Quer adormecer? Leia esta reportagem e conheça a importância do sono

Wile, o filho de 7 anos do fotógrafo Magnus Wennman, vê desenhos animados no seu iPad, um ritual que precede a hora de dormir para alguns. O estímulo pode afastar o sono e o ecrã retroiluminado também: a luz nocturna inibe a produção de melatonina, a hormona que regula os nossos ritmos biológicos diários.

Não, a sério. Pouse o telefone. Vamos mostrar-lhe como é uma noite de sono saudável. E como aquela luz azul o impede de dormir por tempo suficiente.

Texto: Michael Finkel

Fotografias: Magnus Wennman

Em quase todas as noites da nossa vida, sofremos uma metamorfose surpreendente.

O nosso cérebro altera profundamente o seu comportamento e objectivo, obscurecendo a nossa consciência. Durante algum tempo, ficamos quase inteiramente paralisados. Os nossos olhos, porém, giram veloz e periodicamente por detrás de pálpebras fechadas e os músculos minúsculos do nosso ouvido médio, mesmo em silêncio, mexem-se como se estivessem a ouvir. Por vezes achamos que podemos voar. Aproximamo-nos das fronteiras da morte. Dormimos.

Por volta de 350 a.C., Aristóteles escreveu o ensaio “Do sono e da insónia”, interrogando-se sobre o que fazíamos e porquê durante o tempo em que dormíamos. Nos 2300 anos seguintes, ninguém encontrou uma boa resposta. Em 1924, o psiquiatra alemão Hans Berger inventou o electroencefalógrafo, que regista a actividade eléctrica do cérebro. O estudo do sono saiu do campo da filosofia e migrou para o da ciência. No entanto, só nas últimas décadas, à medida que os dispositivos de imagiologia disponibilizam informação cada vez mais profunda sobre o funcionamento interno do cérebro, é que nos aproximámos de uma resposta convincente para as perguntas de Aristóteles.

Tudo o que aprendemos sobre o sono sublinha a sua importância para a saúde física e mental.
O padrão de sono-vigília é uma característica essencial da biologia humana: uma adaptação para viver num planeta em rotação contínua. O Prémio Nobel da Medicina de 2017 foi atribuído a três cientistas que, nas décadas de 1980 e 1990, identificaram o relógio molecular existente no interior das nossas células, cujo objectivo é manter-nos sincronizados com o Sol. Segundo investigações recentes, quando este ritmo circadiano é perturbado, corremos mais riscos de padecer de doenças como diabetes, insuficiência cardíaca e demência.

Contudo, o desequilíbrio entre o estilo de vida e o ciclo solar tornou-se epidémico. “É como se estivéssemos a viver, à escala mundial, um teste das consequências negativas da privação de sono”, comenta Robert Stickgold, director do Centro para o Sono e Cognição da Faculdade de Medicina de Harvard. O norte-americano médio dorme actualmente menos de sete horas por noite, cerca de duas horas menos do que há um século. Tal facto deve-se principalmente à proliferação da iluminação eléctrica, seguida pelos televisores, computadores e telefones inteligentes. 

Na nossa sociedade agitada e banhada de luz, pensamos frequentemente no sono como um adversário, um estado que nos priva da produtividade e da diversão. Thomas Edison, que nos deu a lâmpada, disse que “o sono é um absurdo, um mau hábito.” Ele acreditava que um dia conseguiríamos dispensá-lo por completo.

Uma boa noite de sono parece agora tão rara e antiquada como uma carta escrita à mão. Todos parecem seguir atalhos, lutando contra a insónia com soporíferos, bebendo café para afastar os bocejos, ignorando a viagem complexa que devemos empreender todas as noites. 

A palavra japonesa inemuri,ou "dormir enquanto presente", é uma forma especial de sesta, na qual se adormece num local impróprio para dormir, como o metropolitano ou o escritório. "Como a pessoa não está oficialmente a dormir, precisa de comportar-se de adequada a cada situação, para ser socialmente aceitável", diz Brigitte Steger, perita em estudos nipónicos da Universidade de Cambridge. "Durante uma reunião, não é incomum fingir escutar ou esconder a cabeça sonolenta atrás de documentos." E se não for conhecido por ser preguiçoso, uma pequena inemuri talvez melhore a sua reputação nos negócios: demonstra que anda a trabalhar até à exaustão, acrescenta.

Numa noite boa, percorremos quatro a cinco ciclos, compostos por várias fases de sono, cada qual com as suas qualidades e finalidades numa descida surreal e espiralada a um mundo alternativo.

Fases 1-2 

Ao mergulharmos no sono, o nosso cérebro permanece activo e entra em processo de montagem, seleccionando as memórias a guardar e a eliminar.

A transformação inicial acontece depressa.
O organismo humano não gosta de arrastar-se demasiado tempo entre fases, demorando-se à porta. Por isso, apagamos as luzes, deitamo-nos na cama e fechamos os olhos. Se o nosso ritmo circadiano estiver sincronizado com o fluxo da luz diurna e da escuridão, se a glândula pineal existente na base do nosso cérebro estiver a produzir melatonina, assinalando que é de noite, e se uma série de outros sistemas se alinharem, os nossos neurónios adormecem rapidamente. 

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