Depois de as folhas de plástico transparente serem lavadas no rio Buriganga, em Dacca, no Bangladesh, Noorjahan estende-as ao ar livre para secarem, virando-as com regularidade, ao mesmo tempo que também dá atenção ao filho, Momo. O plástico acabará por ser vendido a um reciclador. Menos de um quinto de todo o plástico é reciclado a nível mundial. 

Se o plástico tivesse sido inventado quando os peregrinos ingleses partiram do porto de Plymouth, em Inglaterra, rumo à América do Norte, e o navio Mayflower fosse abastecido com água engarrafada e refeições ligeiras embrulhadas em plástico, o plástico deitado fora ainda hoje existiria, quatro séculos mais tarde.

Texto: Laura Parker   Fotografias: Randy Olson 

Se os peregrinos tivessem feito o que muitos hoje fazem, limitando-se a deitar borda fora as garrafas vazias e o plástico dos embrulhos, as ondas do Atlântico e a luz solar teriam decomposto todo esse plástico em pedacinhos. E esses pedacinhos poderiam ainda flutuar nos oceanos de hoje, absorvendo toxinas e agregando-as às que já contêm, aguardando que algum peixe ou ostra desprevenidos os comam e, em derradeira instância, um de nós talvez os venha a ingerir. Devemos agradecer o facto de os peregrinos não terem plástico, pensei eu recentemente enquanto viajava de comboio ao longo da costa de Inglaterra até Plymouth. Ia ao encontro de um homem que me ajudaria a compreender o tremendo estrago que temos feito com o plástico, especialmente no oceano.

Como o plástico só foi inventado em finais do século XIX e a sua produção só começou por volta de 1950, temos apenas uns “escassos” 8.300 milhões de toneladas deste material para tratar. Mais de 6.300 milhões de toneladas desse total transformaram-se em resíduos. E, destes resíduos, uns impressionantes 5.700 milhões de toneladas nunca deram entrada num posto de reciclagem, uma estatística que deixou boquiabertos os cientistas que avaliaram a situação em 2017.

Ninguém sabe dizer qual a quantidade de plástico por reciclar que vai parar ao oceano. Em 2015, Jenna Jambeck, professora de engenharia na Universidade da Geórgia, atraiu as atenções globais ao apresentar uma estimativa aproximada: entre 4.800 e 12.700 milhões de toneladas de plástico chegavam ao oceano em cada ano, só nas regiões costeiras. A maior parte deste plástico não provém dos navios, mas é deitada fora em terra ou nos rios, sobretudo na Ásia. De seguida, é soprada pelo vento ou arrastada pelas águas, até ao mar. Imaginem-se 15 sacos de plástico repletos de resíduos depositados em cada metro de orla costeira em todo o mundo – o correspondente a cerca de oito milhões de toneladas que o oceano recebe de nós todos os anos, segundo esta estimativa. Não se sabe quanto tempo demorará esse plástico a biodegradar-se por completo nas suas moléculas constitutivas. Segundo as estimativas, entre 450 anos e nunca.

Entretanto, calcula-se que o plástico oceânico mate todos os anos milhões de animais marinhos. Cerca de setecentas espécies já foram afectadas. Outras são prejudicadas mais visivelmente: estranguladas por redes de pesca abandonadas ou pelos anéis de plástico das embalagens deitados fora. Devem existir danos invisíveis em muitas mais. 

Espécies marinhas de todos os tamanhos, do zooplâncton às baleias, ingerem actualmente microplásticos, os pedacinhos de dimensão inferior a cinco milímetros de largura. Na ilha Grande do Hawai, numa praia aparentemente incólume à presença humana, caminhei sobre uma camada de microplásticos que me dava pelo tornozelo. Um som estaladiço ouvia-se debaixo dos meus pés. Depois disso, consegui perceber a razão pela qual algumas pessoas consideram o plástico oceânico uma catástrofe anunciada e digna de tanta atenção como as alterações climáticas. Na cimeira global realizada em Nairobi em Dezembro de 2017, o director do Programa Ambiental da ONU referiu-se a um “Armagedão oceânico”.

Existe, contudo, uma diferença fundamental: o plástico oceânico não é tão complicado como as alterações climáticas. Pelo menos até agora, ninguém nega a existência do lixo no oceano. E, para fazermos algo, não precisamos de reestruturar completamente o nosso sistema energético.

“Isto não é um problema para o qual não conhecemos a solução”, resume o economista Ted Siegler, que passou mais de 25 anos a colaborar com países menos desenvolvidos na área do lixo. “Sabemos como fazer a recolha do lixo. Qualquer pessoa pode fazê-lo. Sabemos como eliminar o lixo, sabemos como reciclar.” Falta apenas criar as instituições e sistemas necessários, idealmente antes que o oceano se transforme, irremediavalmente, numa sopa de plástico.

Em Plymouth, sob a luz cinzenta do Outono inglês, Richard Thompson esperava-me, de gabardina amarela vestida, no exterior da Estação Marinha de Coxside, da Universidade de Plymouth, junto às docas. Em 1993, Richard preparava-se para seguir uma carreira normal como perito em ecologia marinha e imaginava um doutoramento sobre lapas e microalgas que crescem nas rochas costeiras. Nessa altura, porém, participou na sua primeira acção de limpeza de praias, na ilha de Man. Enquanto os restantes voluntários se preocupavam com as garrafas, sacos e redes de plástico, Thompson centrou-se nos materiais pequenos, as partículas minúsculas que ficam debaixo dos pés, ignoradas, na linha marcada pela maré cheia. A princípio não tinha a certeza de que fosse plástico. Teve de consultar químicos forenses para confirmar.

Nessa época, havia um autêntico mistério por desvendar, pelo menos nos círculos académicos: os cientistas interrogavam-se por que razão não existia ainda mais plástico no mar. Com a produção mundial a aumentar exponencialmente (de 2,1 milhões de toneladas em 1950 para 147 milhões em 1993 e 407 milhões em 2015), o crescimento da quantidade de plástico à deriva no oceano e a dar à costa não parecia processar-se a um ritmo tão acelerado. “Questionava-me sobre o seu paradeiro”, lembra Richard. “Não conseguimos determinar os prejuízos causados ao ambiente se não soubermos onde ele está.” 

Dezoito por cento do plástico é actualmente reciclado a nível mundial, comparado com quase zero em 1980. As garrafas de plástico são um dos produtos mais reciclados no globo. Mas há outros artigos mais difíceis de reciclar, como as palhinhas. Por norma, são descartados.

Nos anos entretanto decorridos desde a sua primeira limpeza de praia, Richard tem ajudado a fornecer os primeiros elementos para uma resposta: o plástico desaparecido está a decompor-se em pedaços tão pequenos que dificilmente se podem ver. Num artigo publicado em 2004, ele cunhou o termo “microplásticos” para definir estes pedacinhos, prevendo que eles teriam “potencial para acumulação em grande escala” no oceano. 

Quando travámos conhecimento em Plymouth, no Outono passado, Richard e dois dos seus alunos tinham acabado de finalizar um estudo provando que os factores de decomposição do plástico não eram apenas a ondulação e a luz solar. Em ensaios laboratoriais, observaram que anfípodes (minúsculos crustáceos semelhantes a camarões, comuns nas águas costeiras da Europa) devoram pedaços de sacos de plástico. Na verdade, desfazem um único saco em 1,75 milhões de fragmentos microscópicos. Estas criaturinhas mascam o plástico de maneira particularmente rápida, descobriu a equipa de Richard Thompson, quando o mesmo se encontra revestido com o limo microbiano que constitui a sua alimentação habitual. No fim, cospem, ou acabam por excretar, os pedaços de plástico.  

 

Garrafas de plástico atulham por completo a fonte de Cibeles, diante da Câmara Municipal de Madrid. No Outono passado, uma exposição de arte colectiva intitulada Luzinterruptus encheu esta e mais duas fontes de Madrid com 60 mil garrafas usadas, chamando a atenção para o impacte ambiental do plástico eliminável. 

Os microplásticos têm sido encontrados em todos os lugares do oceano onde as pessoas os têm procurado, desde os sedimentos nas maiores profundidades do leito marinho ao gelo que flutua no Árctico. Em algumas praias da ilha Grande do Hawai, cerca de 15% da areia contém efectivamente grãos de microplástico. A praia de Kamilo Point, aquela que percorri a pé, recebe o plástico do Giro do Pacífico Norte, o mais sujo dos cinco sistemas de correntes circulares que transportam o lixo pelas bacias oceânicas e o concentram em grandes áreas. Em Kamilo Point, a praia está juncada de cestos de lavandaria, garrafas e contentores com rótulos em chinês, japonês, coreano, inglês e, ocasionalmente, russo.

Enquanto eu e Richard Thompson conversávamos sobre tudo isto, um pequeno barco de pesca chamado Dolphin transportava-nos através do mar ligeiramente encapelado na baía de Sound, ao largo de Plymouth. Thompson lançou uma rede de arrasto de malha fina, destinada à recolha de amostras à superfície para estudo do plâncton. Estávamos perto daquele lugar onde, poucos anos antes, outros investigadores tinham capturado 504 peixes de dez espécies diferentes, dando-os depois a Richard. Quando este dissecou os peixes, ficou surpreendido ao descobrir microplásticos no intestino de mais de um terço.

Depois de navegarmos durante um bocado, Richard puxou de volta a rede de recolha de amostras. No fundo, via-se uma amálgama de pedacinhos de plástico colorido. O investigador não se mostra muito preocupado com a presença de microplásticos no seu peixe com batatas fritas: ainda existem poucas provas de que eles passem do intestino de um peixe para a sua carne, por nós ingerida. Richard preocupa-se mais com as circunstâncias que nenhum de nós consegue ver – as substâncias químicas adicionadas aos plásticos para lhes conferir as propriedades desejáveis (como a maleabilidade) e, até, os ainda mais minúsculos nanoplásticos em que, supostamente, os microplásticos se decompõem. Esses poderão passar para os tecidos dos peixes e dos seres humanos.

“Sabemos que, nalguns casos, as concentrações das substâncias químicas no momento do fabrico são muito elevadas”, afirmou Richard. “Não sabemos, contudo, a quantidade de aditivo que ainda permanece no plástico no momento em que este atinge a dimensão suficientemente pequena para ser comido por um peixe.

“Ninguém encontrou nanopartículas no ambiente. Elas encontram-se abaixo do nível de detecção permitido pelo equipamento de análise. As pessoas pensam que elas andam por aí. Podem potencialmente ficar retidas nos tecidos e isso talvez venha a alterar por completo as nossas vidas.”

Os plásticos são polímeros, moléculas de cadeia longa, constituídas por elos repetidos, ou monómeros. As cadeias são fortes, leves e duráveis, o que lhes confere tanta utilidade e as torna tão problemáticas quando são descartadas com descuido. O polímero aqui apresentado é o PET, um tipo de poliéster, o material de que são feitas as garrafas e a roupa.

Richard está convencido de que a existência de resíduos plásticos no oceano é muito mais do que um problema estético. “Penso que não devemos esperar por uma conclusão definitiva que permita determinar se é perigoso comer peixe”, afirmou. “Temos provas suficientes para tomar medidas.”  

Como chegámos a esta situação? Quando surgiu pela primeira vez o lado negro do milagre do plástico? 

Eis uma pergunta que pode ser feita acerca de muitas das maravilhas do nosso mundo tecnológico. Desde que ajudaram os Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, os plásticos transformaram as nossas vidas como poucas outras invenções. Facilitaram as viagens espaciais e revolucionaram a medicina. Aligeiram o peso de todos os automóveis e aviões de grande porte, poupando combustível e reduzindo a poluição. Sob a forma de invólucros aderentes, leves como o ar, permitem prolongar o prazo dos alimentos frescos. Através dos airbags, das incubadoras, dos capacetes, ou simplesmente ao permitirem a disponibilização de água potável aos pobres nas agora demonizadas garrafas descartáveis, os plásticos salvam vidas todos os dias.

Numa das suas primeiras aplicações, salvaram os animais selvagens. Em meados do século XIX, teclas de piano, bolas de bilhar, pentes e toda a sorte de bugigangas eram feitas numa matéria-prima natural escassa: o marfim dos elefantes. Com a população de elefantes em risco e o marfim a tornar-se dispendioso e raro, uma empresa de Nova Iorque ofereceu uma recompensa de dez mil dólares a quem apresentasse uma alternativa. 

De acordo com a história contada por Susan Freinkel no seu livro intitulado “Plastic: A Toxic Love Story” [sem tradução portuguesa], um inventor amador chamado John Wesley Hyatt aceitou o desafio. O seu novo material, a celulóide, era feito de celulose, o polímero existente em todas as plantas. A empresa de Hyatt gabou-se de que iria eliminar a necessidade de “pilhar a Terra em busca de substâncias que se vão tornando cada mais raras”. Além de, pelo menos, salvar a vida a alguns elefantes, a celulóide também contribuiu para transformar o bilhar, até então um passatempo exclusivamente aristocrático, num divertimento disponibilizado nos bares à classe trabalhadora.

Este é um exemplo banal de uma revolução profunda desencadeada pelo plástico. A revolução acelerou-se no início do século XX, assim que o plástico começou a ser fabricado a partir do mesmo material que nos proporcionava energia abundante e barata: o petróleo. As companhias petrolíferas tinham gases residuais, como o etileno, a sair das chaminés das suas refinarias. Os químicos descobriram que podiam utilizar esses gases como elementos de base, ou monómeros, para construírem polímeros inovadores em vez de aproveitarem apenas os polímeros já existentes. Abria-se assim um mundo de possibilidades. Qualquer objecto podia ser fabricado a partir do plástico e assim aconteceu.

A produção de plástico tem aumentado a um ritmo estonteante: praticamente metade do plástico até hoje fabricado foi feito nos últimos 15 anos. 

Seis décadas mais tarde, cerca de 40% dos mais de 406 milhões de toneladas de plástico produzidas todos os anos são eliminadas, grande parte das quais utilizadas como embalagens que podem ser eliminadas poucos minutos depois da compra. A produção tem crescido a um ritmo tão alucinante que praticamente metade do plástico produzido até hoje foi fabricado nos últimos 15 anos. No ano passado, a empresa Coca-Cola, talvez o maior produtor de garrafas de plástico do mundo, reconheceu pela primeira vez o número de garrafas que fabrica: 128 mil milhões por ano. 

O crescimento da produção de plástico ultrapassou a capacidade de gestão de resíduos para acompanhar o ritmo e é por essa razão que os oceanos se encontram sob ataque. “Não admira que tenhamos destruído o sistema”, afirma Jenna Jambeck. “Um aumento deste tipo destruiria qualquer sistema não preparado.” Em 2013, um grupo de cientistas publicou uma avaliação do estilo de vida descartável. Escrevendo na revista “Nature”, declararam que o plástico descartável deveria ser classificado como material perigoso. 

Nos últimos anos, o surto de produção foi em grande medida alimentado pela utilização generalizada das embalagens de plástico descartáveis nas economias asiáticas em expansão, países nos quais os sistemas de recolha de lixo poderão ser subdesenvolvidos ou inexistentes. Em 2010, segundo a estimativa de Jenna, metade dos resíduos mundiais de plástico não tratados tinham sido gerados por apenas cinco países asiáticos: China, Indonésia, Filipinas, Vietname e Sri Lanka. 

“Digamos que recicla 100% de tudo na América do Norte e na Europa”, comenta o engenheiro químico Ramani Narayan. “Mesmo assim, não afectaria a quantidade de plástico que chega aos oceanos. Se quisermos fazer algo a este respeito, temos de ir a esses países e lidar com os resíduos não tratados.”

Antigamente o rio Pasig corria majestosamente pela baixa de Manila, a capital das Filipinas, desaguando na baía local. Hoje figura na lista dos dez rios do mundo que mais resíduos de plástico transportam para o mar. Todos os anos fluem para o mar 63.500 toneladas, sobretudo durante a monção. Em 1990, o Pasig foi declarado biologicamente morto.

A Comissão para a Reabilitação do Rio, fundada em 1999, esforça-se por despoluir o rio, com alguns sinais de sucesso. Jose Antonio Goitia, director executivo da comissão, mostra--se optimista quanto à possibilidade de o Pasig ser recuperado um dia, embora reconheça que não existe uma solução fácil. “Talvez a melhor solução seja proibir o uso de sacos de plástico”, comenta.

Os restantes desafios são visíveis todos os dias. O rio é alimentado por 51 afluentes, alguns dos quais sobrecarregados de resíduos de plástico provenientes dos bairros de lata que se equilibram precariamente sobre as margens dos ribeiros. Um afluente perto do Bairro Chinês, com barracas vacilantes entaladas entre edifícios modernos, encontra-se de tal maneira entupido com detritos de plástico que pode ser atravessado a pé, sem recurso à ponte pedonal. As praias da baía de Manila apresentam-se hoje juncadas de lixo, em grande parte de plástico. No Outono passado, a aliança Break Free from Plastic, da qual fazem parte o Greenpeace e outros grupos, limpou uma praia na ilha Freedom, publicitada como zona turística: os voluntários recolheram 54.260 artigos de plástico, desde sapatos a embalagens de alimentos. Quando a visitei, poucas semanas mais tarde, a praia estava de novo cheia de garrafas, invólucros e sacos de compras.

 

Para navegarem nas correntes, os cavalos- -marinhos agarram-se a algas ou outros detritos naturais à deriva. Nas águas poluídas ao largo da ilha indonésia de Sumbawa, este cavalo-marinho agarrou-se a uma cotonete de plástico, “uma fotografia que não deveria existir”, diz o fotógrafo Justin Hofman. 

A situação em Manila é típica dos grandes centros urbanos superlotados de toda a Ásia. As Filipinas são um país densamente povoado, com 105 milhões de habitantes, que ainda tem de fazer frente aos problemas mais básicos de saúde pública – por exemplo, doenças transmitidas através da água, entre as quais a febre tifóide e a diarreia bacteriana. Não admira que tenha dificuldades em gerir o crescimento explosivo dos resíduos de plástico. Em Manila, existe um sistema de recolha de lixo gerido por 17 autoridades governamentais diferentes. Em 2004, já não havia na região solo suficiente para eliminar o lixo em segurança. 

A falta de espaço para aterros mantém-se. 

Uma pequena parte desta insuficiência é suprida pela indústria de reciclagem informal de Manila, que integra milhares de recolectores de resíduos. Armando Siena, de 34 anos, é um deles. Juntamente com a mulher, Angie, viveram a vida inteira rodeados por lixo. Nasceram na Montanha Fumegante (Smokey Mountain), uma lixeira internacionalmente famosa encerrada na década de 1990. Hoje em dia, vivem com os três filhos perto da zona ribeirinha de Manila, numa casa com uma só divisão, alumiada com uma só lâmpada incandescente, mobilada com duas cadeiras de plástico e desprovida de canalização, camas ou equipamento de refrigeração. A casa localiza-se num bairro de lata atulhado de lixo, chamado Aroma, perto de outro bairro de lata chamado Bairro da Felicidade (Happyland).

Dia após dia, Armando Siena parte com a sua bicicleta desconjuntada e sai dos limites de Aroma, vasculhando as ruas em busca de resíduos recicláveis que consiga carregar no atrelado. Os contentores de plástico para sopa são achados de grande valor, valendo 20 pesos por quilograma. Armando faz a triagem da sua carga e vende-a a uma loja de lixo pertencente ao tio que, por sua vez, transporta os resíduos de camião até às unidades de reciclagem nos arredores de Manila. 

Têm sido encontrados resíduos de plástico em todos os oceanos, desde o Árctico ao Antárctico, da superfície ao fundo do mar. Milhões de toneladas entram nos mares todos os anos, grande parte das quais provenientes de lugares onde foram despejadas descuidadamente em terra, ou para dentro dos rios, afluindo de seguida aos mares. As correntes oceânicas transportam os detritos flutuantes até aos recantos mais longínquos do planeta.

Os recolectores de resíduos, como Armando, fazem parte da solução: precisam apenas de uma remuneração que sustente a operação. No bairro de lata de Baseco, uma minúscula loja de reciclagem, gerida pelo Banco do Plástico de Vancouver, na Colúmbia Britânica, paga um preço alto pelas garrafas e plástico duro apanhados pelos recolectores de resíduos. De seguida, vende esse plástico às multinacionais, que vendem os seus produtos reciclados como socialmente responsáveis.

Ted Siegler, o economista do Vermont, já trabalhou em muitos países e em esquemas suficientes para se sentir céptico em relação a estas iniciativas. “Não há valor suficiente no plástico para que resultem”, afirma. “É mais barato financiar um sistema de gestão de resíduos sólidos do que subsidiar a recolha de plástico.” 

Os resíduos que atulham as praias e ribeiros de Manila reforçam este ponto de vista. A maior parte do lixo são saquetas, embalagens de abertura fácil que contiveram uma dose única de champô, pasta de dentes, café, condimentos ou outros produtos. São vendidos aos milhões a pessoas pobres como Siena e os seus familiares, que não têm dinheiro para comprar mais do que uma saqueta de cada vez. Depois, esvoaçam por Manila como folhas. Não são recicláveis e, por isso, nenhum recolector de resíduos as apanha. Crispian Lao, membro da Comissão Nacional para os Resíduos Sólidos, afirma: “Este segmento do embalamento está a crescer e tem-se tornado um verdadeiro desafio para a gestão de resíduos sólidos.” 

Depois de o voo 370 da Malaysia Airlines ter desaparecido dos radares em Março de 2014, enquanto viajava de Kuala Lumpur para Pequim, as buscas foram alargadas da Indonésia à região austral do oceano Índico. O público manteve-se preso à narrativa durante semanas. Não apareceram vestígios dos destroços. Em diversas ocasiões, quando as imagens de satélite mostravam aglomerados de objectos a flutuar à superfície do mar, cresciam as expectativas quanto a poderem ser partes da aeronave. Mas não. Era tudo lixo: partes de contentores de transporte naval, equipamento de pesca abandonado e, evidentemente, sacos de plástico. 

A cientista Kathleen Dohan, presidente da organização Earth and Space Research, sediada em Seattle, viu uma boa oportunidade neste horror. As imagens do espaço estavam a dar destaque visual a um problema negligenciado. “Era a primeira vez que o mundo inteiro assistia”, disse-me ela nessa época. “Foi uma boa altura para as pessoas compreenderem que os nossos oceanos estão transformados em lixeiras.” Kathleen pressentiu que havia um ponto de viragem na opinião pública e, desde então, os acontecimentos parecem indicar que talvez tivesse razão. 

O aspecto mais animador do problema dos resíduos de plástico é a recente explosão da atenção que lhe tem sido dada e, até, dos esforços sérios para resolvê-lo. Ao elaborarmos uma lista parcial de boas notícias recebidas desde 2014, elas seriam, sem ordem de importância especial: o Quénia juntou-se a uma lista de países que proibiram o uso de sacos de plástico, impondo multas e tempo de prisão aos infractores. A França proibirá o uso de pratos e taças de plástico em 2020. Proibições do uso de microesferas na indústria cosmética (são esfoliantes) entram em vigor este ano nos EUA, Canadá, Reino Unido e quatro outros países. A indústria está a abandoná-las.

As empresas estão a dar resposta à opinião pública. A Coca-Cola anunciou como objectivo “a recolha e reciclagem do equivalente a” 100% das suas embalagens em 2030. Juntamente com outras multinacionais, entre elas a PepsiCo, a Amcor e a Unilever, prometeu tornar 100% das suas embalagens reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis até 2025. E a Johnson & Johnson vai deixar o plástico e voltar a usar o papel nos seus cotonetes.

Todas estas medidas dão uma ajuda, a certo nível, até mesmo as limpezas de praia, por fúteis que por vezes possam parecer. Foi uma limpeza de praia que vinculou Richard Thompson ao problema do plástico, há um quarto de século. Mas a verdadeira solução, pensa ele agora, consiste em impedir que o plástico entre sequer no oceano, em primeiro lugar e, de seguida, repensar toda a abordagem a essa substância incrível. “Fizemos muito para nos assegurarmos de que o plástico cumpra as suas funções, mas pouco trabalho foi dedicado a averiguar o que acontece ao produto no final do seu tempo de vida”, afirma. “Não digo que o plástico seja o inimigo, mas a indústria pode fazer muito para ajudar a resolver o problema.”

O primeiro plástico fabricado a partir de combustíveis fósseis tem pouco mais de um século de idade. Este material tornou-se omnipresente a partir da Segunda Guerra Mundial e, hoje, encontra-se em toda a parte. O seu tempo de vida útil é variável. Uma vez descartado, decompõe-se em fragmentos de menor dimensão que duram vários séculos.

Se quiser, ou a isso for obrigada, a indústria pode agir de duas maneiras. Em primeiro lugar, pode associar-se a cientistas universitários, como Jenna Jambeck, e conceber novos plásticos, ou novos produtos de plástico, que sejam ou biodegradáveis ou mais recicláveis. Materiais novos e mais reciclagem evitam usos desnecessários do material e são soluções de longo prazo para o problema dos resíduos de plástico. Mas, segundo Ted Siegler, o método mais rápido para obter resultados concretos, em grande escala, é a tecnologia simples: mais camiões de recolha de lixo e mais aterros sanitários.

“Todos querem uma resposta fácil”, diz.
“A verdade, porém, é que precisamos apenas de recolher o lixo. Na maioria dos países onde eu trabalho, nem sequer se consegue tirá-lo das ruas. Precisamos de camiões de recolha e de ajudar a institucionalizar o facto de ser preciso recolher estes resíduos com regularidade e depositá-los em aterros sanitários, reciclá-los ou incinerá-los para não se espalharem por toda a parte.”

Eis a segunda maneira de a indústria ajudar: pagando a sua justa parte. Ted Siegler propôs a cobrança de um imposto mundial de 1,6 cêntimos por cada quilograma de resina de plástico fabricado. Esse imposto permitiria angariar aproximadamente cinco mil milhões de euros por ano, potencialmente utilizáveis no financiamento de sistemas de recolha de lixo nos países menos desenvolvidos. A ideia nunca vingou. No Outono de 2017, contudo, um grupo de cientistas fez reviver o conceito de um fundo mundial. O grupo apelou para um acordo internacional, cujo padrão se baseasse no acordo climático de Paris. 

Na conferência de Nairobi, em Dezembro passado, 193 países aprovaram esse acordo. A campanha Mares Limpos, da ONU, não lança qualquer imposto sobre o plástico. Não é vinculativa e dispõe de escassa capacidade de intervenção. Na verdade, é apenas uma declaração de boas intenções: a intenção de pôr termo à poluição do oceano com plástico. Nesse sentido, parece-se menos com o Acordo de Paris do que com o Tratado do Rio de Janeiro, no âmbito do qual o planeta se comprometeu a combater as perigosas alterações climáticas. Como referiu o ministro do Ambiente da Noruega, Vidar Helgesen, este novo acordo parece um vigoroso primeiro passo. 

 

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