Wile, o filho de 7 anos do fotógrafo Magnus Wennman, vê desenhos animados no seu iPad, um ritual que precede a hora de dormir para alguns. O estímulo pode afastar o sono e o ecrã retroiluminado também: a luz nocturna inibe a produção de melatonina, a hormona que regula os nossos ritmos biológicos diários.

Não, a sério. Pouse o telefone. Vamos mostrar-lhe como é uma noite de sono saudável. E como aquela luz azul o impede de dormir por tempo suficiente.

Texto: Michael Finkel

Fotografias: Magnus Wennman

Em quase todas as noites da nossa vida, sofremos uma metamorfose surpreendente.

O nosso cérebro altera profundamente o seu comportamento e objectivo, obscurecendo a nossa consciência. Durante algum tempo, ficamos quase inteiramente paralisados. Os nossos olhos, porém, giram veloz e periodicamente por detrás de pálpebras fechadas e os músculos minúsculos do nosso ouvido médio, mesmo em silêncio, mexem-se como se estivessem a ouvir. Por vezes achamos que podemos voar. Aproximamo-nos das fronteiras da morte. Dormimos.

Por volta de 350 a.C., Aristóteles escreveu o ensaio “Do sono e da insónia”, interrogando-se sobre o que fazíamos e porquê durante o tempo em que dormíamos. Nos 2300 anos seguintes, ninguém encontrou uma boa resposta. Em 1924, o psiquiatra alemão Hans Berger inventou o electroencefalógrafo, que regista a actividade eléctrica do cérebro. O estudo do sono saiu do campo da filosofia e migrou para o da ciência. No entanto, só nas últimas décadas, à medida que os dispositivos de imagiologia disponibilizam informação cada vez mais profunda sobre o funcionamento interno do cérebro, é que nos aproximámos de uma resposta convincente para as perguntas de Aristóteles.

Tudo o que aprendemos sobre o sono sublinha a sua importância para a saúde física e mental.
O padrão de sono-vigília é uma característica essencial da biologia humana: uma adaptação para viver num planeta em rotação contínua. O Prémio Nobel da Medicina de 2017 foi atribuído a três cientistas que, nas décadas de 1980 e 1990, identificaram o relógio molecular existente no interior das nossas células, cujo objectivo é manter-nos sincronizados com o Sol. Segundo investigações recentes, quando este ritmo circadiano é perturbado, corremos mais riscos de padecer de doenças como diabetes, insuficiência cardíaca e demência.

Contudo, o desequilíbrio entre o estilo de vida e o ciclo solar tornou-se epidémico. “É como se estivéssemos a viver, à escala mundial, um teste das consequências negativas da privação de sono”, comenta Robert Stickgold, director do Centro para o Sono e Cognição da Faculdade de Medicina de Harvard. O norte-americano médio dorme actualmente menos de sete horas por noite, cerca de duas horas menos do que há um século. Tal facto deve-se principalmente à proliferação da iluminação eléctrica, seguida pelos televisores, computadores e telefones inteligentes. 

Na nossa sociedade agitada e banhada de luz, pensamos frequentemente no sono como um adversário, um estado que nos priva da produtividade e da diversão. Thomas Edison, que nos deu a lâmpada, disse que “o sono é um absurdo, um mau hábito.” Ele acreditava que um dia conseguiríamos dispensá-lo por completo.

Uma boa noite de sono parece agora tão rara e antiquada como uma carta escrita à mão. Todos parecem seguir atalhos, lutando contra a insónia com soporíferos, bebendo café para afastar os bocejos, ignorando a viagem complexa que devemos empreender todas as noites. 

A palavra japonesa inemuri,ou "dormir enquanto presente", é uma forma especial de sesta, na qual se adormece num local impróprio para dormir, como o metropolitano ou o escritório. "Como a pessoa não está oficialmente a dormir, precisa de comportar-se de adequada a cada situação, para ser socialmente aceitável", diz Brigitte Steger, perita em estudos nipónicos da Universidade de Cambridge. "Durante uma reunião, não é incomum fingir escutar ou esconder a cabeça sonolenta atrás de documentos." E se não for conhecido por ser preguiçoso, uma pequena inemuri talvez melhore a sua reputação nos negócios: demonstra que anda a trabalhar até à exaustão, acrescenta.

Numa noite boa, percorremos quatro a cinco ciclos, compostos por várias fases de sono, cada qual com as suas qualidades e finalidades numa descida surreal e espiralada a um mundo alternativo.

Fases 1-2 

Ao mergulharmos no sono, o nosso cérebro permanece activo e entra em processo de montagem, seleccionando as memórias a guardar e a eliminar.

A transformação inicial acontece depressa.
O organismo humano não gosta de arrastar-se demasiado tempo entre fases, demorando-se à porta. Por isso, apagamos as luzes, deitamo-nos na cama e fechamos os olhos. Se o nosso ritmo circadiano estiver sincronizado com o fluxo da luz diurna e da escuridão, se a glândula pineal existente na base do nosso cérebro estiver a produzir melatonina, assinalando que é de noite, e se uma série de outros sistemas se alinharem, os nossos neurónios adormecem rapidamente. 

 

A Luz artificial desregula o nosso relógio interno. Quanto mais azul e intensa for a luz, mais provável é a supressão da libertação de melatonina alterando o nosso ciclo de sono, sobretudo quando somos expostos a ela durante a noite, mantendo-nos próximos de ecrãs electrónicos.

Os cerca de 86 mil milhões de neurónios são as células que formam a Internet do cérebro, comunicando entre si através de sinais eléctricos e químicos. Quando estamos completamente despertos, os neurónios compõem uma trovoada celular. Quando disparam os seus impulsos eléctricos de forma sincronizada e ritmada, observável num electroencefalograma, ou EEG, por linhas onduladas mais suaves, indica que o cérebro se virou para dentro, afastando-se do caos da vida acordada. Em simultâneo, os nossos receptores sensoriais são abafados e adormecemos pouco depois.

Os cientistas chamam-lhe Fase 1, a componente mais superficial do sono, que dura cerca de cinco minutos. Depois, erguendo-se a partir das profundezas do cérebro, uma série de descargas eléctricas propagam-se através do córtex cerebral, a matéria cinzenta enrugada que compõe a camada externa do cérebro, na qual se incluem os centros da linguagem e da consciência. Estas descargas de meio segundo (os fusos) indicam que entrámos na Fase 2.

Enquanto dormimos, os nossos cérebros não ficam menos activos, ao contrário do que durante muito tempo se pensou – funcionam apenas de maneira diferente. Teoricamente, os fusos estimulam o córtex de modo a preservar a informação adquirida recentemente e possivelmente também a associá-la ao conhecimento já consolidado na memória de longo prazo. Em laboratórios de estudo do sono, quando novas tarefas, físicas ou mentais, são propostas às pessoas, a frequência dos seus fusos aumenta nessa noite. Quanto mais fusos tiverem, aparentemente, melhor executarão as tarefas no dia seguinte.

A intensidade dos fusos nocturnos, sugerem alguns peritos, poderá ser um indicador para prever a inteligência geral. O sono estabelece associações que nunca poderíamos fazer conscientemente, ideias que surgem intuitivamente. 

Na Philharmonie de Paris, o compositor Max Richter conduz uma interpretação de Sleep, uma peça minimalista composta com base em conhecimentos científicos cujo objectivo é orientar os ouvintes através de um descanso rejuvenescedor. Dura mais de oito horas. 

O cérebro desperto está optimizado para receber estímulos externos e o cérebro adormecido para consolidar a informação recolhida. Durante a noite, passamos da gravação à montagem, uma alteração que pode ser medida à escala molecular. Não estamos meramente a arquivar os nossos pensamentos de forma rotineira, pois o cérebro adormecido escolhe activamente as memórias a guardar e a descartar.

A escolha não é necessariamente sensata.
O sono reforça tão poderosamente a memória – não apenas na Fase 2, na qual passamos cerca de metade do tempo de sono, mas ao longo de toda a noite – que talvez fosse melhor, por exemplo, que os soldados acabados de chegar de uma missão terrível não fossem imediatamente dormir. Para evitar a perturbação de stress pós-traumático, os soldados deveriam permanecer acordados durante seis a oito horas, sugere a neurocientista Gina Poe. Segundo o estudo realizado pelo seu grupo de investigação, dormir logo após um acontecimento importante, antes de parte do problema estar resolvido mentalmente, aumenta a probabilidade de transformar a experiência numa memória de longo prazo.

A Fase 2 pode durar um máximo de 50 minutos, durante o primeiro ciclo de sono de 90 minutos da noite. Tipicamente, ocupa uma percentagem mais pequena em ciclos subsequentes. Os fusos podem ocorrer em intervalos de poucos segundos durante algum tempo, mas quando a frequência dessas erupções diminui, o nosso ritmo cardíaco abranda. A nossa temperatura corporal desce. Qualquer consciência que nos reste do ambiente exterior desaparece. Iniciamos o longo mergulho até às Fases 3 e 4, as mais profundas do sono. 

Fases 3-4

Entramos num sono profundo, semelhante a um coma, que é tão essencial para o nosso cérebro como o alimento é para o nosso corpo. Chegou a altura da "limpeza" fisiológica e não de sonhar.

Todos os animais, sem excepção, exibem pelo menos uma forma primitiva de sono. As preguiças-comuns dormem cerca de dez horas por dia, uma manifestação decepcionante de languidez, mas alguns morcegos frugívoros conseguem dormir 15 horas e, segundo alguns relatos, os morcegos-castanhos-pequenos podem preguiçar durante vinte. As girafas dormem menos de cinco horas. Por norma, os cavalos dormem parte da noite em pé e a outra parte deitados. 

Envolto em tubos e eléctrodos, Francis Ajua, de 10 anos, espera que "apaguem as luzes" para o seu estudo de sono nocturno no Children's National Health System, em Washington. Está a fazer testes à apneia do sono, que provoca pausas repetidas na respiração. 

Os golfinhos adormecem um hemisfério de cada vez: metade do cérebro dorme enquanto a outra metade está acordada, permitindo-lhes nadar continuamente. As fragatas podem fazer sestas enquanto planam e outras aves talvez o façam também. Os tubarões-lixa repousam no fundo oceânico, empilhados uns sobre os outros. As baratas baixam as suas antenas enquanto dormem a sesta e são sensíveis também à cafeína.

 

Numa clínica do sono em Washington, Michael Bosak dorme durante o seu exame, numa posição que ajuda a prevenir o estreitamento repetido das suas vias aéreas superiores, a causa pela qual ressona. Esta fotografia foi captada no escuro com uma câmara de infravermelhos para não o incomodar. O sono é essencial para a saúde e o desenvolvimento infantil: é quando são libertadas a maioria das hormonas de crescimento e proteínas de combate às infecções. 
A má qualidade do sono na infância foi associada à diabetes, à obesidade e às dificuldades de aprendizagem.

Definido como comportamento caracterizado por uma diminuição das reacções e redução da mobilidade, facilmente perturbado (ao contrário da hibernação ou do coma), o sono existe em criaturas que nem sequer possuem um cérebro. As medusas dormem, com a acção pulsante dos seus corpos a diminuir visivelmente, e organismos unicelulares como o plâncton e a levedura exibem ciclos evidentes de actividade e repouso. 

Isto implica que o sono é algo ancestral e que a sua função original e universal não está relacionada com organizar memórias ou promover a aprendizagem, mas com a preservação da vida em si. É perfeitamente natural que uma criatura, independentemente do seu tamanho, não possa funcionar a todo o vapor 24 horas por dia.

“Estar acordado é cansativo”, resume Thomas Scammell, professor de neurologia. “Temos de superar todos os outros organismos para sobreviver e, por consequência, precisamos de um período de repouso para ajudar as células a recuperar.”

No caso dos seres humanos, isto acontece principalmente durante o sono profundo, nas Fases 3 e 4, que diferem na percentagem de actividade cerebral que é composta pelas ondas delta, de grande amplitude e baixa frequência num registo de EEG. Na Fase 3, as ondas delta estão presentes em menos de metade do tempo; na Fase 4, em mais de metade. É no sono profundo que as nossas células produzem a maior parte da hormona do crescimento, necessária à manutenção dos ossos e dos músculos, ao longo da vida.

As memórias novas são consolidadas durante o sono. O que acontece no cérebro? Na Universidade de Tsukuba, no Japão, Takeshi Sakurai estuda a questão recorrendo a optogenética: um laser activa ou desactiva células individuais em ratinhos geneticamente modificados para se tornarem sensíveis ao processo.

Há outras provas de que o sono é essencial para garantir a saúde do sistema imunitário, da temperatura corporal e da tensão arterial. Sem dormir o suficiente não conseguimos regular eficazmente o nosso humor ou melhorar depressa de lesões. O sono pode ser mais essencial para nós do que o alimento. Os animais morrem de privação de sono antes de morrerem de fome, diz Steven Lockley, do Hospital Brigham and Women’s, em Boston.

 

Descansando no U.S.S. Paul Hamilton, um marinheiro usa óculos emissores de luz durante um breve período de tempo depois de acordar. Nita Shattuck, da Escola de Pós-Graduação da Marinha, em Monterey, está a testar os dispositivos para descobrir se podem recalibrar os relógios internos dos marinheiros, sincronizando-os com os turnos de trabalho e não com o ciclo solar.

O sono de qualidade também reduz os riscos de desenvolvimento de demência. Segundo um estudo feito com ratinhos por Maiken Nedergaard, da Universidade de Rochester, os nossos neurónios mantêm-se densamente agrupados enquanto estamos acordados, mas, quando adormecemos, algumas células cerebrais podem perder até 60% de volume, alargando o espaço entre elas. Estes espaços intercelulares são os locais de deposição dos resíduos metabólicos das células, com destaque para uma substância denominada beta-amilóide, que interfere na comunicação entre neurónios e está intimamente ligada à doença de Alzheimer. O líquido cefalorraquidiano só consegue correr como detergente por esses corredores mais largos do nosso cérebro, eliminando os beta-amilóides, durante o sono.

Enquanto todas estas limpezas e reparações ocorrem, os nossos músculos estão plenamente descontraídos. A actividade mental é mínima. As ondas da Fase 4 são parecidas com os padrões produzidos por doentes em coma. Não costumamos sonhar na Fase 4. Podemos até nem sentir dor. Na mitologia grega, os deuses Hypnos (sono) e Thanatos (morte) são irmãos gémeos. Talvez os gregos tivessem razão.

“Estamos a falar num nível bastante intenso de desactivação cerebral”, diz Michael Perlis, director do programa de Medicina e Sono Comportamental da Universidade da Pensilvânia. “O sono da Fase 4 não é muito diferente do coma ou da morte cerebral. Embora recuperador e restaurador, não é algo que queiramos em excesso.”

Esta câmara estanque do instituto do sono em Tsukuba permite aos investigadores acompanhar com precisão o consumo de oxigénio de um indivíduo adormecido e, por conseguinte, o seu ritmo metabólico. Pode medir como é influenciado, por exemplo, pela intensidade e cor da luz ambiente. Descobrir as melhores condições para induzir o sono poderá ser o primeiro passo na cura da insónia.

No máximo, podemos permanecer na Fase 4 cerca de 30 minutos antes de o cérebro a interromper. Nos sonâmbulos, pelo menos, essa alteração pode ser acompanhada por um espasmo corporal. O mais frequente é passarmos rápida e suavemente pelas Fases 3 e 2 e depois acordarmos.

Até as pessoas com um sono saudável acordam várias vezes por noite, embora a maioria nem repare. Voltamos a adormecer passados poucos segundos. Nessa altura, porém, em vez de repetirmos novamente as fases, o cérebro reinicia-se para fazer algo completamente novo, uma viagem verdadeiramente bizarra. 

Segundo os Centros para o Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, mais de 80 milhões de adultos norte-americanos sofrem de privação de sono crónica, o que significa que dormem menos do que as recomendadas sete horas por noite. Juntamente com outros factores, o cansaço é responsável por mais de um milhão de acidentes de viação por ano, bem como por um número significativo de erros médicos. Até pequenos ajustes ao sono podem revelar-se problemáticos. Na segunda-feira a seguir à mudança para a hora de Verão, há um aumento de 24% dos ataques cardíacos nos EUA em comparação com outras segundas-feiras. Regista-se igualmente um aumento no número de acidentes de viação mortais.

Como a Luz nos afecta? Quão despertos estamos a qualquer instante depende da interacção de dois processos: a "pressão do sono", que se pensa ser criada por substâncias que induzem o sono e se acumulam no cérebro durante o tempo da vigília, e o nosso ritmo circadiano, o relógio interno que mantém o cérebro e o corpo sincronizados com o Sol. Esse relógio pode ser atrasado ou adiantado pela luz. Somos particularmente sensíveis à luz azul (comprimento de ondas curtas), o tipo de luz emitida pelo Sol ao meio-dia e pelos nossos monitores, mas que pode perturbar o nosso ciclo, sobretudo de noite, quando precisamos que a escuridão nos ponha sonolentos. 

Durante a nossa vida, cerca de um terço das pessoas sofrerá de, pelo menos, um distúrbio diagnosticável relacionado com o sono. Estes distúrbios vão da insónia crónica à apneia do sono ou à síndrome das pernas inquietas. Existem outras doenças mais raras e estranhas.

Na síndrome da cabeça explosiva, sons altíssimos parecem reverberar no nosso cérebro quando tentamos adormecer. Um estudo realizado em Harvard concluiu que a paralisia do sono (a incapacidade de nos mexermos durante alguns minutos após acordarmos de um sonho) encontra-se na génese de muitas histórias sobre raptos por alienígenas. 

 

O poder da luz artificial. A guerra contra o sono começou quando as lâmpadas incandescentes começaram a banir a noite. Metrópoles como Tóquio são agora iluminadas por LED, as lâmpadas mais eficientes em termos energéticos, mas que tendem a produzir muita luz azul, a que mais perturba o sono.

As crises de narcolepsia, episódios incontroláveis de sono súbito, são frequentemente desencadeadas por emoções positivas muito fortes, como ouvirmos uma piada, fazerem-nos cócegas ou provarmos uma comida deliciosa.
A cada dois ou três anos, as pessoas com síndrome de Kleine-Levin podem dormir sem parar durante uma ou duas semanas, regressando aos seus ciclos regulares de consciência sem quaisquer efeitos secundários discerníveis. 

A insónia é, de longe, o problema mais comum, a principal razão pela qual 4% dos adultos norte-americanos tomam soporíferos em qualquer mês do ano. Os insones costumam demorar mais tempo a adormecer, acordar durante a noite por períodos mais longos ou ambos. Se o sono é um fenómeno tão natural e omnipresente, apurado ao longo de eternidades, devemos interrogar-nos: por que razão tantos de nós têm tamanhas dificuldades em dormir? A culpa é da evolução. A culpa é do mundo contemporâneo. A culpa é do desajuste entre ambos.

A evolução deu-nos, tal como às outras criaturas, um sono maleável em termos horários e rapidamente interrompível para que possa ser subordinado por outras prioridades. O cérebro possui um sistema de alarme, activo em todas as fases do sono, que consegue despertar-nos quando se apercebe de uma emergência — o choro de uma criança, por exemplo, ou os passos de um predador que se aproxima.

O efeito da luz colorida. Steven Lockley estuda um fenómeno que nos alimenta durante o dia: a luz e a maneira como comprimentos de onda específicos incidindo sobre o olho nos afectam o cérebro, o comportamento e a fisiologia. A luz rica em comprimentos de onda vermelha é melhor para a noite, pois tem menos potência para promover o estado de alerta ou para recalibrar o relógio biológico de 24 horas.

O problema é que, no mundo contemporâneo, o nosso impulso inato e ancestral para acordar é constantemente activado por situações que não constituem ameaça à vida, como a ansiedade antes de um exame, preocupações financeiras ou todos os alarmes automóveis da vizinhança. Antes da Revolução Industrial, que nos deu os despertadores e fixou horários laborais, podíamos frequentemente contrabalançar a insónia dormindo até mais tarde. Agora já não. E se o leitor for uma daquelas pessoas que se orgulha de adormecer rapidamente em quase qualquer sítio, pode parar de se gabar – é um sinal evidente, sobretudo se tiver menos de 40 anos, de que sofre de uma privação de sono grave.

O primeiro segmento do cérebro que começa a ficar debilitado quando não dormimos bem é o córtex pré-frontal, o centro da tomada de decisões e da resolução de problemas. As pessoas com problemas de sono são mais irritáveis, temperamentais e irracionais. “Até certo ponto, todas as funções cognitivas parecem ser afectadas pela falta de sono”, afirma a neurocientista Chiara Cirelli, do Instituto para o Sono e Consciência. 

Nova luz em Tóquio. Retratos captados durante a noite nas ruas de Tóquio, iluminados pelo brilho das luzes de néon, mostram o arco-íris de cores que pode estimular-nos ou descontrair-nos: uma experiência confusa que subverte o fluxo natural da luz e da escuridão ao qual os nossos organismos se adaptaram ao longo de milhões de anos.

Qualquer pessoa que durma regularmente menos do que seis horas por noite corre um risco elevado de depressão, psicose e AVC. A falta de sono também está directamente ligada à obesidade: sem sono suficiente, o estômago e outros órgãos produzem grelina (a hormona da fome) em excesso, levando-nos a comer mais do que precisamos. É difícil provar uma relação de causa e efeito nestes casos, porque não podemos sujeitar os seres humanos aos testes necessários. Mas é evidente que a falta de sono prejudica todo o organismo.

As sestas rápidas não resolvem o problema, nem os fármacos. “O sono não é monolítico”, diz Jeffrey Ellenbogen, um cientista de sono da Universidade Johns Hopkins que dirige o Projecto Sound Sleep, que aconselha empresas sobre como os seus funcionários podem atingir melhores desempenhos através de um repouso mais saudável. “Não é uma maratona. É mais parecido com um decatlo. É mil coisas diferentes. É tentador manipular o sono com fármacos ou dispositivos, mas ainda não compreendemos o sono suficientemente bem para nos arriscarmos a manipular artificialmente as suas componentes.”

Jeffrey e outros manifestam-se contra as ideias feitas, sobretudo a original – a ideia de que podemos passar bem sem dormir. Era uma ideia gloriosa: se pudéssemos eliminar as partes desnecessárias do sono, seria como acrescentarmos décadas à nossa vida. Nos primeiros tempos da ciência do sono, nas décadas de 1930 e 1940, a segunda metade da noite foi considerada por alguns o período estagnado do sono. Há quem pense que nem sequer precisamos dele.

Luz nocturna. Para obter uma ideia clara de como os seres humanos estão a mudar o céu à noite, a NASA criou composições com imagens recolhidas por satélite durante a noite. Utilizando técnicas conhecidas como "desligar a Lua", cientistas da NASA filtram todos os emissores naturais e absorvedores de luz, como incêndios, auroras, nuvens, neve e gelo. Os resultados, actualizados com regularidade, dão-nos a melhor imagem até agora captada do padrão evolutivo da sedentarização humana e da nossa compulsão inexorável por iluminar a noite.

Afinal, esse período é a fonte de uma forma de sono completamente diferente, mas também essencial: quase como que outro nível de consciência.

REM

Durante este estado frenético de psicose, sonhamos, voamos e caímos, quer nos lembremos mais tarde, ou não. Também regulamos o nosso humor e consolidamos as nossas memórias.

O sono com movimento rápido dos olhos, conhecido pela sigla REM, foi descoberto em 1953  por Eugene Aserinsky e Nathaniel Kleitman. Antes disso, devido ao padrão banal que exibia nos primeiros EEG, este período era geralmente considerado uma variante da Fase 1 e não particularmente significativa. Mas quando o inconfundível movimento dos olhos foi documentado, bem como o ingurgitamento dos órgãos sexuais que sempre o acompanha, e se percebeu que todos os sonhos vívidos ocorrem nesta fase, a ciência do sono foi virada do avesso.

Por norma, um sono saudável começa com uma espiral descendente até à Fase 4, um regresso momentâneo à vigília, e uma sessão REM de 5 a 20 minutos. Em cada ciclo subsequente, o tempo de REM praticamente duplica. Em geral, o sono REM ocupa cerca de um quinto do tempo de repouso total nos adultos. Segundo as conjecturas dos cientistas, as sequências específicas de sono Não-REM (NREM) e REM optimizam de alguma forma a nossa recuperação física e mental. A nível celular, os picos da síntese proteica ocorridos durante o sono REM mantêm o organismo a funcionar correctamente. O sono REM também parece fundamental para regular o humor e consolidar as memórias.

Sempre que entramos em sono REM, ficamos literalmente loucos. Por definição, a psicose é um estado caracterizado por alucinações e delírios. Segundo alguns cientistas do sono, sonhar é um estado psicótico. Acreditamos piamente que vemos coisas que não existem e aceitamos que o tempo, a geografia e as próprias pessoas podem metamorfosear-se e desaparecer sem aviso prévio.

Na Suécia, centenas de crianças imigrantes cujas famílias se encontram na iminência de deportação contraíram a síndrome de resignação, uma doença na qual a criança se aliena do mundo, sem reagir sequer a estímulos de dor. Precisa de ser alimentada através de um tubo por vezes durante anos. "Ela agora não está a sofrer", diz a médica Elisabeth Hultcrantz, referindo-se à refugiada síria Leyla Ahmed, de 10 anos.

Dos gregos antigos a Sigmund Freud e aos leitores da sina de vão de escada, os sonhos sempre foram uma fonte de fascínio e mistério. Actualmente, muitos especialistas não estão interessados nas imagens e acontecimentos específicos dos nossos sonhos. Eles acham que os sonhos são o resultado do disparo caótico dos neurónios e, apesar de imbuídos de efeito emocional, são desprovidos de significado. Só quando acordamos é que o nosso cérebro consciente, procurando criar significados, compõe rapidamente uma manta com retalhos recolhidos ao acaso.

Outros cientistas do sono discordam. A acção do sonho decorre numa região demasiada profunda do cérebro para ficar bem registada num EEG, mas, com as tecnologias mais recentes, temos inferido o que se passa física e quimicamente. Os sonhos também ocorrem no sono NREM, sobretudo na Fase 2, mas costumam ser considerados como introduções. Só no sono REM é que acedemos ao poder da loucura nocturna.

Os sonhos acontecem ao longo de quase todo o sono REM, tipicamente cerca de duas horas por noite, embora esta duração diminua com o avanço da nossa idade. Os recém-nascidos dormem 17 horas por dia e passam cerca de metade desse tempo numa condição activa semelhante ao sono REM. E, durante cerca de um mês no útero, a partir da 26.ª semana de gestação, os fetos permanecem, sem pausas, num estado muito semelhante ao sono REM. Segundo algumas teorias, todo este tempo passado em REM é o equivalente a testes de software realizados pelo cérebro, preparando-se para o seu estado permanentemente activo. O processo denomina-se teleencefalização: é nada menos do que a activação da mente.

O organismo não faz termorregulação durante o sono REM. A nossa temperatura interna permanece o mais baixa possível. A nossa frequência cardíaca aumenta, comparada com outras fases do sono, e a nossa respiração torna-se irregular. Os músculos, com algumas excepções (olhos, orelhas, coração, diafragma) são imobilizados. Infelizmente, isto não impede alguns de nós de ressonarem. Esta característica indesejável do nosso companheiro de leito, incentivo para a invenção de dispositivos anti-ressono, acontece quando um fluxo de ar turbulento faz vibrar os tecidos descontraídos do nariz ou da garganta. É comum nas Fases 3 e 4. No sono REM, quer ressonemos ou não, somos completamente incapazes de reagir fisicamente: mesmo para regular a nossa tensão arterial. No entanto, o nosso cérebro é capaz de nos convencer de que estamos a surfar nas nuvens ou a matar dragões.

Mike Morris, um militar veterano, usa um capacete de EEG enquanto dorme na companhia do seu cão de terapia, Olive. Mike participa num estudo dirigido por Jeffrey Ellenbogen, da Universidade Johns Hopkins, destinado a investigar de que forma a companhia e os sons a que um indivíduo adormecido se encontra exposto afectam a recuperação pós-traumática. 

No sono REM, a gestão do cérebro é retirada aos centros de lógica e de controlo de impulsos. A produção de dois químicos específicos, a serotonina e a norepinefrina, é completamente desligada. Ambos são neurotransmissores essenciais, permitindo a comunicação entre as células cerebrais. Sem eles, a nossa capacidade para aprender e recordar fica gravemente diminuída. Ficamos num estado de consciência quimicamente alterado. Contudo, não é um estado semelhante ao coma, como acontece na Fase 4. O nosso cérebro está plenamente activo durante o sono REM, consumindo quase tanta energia como quando estamos acordados.

O sono REM é gerido pelo sistema límbico — uma região profunda do cérebro, a indomável selva da mente, onde têm origem alguns dos nossos instintos mais básicos e selvagens. Freud tinha razão: os sonhos são mesmo alimentados pelas nossas emoções mais primitivas. O sistema límbico é o lar da pulsão sexual, da agressão e do medo, embora também nos permita sentir júbilo, alegria e amor. Embora por vezes pareça que temos mais pesadelos do que sonos agradáveis, provavelmente não é verdade. Os sonhos assustadores simplesmente têm mais possibilidades de activar o nosso sistema de alarme e acordar-nos.

No tronco cerebral, uma pequena saliência denominada ponte é supercarregada durante o sono REM. Impulsos eléctricos vindos da ponte costumam frequentemente dirigir-se à zona do cérebro que controla os músculos dos olhos e das orelhas. As pálpebras costumam permanecer fechadas, mas os globos oculares saltitam de um lado para o outro, talvez reagindo à intensidade do sonho. O ouvido interno também permanece activo enquanto sonhamos.

O mesmo se passa com zonas do cérebro geradoras do movimento. É por isso que sentimos frequentemente que estamos a voar ou a cair nos sonhos. Também sonhamos a cores, a não ser que tenhamos nascido cegos: nesse caso, os sonhos não têm imagens visuais, mas continuam a ser emocionalmente intensos. Os sonhos de homens e mulheres parecem ser semelhantes ao nível do conteúdo emocional. Sempre que um homem sonha, mesmo que o conteúdo não seja sexual, tem uma erecção. Na mulher, os vasos sanguíneos da vagina ficam ingurgitados. E enquanto sonhamos, por mais absurdo que o sonho seja, apesar de todas as transgressões de leis da física, estamos quase sempre convencidos de que estamos acordados. A derradeira máquina de realidade virtual reside na nossa cabeça.

Ainda bem que estamos paralisados. Quando sonhamos, o nosso cérebro tenta produzir movimento, mas um sistema do tronco cerebral desactiva por completo a “porta” dos neurónios motores. Existe uma parassonia (uma anomalia do sono que afecta o sistema nervoso) chamada distúrbio do comportamento REM em que a “porta” não se fecha por completo e as pessoas vivem intensa e espectacularmente os seus sonhos, dando murros e pontapés, dizendo palavrões com os olhos fechados e totalmente a dormir. Isto provoca frequentemente lesões na pessoa adormecida e na pessoa com quem partilha a cama.

Joe Diemand, de 76 anos, trabalhou como camionista nos últimos 20 anos, por vezes conduzindo durante a noite inteira. Esse trabalho deixa-nos "tão cansados que não conseguimos dormir", diz. A Organização Mundial da Saúde descreveu o turno da noite como "provavelmente carcinogénico para os seres humanos".

O final de uma sessão REM, como o fim da Fase 4, costuma caracterizar-se por um breve despertar. Se descansarmos naturalmente, sem um despertador, o nosso último sonho da noite costuma concluir o nosso sono. Embora o tempo que passámos a dormir ajude a determinar o momento ideal para acordar, a luz do dia tem propriedades que estimulam o despertar. 

Quando a luz penetra nas pálpebras e toca nas retinas, é enviado um sinal para uma região profunda do cérebro denominada núcleo supraquiasmático. É então que, para muitas pessoas, o último sonho se dissolve e os olhos abrem-se, regressando à vida real.

Ou será que não? Talvez o aspecto mais fantástico do sono REM seja provar que o cérebro pode funcionar independentemente de estímulos sensoriais externos. Tal como um artista escondido num estúdio secreto, a mente parece fazer experiências sem inibições, entregando-se livremente à sua missão.

Quando estamos acordados, o cérebro está ocupado com tarefas importantes – controlar pernas e braços, conduzir, ir às compras, conversar e trocar mensagens constantemente, ganhar dinheiro, criar os filhos. 

Mas quando estamos a dormir e iniciamos a nossa primeira sessão REM, o instrumento mais elaborado e complexo que conhecemos no universo é livre de fazer o que lhe apetece. Activa-se sozinho. Sonha. Chegou a hora, poderíamos dizê-lo, de o cérebro ter o seu tempo de lazer. Alguns teóricos do sono postulam que é durante o sono REM que somos mais inteligentes, perspicazes, criativos e livres. É então que nos tornamos, verdadeiramente, vivos. “O sono REM poderá ser aquilo que nos torna mais humanos, tanto pelo que faz pelo cérebro e pelo corpo, como pela experiência em si”, comenta Michael Perlis.

Talvez estejamos então a fazer a pergunta errada sobre o sono, desde o tempo de Aristóteles. A derradeira questão não é por que motivo dormimos: com um mundo alternativo tão incrível ao nosso dispor, por que motivo nos damos ao trabalho de ficar acordados?

E a resposta poderá ser que precisamos de tratar das necessidades básicas da vida apenas para assegurar que o organismo está completamente preparado para dormir. 

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