Enfim, Plutão

Texto  Nadia Drake   Fotografias  Bettmann/Corbis e NASA   Arte  Dana Berry

1930 - Clyde Tombaugh construiu este telescópio e, mais tarde, acabou por descobrir Plutão.
2005 - A sonda espacial New Horizons é a mais veloz até hoje e atingirá Plutão a 14 deste mês.
2006 - A New Horizons é lançada do cabo Canaveral a bordo de um foguete Atlas V.
A meados de Julho, a sonda terá percorrido cerca de cinco mil milhões de quilómetros.
Cenário possível: superfície tectónica.
Cenário possível: superfície varrida pelo vento.
Cenário possível: superfície ondulante.

Pequeno, frio e absurdamente distante, Plutão sempre guardou os seus segredos de maneiro egoísta. Desde que foi descoberto em 1930, o planeta-anão foi-se afastando até ficar fora do nosso alcance. A sua superfície gelada apresenta-se como um mistério esbatido que nem os mais potentes telescópios conseguem focar. Sabemos que Plutão existe. Mas não o conhecemos de verdade.

Essa situação alterar-se-á no dia 14 de Julho, data prevista para a passagem da sonda New Horizons, da NASA, a menos de 12.500 quilómetros do corpo celeste congelado. Se tudo correr bem, este breve encontro imediato revelará o último dos mundos do sistema solar clássico ainda por explorar. Iremos finalmente ver, cara a cara, o antigo nono planeta e observaremos, de facto, a sua superfície e a da sua maior lua, Caronte. Os cientistas têm alguns palpites em relação ao que poderão encontrar, mas a única afirmação segura é a que garante que Plutão será surpreendente.

“O Plutão que outrora imaginámos vai desvanecer-se como fumo”, comenta Alan Stern, investigador-principal da New Horizons.

Ficheiros Secretos

Não seria a primeira vez que Plutão frustra expectativas. Em 2006, o ano em que a New Horizons foi lançada, Plutão desapareceu da lista de planetas e reapareceu como “planeta-anão”. Como é evidente, a despromoção teve mais que ver com os astrónomos da Terra do que com qualquer truque de magia celeste, mas a verdade é que Plutão tem sido um mundo difícil de desvendar desde a sua descoberta.

Em época tão recuada como a década de 1840, um cálculo complicado previu a existência de um planeta para além da órbita de Neptuno. Cálculos baseados na massa de Neptuno sugeriram que a órbita do gigante de gelo, bem como a do seu vizinho Úrano, não correspondia devidamente às previsões do movimento planetário. Então, alguns astrónomos acharam que deveria haver pelo menos outro mundo grande por descobrir na extremidade do sistema solar que estivesse a empurrar os gigantes de gelo, levando-os a percorrer caminhos errantes à volta do Sol.

No início do século XX, a busca por esse planeta perdido ganhava impulso: quem o localizasse ganharia a gloriosa distinção de descobrir o primeiro planeta novo dos últimos 50 anos. Apelidando o planeta isolado de “Planeta X”, o aristocrata de Boston Percival Lowell – talvez mais conhecido pela sua afirmação de ter detectado canais de irrigação na superfície de Marte – entregou-se vigorosamente à demanda. Lowell construíra o seu próprio observatório em Flagstaff, no estado de Arizona, e em 1905 o local tornou-se o epicentro da busca do Planeta X. Lowell calculou e recalculou a sua posição provável e pediu equipamento emprestado para a missão, mas morreria em 1916, sem saber que o Planeta X existia realmente.

Avancemos em movimento acelerado até 1930. Num final de tarde de Fevereiro, Clyde Tombaugh, de 24 anos, estava sentado no seu posto no Observatório Lowell. Oriundo dos campos agrícolas do Kansas, Clyde fora incumbido da missão de procurar o esquivo planeta de Lowell. Não tinha qualquer educação formal em astronomia, mas desenvolvera uma aptidão para construir telescópios, por vezes a partir de peças de automóveis velhos e de outros objectos improváveis.

Clyde tinha uma costela perfeccionista. “Quando plantava [duas espécies de] sorgo, as filas que atravessavam o campo tinham de ser direitas como uma flecha ou eu não ficava satisfeito”, escreveu nas suas memórias de 1980. “Mais tarde, qualquer suspeita de planeta, por mais leve que fosse, tinha de ser verificada… Foi o trabalho mais entediante que alguma vez fiz.”

Subitamente, em fotografias captadas com seis dias de intervalo em Janeiro, ele vislumbrou uma minúscula partícula de luz que não permanecia quieta. Numa imagem estava à esquerda de duas estrelas brilhantes. Na imagem seguinte, saltara alguns milímetros para a direita dessas estrelas.

Clyde passou cerca de um ano em busca do mundo perdido, utilizando um comparador de lampejos. O ruidoso dispositivo permitia ao utilizador alternar entre exposições longas do céu, frequentemente contendo centenas de milhares de estrelas, captadas com vários dias de diferença. Qualquer corpo que percorresse uma distância significativa durante esse período – um planeta ou um asteróide, por exemplo – pareceria deslocar-se na transição entre imagens.

Nesse final de tarde do dia 18 de Fevereiro, Clyde estava a operar o comparador e a examinar atentamente milhares de estrelas, avaliando cada uma com o olhar. Subitamente, em fotografias captadas com seis dias de intervalo em Janeiro, ele vislumbrou uma minúscula partícula de luz que não permanecia quieta. Numa imagem estava à esquerda de duas estrelas brilhantes. Na imagem seguinte, saltara alguns milímetros para a direita dessas estrelas. Alternou as imagens para a frente e para trás e viu a mancha a saltar de e para a sua posição original. Pegou numa régua e mediu a diferença exacta entre as posições da mancha. Depois, procurou outra fotografia do céu, captada numa data anterior de Janeiro, e procurou a mesma mancha. Por fim, utilizou uma lupa manual para confirmar a potencial presença do planeta noutro conjunto de fotografias, captado por uma máquina fotográfica diferente. Passados 45 minutos, estava convencido: descobrira o Planeta X.

“Olhamos para a mancha que é Plutão e, de facto, é uma mancha muito pequenina”, diz Will Grundy, membro da equipa da New Horizons que trabalha no Observatório Lowell. “Era preciso olhar mesmo fixamente para estas coisas. Não percebo como é que ele não ficou cego.”

Após várias semanas de verificações, o Observatório Lowell anunciou a descoberta de Clyde Tombaugh no dia 13 de Março, data do 75.º aniversário de Percival Lowell.

No entanto, quase de imediato, os astrónomos intuíram que algo estava errado. O ponto de luz saltitante era demasiado ténue para ser o Planeta X. Nem os melhores telescópios daquele tempo conseguiam ver o disco do planeta, o que significava que o objecto era demasiado pequeno para justificar os trajectos sinuosos dos gigantes de gelo.

“Estavam à espera de uma coisa mais brilhante do que aquilo”, comenta Owen Gingerich, astrónomo e historiador jubilado do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian. “Apesar disso, presumiram que deveria ter aproximadamente o tamanho da Terra. Era muito mais pequeno do que Úrano e Neptuno, mas um planeta respeitável.”

O Observatório Lowell teve de encontrar um nome para o novo planeta. Chegaram centenas de cartas. “Minerva” foi um dos primeiros favoritos. A viúva de Lowell, Constance, que retardara a busca pelo Planeta X enquanto lutava com o observatório pela fortuna de Lowell, sugeriu “Percival” e “Lowell” e depois, pondo completamente de parte a humildade, “Constance”.

Do outro lado do oceano, uma menina inglesa de 11 anos chamada Venetia Burney propôs casualmente o nome “Plutão”, em homenagem ao deus romano do mundo subterrâneo. Parecia um nome adequadamente sombrio para um planeta situado na fronteira obscura e obedecia à nomenclatura mitológica convencional. E assim, no dia 1 de Maio, o Observatório Lowell anunciou que o Planeta X chamar-se-ia Plutão.

Contudo, com a sua peculiar órbita inclinada e tamanho confusamente pequeno, aquele mundo permanecia um enigma. Ao longo dos anos, a massa estimada do planeta de Clyde Tombaugh continuou a encolher até ficar aquém do tamanho de um planeta e foi rebaptizado como planeta-anão em 2006.

No fim da década de 1980, a Voyager 2, da NASA, ultrapassou o reino dos planetas gigantes e revelou a verdadeira massa de Neptuno.

Observando a interacção de Plutão com o seu satélite Caronte, os cientistas sabem agora que Plutão tem uma massa de apenas escassos dois milésimos da massa da Terra. Descoberta em 1978, Caronte tem quase metade do tamanho de Plutão — tão grande que, na verdade, os dois formam um sistema binário. Giram em torno de um ponto situado no espaço entre ambos, um par de planetas-anões deslocando-se no centro de um sistema incrivelmente completo contendo pelo menos quatro outras luas.

Os cientistas suspeitam da existência de ainda mais luas em redor de Plutão, algumas talvez partilhando ou trocando de órbitas e possivelmente rodando de forma caótica em vez de traçarem piruetas graciosas.

“Não ficaria admirado se descobrisse um fenómeno patologicamente estranho como esse”, afirma Alex Parker, aluno de pós-doutoramento da equipa da New Horizons.

No fim da década de 1980, a Voyager 2, da NASA, ultrapassou o reino dos planetas gigantes e revelou a verdadeira massa de Neptuno. Quando esse valor, o equivalente a 17 Terras, foi introduzido nas equações antigas para prever a existência de um nono planeta, tudo funcionou como esperado. Úrano percorre um trajecto previsível e aborrecido à volta do Sol. Nunca outro planeta influenciou a sua órbita. Mas se não fossem os cálculos errados, teríamos esperado décadas para descobrir o pequeno mundo que está de facto lá.

Nascimento violento

Agora que já não é um planeta, Plutão nem sequer é único. É um de milhares de mundos que povoam a cintura de Kuiper, um vasto anel de destroços para além de Neptuno que aloja inúmeros cometas e anões gelados. As impressões digitais dos primórdios do sistema solar ainda persistem nestes corpos com 4.600 milhões de anos.

A arquitectura da cintura de Kuiper aponta para uma reorganização violenta dos planetas gigantes sucedida logo no início, uma grande migração que projectou corpos pequenos e transformou o sistema solar num jogo de tiro ao alvo sobredimensionado. Os cientistas esperam utilizar as crateras que revestem as superfícies de Plutão e Caronte para proceder a um levantamento da população da cintura de Kuiper e reconstituir a sua evolução ao longo do tempo. Embora difíceis de realizar, essas medições são essenciais para conciliar ideias sobre a forma como a migração dos planetas gigantes esculpiu o sistema solar primordial. “Achamos que a cintura de Kuiper era muito mais maciça no início”, diz Alan Stern.

Os cientistas pensam que a lua de Plutão, Caronte, foi formada por um impacte gigante, muito parecido com o que gerou a nossa própria Lua.

Aquilo que aprendermos com o planeta-anão também pode permitir aos cientistas vislumbrar os processos que moldaram a Terra. Em tempos, uma envolvente gasosa composta por hidrogénio e hélio rodeou o nosso mundo. Ao longo de milhões de anos, essa atmosfera escapou para o espaço. Plutão é o único sítio do sistema solar onde podemos estudar um acontecimento semelhante, embora a sua atmosfera seja composta por azoto, afirma Alan. As semelhanças não se ficam por aqui. Os cientistas pensam que a lua de Plutão, Caronte, foi formada por um impacte gigante, muito parecido com o que gerou a nossa própria Lua. Mas enquanto a nossa Lua solidificou a partir do disco fundido de detritos gerado pela colisão, Caronte foi expulsa de Plutão relativamente intacta. E enquanto o crescimento da nossa Lua deixou os nossos céus relativamente limpos, a menor gravidade de Plutão permitiu que os detritos do choque voassem até mais longe, polvilhando o sistema binário com destroços espaciais que podem tornar a visita da New Horizons bastante traiçoeira.

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