificaram surtos do Ébola em humanos. As autópsias de alguns cadáveres deram resultados positivos. Com efeito, o consumo de carcaças de símios tem sido umas das vias através das quais os seres humanos são infectados com Ébola. Tem de esconder-se noutro sítio.

A criatura que alberga um vírus zoonótico a longo prazo, geralmente sem sofrer sintomas, é conhecida como hospedeiro reservatório. Os macacos são hospedeiros reservatórios do vírus da febre-amarela. Morcegos frugívoros são reservatórios no vírus Nipah, que matou mais de cem pessoas num surto ocorrido na Malásia entre 1998 e 1999.
Na Austrália, os morcegos frugívoros são igualmente hospedeiros do vírus Hendra, transmitido pelos morcegos aos cavalos com efeitos devastadores e, posteriormente, aos tratadores de cavalos e veterinários, matando-os frequentemente. O momento de transmissão, quando um vírus passa do seu hospedeiro reservatório para outro tipo de criatura, é designado pelo termo “salto”.

Há muitas teorias sobre o hospedeiro reservatório do Ébola. Provavelmente, já terá ouvido dizer que a resposta está, mais uma vez, nos morcegos frugívoros, mas isso são suposições apresentadas como factos. Apesar de árduos esforços desenvolvidos por alguns cientistas intrépidos, o vírus Ébola nunca foi rastreado até à sua fonte selvagem.

Morcegos frugíveros invadem uma aldeia da Costa do Marfim. estes mamíferos, suspeitos de serem portadores de Ébola, abundam em África e são frequentemente comidos.

“Por onde anda ele quando não está a infectar seres humanos?”, perguntou recentemente Karl M. Johnson. Karl é um eminente virologista, pioneiro na investigação do Ébola. Liderou a equipa de resposta internacional contra o primeiro surto ocorrido no Zaire em 1976, uma incursão atribulada ao desconhecido. Também liderou uma equipa que isolou o vírus num laboratório do CDC, demonstrando que ele ainda era desconhecido pela ciência e deu-lhe o nome de uma modesta via fluvial do Zaire, o rio Ébola. À época, Karl perguntou a si mesmo onde se esconderia o vírus na natureza. No entanto, a urgência de ajuda humanitária durante um surto de Ébola torna as investigações em ecologia viral difíceis e impopulares. Um aldeão africano não quer ver estrangeiros com fatos espaciais a dissecar metodicamente pequenos mamíferos enquanto os seus entes queridos são transportados para longe em sacos mortuários. Trinta e nove anos mais tarde, embora comecemos a saber mais, a identidade do hospedeiro reservatório “permanece, no essencial, um gigantesco ponto de interrogação”, lembra Karl.

CHUVA DE MORCEGOS

Falaram-lhes de morcegos pequenos, velozes, que utilizam ecolocalização e alimentam-se de insectos. Os autóctones chamam-lhes lolibelo. São delicados como ratinhos e malcheirosos, com caudas torcidas que se prolongam para lá das suas membranas traseiras. Mostrando fotografias e tomando nota das descrições, a equipa concluiu que os aldeãos se referiam provavelmente ao Mops condylurus.

Em Abril de 2014, Fabian Leendertz chegou ao local acompanhado por uma equipa de investigadores. Fabian é um ecologista especializado em doenças e veterinário alemão sediado no Instituto Robert Koch, em Berlim. Estuda zoonoses mortais, focando-se especialmente na África Ocidental. Desta vez, chegou ao Sul da Guiné viajando de automóvel desde a Costa do Marfim, onde trabalhou durante 15 anos no Parque Nacional Taï, investigando surtos entre chimpanzés e outros animais. Trouxe três veículos de grandes dimensões, carregados de investigadores e equipamento. Duas hipóteses assolavam-no: houvera recentemente mortes colectivas de chimpanzés ou de outros animais selvagens, possivelmente colocando seres humanos com fome de carne em risco através do consumo de carcaças infectadas? Ou, em alternativa, houvera transmissão directa do hospedeiro reservatório do Ébola, seja ele qual for, para a primeira vítima humana? Nesse momento, Fabian nada sabia sobre Emile Ouamouno. Os membros da sua equipa conversaram com funcionários governamentais e autóctones e percorreram percursos de vistoria em duas reservas florestais, sem encontrarem testemunhos ou provas físicas de quaisquer mortes a assinalar entre chimpanzés ou outros mamíferos de grande porte. De seguida, desviaram a sua atenção para a aldeia de Méliandou, falaram com os seus habitantes e ouviram uma história muito interessante sobre uma árvore oca cheia de morcegos.

Falaram-lhes de morcegos pequenos, velozes, que utilizam ecolocalização e alimentam-se de insectos. Os autóctones chamam-lhes lolibelo. São delicados como ratinhos e malcheirosos, com caudas torcidas que se prolongam para lá das suas membranas traseiras. Mostrando fotografias e tomando nota das descrições, a equipa concluiu que os aldeãos se referiam provavelmente ao Mops condylurus. Estes morcegos tinham-se instalado em grande número no interior de uma árvore grande e oca localizada junto de um trilho nas proximidades da aldeia. Poucas semanas antes, a árvore fora queimada, possivelmente numa tentativa de colher mel. Da árvore em chamas surgira aquilo que as pessoas recordavam como “uma chuva de morcegos”. Os morcegos mortos foram reunidos em meia dúzia de sacas com 45 quilogramas cada e poderiam ter sido comidos caso não tivesse havido um aviso governamental súbito, proibindo o consumo de animais selvagens devido ao Ébola. Por isso, os aldeãos de Méliandou deitaram fora os morcegos mortos.

Havia mais uma coisa naquela árvore oca, disseram os aldeãos à equipa de Fabian Leendertz. As crianças, possivelmente o próprio Emile Ouamouno, costumavam brincar nela, por vezes capturando morcegos. Até os assavam, espetados em paus, e comiam-nos.

Fabian averiguou a possibilidade de encontrar sob a árvore material biológico suficiente para identificar a espécie de morcego que ali se instalara. De volta a Berlim, testes de sequenciação genética confirmaram a presença de Mops condylurus. Foi assim que esta criatura, um morcego insectívoro, não frugívoro, se juntou à lista de candidatos ao papel de hospedeiro reservatório do Ébola.

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.