Taxidermia: até os animais extintos podem parecer vivos

Texto  Bryan Christy   Fotografias  Robert Clark

No centro de Congressos de Saint Charles, no Missouri (EUA), passo por uma zebra projectando uma leoa pelos ares e por um tubarão-branco em tamanho real que persegue uma foca bebé. Os grandes predadores do mundo animal dominam os corredores da exposição, juntamente com um búfalo-africano, um antílope-negro e uma cascavel.

Ao entrarem, para assistir ao Campeonato do Mundo de Taxidermia, os visitantes passam junto de uma girafa cujo pescoço e cabeça foram montados de maneira a mostrar o animal prestes a beber água. Na verdade, nem todas as proezas da taxidermia se podem qualificar como arte. No entanto, à medida que a arte da taxidermia foi perdurando e evoluindo, deu forma a um paradoxo na conservação da vida selvagem, pois ainda existem homens e mulheres suficientemente entusiásticos para matar e, por vezes, suficientemente entusiásticos para proteger.

Um estudante de taxidermia adolescente chamado Theodore Roosevelt tornou-se, na idade adulta, um ávido praticante de caça grossa. Foi também co-fundador de uma reserva de caça que estabeleceu os alicerces para os actuais esforços de conservação da vida selvagem nos EUA.

A taxidermia representa um papel importante na conservação. Quando bem executada, oferece uma oportunidade de apreciar de perto a natureza morta de criaturas que talvez nunca encontremos.

Durante muitos anos, investiguei crimes internacionais contra animais selvagens, denunciando a carnificina em reportagens, documentários e num livro. Mas foi a minha experiência como taxidermista na adolescência que me pôs nesse trilho.

Desde o século XIX, época em que os caçadores levavam os seus troféus de caça aos estofadores para empalhamento, que a taxidermia representa um papel importante na conservação. Quando bem executada, oferece uma oportunidade de apreciar de perto a natureza morta de criaturas que talvez nunca encontremos. Vemo-las sem as grades de um jardim zoológico, representando um papel plausível na natureza e existe “algo de basilar nessa experiência”, diz Timothy Bovard, taxidermista no Museu de História Natural de Los Angeles.

Foi por essa razão que, após vários anos a escrever sobre a exploração criminosa dos animais selvagens, resolvi deslocar-me a este encontro mundial de campeões de taxidermia, desejoso de paz e sossego. Afinal, acabei por ouvir uma mulher gritar a Wendy Christensen: “Isso é ilegal!”

A visitante enfurecida aponta para um gorila-das-terras-baixas enquanto a taxidermista Wendy Christensen arranja alguns pêlos nos enormes dedos do primata. “Eu estive no Ruanda e sei que os gorilas estão protegidos!”, gritou a senhora.

Wendy é uma mulher imponente. Dando a cara à sua acusadora, explica-lhe calmamente que o gorila Samson foi, durante três décadas, a principal atracção do Jardim Zoológico do Condado de Milwaukee. A visitante desculpa-se e, depois, fica boquiaberta com o que Wendy lhe diz: neste animal, que representa a história de Samson, não existe uma única partícula de gorila verdadeiro.

No fim do século XIX, os caçadores profissionais matavam animais selvagens em grande escala para abastecer as indústrias de peles, restauração e chapelaria, entre outras. Imaginando que a extinção seria impossível, os norte-americanos mataram milhões de bisontes por dinheiro e por desporto. No final do século XIX, restavam escassas centenas.

A lista de espécies exterminadas não se fica por aqui, tal como a lista de espécies africanas e asiáticas ameaçadas de extinção não pára de crescer.

Os pombos-passageiros foram outrora uma das aves mais numerosas no país. Em 1878, caçadores contratados pelo sector da restauração atacaram um grande bando de aves nos arredores de Petoskey, no Michigan, matando cerca de mil milhões de aves em poucas semanas. Em 1914, o último pombo-passageiro da América morreu e foi empalhado por um taxidermista do Smithsonian.

A lista de espécies exterminadas não se fica por aqui, tal como a lista de espécies africanas e asiáticas ameaçadas de extinção não pára de crescer.

Teddy Roosevelt era naturalista e desportista, tal como a dezena de amigos que reuniu em finais de 1887. Juntos, estes homens fundaram o Boone and Crockett Club, prosseguindo objectivos interligados: promover os esforços federais de conservação da vida selvagem e, desta forma, assegurar uma população compatível com a prática da caça. 
O clube criou a Sociedade Zoológica de Nova Iorque, que viria a tornar-se a Sociedade para a Conservação da Vida Selvagem. John Muir escolheu a organização do seu amigo Roosevelt como modelo para o Sierra Club. Entre os membros influentes deste último encontrava-se William T. Hornaday, que foi director do Jardim Zoológico do Bronx e taxidermista principal do Smithsonian.

Comecei a aprender taxidermia aos 12 anos. 

À semelhança de vários concorrentes do Campeonato Mundial de Taxidermia e do director do evento, Larry Blomquist, o meu primeiro passo foi inscrever-me na Escola de Taxidermia do Noroeste, uma escola de ensino por correspondência sediada em Omaha, no Nebrasca, que disponibiliza cursos simples. (Lição n.º 1: Ler este livro inteiro. Lição n.º 2: Arranjar um pombo comum. Lição n.º 3: Comprar ferramentas – bisturi, raspador de osso, colher, espátula cerebral, arsénico…)

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