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Certa noite o professor Ip decidiu telefonar a Gautier para propor-lhe a união de esforços. “Até já tenho um nome para a missão”, avançou o asiático. “Vai chamar-se Cassini.” O nome era uma homenagem ao astrónomo, matemático e engenheiro nascido em Itália e francês de adopção, Giovanni Cassini, outrora director do Observatório de Paris entre 1671 e 1712, o ano da sua morte. Cassini descobrira quatro satélites de Saturno (Jápeto, Dione, Reia e Tétis) e a divisão dos seus anéis. Ip considerou que a França, país essencial na política da ESA, se sentiria agradada com a escolha e Gautier rapidamente anuiu. 

A semente estava plantada: em 1982, a ESA recebeu a proposta, intitulada “Saturn Orbiter/Titan Probe Mission”. Vinha redigida por três autores: Ip, Gautier e Michel Combes, do Observatório de Paris-Meudon. Mais 27 cientistas validavam o documento, sublinhando o aspecto essencial: a missão exigia cooperação entre a ESA e a NASA.

Uma vez superado um número infinito de obstáculos e burocracias, as duas agências apresentaram em conjunto a missão, numa reunião realizada em Bruges em 1988. Depois de competir na cidade belga com mais quatro propostas, foi escolhida a proposta combinada das sondas Cassini e Huygens (que homenageava o astrónomo holandês Christiaan Huygens), permitindo realizar duas missões pelo preço de uma e abrangendo um leque científico quase insuperável: conhecimento da física e origens das atmosferas de Saturno e Titã, exobiologia, estrutura dos anéis, estudo dos satélites de gelo e meio interplanetário.

A ESA encarregar-se-ia de construir a sonda Huygens, à NASA caberia a Cassini e à Agência Espacial Italiana (ASI) a gigantesca antena de alto rendimento da sonda. Faltava transpor uma última montanha: o Congresso dos Estados Unidos teria de aprovar o orçamento proposto, indispensável para a conclusão da missão. Em 1989, já estava previsto o lançamento da sonda Galileu, da NASA, com destino a Júpiter, e o envio de outra a Saturno representaria um desafio: seriam explorados os dois maiores e mais maciços planetas do Sistema Solar. Por fim, o orçamento foi aprovado. O custo final cifrava-se em 3.260 milhões de dólares, 2.600 dos quais avançados pela NASA, 500 pela ESA e 160 custeados pela ASI.

Criava-se assim um portentoso desafio técnico-científico, de custo colossal, cujo resultado seria imprevisível. Como em todas as épocas, os detractores do programa espacial não se coibiram de lamentar tamanho investimento numa causa científica. Em diversas ocasiões, a missão esteve à beira da anulação. Para cúmulo, em 1986, a explosão do vaivém Challenger, com sete tripulantes a bordo, perante o olhar atónito do mundo, despertou toda a comunidade para os riscos e colocou novo entrave: pensara-se que a Cassini-Huygens seria lançada a partir desse vaivém. A missão foi redesenhada e concebida de forma que a sonda fosse lançada de um foguetão da Força Aérea, o Titã-4B, agravando ainda mais o custo operativo.

Além disso, elevou-se um coro de protestos públicos a partir do momento em que se soube que a fonte de alimentação da Cassini seria composta por 32 quilogramas de plutónio-238, generalizando-se o medo de que um hipotético acidente pudesse projectar radioactividade sobre a atmosfera terrestre. Sucederam igualmente avarias mecânicas de última hora e imprevistos meteorológicos que, por várias vezes, adiaram o lançamento. Apesar de tudo, no dia 15 de Outubro de 1997, a Cassini e a Huygens (acoplada à primeira) partiram de Cabo Canaveral rumo a Saturno, a bordo do foguetão Titã, com precisão absoluta e total pontualidade. Começava uma apaixonante viagem de sete anos e 3.500 milhões de quilómetros até Saturno, seguida de 13 anos de pura exploração espacial.

Com 5.712 quilogramas de peso e 7 por 4 metros de envergadura, a sonda orbital Cassini é, depois da russa Phobos, o segundo engenho mais pesado alguma vez enviado para o espaço. Para obter a impulsão necessária para alcançar Saturno, tornava-se necessária a ajuda de uma imprescindível assistente de voo: a gravidade de outros corpos celestes. Trata-se da chamada assistência gravitacional, que consiste em aproveitar a força gravitacional de um planeta, ou de um satélite, para redireccionar a trajectória de uma sonda, a qual, deste modo, é “empurrada” até ao seu destino final, com um gasto mínimo de propulsante. Esse plano de navegação requer que os planetas implicados estejam alinhados de determinada maneira – a janela de lançamento que condiciona a data de lançamento em órbita da nave. Com base nesse pressuposto, a sonda sobrevoou duas vezes Vénus, uma vez a Terra e outra Júpiter, o que lhe permitiu propulsionar-se até à órbita de Saturno, na qual penetrou no dia 30 de Junho de 2004.

Quase seis meses depois, precisamente no Dia de Natal, a sonda Huygens, de 2,7 metros de diâmetro e 318 quilogramas de peso, equipada com os seus instrumentos científicos, desligava-se da sonda principal e empreendia a sua jornada rumo a Titã, onde pousou em 14 de Janeiro
de 2005 sobre uma superfície completamente desconhecida. 

Quatro Luas Saturninas

Titã, é a maior lua de Saturno. 

Jápeto, a terceira de maior dimensão depois de Reia, formada por gelo e rocha. 

Hiperião, de forma muito irregular, rotação caótica e aspecto esponjoso. 

Pan, o satélite mais interno dos que orbitam o planeta dos anéis e com um enigmático aspecto de noz cósmica. 

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