Índice do artigo

Medicina tradicional chinesa

Ervanários da farmácia tradicional Tongrentang, em Chengdu, aviam prescrições de ervas, dividindo as misturas em doses únicas que são dobradas em envelopes de papel. Em casa, os pacientes preparam uma infusão e bebem-na.

Poucos temas desencadeiam discussões mais acesas nos círculos de saúde do que a medicina tradicional chinesa.

Texto: Peter Gwin  
Fotografias: Fritz Hoffmann

Seguro na minha mão um coração quente e pulsante. Com o tamanho de uma bola de ténis, é um globo luminoso de tecido escarlate, cor-de-rosa e branco. 

Consigo sentir as cavidades em contracção e ouço o som dos fluidos que ainda são bombeados. É escorregadio e emite um odor ligeiramente pungente. 

O órgão está vivo, quase oito horas depois de eu ter visto Paul Iaizzo removê-lo de um porco sedado num laboratório instalado numa cave. O órgão foi ligado a tubos simulando artérias e veias e foi--lhe devolvido o batimento com um choque eléctrico. Embora se encontre fora do corpo do porco, o coração mexe-se e contorce-se sozinho, movido por uma força primordial, invisível e inexplicável. Mais do que grotesco, acho-o hipnótico e belo.

O coração do porco ainda bate, em parte porque Paul, professor de cirurgia da Universidade do Minnesota, o tratou com um banho de químicos simulando as componentes químicas da bílis de urso. Trata-se da aplicação científica de uma crença que os curadores chineses põem em prática pelo menos desde o século VIII: a bílis de urso pode fazer bem ao corpo humano.

Os itens não estão à escala. Fotografados na Faculdade de Medicina Tradicional Oriental do Imperador, Santa Monica, Califórnia, e Repositório Nacional de Propriedade de Vida Selvagem, Commerce City, Colorado; Fontes: Robert Newman, Faculdade de Medicina Tradicional Oriental do Imperador; Amy Matecki, Centro Internacional de Medicina Integrada

Na actualidade, ainda existe um mercado robusto de bílis de urso. Na Ásia, criam-se ursos simplesmente para extrair deles a bílis. São mantidos vivos em pequenas jaulas, com cateteres inseridos para drenar os seus fluidos. Os grupos de defesa do bem-estar animal denunciam a prática por ser incontestavelmente desumana. E, contudo, enquanto seguro o coração de porco pulsante e ouço Paul Iaizzo descrever a forma como os químicos que impedem os órgãos de um urso de atrofiar durante a hibernação também podem sustentar órgãos humanos, não consigo deixar de pensar se a bílis de urso poderia ter salvado o coração do meu pai ou se um dia poderá salvar-me a mim ou aos meus filhos.

Poucos temas desencadeiam discussões mais acesas nos círculos de saúde do que a medicina tradicional chinesa. A questão torna-se ainda mais complexa devido ao trabalho de investigadores como Paul Iaizzo e muitos outros que procuram curas tradicionais através da ciência mais avançada e descobrem algumas surpresas interessantes. É a China, com uma das mais antigas acumulações continuadas de observações médicas documentadas, que oferece os maiores tesouros à análise científica.

O registo chinês remonta ao terceiro século antes de Cristo, quando os curadores começaram a analisar o organismo, interpretando as suas funções e descrevendo reacções a vários tratamentos, incluindo poções à base de ervas, massagem e acupunctura. Durante mais de 2.200 anos, gerações sucessivas de académicos deram o seu contributo a esse conhecimento e apuraram-no. O resultado é um cânone de literatura que aborda todo o tipo de problemas de saúde, incluindo constipações, doenças venéreas, paralisia e epilepsia. Este conhecimento encontra-se compilado em livros e manuscritos com títulos tão enigmáticos como “O Clássico do Pulso” (século III), “Prescrições Que Valem Mil Moedas de Ouro” (século VII) e “Segredos Essenciais de Fora da Metrópole” (século VIII).

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar