raios laser

Raios laser rasgam o céu junto do Very Large Telescope do Observatório Europeu do Sul, no deserto de Atacama (Chile). Os lasers criam estrelas-guia artificiais que ajudam os astrónomos a corrigir distorções causadas pela turbulência atmosférica. O telescópio é um dos poucos capazes de captar directamente imagens de exoplanetas gigantes. Gerhard Hüdepohl, ESO

Esta reportagem explica a forma como procuramos vida e tentamos estabelecer contacto.

Texto:  Jamie Shreeve
Fotografias: Spencer Lowell
Arte: Dana Berry

No seu gabinete no 17.º piso do Edifício 54 do MIT, Sara Seager encontra-se no lugar mais perto possível do espaço em Cambridge, no estado de Massachusetts (EUA). Da janela, ela consegue ver para lá do rio Charles, até à baixa da cidade de Boston. 
No interior do edifício, o panorama alarga-se até à Via Láctea e mais além.

Esta astrofísica de 47 anos é especialista em exoplanetas, ou seja, em todos os planetas do universo excepto aqueles que já conhecemos, pois orbitam o nosso próprio Sol. Num quadro de ardósia, ela escreveu a equação que concebeu para calcular a probabilidade de detectar vida num desses planetas. Noutro quadro, existem numerosos objectos, incluindo um frasco com fragmentos vítreos brilhantes.

“É uma rocha que derretemos.”

Sara explica que existem planetas conhecidos como super Terras quentes que orbitam tão perto das suas estrelas que um dos seus anos dura menos de um dia. “Estes planetas são tão quentes que devem conter lagos gigantes de lava”, comenta. Daí a rocha fundida.

“Queríamos testar o brilho da lava.”

Quando Sara Seager iniciou os seus estudos de pós-graduação, em meados da década de 1990, não se conhecia a existência de planetas que dão a volta às suas estrelas em poucas horas, nem de outros que demoram quase um milhão de anos a fazê-lo. Não sabíamos que existiam planetas que giram em torno de duas estrelas, nem planetas solitários que não orbitam nenhuma estrela. 
A verdade é que nem sequer tínhamos a certeza de haver planetas fora do nosso sistema solar e muitos dos nossos pressupostos sobre o que é um planeta revelaram-se errados. O primeiro exoplaneta descoberto (51 Pegasi b, em 1995) revelou-se uma surpresa: era um planeta gigante colado à sua estrela, circundando-a em apenas quatro dias. 

“A descoberta do 51 Peg deveria ter conduzido à percepção generalizada de que isto seria uma aventura de loucos”, disse Sara. “Aquele planeta não deveria estar ali.”

 

Actualmente, há cerca de quatro mil exoplanetas confirmados. A maioria foi descoberta pelo telescópio espacial Kepler, lançado em 2009. O Kepler tinha por missão investigar possíveis planetas na órbita de cerca de 150 mil estrelas, numa secção de céu minúscula – mais ou menos o espaço que conseguimos tapar com a mão quando esticamos o braço. No entanto, o seu derradeiro objectivo era resolver uma questão mais decisiva: serão comuns no universo os locais onde a vida poderá ter evoluído ou serão cada vez mais raros, deixando-nos sem esperança de algum dia virmos a conhecer outro mundo com vida?

A resposta do Kepler foi inequívoca: há mais planetas do que estrelas e um quarto, pelo menos, desses planetas têm o tamanho da Terra e localizam-se na chamada zona habitável da sua estrela, onde as condições não são demasiado quentes nem demasiado frias para a vida. Com um mínimo de 100 mil milhões de estrelas na Via Láctea, isso significa que existem pelo menos 25 mil milhões de sítios onde poderá existir vida só na nossa galáxia e a nossa galáxia é uma entre milhões de milhões. 

Não admira, portanto, que o Kepler, que ficou sem combustível em Outubro do ano passado, seja quase digno de reverência por parte dos astrónomos. “O Kepler foi o maior passo em frente desde a revolução de Copérnico”, disse-me o astrofísico Andrew Siemion.

Graças a ele, alterou-se a forma como encaramos um dos maiores mistérios da existência. 
A pergunta já não é se existe vida fora da Terra? 
A pergunta é: como vamos encontrá-la?

A descoberta de que a galáxia se encontra carregada de planetas conferiu um novo estímulo à busca de vida. Uma vaga de financiamento privado criou uma agenda de investigação mais ágil e aventureira. A NASA está igualmente a intensificar esforços na área da astrobiologia. Boa parte da investigação centra-se agora na identificação de sinais de vida noutros mundos. Ao mesmo tempo, a junção ousada de novos objectivos, mais dinheiro e capacidade de computação cada vez maior também galvanizou a procura de extraterrestres inteligentes, iniciada há várias décadas.

Les

Les Johnson faz flutuar um pedaço do material de plástico metalizado, muito mais fino do que um cabelo humano. Uma vela propulsionada a lasers poderia ser feita em grafeno, que pesa bastante menos. “As velas solares actuais são as avós das velas movidas por feixes de energia que, um dia, levarão os nossos netos às estrelas”, diz.

Para Sara Seager, o momento em que integrou a equipa do Kepler foi mais um passo para atingir o objectivo da sua vida: descobrir um planeta parecido com a Terra, orbitando uma estrela parecida com o Sol. Neste momento, a sua atenção está concentrada no Transiting Exoplanet Survey Satellite (TESS), um telescópio espacial da NASA, operado pelo MIT, lançado no ano passado. À semelhança do Kepler, o TESS procura um ligeiro obscurecimento no brilho de uma estrela aquando da passagem (o chamado trânsito) de um planeta à sua frente. O TESS observa o céu quase na sua totalidade, com a finalidade de identificar cerca de cinquenta exoplanetas com superfícies rochosas como a da Terra, que possam ser investigados por maiores e melhores telescópios prestes a entrar em cena, como o Telescópio Espacial James Webb, que a NASA espera lançar em 2021. 

No seu gabinete, Sara reuniu alguns objectos que exprimem “onde estou agora e para onde vou, para me recordar a razão pela qual estou a trabalhar tão arduamente”, diz. Entre eles, há alguns globos de pedra polida representando uma estrela anã vermelha e o seu grupo de planetas e um modelo de ASTERIA, um satélite barato desenvolvido para descobrir planetas. 

A Breakthrough Starshot é um ambicioso plano para enviar sondas minúsculas numa viagem de 20 anos até ao exoplaneta Proxima Centauri b. No entanto, até uma sonda leve como uma pena precisa de combustível. E, quanto mais longe for, mais combustível precisará. A solução proposta passa por lançá-las a partir de um satélite em órbita e propulsioná-las com lasers instalados na Terra.

“Ainda não consegui pendurar isto”, lamenta a cientista, desenrolando um cartaz com as assinaturas espectrais dos elementos, semelhante a códigos de barras coloridos. Cada composto químico absorve um conjunto específico de comprimentos de onda de luz. Nós vemos as folhas verdes, por exemplo, porque a clorofila é uma molécula sedenta de luz, que absorve o vermelho e o azul, reflectindo apenas a luz verde. Com pouco mais de 20 anos, ocorreu a Sara a ideia de que os compostos de um planeta em trânsito na alta atmosfera talvez deixassem as suas impressões digitais espectrais na luz das estrelas ao passarem por elas. Em teoria, se existirem gases emitidos por criaturas vivas na atmosfera de um planeta, poderemos ver provas disso na luz que nos chega.

“Vai ser muito difícil”, diz. “Imagine a atmosfera de um planeta rochoso como a pele de uma cebola e todo o corpo está em frente de algo parecido com um ecrã IMAX.” Existe a possibilidade, embora improvável, de haver um planeta rochoso na órbita de uma estrela suficientemente próxima para o telescópio Webb conseguir captar luz suficiente para a examinar em busca de sinais de vida. No entanto, a maioria dos cientistas teme que seja necessário esperar pela próxima geração de telescópios espaciais. 

 

Cobrindo a maior parte da parede, colocado sobre o seu “quadro de inspiração” está um painel de plástico negro ultrafino com a forma da pétala de uma flor gigante. Serve para a recordar a cientista para onde vai: uma missão espacial, ainda em desenvolvimento, que ela acredita que poderá levá-la a outra Terra com vida.

Desde muito novo que Olivier Guyon tem dificuldades com o sono. Na verdade, o seu problema é paradoxal. Supostamente, deveria aproveitar a noite para adormecer, mas essa altura é muito mais interessante para estar acordado. Olivier cresceu em França. Quando tinha 11 anos, os pais compraram-lhe um pequeno telescópio, presente de que, segundo ele, mais tarde viriam a arrepender-se. Passou muitas noites a espreitar por ele e a adormecer nas aulas, no dia seguinte. Quando aquele telescópio se tornou pequeno para as suas necessidades, Olivier construiu um maior. 

chip

Pouco maior do que um selo postal, a sonda espacial Sprite desenvolvida no NASA Ames, na Califórnia, revela que, um dia, poderá ser possível a Breakthrough Starshot transportar sensores que sondem a existência de vida no sistema estelar mais próximo.

Todavia, embora conseguisse ampliar a sua perspectiva dos objectos celestes, nada pôde fazer para aumentar o número de horas da noite. Precisava de fazer algo: por isso, um dia, ainda na adolescência, decidiu prescindir quase inteiramente do sono. No início, sentiu-se fantástico, mas passada uma semana, adoeceu gravemente. Recordando o sucedido agora, ele ainda treme.

Hoje com 43 anos, Olivier tem um telescópio muito grande à sua disposição. O Observatório Subaru, juntamente com 12 outros, está instalado no cume de Mauna Kea, na Ilha Grande do Hawai. O reflector de 8,2 metros do Subaru é um dos maiores espelhos de uma só peça do mundo. 

Localizado 4.205 metros acima do nível do mar, Mauna Kea oferece uma das panorâmicas mais desafogadas e límpidas do universo, mas fica apenas a uma hora e meia de automóvel da casa de Olivier, em Hilo. A proximidade permite-lhe fazer viagens frequentes até ao local, para testar e melhorar o instrumento que construiu e acoplou ao telescópio, trabalhando frequentemente de noite. Leva consigo uma garrafa térmica cheia de café e, durante algum tempo, acrescentou-lhe doses de cafeína líquida, até um amigo lhe explicar que a quantidade de cafeína que estava a ingerir diariamente era mais de metade da dose mortal.

“Depois de algumas semanas passadas aqui, começamos a esquecer-nos da vida na Terra”, diz. “Primeiro, esquecemo-nos do dia da semana. Depois começamos a esquecer-nos de telefonar à família.”

À semelhança de Sara Seager, a genialidade  de Olivier reside no domínio da luz: na maneira de processá-la e manipulá-la para captar um vislumbre de corpos que nem o enorme espelho do Subaru veria sem a habilidade do cientista.

“A questão mais importante consiste em saber se há, ou não, actividade biológica lá em cima,” afirma. “Se sim, como será? Haverá continentes? Oceanos e nuvens? Todas estas perguntas poderão ser respondidas se conseguirmos extrair a luz de um planeta da luz da sua estrela.”

Laurance Doyle convive com algumas formas de vida “extraterrestre” no Six Flags Discovery Kingdom, na Califórnia. Os estudos sobre os sistemas de comunicação de golfinhos e baleias poderão ajudar os cientistas a descodificar padrões em línguas extraterrestres.

A separação da luz de um planeta rochoso do tamanho da Terra da luz da sua estrela pode ser comparada ao acto de semicerrar os olhos o suficiente para ver uma mosca da fruta a voar alguns centímetros em frente de um holofote. Não parece possível e, com os telescópios actuais, não é. No entanto, Olivier Guyon tem os olhos postos naquilo que a próxima geração de telescópios poderá fazer… se forem concebidos para semicerrarem muito, mas mesmo muito, os seus “olhos”.

Este instrumento foi desenhado precisamente para esse fim. Chama-se Subaru Coronagraphic Extreme Adaptive Optics (SCExAO, na sigla anglófona). Olivier queria que eu o visse 
em acção, mas uma falha de electricidade desligara o Subaru. 

Em compensação, fiz uma visita guiada ao longo da cúpula de 43 metros em redor do telescópio. Existe aqui menos 40% de oxigénio do que ao nível do mar. Os visitantes têm a opção de levar garrafas de oxigénio, mas Olivier decide que eu não preciso disso e pomo-nos a caminho.

 

“No outro dia, durante uma visita guiada a alguns cientistas, uma delas desmaiou!”, diz, com um misto de surpresa e arrependimento. “Eu deveria ter percebido que ela não estava a sentir-se bem. Estava muito calada.” Agarrei-me ao corrimão e tive o cuidado de fazer perguntas.

Os telescópios terrestres, como o Subaru, são muito mais potentes na captação de luz do que telescópios espaciais como o Hubble, sobretudo porque ainda ninguém descobriu a maneira de introduzir um espelho com mais de oito metros num foguetão e lançá-lo para o espaço. Contudo, os telescópios terrestres têm uma grande desvantagem: ficam quilómetros abaixo da nossa atmosfera. As flutuações da temperatura atmosférica podem levar a luz a curvar de forma errática.

transmissor

Um transmissor laser, desenvolvido pela II-VI, Inc. e pela Universidade de Dayton, prenuncia a tecnologia necessária à Breakthrough Starshot para propulsionar sondas espaciais até à estrela mais próxima. Raios laser emitidos pelas 21 lentes do dispositivo convergem num alvo remoto. O conjunto de lasers da Starshot terá quase mil milhões de feixes semelhantes.

A primeira tarefa do SCExAO é “alisar esses vincos”. O processo exige o direcionamento da luz de uma estrela para um espelho que muda de forma, ligeiramente mais pequeno do que uma moeda de 20 cêntimos. Os motores deformam o espelho três mil vezes por segundo até contrabalançar de forma exacta as aberrações atmosféricas e, voilà, um feixe de luz estelar torna-se o mais parecido possível com o que era originalmente, antes de a nossa atmosfera o distorcer. Segue-se, então, a parte de semicerrar o instrumento. Para Olivier Guyon, a luminosidade de uma estrela é uma “bolha de luz a ferver que tentamos eliminar”. O instrumento chamado coronógrafo permite apenas a passagem da luz reflectida pelo planeta.

Um dia, o resultado final será um ponto de luz visível que é, na verdade, um planeta rochoso. Desviando esta imagem para um espectrómetro, um dispositivo capaz de analisar os comprimentos de onda da luz, podemos começar a examiná-la em busca das tais impressões digitais da vida, também chamadas bio-assinaturas.

Há uma bio-assinatura que constituiria uma prova de detecção de vida, tanto quanto a cautela científica permite. Já temos um planeta para prová-lo. Na Terra, as plantas e determinadas algas e bactérias produzem oxigénio como subproduto da fotossíntese. O oxigénio reage e liga-se a quase tudo o que existe à superfície de um planeta. Por isso, a descoberta de provas da sua acumulação na atmosfera levantará alguns sobrolhos. 
A prova mais convincente de todas seria encontrar oxigénio e metano porque estes dois gases emitidos por organismos vivos destroem-se mutuamente. A identificação de ambos provaria o seu constante reabastecimento. 

É evidente que seria um geocentrismo grosseiro restringir a busca de vida extraterrestre ao oxigénio e ao metano. A vida pode assumir outras formas para além de plantas capazes de realizarem a fotossíntese. Mesmo na Terra, a vida anaeróbica existiu durante milhares de milhões de anos antes de o oxigénio começar a acumular-se na atmosfera. Desde que alguns requisitos mínimos sejam satisfeitos (energia, nutrientes e um meio líquido), a vida poderia evoluir de formas que produziriam qualquer tipo de gases. O essencial é encontrar gases além do que lá deveria existir. 

Há outros tipos de bio-assinaturas. A clorofila na vegetação reflecte luz de infravermelho próximo, o denominado limiar ao vermelho (red edge), invisível ao olho humano, mas facilmente observável com telescópios de infravermelhos. Se aparecer  na bio-assinatura de um planeta, será sinal de uma floresta extraterrestre. No entanto, a vegetação de outros planetas poderá absorver diferentes comprimentos de onda de luz: talvez existam planetas com florestas negras, verdadeiramente negras ou planetas onde as rosas sejam vermelhas.

telescópio

O Telescópio Espacial James Webbé testado numa câmara criogénica gigante no Centro Espacial Johnson no Texas, que simula as condições gélidas do espaço. Com maior poder colector de luz do que o Hubble, sondará a formação de estrelas, galáxias e sistemas solares susceptíveis de acolher vida. Chris Gunn, NASA

E por que razão haveremos de confinar a nossa busca às plantas? Lisa Kaltenegger, directora do Instituto Carl Sagan da Universidade de Cornell, e alguns colegas publicaram as características espectrais de 137 microrganismos, incluindo alguns de ambientes extremos do planeta Terra que, noutro planeta, poderiam ser a norma. Não admira que a próxima geração de telescópios seja aguardada com tanta expectativa. “Pela primeira vez, conseguiremos captar luz suficiente”, diz Lisa. “Seremos capazes de perceber as coisas.”

O mais poderoso telescópio da próxima geração, o Extremely Large Telescope (ELT) do Observatório Europeu do Sul, instalado no deserto de Atacama, deverá começar a funcionar em 2024. A capacidade de recolha de luz do seu espelho de 39 metros excederá a de todos os telescópios do tamanho do Subaru juntos. Equipado com uma versão melhorada do instrumento de Olivier Guyon, o ELT será capaz de observar planetas rochosos na zona habitável de estrelas-anãs vermelhas, as mais comuns da galáxia. São estrelas mais pequenas e menos brilhantes do que o nosso Sol, uma anã amarela, por isso as suas zonas habitáveis situam-se mais perto da estrela. Quanto mais perto um planeta estiver da sua estrela, mais luz reflectirá.

Infelizmente, as anãs vermelhas possuem uma energia tremenda, produzindo frequentemente erupções para o espaço, enquanto atravessam um período de “comportamento adolescente péssimo e muito longo”, nas palavras de Sara Seager. Talvez existam maneiras de desenvolver uma atmosfera capaz de proteger a vida incipiente, impedindo que estas birras solares a fritem. Mas também é provável que os planetas em órbita das anãs vermelhas estejam “trancados pelo efeito de maré”, , sempre com o mesmo lado virado para a estrela, tal como a nossa Lua tem sempre o mesmo lado virado para a Terra. Essa circunstância tornaria metade do planeta demasiado quente para a evolução de vida e a outra metade demasiado fria. A parte intermédia, no entanto, seria suficientemente temperada.

modelo

Recorrendo a um modelo, Sara Seager faz a demonstração da Starshade, em desenvolvimento no Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA, na Califórnia. Posicionado no espaço, o dispositivo com mais de trinta metros de diâmetro bloqueará a luz de uma estrela. Um telescópio espacial captará a imagem de um planeta quando este estiver entre as pétalas da Starshade, procurando provas da existência de vida nesse planeta.

Existe de facto um planeta rochoso chamado Proxima Centauri b, que orbita na zona habitável de Proxima Centauri, uma anã vermelha que é a estrela mais próxima da nossa estrela, situada a cerca de 4,2 anos-luz, ou 40 milhões de milhões de quilómetros. “É um alvo excitante”, diz Olivier Guyon. Mesmo assim, as melhores probabilidades de descobrir vida serão num planeta parecido com a Terra que orbite uma estrela semelhante ao Sol. O ELT e o seu grupo serão fantásticos para captar luz, mas mesmo esses telescópios terrestres gigantescos não conseguirão separar a luz de um planeta da luz de uma estrela dez mil milhões de vezes mais brilhante.

Para o conseguirmos, vai ser preciso um pouco mais de tempo e uma tecnologia ainda mais exótica. Lembra-se do painel em forma de pétala na parede de Sara Seager? É uma peça de um instrumento chamado Starshade. O design inclui 28 painéis dispostos em torno de um núcleo, semelhantes a um girassol gigante. As pétalas têm a forma e a textura ondulada exactas para deflectir a luz de uma estrela, deixando uma sombra escura no seu rasto. Se um telescópio estiver colocado no fundo desse túnel de escuridão, conseguirá captar o lampejo de um planeta semelhante à Terra visível e imediatamente fora dos limites da Starshade.

O primeiro parceiro provável da Starshade é o Wide Field Infrared Survey Telescope (WFIRST), cuja conclusão está agendada para meados de 2020. Os dois instrumentos funcionarão em conjunto: a Starshade bloqueará a luz de uma estrela para que o WFIRST possa detectar os planetas em seu redor e, potencialmente, recolher amostras do espectro para procurar sinais de vida. De seguida, a Starshade assumirá uma nova posição de modo a bloquear a luz da próxima estrela da lista de alvos. Embora os bailarinos estejam separados por dezenas de quilómetros, têm de estar alinhados com o limiar máximo de um metro para a coreografia funcionar.

A Starshade, actualmente em desenvolvimento no Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA, só estará pronta daqui a uma década e não há garantias de que venha a ser financiada. Sara Seager está confiante. É uma questão de esperança. Há algo especialmente animador na possibilidade de ter uma flor gigante no espaço, abrindo as suas pétalas para desviar a luz de um sol distante e ver se os mundos que a orbitam estão vivos.

Em 2008, quando Jon Richards respondeu a um anúncio em busca de um programador de software, nunca imaginou que passaria os dez anos seguintes num vale isolado do Norte da Califórnia à procura de extraterrestres. A busca de inteligência extraterrestre, ou SETI, refere-se a uma iniciativa de investigação promovida por uma organização sem fins lucrativos, o Instituto SETI. Foi este instituto que contratou Jon para operar o Allen Telescope Array (ATA), a 550 quilómetros da sede do instituto, em Silicon Valley. 

vela solar

A vela solar parcialmente dobrada do Near-Earth Asteroid (NEA) Scout, da NASA, é submetida ao último teste antes de um ensaio de posiciona-mento. Da mesma forma que as velas convencionais captam o vento, as velas solares são propulsionadas pela pressão da luz solar, minimizando a necessidade de combustível.

O ATA é o único equipamento do planeta especificamente construído para detectar sinais de civilizações extraterrestres. Maioritariamente financiado por Paul Allen, o falecido co-fundador da Microsoft, foi imaginado como um conjunto de 350 radiotelescópios, com pratos com seis metros de diâmetro. Contudo, devido a dificuldades de financiamento, só foram construídos 42. A certa altura, sete cientistas ajudaram a operar o ATA, mas, devido a atritos, Jon é “o último homem que resta”, confessa, em tom de brincadeira.

Jon acompanha-me até um dos instrumentos e abre os portões de carga para me mostrar a antena recentemente instalada: um cone de cobre com saliências, alojado num cone de vidro espesso. “Parece uma espécie de raio da morte”, comenta.

O trabalho de Richards consiste em gerir o hardware e o software, incluindo algoritmos desenvolvidos para analisar minuciosamente várias centenas de milhares de sinais de rádio recebidos todas as noites pelos telescópios, em busca de um “sinal com interesse”. As frequências de rádio têm sido a coutada de caça do SETI desde o início da busca de transmissão alienígena, há 60 anos, sobretudo porque percorrem o espaço de forma mais eficiente. Os cientistas do SETI concentraram-se particularmente numa zona silenciosa do espectro de rádio, livre do ruído de fundo da galáxia. Fazia sentido procurar neste leque de frequências relativamente calmo, uma vez que seria a amplitude mais provavelmente utilizada por extraterrestres sensatos.

Jon explica que o ATA está a trabalhar numa lista com vinte mil anãs vermelhas. Durante a noite, ele assegura-se de que tudo está a funcionar correctamente e, enquanto dorme, os pratos alinham-se, as antenas sobem, os fotões correm através dos cabos de fibra óptica e a música da rádio cósmica é transmitida para processadores enormes. Se um sinal passar em testes que procuram confirmar que não provém de uma fonte natural, o computador emite um alerta por e-mail. Como este é um e-mail que Jon não quer certamente perder, programou o telemóvel para reenviar a mensagem para o seu telefone. É, portanto, concebível que o nosso primeiro contacto com uma civilização extraterrestre surja sob a forma de uma mensagem de texto a tocar no telefone de Jon Richards, pousado na sua mesa-de-cabeceira.

Até à data, porém, todos os sinais captados foram falsos alarmes. Ao contrário de outras experiências, em que o progresso pode acontecer gradualmente, o SETI é binário: ou os extraterrestres estabelecem contacto durante o nosso turno ou não. Mesmo que andem por aí, é escassa a probabilidade de estarmos a olhar para o sítio certo na altura exacta e na frequência de rádio precisa. Jill Tarter, directora de investigação reformada do SETI, compara a busca ao mergulho de uma chávena no mar: a probabilidade de encontrar um peixe é incrivelmente pequena, mas isso não significa que o mar não esteja cheio de peixes. Infelizmente, o Congresso já perdeu há muito o interesse em mergulhar a chávena, tendo cortado abruptamente o financiamento em 1993.

Mas há boas notícias: o SETI, enquanto iniciativa de investigação, recebeu recentemente um incrível aumento do financiamento, gerando ondas de entusiasmo no sector. Em 2015, Yuri Milner, um capitalista de risco nascido na Rússia, criou a Breakthrough Initiatives, dedicando cerca de 176 milhões de euros à busca de vida no universo, incluindo metade especificamente destinada à busca de civilizações extraterrestres. 

Yuri foi um dos investidores iniciais no Facebook, Twitter e muitas outras empresas de Internet nas quais gostaríamos de ter sido investidores iniciais. Antes disso, fundou uma empresa de Internet muito bem-sucedida na Rússia. A sua visão filantrópica pode resumir-se ao seguinte: se concordarmos que encontrar provas de inteligência extraterrestre vale 88 milhões de euros, por que não aplicar nesse projecto esses 88 milhões? “Se virmos as coisas desta forma, faz todo o sentido”, diz-me, quando me encontro com ele num bar de Silicon Valley. “Se fossem mil milhões por ano, já teríamos de conversar.”

Yuri é expansivo, mas discreto. Só reparei que ele chegara quando estava literalmente ao lado da minha cadeira. Contou-me o seu percurso: concluiu uma licenciatura em física e sempre teve paixão pela astronomia. Os pais deram-lhe o nome em homenagem ao cosmonauta Yuri Gagarin, o primeiro ser humano a visitar o espaço sideral, sete meses antes de Yuri Milner nascer. Isso foi em 1961, o mesmo ano, sublinha Milner, em que teve início o SETI. “Está tudo relacionado”, acrescenta. 

não estamos sós

Cientistas do Instituto SETI recolhem dados no deserto chileno que contribuirão para a busca de vida em Marte. As cúpulas que se espalham pela paisagem aparentemente inerte alojam micróbios que prosperam neste clima inóspito. “Está repleto de vida espalhada por todo o lado”, diz a líder da equipa Nathalie Cabrol.

Através de uma das suas iniciativas, a Breakthrough Listen, ele tenciona gastar 88 milhões de euros ao longo de dez anos, a maioria dos quais através do Centro de Investigação SETI, na Universidade da Califórnia. Outro projecto, o Breakthrough Watch, está a patrocinar nova tecnologia para procurar bio-assinaturas com o Very Large Telescope, do Observatório Europeu do Sul, no Chile.

No entanto, a mais extravagante iniciativa de Yuri Milner é a Breakthrough Starshot. Implica investir 88 milhões de euros para explorar a viabilidade de visitar, efectivamente, o sistema solar mais próximo, Alpha Centauri, que inclui o planeta rochoso Proxima b. Para apreciar a magnitude deste desafio, é necessário distanciamento. A primeira sonda espacial, a Voyager, lançada em 1977, demorou 35 anos a entrar no espaço interstelar. Viajando a essa velocidade, a Voyager precisaria de cerca de 75 mil anos para chegar a Alpha Centauri. Segundo o plano actual da Starshot, uma frota de sondas do tamanho de seixos, arremessadas para o espaço a um quinto da velocidade da luz poderia chegar a Alpha Centauri em apenas 20 anos. Trabalhando a partir de um mapa rodoviário originalmente proposto pelo físico Philip Lubin, da Universidade da Califórnia, estas minúsculas Niñas, Pintas e Santa Marías seriam propulsionadas por um conjunto laser instalado em terra, mais potente do que um milhão de sóis. Talvez não seja possível, mas essa é a vantagem do capital privado. Ao contrário do que acontece com um programa, é permitido, ou mesmo esperado, arriscar em grande. 

“Vamos ver se resulta dentro de cinco ou dez anos”, diz Yuri, encolhendo os ombros. “Não sou um entusiasta no sentido de ter a certeza de que algo vá acontecer. Sou um entusiasta porque, neste momento, faz sentido tentar.”

No dia seguinte ao meu encontro com Yuri Milner, visitei o campus de Berkeley para conhecer os beneficiários da generosidade do seu Breakthrough Listen. Andrew Siemion, o director do Centro de Investigação SETI, em Berkeley, está na posição ideal para elevar a busca de inteligência a um novo nível. Além da sua nomeação para Berkeley, ele foi escolhido para dirigir as investigações do SETI no próprio Instituto SETI, incluindo o ATA.

Aos 38 anos, Andrew tem o perfil típico de um mestre SETI de próxima geração: tem a cabeça rapada, físico compacto e uma minúscula corrente de ouro discretamente visível sobre os botões da camisa justa. Embora se mostre cuidadoso, atribuindo os créditos da investigação a Jill Tarter e aos colegas do Instituto SETI, não tem problemas em distinguir o passado e o futuro do SETI. A busca inicial foi inspirada pela possibilidade de uma ligação, uma tentativa de contacto na esperança de que algo nos contactasse de volta. O SETI 2.0 está a tentar determinar se a civilização tecnológica faz parte da paisagem cósmica, como os buracos negros, as ondas gravitacionais ou quaisquer outros fenómenos astronómicos. 

“Não andamos à procura de um sinal”, explica com veemência. “Andamos à procura de uma característica do universo.”

A Breakthrough Listen não está, de forma alguma, a abandonar a procura convencional em busca de transmissões de rádio, diz. Aliás, duplicou a aposta nesse projecto, cedendo ao SETI praticamente um quarto do tempo de visionamento de dois enormes radiotelescópios no estado de Virgínia Ocidental e na Austrália. Andrew Siemion mostra-se ainda mais entusiasmado com a parceria feita com o novo telescópio MeerKAT, na África do Sul, um conjunto com 64 pratos de radiotelescópios, cada um dos quais com mais do dobro do tamanho do ATA. Apoiando-se nas observações realizadas por outros cientistas, a Breakthrough Listen observará um milhão de estrelas, 24 horas por dia, empalidecendo anteriores buscas de frequências pelo SETI. Por mais potente que seja, o MeerKAT é apenas um precursor da máquina de sonho da radioastronomia: o Square Kilometre Array, que na próxima década ligará centenas de pratos na África do Sul a milhares de antenas na Austrália, aumentando a área de recolha de um único prato para mais de um quilómetro quadrado, ou seja, 100 hectares.

Andrew Siemion explica outras abordagens do SETI (as parcerias da Breakthrough Listen com telescópios na China, Austrália e Holanda) e as novas tecnologias actualmente em desenvolvimento em Berkeley, no Instituto SETI e noutros locais para procurar sinais ópticos e de infravermelhos. O cerne da questão, confirmado por outros cientistas com quem falei, é que o SETI está a transformar-se, deixando de ser um negócio familiar para tornar-se uma empresa global.

O mais importante é que, capacitados e inspirados pela velocidade exponencial do desenvolvimento tecnológico da nossa própria civilização, estamos a encarar o objectivo da missão de uma perspectiva diferente. Há 60 anos que estamos à espera que o ET telefone para a Terra. Mas a verdade é que o ET não tem, provavelmente, qualquer razão convincente para tentar comunicar connosco, tal como nós não sentimos qualquer necessidade de cumprimentar uma colónia de formigas. Podemos sentir-nos tecnologicamente maduros em comparação com o nosso passado, mas em comparação com o que poderá existir no universo, ainda usamos fraldas. Qualquer civilização que conseguíssemos detectar estaria, provavelmente, milhões ou até milhares de milhões de anos à nossa frente.

“Parecemos trilobites à procura de mais trilobites”, brinca Seth Shostak, astrónomo do Instituto SETI. Não deveríamos andar à procura de uma mensagem do ET, mas sim de sinais extraterrestres e inteligentes de formas que podemos nem sequer ainda compreender, mas talvez sejamos capazes de identificar, procurando provas de tecnologia – as chamadas tecno-assinaturas.

As tecno-assinaturas mais óbvias seriam as que nós próprios já produzimos ou podemos imaginar que iremos produzir. Avi Loeb, da Universidade de Harvard, responsável pelo conselho consultivo da Breakthrough Starshot, comentou que, se outra civilização estivesse a usar propulsão laser semelhante para navegar através do espaço, os seus feixes semelhantes aos da Starshot seriam visíveis nos limites do universo. Avi também sugeriu a procura das assinaturas espectrais dos clorofluorocarbonetos poluentes da atmosfera, deixados por extraterrestres que não tivessem sobrevivido à fase tecnológica das fraldas.

“Com base no nosso próprio comportamento, teriam de existir muitas civilizações que se mataram ao usar tecnologias que conduziram à sua própria destruição”, diz-me quando o visito. “Se as encontrarmos antes de destruirmos o nosso próprio planeta, isso seria bastante informativo. Poderíamos aprender algo.”

Num tom mais animador, poderemos aprender ainda mais com civilizações que resolveram o seu problema energético. Numa conferência sobre tecno-assinaturas organizada pela NASA, debateu-se o mérito de procurar o calor residual emitido por megaestruturas como as que imaginamos vir a criar no futuro. Uma esfera Dyson (um dispositivo solar em redor de uma estrela captando toda a sua energia ) instalada em redor do nosso próprio Sol geraria energia suficiente num segundo para nos abastecer, segundo as nossas necessidades de energia actuais, durante um milhão de anos. Se descobríssemos que outras civilizações já alcançaram tais feitos, poderíamos ter alguma esperança.

Apesar de tudo, o espaço é vasto e o tempo também. Mesmo com os nossos computadores e telescópios cada vez mais potentes, a agenda alargada do SETI e a assistência gravitacional de cem Yuri Milners, poderemos nunca encontrar inteligência extraterrestre. Em contrapartida, a primeira insinuação de vida num planeta distante parece incrivelmente próxima. “Nunca sabemos o que vai acontecer”, resume Sara Seager. “Mas sei que existe algo fantástico nas imediações daquelas estrelas.” . 

cientista

O cientista e investigador Jon Richards verifica uma unidade do Allen Telescope Array, do Instituto SETI, em Cascade Mountains no Norte da Califórnia. Durante 60 anos, os radiotelescópios como estes foram os principais equipamentos na busca de inteligência extraterrestre.

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