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 gravidez

Texto de Rachel Jones

Fotografias De Lynsey Addario

Os EUA são um dos dois únicos países desenvolvidos onde a taxa de mulheres que morrem devido à gravidez piorou desde 1990. As mães negras correm riscos mais elevados. A melhoria dos cuidados básicos poderia dar uma ajuda, como tem acontecido nos países menos desenvolvidos.

Há ocasiões em que calçar havaianas e usar calças de fato de  treino parece adequado. Para um piquenique ao sábado no parque ou para ir ao mercado. Ou quando um casal se prepara para o parto do segundo bebé. O conforto é essencial. 

Na noite de 11 de Abril de 2016, porém, houve algo que levou Kira Johnson, de 39 anos, a mudar de ideias.

“Querido, quero pôr-me mesmo bonita para receber o Langston”, disse ela ao marido, Charles Johnson IV, sentada diante do espelho do quarto enquanto se penteava. No dia seguinte, à tarde, estava previsto deslocarem-se ao Centro Médico de Cedars-Sinai, em Los Angeles, para o nascimento do seu segundo filho.

O casal assumira o compromisso de criar “homens que deixassem uma marca no mundo e que tivessem sentido de missão e de responsabilidade”, explica Charles. 

Ao primeiro filho, nascido em 2014 após cesariana de emergência, foi dado o nome de Charles Spurgeon Johnson V, famoso sociólogo e primeiro presidente negro da Universidade Fisk, em Nashville. O irmão mais novo iria receber o nome do lendário poeta, Langston Hughes. Kira colocou jóias e um vestido na mala para trazer o bebé de volta a casa em grande estilo. Charles decidiu que também se vestiria a preceito. 

A escolha de vestuário foi tão cuidadosa como a do Cedars-Sinai, habitualmente classificado entre os melhores hospitais do país. 

Langston Emile Johnson nasceu às 14h33 do dia 12 de Abril de 2016. A cesariana previamente agendada pareceu um acto de rotina e Kira conseguiu amamentar o bebé logo depois do parto. Ainda ajudou a apresentar Langston ao seu irmão de 18 meses, antes de fechar os olhos e adormecer.

Charles estava sentado ao lado da cama da mulher quando reparou que havia sangue no cateter. Passava das 16h quando pela primeira vez disse à enfermeira o que se passava, de acordo com a reclamação por escrito feita por Charles em 2017, no âmbito da acção judicial que interpôs contra o Cedars-Sinai. Dessa reclamação, constam igualmente pormenores sobre os cuidados de saúde administrados a Kira: o cateter foi mudado por volta das 17h30, seguindo-se uma ecografia e análises ao sangue. A ecografia revelou sinais de hemorragia interna. Foram administrados medicação analgésica e líquidos por via intravenosa. Às 18h44, foi ordenada uma TAC. Repetiram-se a ecografia e as análises sanguíneas. Foi-lhe dada uma transfusão de sangue.

Quatro horas mais tarde, ainda não havia resultado da TAC. Segundo a queixa, outra transfusão de sangue foi administrada. Kira estava “pálida e atordoada” e “tremia descontroladamente com arrepios”, conta Charles. O abdómen mostrava-se sensível ao toque, com dor. Charles assegura que perguntou repetidamente ao pessoal hospitalar o que estava a ser feito para identificar a origem da hemorragia. 

“Como pai e como marido, há uma fronteira ténue entre tentar representar a nossa mulher e transpor essa fronteira, sobretudo quando se é negro”, recorda. Charles diz que não queria fazer nada que pudesse prejudicar os cuidados prestados à mulher. Em especial, depois de um dos funcionários hospitalares responder à sua pergunta angustiada da seguinte maneira: “Senhor, neste momento a sua mulher não é uma prioridade.” 

A TAC nunca foi feita, segundo a queixa. Kira foi conduzida ao bloco operatório à meia-noite e meia, dez horas depois da cesariana. Tinha o abdómen repleto de sangue. As últimas palavras que disse ao marido foram: “Querido, tenho medo.”

Charles sentiu-se atordoado com o medo da mulher, porque a faceta definidora do seu carácter era a bravura: Kira vivera na China, falava cinco línguas, tinha licença de piloto de automóveis e conduzira carros de competição. Sossegou-a, garantindo que tudo correria bem. 

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