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lítio

Enquanto a população indígena aymara recolhe o sal incrustado sobre a superfície do salar de Uyuni, o lítio, muito mais lucrativo, é dissolvido a partir de salmoura existente nas profundezas do subsolo.

Texto: Robert Draper
Fotografia: Cédric Gerbehaye

O lítio há muito que entrou na nossa vida. Damos por ele nos equipamentos electrónicos portáteis, mas foi a revolução energética dos automóveis que o trouxe para a ribalta. Portugal é o quinto maior produtor mundial de lítio.

Em primeiro lugar está a Bolívia, que sonha com a riqueza obtida através da extracção do lítio do seu gigantesco salar. Não se sabe ao certo se os benefícios chegarão a muitos bolivianos.

Uma manhã de sábado, em La Paz, Álvaro García Linera, vice-presidente da Bolívia, acolhe-me num salão espaçoso. Este político de aspecto encantador, com cabelo prateado, é conhecido no seu país como ideólogo marxista convicto. Hoje, porém, apresenta-se como um agressivo comercial capitalista. 

A sua argumentação explica o problema do lítio. García Linera refere-se ao recurso natural do seu país de forma simultaneamente factual e fascinada. Essencial para o nosso mundo cada vez mais alimentado a baterias, o lítio também é a chave para o futuro da Bolívia, garante o vice-presidente. Dentro de escassos quatro anos, segundo a sua previsão, será “o motor da nossa economia”. Todos os bolivianos beneficiarão do lítio “que irá retirá-los da pobreza, garantir a sua estabilidade na classe média e garantir-lhes formação nos domínios científicos e tecnológicos para que possam fazer parte da intelligentsia da economia global”.

No entanto, como o vice-presidente bem sabe, nenhuma proposta de venda do lítio para salvar economicamente a Bolívia estará completa sem uma menção à fonte desse lítio: o salar de Uyuni. Esta gigantesca planície salgada, com mais de dez mil quilómetros quadrados, uma das mais esplendorosas paisagens do país, será alterada, com elevada probabilidade – e talvez irremediavelmente destruída – pela extracção do recurso subjacente.

Por isso, García Linera fala dela em tom respeitoso, até mesmo reverente. A certo momento, pergunta-me: “Já alguma vez esteve no salar de Uyuni?”

Quando lhe respondo que irei visitá-lo em breve, o vice-presidente abandona a sua atitude de desprendimento e parece ser arrebatado pela saudade. “Quando for ao salar, vá de noite”, aconselha. “Estenda uma manta no centro do salar. E ponha música a tocar.” Prossegue, sorridente mas enfático: “Pink Floyd. Oiça Pink Floyd. E volte os olhos para o firmamento.”
De seguida, o vice-presidente esboça um gesto com a mão para denotar que o resto será evidente.

A viagem de automóvel, de um dia, desde a capital mais alta do planeta até à maior planície salgada do mundo proporciona uma digressão pelo país mais pobre da América do Sul. Saindo da zona baixa de La Paz, permanentemente entupida pelo trânsito automóvel e manifestações políticas, a estrada sobe até El Alto, o bastião operário do segundo maior grupo indígena da Bolívia, os aymara, migrantes oriundos dos planaltos dos Andes. Nas sete horas que se seguem, a rota vai descendo sem parar através de aldeias onde se avistam efígies de potenciais ladrões amarradas a árvores, como que em sinal de aviso, passando pela cidade mineira de Oruro. 

O asfalto aplana por fim a cerca de 3.650 metros de altitude, desembocando num vasto troço de paisagem arbustiva, esporadicamente animado por lamas e vicunhas. Ao fim da tarde, o fulgor pálido do salar boceja através da planura. 

Chego ao Salar imediatamente antes do pôr do Sol. Durante cerca de quilómetro e meio, conduzo o automóvel sobre esta superfície suave e firme até se tornar evidente que estou no meio do nada. Ao sair do veículo e mergulhar no frio de ranger os dentes, concluo com pena que não haverá mantas estendidas sob as estrelas, nem banda sonora de Pink Floyd. Mesmo assim, o espectáculo é alucinante: quilómetros de terreno branqueado, inexoravelmente plano e dividido em vagas formas trapezoidais, como o tabuleiro de xadrez de um gigante louco, cuja austeridade é aperfeiçoada pelo céu azul imaculado e pelos picos cor de mogno dos Andes, visíveis à distância. Veículos de tracção às quatro rodas cruzam a superfície sem estradas, com destinos desconhecidos. Aqui e além, seres solitários deambulam como que num torpor pós-apocalíptico, de olhos vidrados naquilo a que o vice-presidente boliviano chamou “a mesa infinita branca como a neve.”

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