Alta ciência

 Texto  Hampton Sides   Fotografias  Lynn Johnson

A canábis não é propriamente nova. Convive com a espécie humana desde o início da história.

Na Sibéria, foram descobertas sementes carbonizadas em locais de sepultamento datados de 3.000 a.C. Os chineses utilizavam a canábis como remédio há mil anos. A marijuana também é, ao mesmo tempo, uma cultura profundamente americana. Durante a maior parte da história do país, a canábis foi legal e encontrava-se frequentemente em tinturas e extractos.

Foi então que apareceram filmes como “A Loucura da Erva”, “Marijuana, Assassina da Juventude” e “A Droga de Introdução”. Durante quase setenta anos, a planta passou à clandestinidade e, em grande parte, a investigação médica praticamente desapareceu. Em 1970, a administração federal norte-americana tornou ainda mais difícil o estudo da marijuana, classificando-a como droga de Plano I, uma substância perigosa sem objectivos médicos válidos e potencial de consumo abusivo – a mesma categoria da heroína. Nos EUA, na maioria dos casos, os interessados em alargar conhecimentos sobre ela eram, por definição, criminosos.

Em 24 estados, a canábis é legal para algumas utilizações médicas e a maioria dos norte-americanos manifesta-se a favor da sua legalização para uso recreativo. Outros países repensam igualmente a sua relação com ela.

Agora, porém, um número crescente de pessoas procura esta droga como solução para tratar doenças e a ciência da canábis regista um renascimento. Estamos a descobrir surpresas ocultas no interior desta planta outrora proibida. Embora a marijuana se mantenha interdita, Vivek Murthy, responsável pela pasta da Saúde dos EUA, manifestou interesse no conhecimento que a ciência obterá sobre a marijuana, sublinhando que há dados preliminares comprovativos de que, “para alguns problemas médicos e sintomas”, ela pode ser “útil”.

Em 24 estados, a canábis é legal para algumas utilizações médicas e a maioria dos norte-americanos manifesta-se a favor da sua legalização para uso recreativo. Outros países repensam igualmente a sua relação com ela. O Uruguai aprovou a sua legalização. Portugal despenalizou-a. Israel, o Canadá e a Holanda têm programas de prescrição médica de canábis. Nos últimos anos, vários países liberalizaram as leis sobre a sua posse, quer descriminalizando-a, despenalizando-a ou regulamentando-a.

Talvez por isso, o aroma da marijuana a pairar no ar passe cada vez mais despercebido. Continua a ser verdade que a sua inalação pode provocar doença temporária do riso, olhos esgazeados e amnésia quanto a acontecimentos sucedidos há dois segundos. Embora jamais tenha sido documentado qualquer caso de morte por consumo excessivo, a marijuana – em especial nas suas variantes robustas actualmente disponíveis – é também uma droga potente e, em algumas circunstâncias, nociva.

Para muitos indivíduos, porém, a canábis transformou-se também num tónico para mitigar a dor, ajudar a dormir, estimular o apetite e amortecer os aborrecimentos do quotidiano. Os seus paladinos afirmam que ela dissipa camadas sobrepostas de stress. Pensa-se também que é útil, entre outras coisas, como analgésico, antiemético, broncodilatador e anti-inflamatório. Alguns compostos presentes na planta, afirmam certos cientistas, podem ajudar a regular funções vitais do organismo, como a protecção do cérebro contra eventos traumáticos, o reforço do sistema imunitário e o contributo para a “eliminação de recordações” após eventos catastróficos.

Nesta aparente corrida destinada a generalizar a aceitação da marijuana no contexto social maioritário, tributando-a e regulando-a, legitimando-a e transformando-a numa mercadoria, surgem perguntas importantes. O que se passa dentro desta planta? Como afecta de facto os nossos corpos e os nossos cérebros? O que poderiam as substâncias químicas na planta revelar sobre a maneira como os nossos sistemas neurológicos funcionam? Poderiam essas substâncias químicas conduzir-nos a novos produtos farmacêuticos benéficos?

Se a canábis tem alguma coisa para nos dizer, o que está ela a dizer-nos?

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