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A Apple, primeira empresa norte-americana transaccionada em bolsa a valer um bilião de dólares, fixou o modelo de inovação em Silicon Valley e continua a alargar a sua influência.  A nova sede em Cupertino, inaugurada em 2017, é conhecida como “nave espacial”. Cerca de doze mil funcionários trabalham aqui e representam menos de metade do quadro de colaboradores da Apple na zona da Bay Area. Recentemente, a empresa tem criticado Silicon Valley, defendendo a privacidade do consumidor e apontando o dedo a outras empresas tecnológicas.

Ainda é a terra de oportunidades, mas paga o preço do sucesso. As novas palavras de ordem são responsabilidade e empatia.

Texto: Michelle Quinn
Fotografias: Laura Morton

O parque de estacionamento, vêem-se automóveis Tesla a competirem por um lugar nas 12 estações de carregamento eléctrico. Uma multidão composta maioritariamente por homens reúne-se no salão de entrada do Computer History Museum. Alguns cumprimentam-se com breves abraços. “Como está o meu investimento?”, grita um deles para o outro lado da sala. Um sino toca e o espaço torna-se subitamente uma igreja. A multidão ruidosa entra rapidamente no auditório e cala-se. As portas fecham-se. O Dia das Demonstrações está prestes a começar.

Nos dois dias seguintes, empreendedores de 132 novas empresas startup farão apresentações de dois minutos bem ensaiadas sobre a maneira como vão mudar o mundo. Segundo parece, há inúmeras maneiras de o fazer. Sensores instalados nos tectos dos quartos dos lares de terceira idade. Veículos aéreos não tripulados (drones) que monitorizam a rede eléctrica. Máquinas de armazenamento com capacidade de aprendizagem para cargueiros. Um serviço de detergente para a roupa dirigido ao mercado masculino.

Em cada grupo existe em média uma empresa que poderá vir a valer mil milhões de euros, diz o director-geral e sócio da Y Combinator, Michael Seibel, aos investidores de Silicon Valley. “O vosso trabalho é descobrir qual delas”, afirma. A empresa de Seibel ajuda os empreendedores a desenvolverem as suas ideias.

A primeira é a Public Recreation, que propõe programas de exercício físico para grupos em parques de estacionamento e outros espaços abertos, em troca de uma mensalidade. “O nosso segredo é não pagarmos rendas”, diz um dos fundadores.

É um grande mercado, penso, enquanto todos aplaudem. Mas… e a chuva, a neve, os insectos e os dias com níveis elevados de pólen? Mas já passamos à ideia seguinte – optimização de contentores em portos com recurso a algoritmos preditivos. O silêncio que se faz sentir na sala é demonstrativo de respeito.

Durante os meus anos como autora de reportagens sobre Silicon Valley, aprendi a controlar os meus impulsos de fazer troça de algumas ideias de negócio. Startups que não levei a sério ganharam milhares de milhões, resolvendo problemas que eu não sabia que as pessoas tinham. Talvez se o Plano A não resultasse, a Public Recreation pudesse passar ao Plano B, como a Justin.tv, que começou por transmitir ao vivo as aventuras de uma pessoa, Justin, e depois de qualquer pessoa, acabando por transformar-se na Twitch Interactive, que permite ao utilizador ver outros jogarem jogos na Internet. Em 2014, a Amazon comprou-a por 847 milhões de euros. 

Silicon Valley é um sítio em constante “fuga para o futuro”, comenta Paul Saffo, observador de longa data de Silicon Valley. Os empreendedores que faziam as suas apresentações neste Dia das Demonstrações pintam um cenário em que a vida é melhorada por inteligência artificial, realidade aumentada, robots, drones e sensores omnipresentes. 

Há muito que me fascinam o optimismo de Silicon Valley e os sonhadores pragmáticos que o fazem avançar. Ultimamente, contudo, tem havido alguma contenção. 

Startups que não levei a sério ganharam milhares de milhões, resolvendo problemas que eu não sabia que as pessoas tinham.

Responsabilidade e empatia são as novas palavras de ordem. Silicon Valley está a ser responsabilizado por tudo: a escassa diversidade da sua mão-de-obra, as indústrias tornadas obsoletas e os danos causados pela tecnologia, a disseminação mais rápida do ódio devido às suas redes sociais e até os efeitos da inovação sobre os próprios residentes. Mesmo para alguns trabalhadores com ordenados anuais de seis dígitos, chega a haver dificuldades para encontrar habitação a preços acessíveis. Pelo mundo fora, em locais como a Bolívia, a extracção mineira do lítio necessário para alimentar os dispositivos inventados em Silicon Valley suscita preocupações sobre a exploração e o ambiente.

A tecnologia domina o futuro, mas, com relutância, começa a admitir-se que, por vezes, ao tentar tornar o mundo melhor e mais eficiente, os seres humanos podem ser prejudicados.

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