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Novas tecnologias permitem aos robots lidarem com a mudança constante e as formas irregulares que os seres humanos encontram no trabalho. O Foodly, um robot cooperante desenvolvido pela RT Corporation,  utiliza a visão avançada, algoritmos e uma mão preênsil para colocar pedaços de galinha numa caixa.

A revolução da robótica está iminente e as máquinas assumem um número cada vez maior de funções há muito desempenhadas por seres humanos, mudando a nossa vida.

Texto: David Berreby
Fotografias: Spencer Lowell 

Se o leitor for como a maioria das pessoas, nunca deve ter conhecido um robot. Mas vai conhecer.

Conheci um num dia de forte ventania do passado mês de Janeiro na fronteira entre os estados do Colorado e do Kansas (EUA), na companhia de Noah Ready-Campbell. Turbinas eólicas estendiam-se até perder de vista, em fileiras irregulares. À minha frente, vi o buraco que serviria de fundação a mais uma. Uma escavadora abria o buraco, com 19 metros de diâmetro, paredes formando um ângulo de 34 graus e a base nivelada a três metros de profundidade. Empilhando a terra removida num local onde esta não estorve, a máquina está programada para construir outra pilha. Cada movimento executado pela máquina de 37 toneladas exige controlo firme e decisões afinadas. Na América do Norte, um operador destas escavadoras ganha 85 mil euros por ano. No entanto, nesta escavadora, o lugar do condutor apresentava-se vazio.

O operador estava no tejadilho da cabina e não tinha mãos. Três cabos pretos serpenteantes ligavam-no directamente ao sistema de controlo da escavadora. Também não tinha olhos nem ouvidos, pois utilizava laser, GPS, câmaras de vídeo e sensores semelhantes a giroscópios que calculam a orientação de um objecto no espaço para supervisionar o trabalho. Noah Ready-Campbell, co-fundador de uma empresa de São Francisco chamada Built Robotics, subiu para a escavadora e levantou a tampa para me mostrar o produto da sua empresa: um dispositivo de 90 quilogramas capaz de executar um trabalho que antigamente era realizado por um ser humano.

“É aqui que corre a IA”, disse enquanto apontava para a colecção de placas de circuitos, cabos e caixas de metal que compunham a máquina: esses sensores “dizem-lhe” onde está, as câmaras que lhe permitem “ver”, os controlos transmitem “ordens” à escavadora, os dispositivos de comunicação permitem aos seres humanos monitorizá-la e o processador contém a inteligência artificial, ou IA, que toma as decisões que um operador humano tomaria. “Estes sinais de controlo são transmitidos aos computadores que costumam responder aos manípulos e pedais na cabina.”

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Nesta mão robótica semelhante à mão humana, criada numa universidade de Berlim, os dedos são como balões de ar “inteligentes”. Cheios, de acordo com especificações precisas, podem fechar-se em torno de um objecto com um aperto que é ao mesmo tempo hábil e delicado. No futuro, robots com este tipo
de “mãos” poderão manipular mercadorias num armazém ou trabalhar como recepcionistas em parques de diversões.

No século XX, quando eu era criança e acalentava esperanças de travar conhecimento com um robot quando crescesse, achava que ele teria forma humana e comportar-se-ia como tal, como o C-3PO de “A Guerra das Estrelas”. Porém, os robots então instalados em fábricas eram diferentes. Hoje em dia, milhões destas máquinas industriais aparafusam, soldam, pintam e executam tarefas repetitivas de linha de montagem. Frequentemente isolados por vedações para manter os trabalhadores humanos em segurança, são aquilo a que a especialista Andrea Thomaz, da Universidade do Texas, tem chamado mastodontes “mudos e brutos”.

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Clique na imagem para ver detalhes.

O dispositivo de Noah Ready-Campbell é diferente. É um novo tipo de robot. Nada tem de humano, mas, apesar disso, é inteligente, competente e móvel. Outrora raros, estes dispositivos concebidos para “viver” e trabalhar com pessoas que nunca conheceram um robot estão a migrar para o quotidiano a um ritmo gradual e constante.

Em 2020, os robots já tratam da gestão de stocks e limpam pavimentos no Walmart. Fazem a reposição nas prateleiras e vão buscar os artigos aos armazéns. Cortam alface, escolhem maçãs e até framboesas. Ajudam crianças autistas a socializar e vítimas de AVC a recuperar movimentos. Patrulham fronteiras e, no caso do drone israelita Harop, atacam alvos que consideram hostis. Compõem arranjos florais, oficiam cerimónias religiosas, dão espectáculos de comédia em palco e funcionam como parceiros sexuais.

E tudo isso existia antes da pandemia da COVID-19. Subitamente, a substituição de pessoas por robots (uma ideia com a qual a maioria das pessoas discorda, segundo a generalidade das sondagens) parece medicamente sensata, senão mesmo essencial.

Agora, os robots entregam comida em Milton Keynes, em Inglaterra, carregam mercadorias num hospital de Dallas, desinfectam os quartos dos doentes na China e na Europa e vagueiam por parques de Singapura, insistindo junto dos peões para respeitarem o distanciamento social.

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Das garras aos tentáculos. A mão humana não é perfeitamente adequada a todas as tarefas manuais. Muitas mãos robóticas são concebidas para executar tarefas especializadas e repetitivas. A concepção de algumas foi inspirada pelo mundo animal.

A pandemia permitiu que mais pessoas percebessem que a “automação vai fazer parte do trabalho”, disse-me Noah Ready-Campbell em Maio. “De início, o elemento impulsionador foi a eficiência e a produtividade, mas agora há outro nível que é a saúde e a segurança.”

Mesmo antes de a crise da COVID reforçar a sua relevância, as tendências tecnológicas estavam a acelerar a criação de robots com potencial para afectar as nossas vidas. As peças mecânicas tornaram-se mais leves, mais baratas e mais resistentes. Os componentes electrónicos conseguiram integrar mais capacidade de computação em embalagens mais pequenas. Graças a inovações, os engenheiros conseguiram instalar poderosas ferramentas de processamento de dados nos corpos dos robots. O aperfeiçoamento da comunicação digital permitiu manter alguns “cérebros” robóticos num computador externo ou ligar um simples robot a centenas de outros, deixando-os partilhar uma inteligência colectiva, como numa colmeia.

Num futuro próximo, o local de trabalho “será um ecossistema de seres humanos e robots trabalhando juntos de modo a maximizar a eficiência”, disse Ahti Heinla, co-fundador da plataforma Skype e actual co-fundador e director tecnológico da Starship Technologies, cujos robots de seis rodas com piloto automático circulam em Milton Keynes e noutras cidades da Europa e dos EUA.

Os robots gerem stocks e limpam grandes superfícies. patrulham fronteiras, celebram cerimónias religiosas e ajudam crianças autistas.

“Habituámo-nos a ter máquinas inteligentes que podemos transportar connosco”, acrescentou Manuela Veloso, especialista portuguesa em robótica e inteligência artificial da Universidade Carnegie Mellon. A minha interlocutora pegou no seu telefone inteligente. “Agora teremos de nos habituar a uma inteligência que possui um corpo e que se desloca sem nós.”

Do lado de fora do seu gabinete, os “cobôs” (ou robots cooperantes) da sua equipa deambulam pelos corredores, conduzindo os visitantes e entregando documentos. Parecem iPads montados em suportes com rodas, mas deslocam-se sozinhos e até apanham elevadores quando precisam (emitem um bip e mostram no ecrã aos seres humanos que se encontrem por perto um pedido bem-educado para carregarem nos botões por eles).

“É um facto inevitável que vamos ter máquinas, criaturas artificiais, que farão parte da nossa vida quotidiana”, disse Manuela Veloso. “Quando começamos a aceitar robots à nossa volta, como uma terceira espécie, juntamente com animais de estimação e seres humanos, vamos querer relacionar-nos com eles.”

Todos teremos de descobrir como fazê-lo. “As pessoas têm de perceber que isto não é ficção científica. Não é algo que acontecerá daqui a 20 anos”, disse a especialista. “Já começou a acontecer.”

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Clique na imagem para ver os detalhes. Imagem: Monica Serrano; Kelsey Nowakowski. Arte: Matthew Twombly. Fonte: Robin Murphy, Texas A&M

Vidal Pérez gosta do seu novo co-colaborador. Durante sete anos, enquanto trabalhava para a Taylor Farms, este homem de 34 anos servia-se de uma faca com 18 centímetros para cortar alface. Dobrando-se pela cintura, em movimentos repetidos, cortava uma alface, desbastava as folhas imperfeitas e punha-a dentro de um caixote. Desde 2016, porém, é um robot que trata do corte. É um equipamento de colheitas com oito metros e meio parecido com um tractor que se desloca de forma constante pelas filas, envolto numa nuvem de vapor gerada pelo jacto de água de alta pressão usado para cortar uma alface sempre que o sensor detecta uma. As alfaces cortadas caem numa correia de transporte inclinada que as transporta até à plataforma do equipamento, onde uma equipa de cerca de vinte operários as separam em diferentes caixotes.

Encontrei-me com Vidal Pérez às primeiras horas de uma manhã de Junho de 2019, enquanto ele fazia uma pausa no trabalho, numa plantação de alfaces com nove hectares destinada aos restaurantes de refeições rápidas e mercearias que são clientes da Taylor. A alguns metros de distância, outra equipa trabalhava à moda pré-robótica.

“Assim é melhor porque cansamo-nos muito mais a cortar alface com uma faca do que com esta máquina”, disse o meu interlocutor. Sentado no robot, ele orienta os caixotes, rodando-os sobre a correia de transporte. Nem todos os trabalhadores preferem o novo sistema, disse. “Alguns querem manter aquilo que já conhecem. E outros aborrecem-se por estarem sentados porque estavam habituados a mexer-se constantemente no campo.”

A Taylor Farms é uma das primeiras grandes empresas agrícolas da Califórnia a investir em agricultura robótica. “Estamos a passar por uma mudança geracional… na agricultura”, disse-me Mark Borman, presidente da Taylor Farms California, enquanto circulávamos pelo campo na sua carrinha de caixa aberta. Quando os trabalhadores antigos se vão embora, os mais jovens preferem não fazer trabalho duro. As restrições globais aos movimentos de migração transfronteiriça também não ajudaram. A agricultura está a ser robotizada em todo o mundo, acrescentou Mark Borman. “Estamos a crescer e a nossa força laboral está a diminuir. Por isso, os robots oferecem uma oportunidade positiva para ambos.”

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Mindar, encarnação robótica de Kannon, a divindade da Misericórdia e da compaixão do budismo japonês, encara Tensho Goto, um monge do templo Kodai-ji, em Quioto (Japão). Criado por uma equipa liderada por Hiroshi Ishiguro, da Universidade de Osaka, Mindar consegue recitar ensinamentos budistas.

Foi um refrão que ouvi frequentemente no ano passado de trabalhadores agrícolas e da construção civil, operários fabris e profissionais de saúde: andamos a atribuir tarefas aos robots porque não conseguimos encontrar pessoas que as façam.

No parque eólico do Colorado, executivos da Mortenson Company, uma empresa de construção civil que contrata os robots da Built desde 2018, relataram a falta de trabalhadores qualificados na sua indústria. Os robots de construção escavaram 21 fundações no parque eólico.

“Os operadores queixam-se e dizem: ‘Olha, lá vêm os assassinos de postos de trabalho’”, disse Derek Smith, director de inovação simplificada da Mortenson. “Mas depois de verem que o robot elimina muitas tarefas repetitivas e eles ainda ficam com muito que fazer, isso muda rapidamente.”

Quando a escavadora robótica terminou de escavar o buraco, um ser humano num bulldozzer finalizou o trabalhou e criou rampas. “Neste local, temos 229 fundações e, no essencial, quase todas obedecem às mesmas especificações”, disse Derek Smith. “Queremos eliminar tarefas repetitivas. Assim os nossos operadores podem concentrar-se nas tarefas que implicam mais arte.”

O maremoto da perda de postos de trabalho causado pela pandemia não alterou este cenário, asseguraram os fabricantes e utilizadores de robots. “Mesmo com uma taxa de desemprego altíssima, não podemos simplesmente estalar os dedos e preencher postos de trabalho que precisam de competências especializadas porque não temos pessoas com a devida formação”, disse Ben Wolff, presidente do conselho de administração da Sarcos Robotics.

A empresa sediada no estado de Utah fabrica exoesqueletos robóticos que se podem vestir como um fato, dando a força e a precisão de uma máquina aos movimentos de um trabalhador. A Delta Air Lines começara recentemente a testar um dispositivo da Sarcos com mecânica de aeronáutica quando a pandemia dizimou as viagens aéreas.

Quando conversei com Ben Wolff na Primavera passada, ele estava animado. “Há um abrandamento de curto prazo, mas estamos à espera de mais volume de negócios a longo prazo”, disse.

“Isto não é ficção científica. Não é algo que acontecerá daqui a 20 anos. Já começou a  acontecer.” — Manuela Veloso, investigadora de IA, Carnegie Mellon

Ben Wolff disse-me que a Sarcos registou um aumento do número de pedidos desde o início da pandemia, com o qual ele não estava a contar. Um fabricante de equipamento electrónico e outro de medicamentos queriam deslocar mercadorias pesadas com menos pessoas. Uma embaladora de carne estava interessada em aumentar a distância entre os seus colaboradores, que trabalhavam em proximidade excessiva.

Num mundo agora receoso do contacto humano, não será fácil preencher postos de trabalho de prestação de cuidados a crianças ou idosos. Maja Matarić, cientista informática e da Universidade do Sul da Califórnia, desenvolve “robots de assistência social”, máquinas que dão apoio social em vez de executarem tarefas físicas. Um dos projectos do seu laboratório é um treinador robótico que orienta um utilizador idoso ao longo do seu programa de exercício e depois encoraja-o a sair e a caminhar.

“O robot diz: ‘Eu não posso sair, mas por que não vai dar um passeio para depois me contar como foi?’”, contou Maja. O robot é um tronco, cabeça e braços de plástico branco apoiados num suporte de metal com rodas. Os seus sensores e programas informáticos permitem-lhe fazer algumas das tarefas que um treinador humano faria.

Visitámos o laboratório de Maja Matarić, um labirinto cheio de jovens em cubículos, trabalhando nas tecnologias que poderão permitir a um robot manter uma conversa num grupo de apoio ou reagir de forma a que um ser humano sinta empatia por parte da máquina. Perguntei à minha interlocutora se os utilizadores ficavam assustados com a ideia de terem uma máquina a tomar conta do avô. “Não substituímos os cuidadores”, disse ela. “Estamos a preencher uma lacuna. Os filhos adultos não podem acompanhar os pais idosos. E as pessoas que cuidam de outras pessoas neste país são mal pagas e subvalorizadas. Até isso mudar, teremos de utilizar robots.”

Dias depois de ter visitado o laboratório de Maja Matarić, num mundo diferente a 30 quilómetros da universidade, centenas de estivadores manifestavam-se contra os robots. Foi na zona de San Pedro, em Los Angeles, onde gruas de movimentação de contentores pairavam sobre uma paisagem de armazéns, docas e modestas ruas residenciais. Gerações desta comunidade unida trabalharam como estivadores nas docas. A geração actual não gostou de um plano para trazer operadores de carga robóticos para o maior terminal do porto, apesar de essas máquinas já serem comuns em portos de todo o mundo, incluindo na área de Los Angeles.

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ANYmal é um robot capaz de subir degraus, pisar delicadamente detritos ou rastejar em espaços estreitos. Aqui, passeia numa rua junto das instalações do seu fabricante, a ANYbotics, em Zurique (Suíça). Ao contrário dos robots com rodas, os dispositivos com pernas como o ANYmal são capazes de aceder a quase todos os sítios que os humanos conseguem e a outros que estes não conseguem, como áreas contaminadas por resíduos radioactivos ou químicos.

Os estivadores não estão à espera de que as mudanças acabem, disse Joe Buscaino, que representa San Pedro no Conselho Municipal de Los Angeles. San Pedro já passou por outras convulsões económicas, quando as indústrias da pesca, dos enlatados e da construção naval prosperaram e depois desabaram. O problema dos robots, disse Joe Buscaino, é a velocidade a que os empregadores estão a introduzi-los na vida dos trabalhadores.

“Há muitos anos, o meu pai percebeu que a pesca iria acabar e, por isso, começou a trabalhar numa padaria. Ele conseguiu fazer a transição. Mas a automação tem a capacidade de extinguir postos de trabalho da noite para o dia.”

 

Há divergências entre os economistas quanto à medida e à forma como os robots afectarão os empregos no futuro. No entanto, muitos peritos concordam num aspecto: alguns trabalhadores terão mais dificuldade em adaptar-se aos robots.

Os robots podem executar tarefas bem definidas, mas nenhum tem capacidade para tarefas em simultâneo nem de fazer uso do senso comum.

“Há provas claras de que passaram a existir muito menos postos de trabalhos para operários de produção e montagem nas indústrias que optam pelo uso de robots”, disse Daron Acemoglu, economista do MIT que estudou os efeitos da robótica e de outras formas de automação. “Isso não significa que a tecnologia do futuro não possa criar empregos, mas a ideia de que vamos adoptar a automação à esquerda, à direita e ao centro, ao mesmo tempo que criamos numerosos postos de trabalho, é uma fantasia intencionalmente enganadora e incorrecta.”

Apesar do optimismo dos investidores, investigadores e accionistas das empresas de tecnologia, muitas pessoas, como Joe Buscaino, preocupam-se com um futuro cheio de robots. Temem que estes não assumam apenas o trabalho pesado, mas todo o trabalho ou, pelo menos, as fases desafiantes, honrosas e bem pagas. Também receiam que os robots tornem o trabalho mais enervante ou até perigoso.

Beth Gutelius, especialista em planeamento urbano e economista da Universidade de Illinois, investigou a indústria do armazenamento e falou-me sobre um armazém que visitou após a introdução de robots. Os engenhos agiam com rapidez na entrega das mercadorias aos seres humanos para empacotamento e isso poupava-lhes muitas deslocações para trás e para a frente. Também os faziam sentir-se apressados, eliminando a oportunidade de conversarem.

Os empregadores deveriam pensar que este tipo de pressão exercida sobre os empregados “não é saudável e é real e tem impactes no bem-estar dos trabalhadores”, disse Dawn Castillo, epidemiologista responsável pela investigação de robots ocupacionais no Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional do Centro de Controlo de Doenças. O Centro de Investigação de Robótica Ocupacional espera que as mortes relacionadas com robots “devam aumentar com o tempo”, segundo o seu sítio da Internet. Isso deve-se ao facto de haver mais robots em mais sítios a cada ano que passa, mas também mais robots a trabalhar em novos ambientes, onde conhecem pessoas que não sabem o que esperar e situações que os responsáveis pela sua concepção podem não ter previsto.

Em San Pedro, depois de Joe Buscaino vencer a votação para travar o plano de automação, o Sindicato Internacional de Estivadores e Armazéns negociou aquilo a que o presidente do comité local do sindicato chamou um acordo “agridoce” com a Maersk, o conglomerado dinamarquês que gere o terminal de contentores. Os trabalhadores das docas concordaram em pôr fim à luta contra os robots em troca de formação de “melhoria de qualificações” para 450 mecânicos aprenderem a trabalhar com eles. Outros 450 trabalhadores serão “requalificados”: formados para executar novos trabalhos mais tecnológicos.

Quanto à eficácia dessa requalificação, sobretudo para os trabalhadores de meia-idade, é uma questão em aberto, disse Joe Buscaino. Ele tem um amigo que é mecânico e a sua experiência com carros e carrinhas habilita-o a acrescentar a manutenção de robots às suas competências. Por outro lado, “o meu cunhado Dominic, que é estivador, não faz a menor ideia de como trabalhar com estes robots. E tem 56 anos.”

A palavra “ robot” faz precisamente 100 anos este ano. Foi cunhada pelo autor Karel Capek, numa peça que definiu o modelo para os sonhos e pesadelos mecânicos do século. Os robots dessa peça, R.U.R., parecem-se e comportam-se como pessoas e fazem todo o trabalho dos seres humanos. Antes de o pano cair, eliminam a raça humana!

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O manuseamento de objectos é uma competência essencial para robots que trabalham com pessoas. As mãos humanas são mais sensíveis e ágeis do  que as que de qualquer robot, mas as máquinas estão a aperfeiçoar-se. Utilizando dedos insuflados com ar comprimido para imitar o toque suave da mão humana, este robot da Universidade Técnica de Berlim pega numa maçã.

Desde então, robots imaginários como o Exterminador, o japonês Astro Boy e os andróides de “A Guerra das Estrelas”, exerceram enorme influência nos planos dos fabricantes de robots. Também moldaram as expectativas sobre o que são os robots e o que estes podem fazer.

Tensho Goto é um monge da escola Rinzai de budismo zen japonês. Homem rijo e vigoroso de disposição alegre, encontrou-se comigo numa sala simples e elegante do Kodai-ji, o templo seiscentista de Quioto pelo qual é responsável. Tensho parecia a imagem viva da tradição. No entanto, ele sonha com robots há muitos anos. Tudo começou há várias décadas, quando leu sobre mentes artificiais e pensou em reproduzir o Buda com silicone, plástico e metal. Com versões andróides dos sábios, disse, os budistas poderiam “ouvir directamente as suas palavras”.

No entanto, quando começou a colaborar com especialistas em robótica da Universidade de Osaka, a realidade robótica atenuou o sonho dos robots. Ele descobriu que “com a IA que hoje existe, é impossível criar inteligência humana, muito menos as personagens que alcançaram a Iluminação”. À semelhança de muitos especialistas em robótica, porém, ele não desistiu, contentando-se com aquilo que é possível fazer actualmente.

Ei-la no ponto mais distante de uma sala com paredes brancas nas instalações do templo: uma encarnação de metal e silicone de Kannon, a divindade que representa a compaixão e a misericórida do budismo japonês. Durante muitos séculos, os templos e santuários usaram estátuas para atrair pessoas, de modo a que os fiéis se concentrassem nos mandamentos budistas. “Agora, pela primeira vez, temos uma estátua que se mexe”, disse.

robot, chamado Mindar, faz sermões pré-gravados com uma voz feminina vigorosa e não muito humana, gesticulando suavemente com os braços e virando a cabeça de um lado para o outro para examinar o público. Quando os seus olhos incidem sobre alguém, essa pessoa sente algo, mas não é a inteligência de Mindar – ela não tem IA. Tensho Goto espera que isso mude com o tempo e que a sua estátua móvel se torne capaz de conversar com pessoas e responder às suas perguntas sobre religião.

Do outro lado do Pacífico, numa casa de aspecto banal, num subúrbio sossegado de San Diego, encontrei-me com um homem que pretende proporcionar um tipo diferente de experiência íntima com robots.

O artista Matt McMullen é o director executivo de uma empresa chamada Abyss Creations, que fabrica bonecas sexuais em tamanho real.

Matt lidera uma equipa de programadores, especialistas em robótica, peritos em efeitos especiais, engenheiros e artistas que criam companheiras robóticas capazes de apelar ao coração, à mente e também aos órgãos sexuais.

A empresa fabrica as RealDolls, com pele de silicone e esqueleto de aço, há mais de uma década. O modelo padronizado custa cerca de 3.400 euros. Actualmente, porém, se pagar mais 6.800 euros, o cliente recebe uma cabeça robótica com componentes electrónicos capazes de reproduzir expressões faciais, voz e uma inteligência artificial que pode ser programada através de uma aplicação para smartphone.

À semelhança da Siri ou da Alexa, a IA da boneca fica a conhecer o utilizador através das instruções dadas e perguntas que lhe fazem. Abaixo do pescoço, por enquanto, o robot continua a ser uma boneca e os seus braços e pernas só se mexem quando o utilizador os manuseia.

“Actualmente, ainda não dispomos de Inteligência Artificial que se assemelhe a uma mente humana”, reconhece Matt McMullen. “Mas acho que vamos tê-la no futuro. É inevitável.” O empresário afirma não ter dúvidas quanto à existência de mercado para estes produtos. “Acredito que há muitas pessoas que podem beneficiar de robots parecidos com pessoas”, explicou.

Já estamos a afeiçoar-nos a alguns que não se parecem minimamente connosco. Algumas unidades militares celebraram exéquias fúnebres por robots desmanteladores de bombas que explodiram em serviço. Enfermeiros provocam os seus colegas robots nos hospitais. Participantes em experiências recusaram-se a denunciar os seus colegas de equipa robóticos. À medida que os robots se tornam mais realistas, os seres humanos deverão começar a depositar mais afecto e confiança neles. A influência de robots oriundos do universo da fantasia leva muitos a pensar que as máquinas reais de hoje são mais competentes do que o são na verdade. Os robots podem ser programados ou treinados para executarem uma tarefa bem definida com mais eficiência ou, pelo menos, de forma mais constante, do que os seres humanos. Mas nenhum consegue igualar a capacidade da mente humana para executar várias tarefas diferentes, sobretudo se forem inesperadas. Até ao momento, nenhum conseguiu ainda perceber com mestria o que é senso comum. Os robots actuais também não conseguem fazer o trabalho das mãos humanas, disse Chico Marks, director de engenharia de produção na fábrica de automóveis da Subaru, em Lafayette (EUA). A fábrica, à semelhança de todas as marcas de automóveis, utiliza robots de classe industrial há décadas. Agora, está gradualmente a introduzir novos tipos para executar tarefas como carros sem condutor que transportam as peças pela fábrica. O meu interlocutor mostrou-me uma combinação de fios que iriam serpentear por uma secção curva junto da futura porta traseira de um automóvel.

“O direccionamento de um feixe de cabos num veículo não se presta à automação”, disse Chico Marks. “Requer um cérebro humano e feedback táctil para saber que está no sítio certo e bem ligado.”

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Um robot de colheita, desenvolvido pela Abundant Robotics, usa sucção para colher maçãs num pomar em Grandview, no estado de Washington. Os robots são cada vez mais capazes de executar tarefas agrícolas que, no passado, exigiam a destreza e precisão de mãos humanas. Isso é bom para explorações agrícolas com falta de mão-de-obra humana.

As pernas robóticas não são muito melhores. Em 1996, a portuguesa Manuela Veloso participou num desafio para criar robots capazes de jogar futebol melhor do que os seres humanos até 2050. Ela era um dos membros de um grupo de investigação que, naquele ano, criou o torneio RoboCup para estimular o progresso. O RoboCup é hoje uma tradição muito apreciada por engenheiros de vários continentes, mas nenhum, incluindo Manuela Veloso, espera que os robots joguem futebol melhor do que os seres humanos num futuro próximo.

“A sofisticação dos nossos corpos enquanto máquinas é uma loucura”, disse. “Bons a gerir a gravidade e a lidar com as forças enquanto caminhamos, quando somos empurrados e ao mantermos o equilíbrio. Vão ser precisos muitos anos para um robot bípede conseguir caminhar tão bem como um ser humano.”

Os robots não vão ser pessoas artificiais. Como disse Manuela Veloso, teremos de nos adaptar a eles como se fossem uma espécie diferente e a maioria dos fabricantes estão a trabalhar arduamente para conceber robots capazes de fazerem cedências aos nossos sentimentos humanos. No parque eólico, aprendi que, quando o balde denteado de uma escavadora de grandes dimensões “ressalta” no solo, isso é sinal de inexperiência num operador humano. O safanão daí resultante pode até ferir a pessoa que se encontra na cabina. Para um operador robótico, o ressalto faz pouca diferença. No entanto, a Built Robotics alterou o algoritmo do seu robot para evitar esse ressalto, pois é mal-visto pelos profissionais humanos e a Mortenson quer que os trabalhadores de todas as espécies se dêem bem.

Não são só as pessoas a mudar à medida que os robots vão entrando em cena. Mark Borman disse-me que a Taylor Farms está a trabalhar numa nova alface em forma de lâmpada com um caule mais comprido. Esse formato será simplesmente mais fácil de cortar para o robot.

A Bossa Nova Robotics fabrica um robot que deambula por milhares de lojas na América do Norte, examinando as prateleiras para gerir os stocks. Os engenheiros da empresa perguntaram-se a si próprios quão amigáveis e acessíveis os seus robots deveriam ser. O resultado final parece um equipamento de ar condicionado portátil com um periscópio de dois metros de altura. Não tem rosto nem olhos. “É uma ferramenta”, explicou Sarjoun Skaff, co-fundador e director tecnológico da Bossa Nova. Ele e os outros engenheiros queriam que os clientes e os colaboradores gostassem da máquina, mas não demasiado. Se fosse demasiado industrial ou demasiado estranha, os clientes fugiriam. Se fosse demasiado amigável, as pessoas iriam querer falar e brincar com ela, abrandando o seu ritmo de trabalho. A longo prazo, os robots e as pessoas vão aceitar “um conjunto comum de normas de interacção entre seres humanos e robots”. Por enquanto, os fabricantes de robots e as pessoas normais estão a apalpar terreno neste domínio.

Nos arredores de Tóquio, nas instalações da Glory, que fabrica máquinas de contagem de dinheiro, parei num posto de trabalho onde uma equipa constituída por nove membros estava a montar uma máquina de trocos. Uma folha de papel revestida com plástico mostrava as fotografias e os nomes de três mulheres, dois homens e quatro robots.

Os robots de dois braços cintilantes, levemente parecidos com os descendentes de um frigorífico e do robot WALL·E, receberam o nome de moedas. Enquanto eu observava a equipa a montar velozmente as peças de uma máquina de trocos, um robot chamado Dollar precisou de ajuda algumas vezes – uma delas por não conseguir retirar a película da parte de trás de um autocolante. Uma luz vermelha junto do seu posto brilhou e um ser humano saiu rapidamente do seu lugar na linha de montagem para corrigir o problema.

Dollar tem câmaras nos “pulsos”, mas também tem uma cabeça com duas câmaras como olhos. “Em termos conceptuais, pretende ser um robot com forma humana”, explicou o administrador Toshifumi Kobayashi. “É por isso que tem uma cabeça.”

Essa pequena cedência não convenceu imediatamente os seres humanos de carne e osso, disse Shota Akasaka, de 32 anos, um gestor de equipa de aspecto juvenil e sorridente. “Eu não tinha a certeza se ele conseguiria fazer trabalho humano, se conseguiria apertar um parafuso”, disse. “Quando vi o parafuso entrar na perfeição, apercebi-me de que estávamos a assistir ao nascimento de uma nova era.”

Numa sala de conferências a nordeste de Tóquio, descobri como é trabalhar com um robot da forma mais próxima possível: vestindo-o em mim.

O exoesqueleto, fabricado por uma empresa japonesa chamada Cyberdyne, era constituído por dois tubos brancos interligados que se curvavam nas minhas costas, um cinto na minha cintura e duas correias nas minhas coxas. Curvei-me ao nível da cintura para levantar um recipiente de água com 18 quilogramas, o que deveria ter magoado a minha zona lombar. Em vez disso, um computador alojado nos tubos usou a mudança de posição para deduzir que eu iria levantar um objecto e os motores entraram em acção para me ajudar.

robot fora concebido para dar assistência apenas aos músculos das minhas costas. Quando eu me agachava e o esforço era transferido para as pernas, como deve acontecer, o dispositivo não me dava grande ajuda. Apesar disso, quando funcionava, parecia um truque de magia. Primeiro, sentia o peso e depois deixava de o sentir.

Segundo a Cyberdyne, existe um grande mercado na área da reabilitação clínica. A empresa fabrica um exoesqueleto para os membros inferiores que está a ser utilizado para ajudar as pessoas a recuperarem o uso das suas próprias pernas. Para muitos dos seus produtos, “outro mercado será o dos trabalhadores, para conseguirem trabalhar mais tempo e com menor risco de lesões”, afirmou Yudai Katami, porta-voz da Cyberdyne.

A Sarcos Robotics, outro fabricante de exoesqueletos, está a pensar de forma semelhante. Um dos objectivos dos seus dispositivos, segundo Ben Wolff, era “tornar os seres humanos mais produtivos para poderem acompanhar as máquinas que possibilitam a automação”.

Os especialistas sonham com máquinas que tornem a vida melhor, mas por vezes as empresas têm incentivos para instalar robots que não o fazem. Afinal, os robots não precisam de férias pagas nem de seguro de saúde. Além disso, muitos países obtêm vastas receitas fiscais com trabalho, ao mesmo tempo que encorajam a automação com isenções fiscais e outros incentivos. As empresas podem, por isso, poupar dinheiro reduzindo o número de funcionários e acrescentando robots.

“Recebem-se muitos subsídios por instalar equipamento, sobretudo equipamento digital e robots”, disse Daron Acemoglu. “Isso incentiva as empresas a preferirem as máquinas aos seres humanos, mesmo quando as máquinas não são melhores.” Além disso, os robots são mais excitantes do que os meros seres humanos.

Existe um “zeitgeist específico entre tecnológicos e gestores, que acham que os seres humanos são problemáticos”, resumiu Daron Acemoglu. “É um sentimento do género que sugere que os humanos cometem erros e fazem exigências, o que justifica uma aposta na automação.”

Depois de Noah Ready-Campbell ter decidido investir nos robots de construção, o seu pai Scott Campbell perguntou-lhe delicadamente se ele achava que aquilo era mesmo boa ideia. O Campbell mais velho, ele próprio antigo trabalhador no sector da construção, representa actualmente a cidade de Saint Johnsbury na assembleia geral do estado de Vermont. Rapidamente se convenceu da validade do trabalho do filho, mas os seus eleitores estão preocupados com os robots e não apenas por motivos económicos. Talvez um dia seja possível entregarmos todo o nosso trabalho aos robots. No entanto, os eleitores de Campbell querem reservar algo para a humanidade: o trabalho que faz os seres humanos sentirem-se valorizados.

“O aspecto mais importante no trabalho não é aquilo que obtemos em troca dele, mas aquilo em que nos transformamos, ao fazê-lo”, disse Scott Campbell. “Acho que isto é uma verdade profunda. É o aspecto mais importante de ter um trabalho.”

Um século depois de terem sido, pela primeira vez, imaginados, os robots reais estão a tornar a vida mais fácil e segura para algumas pessoas. Também estão a torná-la um pouco mais robótica. Para muitas empresas, isso faz parte do encanto.

“Actualmente, todos os locais de construção são diferentes e todos os operadores são artistas”, disse Gaurav Kikani, vice-presidente da Built Robotics. Os operadores gostam da variedade, mas os empregadores nem por isso. Poupam tempo e dinheiro quando sabem que uma tarefa é sempre executada da mesma maneira e que não dependem das decisões de um indivíduo. Embora os locais de construção precisem sempre da adaptabilidade e do engenho humano para algumas tarefas, “com os robots, temos uma oportunidade de uniformizar as práticas e criar eficiências para tarefas adequadas a eles”, disse.

Quando uma sociedade tem de escolher as preferências que devem prevalecer, a tecnologia não consegue dar respostas. Por mais avançados que sejam, há algo em que os robots não podem ajudar-nos: decidir como, quando e onde utilizá-los.

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