Os grandes êxitos do Hubble

Texto  Timothy Ferris   Fotografias NASA ESA

A princípio, não causou grande impressão. Lançado para a órbita terrestre a bordo do vaivém espacial Discovery no dia 24 de Abril de 1990, o Telescópio Espacial Hubble titubeou de imediato. Em vez de se focar nos seus alvos celestes, tremeu e abanou, esperneando como um vampiro fotofóbico sempre que a luz do Sol atingia os seus painéis solares. Quando a porta protectora se abriu para permitir a entrada da luz estelar, o telescópio ficou de tal maneira perturbado que entrou em coma electrónico. E, pior ainda, o Hubble sofria de miopia. O seu principal espelho colector de luz, com 2,4 metros de diâmetro e, alegadamente, o objecto de grandes dimensões mais liso alguma vez fabricado por seres humanos, fora mal configurado.

Na verdade, a sua concepção implicara desde logo cedências. Os astrónomos tinham pedido um telescópio maior e a sua colocação numa órbita mais distante, mas receberam um aparelho mais pequeno, que orbitava apenas a 560 quilómetros de altitude. O projecto fora redimensionado para se adaptar ao compartimento de carga do vaivém e para se manter ao alcance dos astronautas, permitindo a sua manutenção no espaço.

No entanto, o vaivém acabou por salvar a missão. Se o Hubble tivesse sido lançado para além do seu alcance, poderia ter ficado na história como um fracasso literalmente astronómico com um custo de mil milhões de dólares. Em vez disso, foi construído de modo a que os seus componentes principais permanecessem acessíveis para substituição ou conserto. Cinco missões de manutenção quase perfeitas realizadas pelo vaivém, revelaram-se essenciais para a transformação do Hubble, de um fiasco de 12 toneladas numa das mais produtivas e populares máquinas científicas do mundo.

Muito recentemente, os investigadores do Hubble captaram luz de uma galáxia recém-nascida, vendo-a como ela era há 13 mil milhões de anos. Mediram também a temperatura de um planeta quente orbitando uma estrela a 260 anos-luz da Terra e descobriram três objectos gelados no sistema solar exterior que poderão tornar-se um destino ainda mais distante para a sonda New Horizons, da NASA, após a sua passagem por Plutão em Julho.

O Hubble expandiu as fronteiras do conhecimento humano. Utilizando-o para espreitar as profundezas do espaço e observar o passado do tempo cósmico com uma nitidez sem precedentes, os astrónomos descobriram que as galáxias se formavam a partir de conjuntos mais pequenos de matéria reunidos no início do universo e que as galáxias maciças costumam alojar buracos negros supermaciços no seu centro. O Hubble observou estrelas anãs esbatidas e confirmou que a matéria normal não consegue gerar gravidade suficiente para manter as galáxias agregadas, o que significa que a “matéria escura” terá de ser composta por algo mais exótico. Medições de velocidade das galáxias realizadas pelo Hubble forneceram as primeiras pistas para a existência de “energia escura”, a força misteriosa que actualmente acelera o ritmo da expansão cósmica.

Muito recentemente, os investigadores do Hubble captaram luz de uma galáxia recém-nascida, vendo-a como ela era há 13 mil milhões de anos. Mediram também a temperatura de um planeta quente orbitando uma estrela a 260 anos-luz da Terra e descobriram três objectos gelados no sistema solar exterior que poderão tornar-se um destino ainda mais distante para a sonda New Horizons, da NASA, após a sua passagem por Plutão em Julho.

A popularidade global do telescópio espacial deve-se, sem dúvida, aos seus feitos científicos e às imagens memoráveis de galáxias reluzentes, nebulosas de brilho suave e destroços de estrelas estilhaçadas. Durante a construção e o lançamento do Hubble, estas fotografias eram menosprezadas nos círculos da NASA como mera informação de relações públicas: chamavam-lhes “bonitinhas”. Contudo, um quarto de século mais tarde, as perspectivas cósmicas montadas por Zoltan Levay e os seus colegas do Instituto Científico do Telescópio Espacial conseguiram, nas palavras do historiador da NASA Steven J. Dick, “melhorar a própria noção daquilo a que chamamos ‘cultura’”. O facto de os seres humanos as considerarem tão belas e evocativas como fotografias do pôr do Sol ou dos picos das montanhas da Terra, vem mais uma vez provar que só há uma natureza e que nós fazemos parte dela.

 

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