A tecnologia e a ciência ajudam os atletas modernos a pulverizar recordes. 

Texto: Christine Brennan

Fotografias:  Mark Thiessen, David Burnett, Nichole Sobecki

A grande corrida de todos os tempos só poderá acontecer na nossa imaginação: Usain Bolt em duelo directo com Jesse Owens.

Bolt na sua pista do século XXI: uma superfície lisa e antiderrapante preparada para a corrida de 100 metros, concebida para que as suas pernas recuperem rapidamente energia enquanto corre sobre ela.

A seu lado, está Owens, na sua pista anterior à Segunda Guerra Mundial, uma camada irregular de cinza, uma superfície macia que, na verdade, rouba energia às pernas a  cada passada.

Jesse Owens venceu os 100 metros nos Jogos Olímpicos de 1936 em 10,3 segundos. Usain Bolt (visível nesta imagem captada em 2016) detém o recorde: 9,58 segundos. Com me-
lhor equipamento, Owens poderia ter-se aproximado das marcas de Bolt.  

Há quase uma década que Bolt, a lenda jamaicana das corridas de velocidade, vencedor de oito medalhas olímpicas de ouro, calça sapatilhas fabricadas especificamente para correr sobre superfícies tecnologicamente avançadas. Durante a sua vida competitiva, usou as melhores metodologias de treino que o mundo conheceu. Desloca-se às competições a bordo de um jacto privado e tem o seu próprio cozinheiro, que lhe prepara refeições nutritivas com baixo teor de gordura. Bolt atingiu o apogeu na época áurea do doping no desporto. Nunca registou resultados positivos nos controlos antidoping, mas a suspeita persegue muitos atletas olímpicos de topo do seu tempo. 

Owens percorreu os 100 metros dos Jogos Olímpicos de 1936 em 10,3 segundos, ganhando assim uma das quatro medalhas de ouro que trouxe de Berlim. Nesta corrida imaginária, calça sapatilhas de couro. Bolt partirá dos novos blocos topo de gama, mas Owens terá de escavar os seus próprios blocos de partida na cinza com uma colher de jardinagem. 

Owens cresceu nos EUA numa época de segregação racial, com poucos dos privilégios dos atletas contemporâneos. Para chegar a Berlim, ele e outros atletas gastaram vários dias para atravessar o Atlântico num navio transatlântico.

Bolt, que correu os 100 metros em 9,58 segundos em 2009 e se reformou em 2017, ainda é reconhecido como o homem mais rápido do mundo. Mas quão mais rápido seria, na verdade, do que os velocistas de elite de gerações anteriores, como Owens?

Um sapato leve, semelhante aquele usado por Usain Bolt quando bateu o recorde do mundo dos  100 metros em 2009, encontra-se exposto num pedaço de Mondotrack, igual àquele onde o jamaicano correu naquele dia em Berlim. Este piso foi concebido para devolver energia aos corredores, tornando-os mais rápidos.

Pondo de lado as questões das drogas que melhoram os desempenhos, até onde chegámos na nossa demanda de corrermos mais depressa, saltarmos mais alto e pularmos mais longe? E o que aprendemos sobre a forma de aproveitar a tecnologia e os novos métodos de treino para excedermos os limites do desempenho humano? 

Em 2014, uma conjectura do jornalista David Epstein sugeriu que, caso Owens tivesse corrido na mesma superfície que Bolt, o melhor tempo de Owens nos 100 metros (10,2 segundos), registado pouco antes dos Jogos de 1936, estaria pouco atrás do desempenho de Bolt nos 100 metros (9,77 segundos) nos campeonatos de 2013.

Nas oito décadas decorridas entre as vitórias históricas de Owens e a modernidade, o aperfeiçoamento dos treinos, dos testes, das técnicas, do vestuário e do equipamento ajudaram os atletas a tornar-se melhores, mais rápidos, mais fortes e mais rigorosos. No entanto, os investigadores acreditam que ainda não atingimos os limites do potencial humano.

Segundo Peter Weyand, responsável pelo Laboratório do Desempenho Locomotor da Universidade Metodista do Sul e um dos principais especialistas mundiais na biomecânica da corrida de velocidade, ainda não se esgotou o potencial de melhorias significativas nas corridas de 100 e 200 metros e na maratona. O seu laboratório recorre a análise de vídeo de alta velocidade para estudar a técnica dos velocistas, procurando formas de os tornar mais eficientes e mais rápidos. Peter integra uma equipa liderada por Yannis Pitsiladis, cientista do Reino Unido cujo trabalho visa quebrar a barreira das duas horas na maratona. Para ajudar os atletas a baterem recordes, os investigadores estão a concentrar-se em áreas essenciais como a fisiologia, a nutrição, a biomecânica, o apoio médico, a monitorização em tempo real e o treino. Este tipo de conhecimento científico “permite melhorar o desempenho”, resumiu  Peter Weyand.

Para ajudarem os atletas a exceder legalmente os limites do desempenho, os cientistas experimentam actualmente novas técnicas e equipamentos,  medindo o desempenho através de métodos inovadores e monitorizando a nutrição e a saúde física e mental dos atletas. 

Reparou naquele passe fabuloso de um futebolista da sua equipa preferida? Talvez tenha começado numa máquina de treino chamada Footbonaut, que dispara bolas de futebol na direcção dos jogadores a diferentes velocidades e ritmos, obrigando-os a controlar a bola e a chutá-la para o interior de um buraco da máquina.

Este debate sobre o desempenho humano vem acompanhado de um forte aviso.  Podemos mesmo acreditar naquilo que vemos? Em 1988, maravilhámo-nos com a corrida de 100 metros do canadiano Ben Johnson, nos Jogos de Seul, até o controlo antidoping acusar positivo para uma substância proibida. A medalha foi-lhe retirada e o atleta foi expulso dos Jogos Olímpicos. A época do doping no desporto manteve-se viva nas três décadas seguintes: afinal, quem esquece os casos comprovados de abuso do ciclista norte-americano Lance Armstrong, da velocista Marion Jones ou da delegação olímpica russa? A lista de infractores é longa.

Concentremo-nos agora na tecnologia desportiva, igualmente revolucionada no treino de atletas paralímpicos.

A esquiadora com deficiência visual Danelle Umstead, três vezes participante nos Jogos Paralímpicos e vencedora de três medalhas de bronze num desporto em que os atletas podem atingir velocidades de 110 quilómetros por hora, foi treinada num túnel de vento que lhe permitiu trabalhar a sua aerodinâmica com um guia de visão. Durante as provas, ela segue o seu parceiro pela pista enquanto comunicam através de um sistema de microfone e auscultadores.
O treino num túnel ajudou a melhorar a sua técnica, tornando-a mais rápida.

Danelle Umstead, de 46 anos, esquiadora com deficiência visual, testa a aerodinâmica num túnel de vento para aprender melhores técnicas para seguir na esteira do guia de visão (não mostrado na imagem) que esquia à sua frente. Os esquiadores paralímpicos conseguem atingir velocidades de 110 quilómetros por hora.

Entretanto, treinadores e atletas desafiam preconceitos de treino há muito enraizados. 

Michael Andrew, de 19 anos, quebrou os recordes nacionais na maioria dos escalões etários da natação norte-americana e quebrou 22 recordes nacionais. Ele e Peter, o seu pai e treinador, optaram por um método de treino não convencional, o Ultra-Short Race-Pace Training, ou USRPT. Andrew nada curtas distâncias a alta velocidade, condicionando o seu corpo e a sua mente para nadarem constantemente a um ritmo de corrida. Por tradição, os nadadores de elite ganham resistência através de treinos que envolvem um ritmo mais lento em distâncias mais longas. Esta controversa abordagem ajudou a transformar Andrew numa esperança olímpica para 2020 e está a persuadir vários treinadores de natação de topo nos EUA e noutros países.

“Tudo o que fazemos baseia-se na ciência. Existem dados para corroborar o que fazemos na piscina”, confirma Michael Andrew. “O nosso cérebro e o nosso corpo codificam estes movimentos como um computador. Não faz sentido treinar devagar quando estamos a tentar nadar depressa.”

 A nadadora norte-americana Katie Ledecky, que recentemente anunciou o abandono da equipa da Universidade de Stanford para se tornar profissional, segue um método de treino mais tradicional. No entanto, Katie, de 21 anos, usou a ciência desportiva para se tornar uma das melhores nadadoras de estilo livre do mundo. Já venceu cinco medalhas de ouro olímpicas e estabeleceu dois recordes mundiais nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. Ainda hoje, analisa avidamente os seus testes de nutrição e análises sanguíneas e estuda vídeos dos seus treinos e corridas em busca de maneiras de melhorar os movimentos dos braços e mãos. O sucesso de Katie é frequentemente atribuído à sua ética de trabalho, mas o verdadeiro segredo poderá residir no facto de ela ter uma das braçadas mais eficientes do mundo da natação feminina.

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Katie Ledecky, conquistou quatro medalhas de ouro e uma de prata nos Jogos Olímpicos de 2016, tem à sua disposição os mais recentes recursos científicos e tecnológicos e métodos de treino. A nadadora de fundo norte-americana estuda análises ao seu sangue e nutrição, vê vídeos da sua técnica e usa equipamento inovador. No final, porém, o sucesso é atribuído à sua determinação, trabalho árduo e uma braçada quase perfeita. 

Nada disso importaria, porém, se ela não estivesse disposta a trabalhar arduamente, acrescenta Bruce Gemmell, o seu treinador nos Jogos Olímpicos de 2016. Nos três anos anteriores à competição do Rio de Janeiro, a carga de trabalho semanal de Ledecky era habitualmente de 55 mil a 60 mil metros, divididos por nove treinos ao longo de seis dias. “Fiz várias palestras sobre o treino da Katie”, diz o treinador. “Senti-me tentado a apresentar apenas um slide, com a frase: ‘A Katie trabalha que se farta e é rija como uma pedra’. Depois, diria: ‘Alguém tem perguntas?’”

Nesses treinos, dois aspectos fizeram a diferença nos resultados de Katie Ledecky no Rio. Ela queria prestar atenção ao início das suas corridas e à maneira como mergulhava na piscina. Para os velocistas, esta obsessão faria sentido. Cada décimo de segundo conta em corridas que são decididas por centésimos de segundo.

No entanto, Ledecky é fundista, conhecida por terminar muito antes dos seus concorrentes. “Ela estudou um vídeo das suas partidas na esperança de ganhar um décimo de segundo”, diz o treinador. A segunda obsessão de treino de Ledecky teve que ver com a finalização dos 200 metros em estilo livre. Quando terminava uma série de voltas nos treinos, acelerava de repente no final, nos últimos 15 metros, aproximadamente, aumentando furiosamente o seu trabalho de pés.

Avancemos para os 200 metros de estilo livre no Rio. Como era a sua corrida individual mais curta, seria aquela com menores hipóteses de vitória. Ela não conseguiria afastar-se tão decisivamente numa corrida tão curta, com apenas quatro voltas na piscina. Sabia que a finalização seria o mais importante. Efectivamente, à medida que as nadadoras se aproximavam do fim da corrida nas finais dos 200 metros, a maior rival de Katie Ledecky, a sueca Sarah Sjostrom, aproximou-se depressa e ficou a par de Ledecky a 15 metros do fim. Sarah parecia prestes a ganhar.

Katie não perdeu. Naquele instante, usou todo o treino do final das suas corridas. “Quando Sarah ficou a seu lado, lembrei-me que já vira a Katie acabar esta corrida mais de mil vezes. Acreditei que seria ela a tocar primeiro na parede.” E assim foi. 

O desempenho de Katie Ledecky no Rio ficará nos livros de história. Ela e Bruce Gemmell já o tinham previsto três anos antes, quando a nadadora bateu o recorde mundial dos 800 metros livres. Reflectiram depois sobre a velocidade máxima que ela deveria atingir em 2016 nos 800 e 400 metros livres. Katie até escreveu os seus objectivos numa bóia que usava para treinar e levava consigo aos eventos desportivos em que participava, pelo mundo fora. O seu recente recorde mundial para os 800 metros livres era 8’13’’86. Objectivo fixado por Katie Ledecky? 8’05’’. Parecia uma loucura: quebrar o seu próprio recorde mundial em quase nove segundos?

Nos três anos que se seguiram, Katie foi superando o seu recorde mundial nos 800 metros livres. No início de 2016, ela já o baixara para 8’06’’68. No Rio, esmagou a concorrência e estabeleceu um novo recorde mundial: 8’04’’79. 

Por isso, naturalmente, Bruce Gemmell interrogou-se: “E se atingíssemos os oito minutos redondos? Não sabemos qual é o limite. Estabelecemos objectivos inéditos três anos antes do Rio. Quando a Katie os alcançou, lá no fundo não pude deixar de pensar: porque não ambicionámos ser ainda mais rápidos?”

Katie Ledecky e outros atletas de topo beneficiam da vantagem que a passagem do tempo trouxe ao seu desporto. Veja-se uma fotografia do nadador Mark Spitz nos Jogos Olímpicos de 1972 e repare-se nas diferenças: nem óculos, nem toucas, nem fatos de banho hidrodinâmicos. Até bigode ele tinha. Nas piscinas, não havia sistemas hidráulicos aperfeiçoados, nem os separadores destinados a reduzir a ondulação entre pistas para absorver grande parte do impacte causado pelos nadadores rivais. Tudo isto abrandava Spitz, mas não o sabíamos na altura. Mesmo assim, ele conquistou sete medalhas de ouro em 1972.

Desde então, as ciências da saúde têm desempenhado um papel importante na vida de gerações sucessivas de nadadores. Bruce Gemmell gosta de contar uma história sobre uma lesão no tornozelo sofrida por Katie Ledecky ao treinar no Centro de Treino Olímpico dos EUA no final da Primavera de 2016, poucos meses antes do Rio. 

“Duas horas depois, já dispúnhamos da opinião de dois médicos, uma ressonância, um fisioterapeuta, um treinador de força e condicionamento, um treinador de natação e mais três outras pessoas, que já tinham revisto os dados, conferenciado entre si e elaborado um plano.”

Segundo Alan Ashley, director de desempenho desportivo do Comité Olímpico Norte-Americano, o segredo para vencer barreiras de desempenho é “manter os atletas saudáveis. Se eles estiverem saudáveis, tudo bate certo.”

No final da década de 1960, a patinadora artística Audrey King Weisiger terminou em terceiro lugar na divisão norte-americana de juvenis num ano e em terceiro lugar na divisão de juniores no ano seguinte. Aprendeu a saltar alto e depressa – não por ser a maneira certa de o fazer, mas porque treinava num rinque pequeno em Falls Church, na Virgínia, com um terço do tamanho de um rinque normal. “Se eu fosse mais longe, batia na parede”, diz.

Aparecendo em cena aproximadamente na mesma altura que Dorothy Hamill, a campeã olímpica de 1976, Audrey estava rodeada de jovens mulheres que executavam saltos em pirueta (toe-loop) com duas voltas, por isso ela só fazia duas voltas nas competições, embora fizesse três com sucesso nos treinos. Ao contrário dos patinadores da actualidade, não treinava com pesos, não fazia Pilates e não se preocupava com a nutrição. “Mas fazíamos ballet”, recorda.

Avancemos até finais da década de 1980 e década seguinte. Audrey, na altura, era uma treinadora internacional de topo e ensinou o seu pupilo Michael Weiss a executar saltos em pirueta com duas e três voltas e, por fim, com quatro. Foi o primeiro norte-americano a tentar um salto com quatro voltas no campeonato nacional de 1997. Competiu depois em dois Jogos Olímpicos, venceu três títulos nacionais e conquistou duas medalhas de bronze no Campeonato do Mundo.

Ao contrário de Nathan Chen, um atleta olímpico de 2018 cujo corpo esguio e cintura minúscula o ajudam a rodar rapidamente no ar, Michael possuía um corpo musculado e, por isso, dependia da força na parte superior do corpo para se impulsionar no ar.

Audrey Weisiger gravou os saltos de Michael Weiss com aquilo que hoje seria uma câmara de vídeo vintage, pôs a cassete VHS num leitor ligado a um televisor e levou-o para o gelo num carrinho para ver a gravação com o atleta. De seguida, voltaram ao trabalho.

“Nós conseguíamos ver, mas não tínhamos como medi-lo”, recorda Audrey Weisiger com uma gargalhada. “Eu dizia: ‘Acho que é suficientemente alto’ e lá íamos nós, tentar de novo dessa forma artesanal.”

Enquanto conversa durante o jantar, Audrey Weisiger toca no seu telefone e abre uma aplicação chamada Vert. “Se lhe pusesse um cinto com um sensor e você saltasse, eu seria capaz de medir a altura do seu salto no meu telefone e isso seria o início da nossa conversa sobre treinar para concretizar saltos com quatro voltas”, diz.

A execução destes saltos difíceis pode ser perigosa. A queda no gelo duro vezes sucessivas pode causar lesões que põem fim a uma carreira. Por isso, durante décadas, os treinadores de patinagem artística prendiam o patinador a um arnês na ponta daquilo que parecia uma cana de pesca sofisticada. Em 50 anos, Audrey Weisiger evoluiu da aprendizagem de forma orgânica, procurando evitar embater contra a parede do rinque, para usar o telefone e verificar quão alto, e durante quanto tempo, um patinador saltava ao executar um salto em pirueta com quatro voltas.

Os avanços tecnológicos permitem aos treinadores ajudar os patinadores a perceberem a componente física subjacente aos saltos, mas há outros factores em jogo. “Por que razão Dorothy Hamill não executava saltos triplos?”, pergunta Audrey. “Porque não precisava. Quando as mulheres começaram a fazer três voltas, todas tiveram de os fazer. É como tudo o resto: a competição leva-nos mais longe.”

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O recordista de halterofilia CJ Cummings, de 18 anos, defendeu o seu título de campeão do mundo juvenil em 2017 e bateu o seu recorde de arremesso levantando 185 quilogramas. A compleição e a técnica distinguem-no da concorrência. Bob LeFavi, da Universidade do Sul da Geórgia, analisou a biomecânica de Cummings. Os investigadores descobriram que uma “tempestade perfeita” de atributos (força, velocidade, estrutura corporal e técnica) conjugam-se para o sucesso. Segundo LeFavi, deverá atingir o seu potencial entre os 25 e os 30 anos.

Por vezes a marcha do progresso no desporto é simplesmente o resultado do fulgor competitivo de um atleta. Ao meu olhar não treinado, um salto no Campeonato do Mundo de atletismo de 1991 no Estádio Nacional de Tóquio pareceu enorme. Eu estivera a ver os melhores saltadores em comprimento do mundo durante mais de uma hora. A execução de Michael Powell era, definitivamente, diferente. 

A tecnologia viria a confirmar aquilo que os meus olhos me diziam, mas eu já sabia. O mais lendário e aparentemente intocável recorde individual do desporto olímpico, que se mantivera incólume durante uns espectaculares 23 anos, acabara de ser batido.

O meu fascínio pelos avanços do desporto não começou naquela noite quente e húmida de Agosto, mas reforçou-se certamente nesse instante. Cinco centímetros aqui e além podem não parecer muito, mas era quase exactamente a distância entre o fabuloso salto de 8,90 metros de Bob Beamon, nos Jogos Olímpicos do México em 1968, e o salto de 8,95 metros que Powell concluiu naquela noite em Tóquio.

Todos estes anos mais tarde, aquele momento ainda me encanta. Porquê? Com tudo o que a ciência, os computadores e as grandes mentes podem fazer para ajudar os seres humanos a serem mais rápidos e mais fortes e a chegarem mais alto, o progresso que permite bater recordes ainda se deve ao trabalho de um ser humano. O desporto está actualmente repleto de cientistas, treinadores e atletas que medem o progresso com ferramentas analíticas. Naquela noite, porém, a marcha do desempenho humano tinha um rosto e um nome: Michael Powell.

Por vezes, os episódios que constroem a história do desporto não são assim tão impressionantes. Neste caso, um atleta ficou zangado com o sucesso de outro e quis vencê-lo. Contactei
recentemente Powell para lhe pedir que revivesse aquele momento. Não houver qualquer ciência em particular nessa noite, respondeu ele. 

Powell afirmou ter batido o recorde por causa de um rival: Carl Lewis, considerado por muitos o melhor saltador de todos os tempos, também estava na pista. Lewis nunca quebrou o recorde mundial, mas ajudou inadvertidamente Powell a fazê-lo. “Adoro o Carl agora, mas, na altura, odiava-o”, disse Powell. “Por isso, quando competíamos, ele fazia subir a minha energia.”

Mesmo antes de Powell executar aquele salto recordista, Lewis saltou mais longe do que alguém alguma vez saltara, vencendo Beamon por 0,63 centímetros. Mas o vento favorável era excessivo e, por isso, o salto não foi considerado válido.

Quase três décadas mais tarde, Powell não consegue tirar a imagem da sua cabeça. “Ele passou por mim a correr, levantando o punho no ar. Isso enfureceu-me. Eu sempre fora o magricela, o tipo com quem todos implicavam. E isso estava a acontecer novamente. Desta vez, porém, eu podia responder. O meu corpo assumiu o controlo e fez o que eu precisava de fazer.” O incrível salto de Powell continua a valer o recorde do mundo. “O Carl elevou a fasquia”, disse. “Eu sabia que tinha de quebrar um recorde mundial só para o vencer.”

Esta é a noção de desempenho humano que temos no recreio de uma escola e um testemunho da capacidade da mente. “Acho que ainda não aproveitamos bem o poder do cérebro”, resume Bruce Gemmell, o treinador olímpico de Katie Ledecky. “Essa será a próxima fronteira para os próximos 30 anos: treinarmos a mente como treinamos o corpo. É aí que os próximos grandes avanços vão ocorrer.” 

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