Segundo a ciência, ela não tem qualquer fundamento genético nem científico. Trata-se de um conceito inventado que serve para nos definir e nos separar.

Texto: Elizabeth Kolbert

Os perfis de DNA destes dois são quase 99% idênticos. Os genes de dois seres humanos são, evidentemente, ainda mais parecidos. Porém, quando os nossos antepassados pré-humanos perderam a pilosidade corporal, desenvolveram diferenças mais visíveis na cor da pele: os responsáveis por isso são especificidades minúsculas do nosso DNA. A pigmentação escura poderá ter ajudado a lidar com o sol intenso de África. Quando os seres humanos saíram do continente africano para regiões com escassa luz solar, a pele mais clara tornou-se vantajosa.

Na primeira metade do século XIX, o médico Samuel Morton era um dos mais proeminentes cientistas norte-americanos. Vivia em Filadélfia e coleccionava esqueletos. Não se mostrava muito exigente quanto à escolha dos fornecedores. Aceitava esqueletos recolhidos em campos de batalha ou roubados de catacumbas. Um dos seus crânios mais famosos pertencera a um criminoso irlandês – condenado e enviado para a Tasmânia. Morton realizava a mesma operação em cada crânio: enchia-o de grãos de pimenta, que posteriormente decantava para determinar o volume da caixa craniana.

Na opinião de Morton, as pessoas podiam ser divididas em cinco raças, que representavam actos separados de criação. As raças tinham personalidades diferentes, que correspondiam à sua posição numa hierarquia divinamente determinada. A “craniometria” de Morton deduzia que os brancos ou “caucásicos” eram a mais inteligente das raças. Um degrau abaixo, embora “engenhosos” e “susceptíveis de serem educados”, encontravam-se os nativos da Ásia Oriental. Seguiam-se os indivíduos do Sudeste Asiático e depois os nativo-americanos. Os negros, ou “etíopes”, estavam no fim da lista. À data da guerra civil norte-americana, as ideias de Morton foram rapidamente adoptadas pelos defensores da escravatura.

Os crânios da colecção de Samuel Morton, pai do racismo científico, ilustram a sua classificação das pessoas em cinco raças que, segundo ele, surgiram em actos separados de criação. Da esquerda para a direita, uma mulher negra e um homem branco, ambos norte-americanos; um homem nativo do México; uma mulher chinesa; e um homem malaio.

“Teve muita influência, sobretudo no Sul”, comenta Paul Wolff Mitchell, antropólogo da Universidade da Pensilvânia enquanto me mostra a colecção de crânios. Estamos diante da caixa craniana de um holandês com a cabeça particularmente grande, que contribuiu para inflacionar a estimativa de Morton relativamente às capacidades “caucásicas”. Quando Morton morreu, em 1851, o “Charleston Medical Journal”, da Carolina do Sul, elogiou-o por “atribuir aos pretos a sua verdadeira posição como raça inferior”.

Actualmente, Morton é conhecido como o pai do racismo científico. Uma visita a esta colecção é uma experiência perturbante, tantos são os horrores dos séculos mais recentes que podem remontar à ideia de uma raça ser inferior a outra. Em certa medida, ainda vivemos com o legado de Morton: as distinções raciais ainda moldam a nossa política, os nossos bairros e a nossa noção de identidade.

E isto continua a acontecer, embora aquilo que a ciência efectivamente tem para nos contar sobre a raça seja exactamente o contrário do que Morton defendia.

Morton convenceu-se de que identificara diferenças imutáveis e hereditárias entre as pessoas, mas na altura em que ele desenvolveu o seu trabalho – pouco antes de Charles Darwin apresentar a sua teoria da evolução e muito antes da descoberta do DNA – os cientistas não faziam a menor ideia de como as características eram transmitidas. Os especialistas em genética, entretanto, afirmam agora que toda a categoria de raça está errada. Quando os cientistas reconstituíram o primeiro genoma humano completo – tarefa realizada graças a uma composição do DNA de vários indivíduos –, recolheram deliberadamente amostras de indivíduos que se auto-identificaram como pertencendo a raças diferentes.

Em Junho de 2000, quando os resultados foram anunciados, Craig Venter, pioneiro do sequenciamento de DNA, concluiu: “O conceito de raça não tem fundamento genético ou científico.”

Nas últimas décadas, a investigação genética revelou duas verdades profundas sobre os seres humanos. Em primeiro lugar, todos os seres humanos são parentes próximos. Mais próximos até do que todos os chimpanzés. Todos partilham a mesma colecção de genes, mas, à excepção dos gémeos idênticos, todos têm versões ligeiramente diferentes de alguns deles. Estudos desta diversidade genética permitiram aos cientistas reconstruir uma espécie de árvore genealógica das populações humanas. E esta revelou a segunda verdade profunda: de uma forma muito concreta, todas as pessoas hoje vivas são africanas.

 

Os Neandertais ainda estão presentes na maioria de nós. Em Düsseldorf, uma escultura do vizinho Museu Neandertal atrai olhares de curiosidade dos transeuntes. Alguns dos primeiros humanos a deixar África encontraram-se com os Neandertais e acasalaram com eles. Como resultado, todos os não-africanos da actualidade possuem uma pequena quantidade de DNA Neandertal. Esses genes podem melhorar os sistemas imunitários e níveis de vitamina D, mas também aumentam o risco de esquizofrenia e o excesso de gordura abdominal. 

A nossa espécie, o Homo sapiens, evoluiu em África – ninguém sabe ao certo quando ou onde. A mais recente descoberta fóssil, em Marrocos, sugere que as características humanas anatomicamente modernas começaram a surgir há um máximo de trezentos mil anos. Durante os duzentos mil anos seguintes, aproximadamente, permanecemos em África, mas já nessa altura alguns grupos começaram a mudar-se para áreas diferentes do continente e isolaram-se das outras, criando, efectivamente, novas populações.

Nos seres humanos, como em todas as espécies, as alterações genéticas resultam de mutações aleatórias – especificidades minúsculas no DNA, o código da vida. As mutações ocorrem a um ritmo mais ou menos constante: por conseguinte, quanto mais tempo determinado grupo persistir, mais especificidades esses genes acumularão. Por outro lado, por quanto mais tempo dois grupos estiverem separados, mais especificidades diferentes irão adquirir.

Analisando os genes dos africanos contemporâneos, os investigadores concluíram que os khoe-san, que vivem actualmente na África Austral, representam um dos ramos mais antigos da árvore genealógica humana. Os pigmeus da África Central também têm um longo historial como grupo distinto. As divergências mais acentuadas na família humana não ocorrem entre aquilo que o vulgo geralmente considera raças diferentes, mas entre populações africanas como os khoe-san e os pigmeus, que passaram dezenas de milhares de anos separados, mesmo antes de os seres humanos saírem de África.

Todos os não-africanos de hoje, segundo a genética, descendem de poucos milhares de seres humanos que saíram de África há possivelmente 60 mil anos. Estes migrantes eram parentes mais próximos dos grupos que vivem actualmente na África Oriental, incluindo os hadza da Tanzânia. Uma vez que representavam apenas um pequeno subconjunto da população africana, os migrantes levaram consigo apenas uma fracção da sua diversidade genética.

Algures pelo caminho, talvez no Próximo Oriente, os viajantes encontraram e acasalaram com outra espécie humana, os Neandertais. Mais a oriente, terão encontrado outros, os Denisovanos. Crê-se que ambas as espécies evoluíram na Eurásia a partir de um hominídeo que migrara de África muito antes. Alguns cientistas também pensam que o êxodo de há 60 mil anos foi, na verdade, a segunda vaga de seres humanos modernos a deixar África. Neste caso, e a avaliar pelos nossos genomas actuais, a segunda vaga superou a primeira.

A descendência destes migrantes dispersou-se pelo mundo. Há 50 mil anos tinham chegado à Austrália. Há 45 mil anos estavam instalados na Sibéria e há cerca de 15 mil anos alcançaram a América do Sul. Enquanto se deslocavam para diferentes partes do mundo, formavam novos grupos que se tornaram geograficamente isolados uns dos outros e adquiriram o seu próprio conjunto distintivo de mutações genéticas.

A maior parte dessas especificidades não era útil, nem nociva. De vez em quando, porém, ocorria uma mutação que se revelava vantajosa num novo cenário. Sob pressão da selecção natural, disseminava-se rapidamente pela população local. A grande altitude, por exemplo, os níveis de oxigénio são reduzidos. Por isso, para as pessoas que se mudaram para as Terras Altas etíopes, o Tibete, ou o Altiplano andino, havia vantagem em possuir mutações que as ajudassem a lidar com a atmosfera rarefeita. Do mesmo modo, os inuit, que adoptaram um regime alimentar à base de animais marinhos, com elevados teores de ácidos gordos, possuem especificidades genéticas que os ajudaram a adaptar-se a essa dieta.

Por vezes, torna-se evidente que a selecção natural favoreceu determinada mutação, mas não se percebe ao certo porquê. É o caso da variante de um gene chamado EDAR. A maioria das pessoas com ascendência da Ásia Oriental ou nativo-americana possui pelo menos uma cópia da variante, conhecida como 370A, e muitas possuem duas. No entanto, esta é rara entre as pessoas com ascendência africana e europeia.

Na Faculdade Perelman de Medicina da Universidade da Pensilvânia, a especialista em genética Yana Kamberov introduziu em ratinhos a variante da Ásia Oriental do EDAR na esperança de compreender a sua finalidade. Estes ratinhos são diferentes, de maneiras subtis mas significativas, dos seus primos: os seus pêlos são mais grossos; as suas glândulas sudoríparas são mais numerosas e o revestimento de gordura em redor das glândulas mamárias é mais pequeno.

Estes ratinhos podem ajudar a explicar a razão pela qual alguns indivíduos da Ásia Oriental e nativos-americanos têm cabelo mais grosso e mais glândulas sudoríparas. Contudo, não nos dão uma razão evolutiva. Talvez, especula Kamberov, os antepassados dos indivíduos da Ásia Oriental contemporâneos tenham a dada altura encontrado condições climáticas que tornaram útil um maior número de glândulas sudoríparas. Ou talvez o cabelo mais grosso os ajudasse a evitar parasitas. Ou talvez o 370A produzisse outras vantagens que ela ainda nem descobriu e as alterações agora identificadas sejam, na verdade, meros efeitos secundários.

A genética funciona frequentemente desta forma: uma especificidade minúscula pode ter vários efeitos díspares. Apenas uma poderá ser útil e poderá sobreviver às condições que a criaram, da mesma forma que as famílias dão fotografias antigas aos mais novos muito depois de alguém ainda se lembrar de quem eram aquelas pessoas.

“Sem uma máquina do tempo, não vamos saber”, suspira Kamberov.

O DNA é frequentemente comparado a um texto, no qual as letras representam bases químicas – A para adenina, C para citosina, G para guanina e T para timina. O genoma humano é formado por três mil milhões de pares-base divididos em vinte mil genes. A especificidade que dá cabelo mais grosso aos indivíduos da Ásia Oriental é uma única alteração-base num único gene, de T para C.

 

Do mesmo modo, a mutação maioritariamente responsável pela pele mais clara dos europeus é uma única especificidade num gene conhecido como SLC24A5, que consiste em aproximadamente 20.000 pares-base. Numa posição, onde a maioria dos africanos subsaarianos possuem um G, os europeus têm um A. Há cerca de uma década, um especialista em genética chamado Keith Cheng descobriu a mutação ao estudar peixes-zebra que tinham sido criados para terem riscas mais claras. O peixe revelou uma mutação num gene de pigmentação, análoga à mutação dos europeus.

As quatro letras do código genético (A, C, G e T) encontram-se projectadas sobre o ugandês Ryan Lingarmillar. O DNA revela aquilo que a cor da pele oculta: todos possuímos antepassados africanos.

Estudando o DNA extraído de ossos antigos, os especialistas descobriram que a substituição G-por-A foi introduzida na Europa Ocidental há pouco tempo (cerca de oito mil anos) por migrantes provenientes do Médio Oriente, que também trouxeram uma tecnologia recente: a agricultura. Isso significa que as pessoas que já se encontravam na Europa eram provavelmente castanhas e não brancas. O DNA antigo sugere que muitos desses europeus de pele escura também tinham olhos azuis, uma combinação raramente vista actualmente.

“A genética revela que essa mistura e deslocação aconteceu uma vez após outra e que as nossas percepções de ‘estruturas raciais’ do passado estão quase sempre erradas”, afirma David Reich, da Universidade de Harvard. Não há características fixas associadas a localizações geográficas específicas porque o isolamento criou frequentemente diferenças entre as populações, mas as migrações e as misturas esbateram-nas ou apagaram-nas com a mesma frequência.

Na actualidade, a cor da pele é variável em todo o mundo. Muitas diferenças correlacionam--se com a latitude. Perto do equador, a enorme quantidade de luz solar transforma a pele escura num escudo útil contra a radiação ultravioleta. Mais perto dos pólos, porém, onde o problema é a falta de sol, uma pele mais pálida promove a produção de vitamina D. Vários genes trabalham em conjunto para determinar o tom da pele e grupos distintos podem possuir números variáveis de combinações de diferentes especificidades. Cheng tem estado a usar peixes-zebra para tentar perceber o motivo. “Não é simples”, diz ele.

Quando falam sobre raça, em geral, os seres humanos parecem referir-se à cor da pele e, simultaneamente, a algo mais do que isso. Este é o legado de pessoas como Morton, que desenvolveram a “ciência” da raça para satisfazer os seus próprios preconceitos. A ciência actual assegura que as diferenças visíveis entre as pessoas são acidentes da história. Reflectem a maneira como os nossos antepassados lidaram com a exposição ao sol e pouco mais. “Temos frequentemente esta noção de que se eu souber a sua cor de pele, sei X, Y e Z sobre si”, diz Heather Norton, investigadora da Universidade de Cincinnati que estuda pigmentação. “Por isso, acho que pode ser eficaz explicar às pessoas que estas mudanças que vemos devem-se apenas ao facto de eu ter um A no meu genoma e ela ter um G.”

Na Universidade West Chester, Anita Foeman é responsável pelo Projecto de Discussão do DNA. Numa manhã luminosa de Outono, ela dirige-se a uma dezena de alunos de diferentes tonalidades, cada um dos quais olhando para o ecrã de um computador portátil. Semanas antes, os alunos preencheram questionários sobre a sua ascendência. Quais achavam ser os seus antecedentes? Os alunos forneceram amostras de saliva para testes genéticos. Agora, através dos seus computadores, estão a receber os resultados.

Uma jovem mulher, cuja família viveu na Índia desde que todos se lembram, fica chocada por descobrir que parte da sua ascendência é irlandesa. Outra jovem, que cresceu convencida de que um dos seus avós era nativo-americana, fica desiludida por descobrir que isso não é verdade. Uma terceira diz estar “confusa”: “Estava à espera de ter raízes mais fortes no Médio Oriente.”

Investigadora na área da comunicação, Anita iniciou o Projecto de Discussão do DNA em 2006 devido ao seu interesse pelas histórias que os seres humanos contam e por aquelas que os genes contam. Com frequência, as duas não coincidem. Um jovem que se identificava como birracial ficou furioso por descobrir que os seus antecedentes eram, na verdade, quase inteiramente europeus. Vários alunos criados por famílias cristãs ficaram surpreendidos por descobrirem que alguns dos seus antepassados eram judeus.

“Todas estas histórias, que tinham sido suprimidas, saltaram à vista graças à genética”, diz Anita Foeman. Até a investigadora, que se identifica como afro-americana, foi apanhada de surpresa pelos resultados, que revelaram que alguns dos seus antepassados eram do Gana, outros da Escandinávia. “Acho que tenho a pele bastante castanha. Fiquei surpreendida por um quarto dos meus antecedentes serem europeus. A raça é mesmo uma invenção nossa”, diz.

Como é óbvio, o simples facto de a raça ser “inventada” não a torna menos importante. De uma forma perturbante, a raça ainda determina a percepção das pessoas, as suas oportunidades e as suas experiências. Está enraizada no próprio censo de muitos países, que ainda requerem a integração de cada indivíduo em categorias há muito descredibilizadas. Para as vítimas de racismo, porém, é um fraco consolo dizer que a categoria não tem qualquer fundamento científico.

O sequenciamento genético, que permitiu aos investigadores reconstituir o percurso da migração humana e permite actualmente aos indivíduos rastrearem a sua própria ascendência, introduziu novas formas de pensar sobre a diversidade humana. Pelo menos assim o espera Anita Foeman. O Projecto de Discussão do DNA informa os participantes sobre os seus antecedentes, que são geralmente muito mais complicados do que eles foram levados a crer. Por sua vez, isso gera uma discussão sobre a longa e frequentemente brutal história que todos acabamos por partilhar.

“O facto de a raça ser uma construção humana não significa que não pertençamos a grupos diferentes ou que não existam variações”, diz a especialista. “No entanto, se inventámos as categorias raciais, talvez possamos criar novas categorias que funcionem melhor.” 

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