lítio

Enquanto a população indígena aymara recolhe o sal incrustado sobre a superfície do salar de Uyuni, o lítio, muito mais lucrativo, é dissolvido a partir de salmoura existente nas profundezas do subsolo.

Texto: Robert Draper
Fotografia: Cédric Gerbehaye

O lítio há muito que entrou na nossa vida. Damos por ele nos equipamentos electrónicos portáteis, mas foi a revolução energética dos automóveis que o trouxe para a ribalta. Portugal é o quinto maior produtor mundial de lítio.

Em primeiro lugar está a Bolívia, que sonha com a riqueza obtida através da extracção do lítio do seu gigantesco salar. Não se sabe ao certo se os benefícios chegarão a muitos bolivianos.

Uma manhã de sábado, em La Paz, Álvaro García Linera, vice-presidente da Bolívia, acolhe-me num salão espaçoso. Este político de aspecto encantador, com cabelo prateado, é conhecido no seu país como ideólogo marxista convicto. Hoje, porém, apresenta-se como um agressivo comercial capitalista. 

A sua argumentação explica o problema do lítio. García Linera refere-se ao recurso natural do seu país de forma simultaneamente factual e fascinada. Essencial para o nosso mundo cada vez mais alimentado a baterias, o lítio também é a chave para o futuro da Bolívia, garante o vice-presidente. Dentro de escassos quatro anos, segundo a sua previsão, será “o motor da nossa economia”. Todos os bolivianos beneficiarão do lítio “que irá retirá-los da pobreza, garantir a sua estabilidade na classe média e garantir-lhes formação nos domínios científicos e tecnológicos para que possam fazer parte da intelligentsia da economia global”.

No entanto, como o vice-presidente bem sabe, nenhuma proposta de venda do lítio para salvar economicamente a Bolívia estará completa sem uma menção à fonte desse lítio: o salar de Uyuni. Esta gigantesca planície salgada, com mais de dez mil quilómetros quadrados, uma das mais esplendorosas paisagens do país, será alterada, com elevada probabilidade – e talvez irremediavelmente destruída – pela extracção do recurso subjacente.

Por isso, García Linera fala dela em tom respeitoso, até mesmo reverente. A certo momento, pergunta-me: “Já alguma vez esteve no salar de Uyuni?”

Quando lhe respondo que irei visitá-lo em breve, o vice-presidente abandona a sua atitude de desprendimento e parece ser arrebatado pela saudade. “Quando for ao salar, vá de noite”, aconselha. “Estenda uma manta no centro do salar. E ponha música a tocar.” Prossegue, sorridente mas enfático: “Pink Floyd. Oiça Pink Floyd. E volte os olhos para o firmamento.”
De seguida, o vice-presidente esboça um gesto com a mão para denotar que o resto será evidente.

A viagem de automóvel, de um dia, desde a capital mais alta do planeta até à maior planície salgada do mundo proporciona uma digressão pelo país mais pobre da América do Sul. Saindo da zona baixa de La Paz, permanentemente entupida pelo trânsito automóvel e manifestações políticas, a estrada sobe até El Alto, o bastião operário do segundo maior grupo indígena da Bolívia, os aymara, migrantes oriundos dos planaltos dos Andes. Nas sete horas que se seguem, a rota vai descendo sem parar através de aldeias onde se avistam efígies de potenciais ladrões amarradas a árvores, como que em sinal de aviso, passando pela cidade mineira de Oruro. 

O asfalto aplana por fim a cerca de 3.650 metros de altitude, desembocando num vasto troço de paisagem arbustiva, esporadicamente animado por lamas e vicunhas. Ao fim da tarde, o fulgor pálido do salar boceja através da planura. 

Chego ao Salar imediatamente antes do pôr do Sol. Durante cerca de quilómetro e meio, conduzo o automóvel sobre esta superfície suave e firme até se tornar evidente que estou no meio do nada. Ao sair do veículo e mergulhar no frio de ranger os dentes, concluo com pena que não haverá mantas estendidas sob as estrelas, nem banda sonora de Pink Floyd. Mesmo assim, o espectáculo é alucinante: quilómetros de terreno branqueado, inexoravelmente plano e dividido em vagas formas trapezoidais, como o tabuleiro de xadrez de um gigante louco, cuja austeridade é aperfeiçoada pelo céu azul imaculado e pelos picos cor de mogno dos Andes, visíveis à distância. Veículos de tracção às quatro rodas cruzam a superfície sem estradas, com destinos desconhecidos. Aqui e além, seres solitários deambulam como que num torpor pós-apocalíptico, de olhos vidrados naquilo a que o vice-presidente boliviano chamou “a mesa infinita branca como a neve.”

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Algures, longe da vista, na fronteira deste infinito, os bulldozzers escavam lagoas de evaporação no salar, largas e geometricamente precisas, como que para criar uma grelha de gigantescas piscinas. Mais cedo ou mais tarde (ninguém pode prever o momento com total certeza), os bulldozzers irão deslocar-se nesta direcção.

Eis o que sabemos. Em primeiro lugar, sob a maior planície salgada do mundo, existe outra maravilha: uma das maiores jazidas de lítio do planeta, contendo talvez 17% do total mundial. Em segundo lugar, na exploração das suas reservas de lítio, a Bolívia vislumbra um caminho que a retire do seu beco sem saída de miséria. E, em terceiro lugar, este trilho rasgado através do salar de Uyuni está, ao mesmo tempo, quase inteiramente por definir e (para os bolivianos que vivem num país repleto de buracos saqueados e de aspirações frustradas) é suspeitamente familiar.

A Bolívia ainda hoje se encontra algemada ao passado. O primeiro presidente do país pertencente à etnia aymara, Evo Morales, ascendeu ao poder em 2006. No seu mais recente discurso de tomada de posse, mencionou “os 500 anos que sofremos” devido ao colonialismo espanhol, um reinado brutal de escravidão e repressão cultural que, no entanto, terminou há quase dois séculos. A localização geográfica e a governação deficiente registadas desde então conspiraram contra a reinvenção do país. As perspectivas económicas da Bolívia pioraram em 1905, quando o país teve de ceder a sua zona costeira no oceano Pacífico após perder um conflito militar com o Chile. Enquanto os vizinhos do Brasil e da Argentina se tornavam lentamente mais prósperos, a Bolívia suportou décadas de golpes de estado militares e de corrupção. Os dois maiores grupos indígenas, os quechua e os aymara, ainda hoje são relegados para um estatuto de casta baixa pela elite governante descendente de europeus.

Em resumo, a Bolívia tem sido um país com baixa auto-estima, hostilidade latente e nenhuma noção partilhada de destino nacional. Entretanto, a sua história económica vem sendo marcada por ciclos intermináveis de crescimento explosivo e colapso económico. Embora esta situação seja vulgar em países dependentes dos seus recursos naturais, alguns países da América Latina, como o Chile, conseguiram gerir esses recursos com competência. O governo boliviano, em contrapartida, tem frequentemente cedido os seus direitos de mineração a empresas estrangeiras para obter lucros rápidos, mas fugidios. Como o vice-presidente me disse: “Ao longo da nossa história, não criámos uma cultura capaz de combinar os nossos recursos brutos com pensamento inteligente. Isto deu origem a um país rico em recursos naturais, mas socialmente muito pobre.” 

A Bolívia destaca-se, entre os países da região por nada ter de curiosamente distintivo. A menção especial ao país no clássico filme de cowboys “Dois Homens e um Destino” pode ser vista como metáfora do seu semianonimato. Nesse filme, a Bolívia era o sonolento refúgio final de dois assaltantes de bancos norte-americanos. Glamorizados por Hollywood, os fora-da-lei simbolizam algo de bastante menos romântico na Bolívia – nomeadamente, a apropriação insensível dos recursos por gringos provenientes de países muito mais ricos.

Um comboio crivado de balas supostamente roubado pela dupla é uma atracção especial em Pulacayo, outrora uma próspera cidade mineira. Pulacayo é hoje uma cidade fantasma. A residência do barão mineiro alemão Moritz Hochschild é um museu raramente visitado, onde se vêem fotografias antigas das dificuldades sofridas pelos seus trabalhadores – muitos dos quais mulheres e crianças. Documentos recentemente descobertos revelaram que Hochschild ajudou milhares de judeus a saírem da Alemanha nazi, reinstalando-se na Bolívia. O geólogo boliviano Oscar Ballivián Chávez comentou, com secura: “Hochschild foi o Schindler da Bolívia… excepto para os bolivianos.” 

As minas de Pulacayo foram encerradas pelo governo em 1959, privando os mineiros do seu trabalho. Previa-se que a queda da cidade arrastasse consigo o destino de Uyuni, um centro de distribuição mineiro a 20 quilómetros de distância. Um dia, porém, na década de 1980, enquanto procurava um destino turístico capaz de rivalizar com o lago Titicaca, um operador turístico de La Paz, chamado Juan Quesada Valda, encontrou o salar.

Até então, a planície salgada fora considerada pelos bolivianos como pouco mais do que uma anomalia geográfica. Segundo uma lenda local, o salar formou-se a partir do leite materno e das lágrimas salgadas que fluíam de Tunupa, um vulcão das imediações, ao chorar quando as suas duas filhas foram raptadas. No entanto, ao passo que Tunupa e as outras montanhas vizinhas são veneradas no folclore indígena, “o salar nunca teve importância cultural”, comentou o presidente do município de Uyuni, Patricio Mendoza. “As pessoas temiam que, ao caminharem sobre a salina, pudessem perder-se e morrer de sede ou que os seus lamas lesionassem os cascos no sal.”

Quando contemplou o salar, Quesada teve uma revelação, afirmou a sua filha Lúcia. “Podemos encontrar lagos em todo o lado. Mas não conseguimos encontrar uma planície salgada como esta em nenhum outro local do mundo. Ele percebeu que seria capaz de vender este lugar.”

Arquitecto de formação, iniciou a construção do primeiro de vários hotéis erguidos quase exclusivamente com blocos de sal em Colchani, uma aldeia no limite oriental do salar. Estrangeiros movidos pela aventura começaram a aparecer para apanharem sol no grande deserto pálido. Casamentos, cursos de ioga e corridas de automóveis acabariam por ser organizadas no salar. Os hotéis de sal encontram-se agora esgotados. Uyuni, por sua vez, transformou-se numa espécie de destino de férias de segunda classe, repleto de pizzarias e universitários de mochila às costas.

“Talvez 90% da nossa actividade económica seja o turismo”, resumiu Mendoza.

Com tudo isto, pode dizer-se que, na longa história de desilusões económicas da Bolívia, o salar constitui uma excepção feliz, embora modesta.

Agora, porém, vem aí o futuro da Bolívia sob a forma de lítio.

Aquilo que o ouro representou, em tempos passados, e o petróleo no século anterior, poderá ser eclipsado pelo lítio nos próximos anos. Há muito utilizado na medicação para tratar perturbações bipolares, em peças de cerâmica e em armas nucleares, este elemento tem-se destacado por ser a componente essencial das baterias de computadores, telemóveis e outros dispositivos electrónicos.

O consumo anual de lítio pelo mercado mundial elevou-se a aproximadamente quarenta mil toneladas em 2017, representando um aumento anual de cerca de 10% desde 2015. Entretanto, de 2015 a 2018, os preços do lítio quase triplicaram, um reflexo indesmentível da maneira rápida como a procura tem crescido. 

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Essa procura irá provavelmente intensificar-se à medida que os automóveis eléctricos ganharem quota de mercado. Uma versão do Tesla Model S funciona graças a um conjunto de baterias composto por cerca de 63 quilogramas de componentes de lítio, o mesmo que existe em dez mil telemóveis, segundo a Goldman Sachs. De acordo com uma previsão desta empresa de investimento, à medida que as vendas de veículos eléctricos aumentam a sua representatividade na percentagem de todos os veículos vendidos, a procura de lítio aumenta 70 mil toneladas por ano. Como a França e o Reino Unido já anunciaram que proibirão a venda de carros a gás ou a gasóleo em 2040, parece lógico que um país onde exista lítio em abundância nunca precisará de temer a pobreza. Mas não é.

Embora existam empreendimentos de mineração do lítio em todos os continentes, excepto na Antárctida, cerca de três quartos das reservas conhecidas de lítio encontram-se no planalto de Altiplano-Puna, um troço com 1.800 quilómetros de extensão nos Andes. As jazidas de leitos de sal estão concentradas no Chile, na Argentina e na Bolívia, região conhecida como “Triângulo do Lítio”. 

Desde a década de 1980 que o Chile produz lítio a partir de salmoura e o seu salar de Atacama é actualmente a fonte mais importante desta substância na América Latina. O governo chileno foi hospitaleiro para os investidores estrangeiros e o seu sector mineiro (o maior exportador mundial de cobre) possui também vasta experiência.
A Argentina começou também a extrair lítio de salmoura em finais da década de 1990, explorando o salar del Hombre Muerto. 

As reservas de lítio da Bolívia igualam as do altamente produtivo salar de Atacama chileno, mas até há pouco tempo o seu potencial nunca fora aproveitado. “Na Argentina e no Chile, sempre existiu uma cultura de parcerias público-privadas”, afirmou Ballivián, que, na década de 1980, foi um dos primeiros geólogos a estudar o potencial de lítio existente no salar. “Aqui, o governo não quer aceitar o investimento privado. Há hostilidade face ao capitalismo.”

A eleição de Morales foi simbólica para a população indígena dos aymara, mas a retórica do novo presidente e as acções tomadas tiveram o efeito de repelir o capital estrangeiro. Morales apressou-se a nacionalizar a indústria petrolífera e tomou medidas para nacionalizar algumas operações mineiras. 

Em 2008, dois anos após a sua eleição, Morales e García Linera concentraram a sua atenção nas reservas de lítio do salar de Uyuni, à semelhança das administrações anteriores. “Os outros governos nunca produziram lítio”, afirmou García Linera. “E queriam reproduzir o esquema de uma economia extractiva colonial. O povo boliviano não quer isto. Por isso, começámos do zero.”

Desde o início que o princípio operacional definido pelo novo governo foi  pensado para garantir o controlo total do Estado boliviano. “Decidimos que nós, bolivianos, ocuparemos o salar, inventaremos o nosso próprio método de extracção do lítio e, de seguida, faremos parcerias com empresas estrangeiras que nos dêem acesso ao mercado global”, afirmou García Linera.

A palavra de ordem “100% Estatal!” adquiriu um significado suplementar ao ser pronunciada pelo presidente aymara. Acontece que os aymara representam uma grande parte da população residente em torno do salar. O anúncio de que a salina se transformaria no epicentro da revolução económica da Bolívia foi entendido como um projecto que permitiria finalmente que os postos de trabalho e a prosperidade chegassem à população indígena do país. 

García Linera prometeu que o lítio da Bolívia será “o combustível que alimentará o mundo”. Em 2030, assim me garantiu, a economia do país estará a par da Argentina e do Chile. Confiante, Evo Morales avançou a previsão de que a Bolívia produziria baterias de lítio em 2010 e automóveis eléctricos em 2015. Estas estimativas acabariam por revelar-se irrealistas. Como os líderes políticos depressa aprenderam, a extracção de lítio é um processo dispendioso e complicado, exigindo investimentos avultados e sofisticação tecnológica. Fazê-lo sozinho não era uma opção viável para um país menos desenvolvido como a Bolívia. Ao mesmo tempo, seria um desafio para qualquer país (sobretudo um com tendências nacionalistas) atrair uma empresa estrangeira que aceitasse a cedência do controlo ao Estado. 

“Como compreenderá, a maioria das indústrias adoraria explorar o salar”, disse García Linera. “Recusamos. O salar deve ser totalmente controlado por técnicos bolivianos. E isso tem, evidentemente, gerado tensões.”

Acreditando, contudo, que a promessa das reservas do salar de Uyuni superaria quaisquer dúvidas, o governo de Evo Morales anunciou que a Bolívia contaria com um parceiro estrangeiro para ajudá-la a desenvolver a produção de lítio à escala industrial em 2013. Também esta previsão se revelou precipitada. As empresas norte-americanas não aceitaram. O mesmo fez uma empresa coreana. A Bolívia só encontrou um parceiro em 2018: a ACI Systems Alemania, uma empresa alemã que, alegadamente, investirá 1.140 milhões de euros em troca de uma posição accionista de 49%.

O obstáculo mais difícil para a Bolívia é de cariz científico. A produção de lítio com qualidade para baterias a partir de salmoura implica separar o cloreto de sódio do cloreto de potássio e do cloreto de magnésio. A remoção deste último é especialmente dispendiosa. No salar, registam-se volumes de precipitação significativamente mais elevados do que nos seus homólogos na Argentina e no Chile, o que poderá tornar mais lento o processo de evaporação. Estas jazidas de lítio também possuem um teor mais elevado de magnésio. “Enquanto o rácio de magnésio no Chile é de 5 para 1, em Uyuni é de 21 para 1. A sua concentração é quatro vezes superior”, disse o engenheiro químico Miguel Parra. “Por isso, é uma operação muito mais simples para eles. Para nós, separar o magnésio do lítio constitui o maior desafio.” 

Certa manhã encontrei-me com ele na fábrica-piloto de lítio boliviana de Llipi, situada numa antiga pastagem de lamas no final de uma comprida estrada de terra batida. Miguel Parra tornou-se director de operações da fábrica pouco depois do início do projecto, em Novembro de 2008. Ventos violentos e pluviosidade excessiva atrasaram os engenheiros durante vários anos até conseguirem construir uma estrada sobrelevada de 15 quilómetros, ligando a fábrica à planície salgada onde o lítio é extraído.

Além de uma minúscula fábrica-piloto que produz baterias na cidade mineira de Potosí, o investimento multimilionário da fábrica de Llipi, que começou a produzir lítio em Janeiro de 2013, é o único resultado que o governo de Morales tem para justificar os esforços de uma década na sua demanda da prosperidade alimentada a lítio. Neste complexo relativamente pequeno, trabalham cerca de 250 colaboradores bolivianos, a maior parte dos quais não são originários das aldeias aymara vizinhas, mas de La Paz ou de Potosí. Andam vestidos com fatos-macaco vermelhos e vivem junto da fábrica, em casas prefabricadas.

Victor Ugarte, o director do controlo de qualidade, acompanhou-me numa visita guiada a pé pela fábrica. A visita durou poucos minutos.
O processo começa com os trabalhadores a perfurarem a superfície rija até alcançarem a salmoura. De seguida, a salmoura é canalizada para lagoas onde é concentrada por evaporação, sendo-lhe acrescentadas as substâncias químicas necessárias para levar o sulfato de lítio a cristalizar. 

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Tanques carregados com sulfato de lítio dissolvido são então transportados ao longo da estrada até ao piso superior da fábrica de três andares. O líquido é misturado com calcário trazido de Potosí durante uma hora. Ugarte explicou que esta “é a parte mais difícil. É assim que extraímos o magnésio para alcançar o nível de pureza de que precisamos.”

Depois de os compostos de magnésio serem removidos, sob a forma de uma pasta cinzenta, o líquido remanescente é transferido para o segundo piso, onde o sulfato de cálcio é retirado através de filtragem. São acrescentadas substâncias químicas ao líquido arrefecido para criar carbonato de lítio, que passa por uma secagem de duas horas antes de ser carregado em sacas com o rótulo “Carbonato de lítio”. Cerca de um quinto destas secas percorrem 300 quilómetros até à fábrica de baterias de Potosí. O resto é vendido a diversas empresas. “Começámos por produzir cerca de duas toneladas por mês”, disse-me Ugarte quando o visitei. “Agora já fabricamos até cinco toneladas.” 

Perguntei ao director do controlo de qualidade qual era a meta definitiva de produção na fábrica de Llipi. “O nível industrial será de 15 mil toneladas por ano”, respondeu. Tentei imaginar de que forma esta pequena fábrica conseguirá, nos próximos cinco anos, aumentar a produção até alcançar esse objectivo, mantendo simultaneamente um valor de 99,5% de pureza, a norma da indústria para o fabrico de baterias de lítio.

Olhando em redor, ocorrem-me outras perguntas. O que tenciona a Bolívia fazer com estas enormes pilhas cinzentas de resíduos de magnésio? O governo responde que o cloreto de magnésio poderá servir para descongelar estradas, mas imaginar que tanta quantidade possa ser consumida numa utilização dessa natureza é um desafio à credibilidade. 

Na verdade, a cal é o meio mais económico para separar o magnésio do lítio. O governo boliviano afirma possuir um método de tratamento que, de algum modo, reduzirá o efluente de cal residual. De acordo com o geólogo boliviano Juan Benavides, “o impacte ambiental no Chile e na Argentina é baixo. Mas não somos capazes de extrapolar, em rigor, porque o teor de magnésio no lítio boliviano é muito elevado. Tudo o que sabemos é que a cal será utilizada em maiores quantidades e que a legislação reguladora do lítio na Argentina e no Chile é mais restritiva do que na Bolívia”.

“Estamos muito orgulhosos com as medidas preventivas que tomámos para reduzir possíveis impactes”, disse-me García Linera. “Custaram-nos uma fortuna, de facto.”

No entanto, é quase impossível avaliar a maneira como uma versão industrializada da fábrica de lítio modificará o salar de Uyuni. Uma das maiores preocupações é a quantidade de água necessária para extrair o lítio. Dois rios, o Colorado e o Grande de Lípez, desaguam na planície de sal. O primeiro é tão estreito que mais parece um ribeiro e o segundo é tão pouco profundo que podemos atravessá-lo a pé. Ambos têm importância decisiva para os agricultores que cultivam quinoa: a Bolívia é o segundo maior produtor mundial deste cereal, a seguir ao Peru. Embora o governo boliviano insista que 90% da água a utilizar provirá de água salgada e não dos aquíferos subterrâneos, alguns peritos mostram-se cépticos quanto à promessa de que as águas subterrâneas não serão afectadas. “Ano após ano, a água vai tornar-se o principal recurso de que precisamos”, afirmou Ballivián. “Eles vão necessitar de enormes quantidades, mais do que qualquer outra mina da Bolívia.”

Por fim, falta referir a própria superfície do salar, ainda incólume na sua maior parte. Embora venerada pelos visitantes humanos devido à sua austeridade aparentemente ilimitada, também serve de local de nidificação para flamingos.
“A nossa fábrica fica longe destes santuários”, disse García Linera, acrescentando: “Isto demonstra o nosso compromisso em relação ao ambiente.”

Várias dezenas de lagoas de evaporação perfuram a superfície salgada, muito longe do local onde um visitante poderia acampar, numa noite estrelada, com uma manta e um telemóvel a tocar Pink Floyd! Mas estas marcas obscuras destinam--se à instalação do que é uma pequena fracção da exploração anual prevista para o salar pela Bolívia. Além disso, como o vice-ministro da energia, Luís Alberto Echazú Alvarado, me explicou:
“A nossa visão é um projecto de longo prazo. Por isso, para explorar a totalidade do salar vai ser preciso misturar salmoura rica com salmoura pobre.”

“Então o governo perfurará sempre noutros sítios?” perguntei. “Exacto”, respondeu Echazú, num assentimento vigoroso com a cabeça. “Sempre.”

Enquanto viajava pelas aldeias em redor do salar de Uyuni, vi inscrições esporádicas de apoio a Morales nas paredes. Já quando interrogados sobre o lítio, a grande aposta do presidente Morales, os moradores respondiam com um cepticismo desgastado, por vezes matizado de preocupação. 

Muitos aymara da região trabalham como saleros, recolhendo o sal e vendendo-o a unidades transformadoras. Um recolector de sal, chamado Hugo Flores, sentado ao lado da sua carrinha de caixa aberta enferrujada, disse: “Não recebemos informação do governo. Nem sequer sabemos o que é o lítio, quais os benefícios que traz e quais os seus efeitos.” De maneira mais acutilante, uma vereadora de Tahua chamada Cipriana Callpa Díaz, afirmou: “Ninguém deste município está a trabalhar no projecto do lítio. Pensámos que haveria trabalho para a nossa comunidade, com bons salários. É uma desilusão.” 

Talvez a insatisfação mais veemente tenha sido expressa por Ricardo Aguirre Ticona, presidente da autarquia de Llica. O salar fica quase totalmente localizado nesta província. 

“Sabemos que, uma vez a funcionar em pleno, a fábrica será um negócio milionário”, disse-me certa tarde. “Mas será que a comunidade irá beneficiar? Aqueles que deveriam beneficiar primeiro seriam os moradores do lugar onde a produção ocorre… E não estou a falar só de benefícios financeiros. Deveria ser criada aqui uma faculdade de ciência química, ou bolsas para os jovens poderem ter um futuro. Andamos a fazer perguntas sobre isto há três anos. Agora pedimos uma audiência ao presidente. Já não vem cá há muito tempo.”

Aguirre mediu cuidadosamente as palavras que disse a seguir: “A população boliviana é paciente”, afirmou. “Mas, se for necessário, tomaremos medidas para sermos ouvidos.”

Na Bolívia, esta declaração não precisa de explicações. Em 1946, a população perdeu a paciência com o presidente Gualberto Villarroel depois de este aplicar medidas repressivas contra os mineiros do país. Irados, os bolivianos invadiram o palácio de Villarroel e mataram-no. Penduraram o cadáver num candeeiro da Plaza Murillo, a praça adjacente ao palácio, onde me encontrei com o vice-presidente para discutir o mais recente plano de reforma da economia boliviana. Fui pensando neste terrível lembrete do passado ao sair de Llica e voltei a atravessar a paisagem de sonho descolorada do salar, uma ilusão de simplicidade que poderia durar para sempre, mas que, na verdade, não dura. 

 

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