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cirurgia

O Dr. Antonio de Lacy é mundialmente reconhecido como especialista e pioneiro em cirurgia digital e robotizada.

A cirurgia 4.0 combinará informação em tempo real sobre a anatomia do paciente e os movimentos efectuados pelo cirurgião. 

Texto: Antonio de Lacy (Cirurgião, Chefe do Serviço de Cirurgia Gastrointestinal do Hospital Clínic de Barcelona  e Director do Instituto Cirúrgico Lacy (IQL))

O final da primeira metade deste século será, sem dúvida, marcado por algo que se convencionou chamar a “quarta revolução industrial”.

Em pouco mais de duzentos anos, a humanidade protagonizou três revoluções tecnológicas cujas dimensões só podem equiparar-se àquela que, no Neolítico, levou a espécie humana a abandonar o nomadismo e a economia de subsistência (de caça e recolecção) em prol de uma vida sedentária e de uma economia produtora (fundamentalmente agrícola e de criação de animais).

A vida dos seres humanos mudou radicalmente com a primeira das revoluções industriais, iniciada em Inglaterra na segunda metade do século XVIII com a incorporação de instrumentos mecânicos de tracção (como o tear, a máquina a vapor e a locomotora) e uma industrialização e crescimento urbano sem precedentes na história. Um século mais tarde, foram as novas fontes de energia (gás, petróleo e electricidade), os meios de transporte (avião e automóvel) e as comunicações (telefone e rádio) a definir a segunda transformação. A terceira ocorreu nas últimas décadas do século XX e assumiu a forma das tecnologias de informação e dos computadores, da era espacial, da energia atómica ou da cibernética.

O que vai acontecer na quarta revolução? Assistimos aos seus primeiros passos na convergência das tecnologias digitais, físicas e biológicas, cujo derradeiro fim será a automatização total e independente da produção humana.
O seu alcance, velocidade e impacte na sociedade e no âmbito laboral serão muito maiores e à escala global. No campo cirúrgico da saúde, as consequências da digitalização adquirem a sua expressão máxima no aparecimento da denominada “cirurgia digital”, também conhecida como “cirurgia 4.0” ou “cirurgia cognitiva”.

Nascida há cerca de 150 anos, a cirurgia científica desenrolou-se em três fases bem definidas: o domínio da anatomia, a substituição de défices anatómicos ou funcionais (recorrendo, por exemplo, a prótese ou transplantes) e a diminuição do impacte da agressão que implica qualquer intervenção. A quarta fase agora iniciada, com a cirurgia minimamente invasiva e a robótica, baseia-se fundamentalmente no uso da informação e na digitalização. 

Ao contrário das transformações industriais previamente mencionadas, as três últimas revoluções cirúrgicas ocorreram em pouco mais de 50 anos, o que significa que alguns cirurgiões a testemunharam de um ponto de vista privilegiado ao longo da sua carreira.

A formação em cirurgia encontra os seus alicerces no início do século XX, com a criação de programas nos quais o cirurgião adquiria conhecimentos, capacidades e comportamentos à medida que aprendia, de forma gradual, diferentes graus de responsabilidade. Nas palavras do médico norte-americano e pioneiro William Halsted (1852-1922), a formação era resumida pela célebre máxima “See one, do one, teach one” (Ver um, fazer um, ensinar um).

Essa aprendizagem manteve-se inalterada até meados da década de 1980. A totalidade das intervenções foram realizadas com abordagens invasivas que poderiam incluir grandes incisões e manobras agressivas. Apesar de se conhecerem as consequências do acto cirúrgico sobre o paciente, os fins justificavam os meios e a radicalidade era sinónimo de qualidade. O cirurgião aprendia as manobras básicas assistindo e colaborando em centenas de intervenções antes de as praticar de forma autónoma. Não se colocava a hipótese de avaliar objectivamente a aprendizagem. Com um sistema mais próximo do treino de um artesão do que de um cientista, o jovem cirurgião deveria aprender a ser minucioso, hábil e rápido. Essencialmente, era treinado para ser um executor. 

Concluído o período formativo de cinco anos, o estudante deveria decidir para que sector específico queria encaminhar-se. Naquele tempo, a vanguarda era, sem dúvida, a cirurgia de transplantes e a maioria desejava dedicar-se a ela. Desde que o norte-americano Thomas Starzl realizou o primeiro transplante hepático com sucesso, em 1967, graças em parte à aplicação de fármacos que evitavam a rejeição (como a ciclosporina, introduzida pelo britânico Sir Roy Calne), os transplantes transformaram-se numa realidade clínica na década de 1980, num dos maiores desafios técnicos e no epicentro da inovação.

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