Arqueologia do traço

Texto e fotografias  António Luís Campos

Nas traseiras da Sé de Évora, calcorreando apertadas escadarias, num emaranhado arquitectónico talvez destinado a desorientar os mais incautos,  chega-se a uma enorme e imponente porta que barra o caminho. Sigilosamente, Zélia Parreira, a directora da Biblioteca Pública de Évora, introduz o código de segurança, fazendo soltar cliques metálicos de rodas dentadas. Num ápice, abre-se a reserva de uma das mais impressionantes bibliotecas portuguesas...

No interior,  qualquer alfarrabista julgar-se-ia no céu! À medida que o olhar se habitua à penumbra, prateleiras infindáveis de livros antigos desvendam-se, alinhadas no chão até ao tecto. Nas lombadas, gastas pelos anos, adivinham-se histórias e registos de vidas passadas. A história materializa-se nestes tomos de dimensões e cores variadas. Naquela manhã húmida de Primavera, porém. A atenção concentra-se num livro especial: um evangeliário, um dos mais ricos exemplares da colecção e cuja origem remonta à França do século XII ou XIII. A exuberância e qualidade das iluminuras nele constantes destacam-no. Livros deste género eram, à época, muito valiosos e raros – privilégio de um punhado de letrados. A relação social do indivíduo com o livro era necessariamente diferente da moderna: os seus proprietários não se limitavam a deixá-los como originalmente tinham sido concebidos. Modificavam-nos.

Bem-vindos portanto a um enigma diferente: será possível estimar a data desta produção adicional, a autoria e os métodos seguidos?

Nas páginas dos quatro evangelhos, foram descobertas novas ilustrações, acrescentadas mais tardiamente, no século XVI, com recursos a técnicas pictóricas e materiais diferentes. Só a caracterização molecular de tintas permitiu comprovar as diferentes datas de produção das iluminuras!

Bem-vindos portanto a um enigma diferente: será possível estimar a data desta produção adicional, a autoria e os métodos seguidos? Catarina Miguel, engenheira química e investigadora da Universidade de Évora, acredita que sim. Recebe da directora, de braços abertos – literalmente –, o manuscrito, porque estes livros também precisam de braços para serem manuseados e não apenas das mãos! Acabada de chegar do Vaticano, onde está a analisar um conjunto de manuscritos cistercienses dos séculos XI e XII até agora nunca estudados por nenhum outro cientista, vem analisar os exemplares portugueses, integrada num estudo comparativo entre obras contemporâneas dos dois Estados. A Igreja Católica guardou para a sua sede os exemplares mais valiosos, mas o projecto pretende avaliar o acervo português e compará-lo com a colecção de maior qualidade (a do Vaticano) e com a maior colecção de manuscritos cistercienses (a colecção de Troyes, tendo por base o estudo dos materiais e técnicas de produção a efectuar nos manuscritos da Santa Sé e de França).

Observação com um microsópio esterescópico da cercadura do fólio do rosto do "evangelho de São Mateus".

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