Depois de 13 anos a revelar aspectos desconhecidos do Sistema Solar, no passado dia 15 de Setembro a sonda espacial Cassini pulverizou-se como previsto ao entrar na atmosfera de Saturno, um acontecimento transmitido em directo para o planeta Terra.

Texto: Eva van den Berg

Foi o desfecho de um longo sonho e o resultado de estreita colaboração científica internacional que viu nessa missão a oportunidade de esclarecer alguns enigmas que a sonda anterior, a Voyager I, antecipara. Graças à Voyager I, previra-se que a atmosfera da lua principal de Saturno, Titã, talvez contivesse moléculas orgânicas complexas. Seria parecida com uma das primeiras fases da Terra?

Havia grande curiosidade e impunha-se um regresso a Saturno para novas averiguações. O grande volume de dados obtidos e descobertas realizadas, além dos conhecimentos tecnológicos alcançados, tornaram a missão Cassini-Huygens um êxito absoluto e unânime. O empreendimento só foi possível com a colaboração entre três agências espaciais – a norte-americana, NASA, a europeia, ESA, e a italiana, ASI – e provou uma tese que já há muito era intuída pela comunidade que se dedica à exploração espacial: no horizonte, perfilam-se alterações que modificarão a nossa perspectiva do universo. Talvez mesmo no nosso tempo de vida.

“Voltaremos a Saturno!”, exclamava o director do programa Cassini da NASA, Earl Maize, pouco depois de assistir à forma como a sonda se desintegrava ao atravessar a atmosfera deste planeta, na sede do Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA, na Califórnia. Após 20 anos de viagem e exploração, a única sonda que até hoje descreveu a órbita do “planeta dos anéis” foi sacrificada pelos seus criadores, muitos dos quais, um segundo mais tarde, já pensavam em repetir a missão. Deve ter sido difícil pôr fim àquele que, durante muitos anos, foi o leit motiv das suas vidas.

Embora operacional, a Cassini dispunha de pouco propulsante, razão pela qual se tomou a decisão de destruí-la de forma controlada, de modo a evitar riscos imprevisíveis, como uma colisão acidental contra alguma lua de Saturno que nela deixasse rastos de contaminação humana. Seria inaceitável que a sonda que tão grande contributo dera para aprofundar o conhecimento do Sistema Solar deixasse marcas terrestres com consequências desconhecidas. 

Nesse dia 15 de Setembro, a astrofísica Linda Spilker afirmou que se sentia “como se tivesse perdido um amigo”. Nesse dia, às 7h57 de Washington (12h57 em Portugal continental), a NASA estabeleceu pela última vez ligação com a protagonista desta façanha e, na sua última transmissão, a Cassini enviou o último fluxo de dados durante quase uma hora, ao mesmo tempo que penetrava, a mais de 120 mil quilómetros por hora, na atmosfera de Saturno, onde entrou em incandescência e se fragmentou até desaparecer. A notícia da sua morte demorou 83 minutos a chegar à Terra, situada a cerca de 1.400 milhões de quilómetros de distância.

A extinção da Cassini era o epílogo épico de uma história iniciada mais de 30 anos antes. A inspiração veio da sonda Voyager I da NASA, colocada em órbita em 1977 para delimitar os confins do Sistema Solar. Na sua odisseia, obteve dados sobre Saturno e navegou a menos de 6.500 quilómetros da sua lua principal, Titã, a partir da qual vislumbrou nuvens semelhantes aos cirros terrestres, numa atmosfera densa que não permitia observar a sua superfície.

Entretanto, a Europa ainda não pusera em marcha uma missão interplanetária. A primeira aconteceria em 1985, quando a sonda Giotto foi enviada para estudar o cometa Halley. Saturno e as suas luas continuavam a ser um objectivo inatingível.

As primeiras tentativas formais para transformar esse sonho em realidade começaram a ser feitas em 1980, quando o cientista francês Daniel Gautier apresentou à agência espacial do seu país, o Centro Nacional de Estudos Espaciais (CNES, a sigla em francês), a ideia de uma sonda capaz de infiltrar-se na atmosfera de Titã. A ideia foi posta de lado por razões económicas. No entanto, dois anos mais tarde, a Agência Espacial Europeia (ESA) lançava à comunidade científica europeia o seguinte desafio: que missões espaciais deveriam ser prioritárias?

A pergunta foi de imediato respondida pelo astrónomo chinês Wing-Huen Ip, investigador do Instituto Max Planck de Aeronáutica da Alemanha, hoje conhecido como Instituto Max Planck para a Investigação do Sistema Solar, que tinha em mente projectar uma sonda para orbitar Saturno.

 

Certa noite o professor Ip decidiu telefonar a Gautier para propor-lhe a união de esforços. “Até já tenho um nome para a missão”, avançou o asiático. “Vai chamar-se Cassini.” O nome era uma homenagem ao astrónomo, matemático e engenheiro nascido em Itália e francês de adopção, Giovanni Cassini, outrora director do Observatório de Paris entre 1671 e 1712, o ano da sua morte. Cassini descobrira quatro satélites de Saturno (Jápeto, Dione, Reia e Tétis) e a divisão dos seus anéis. Ip considerou que a França, país essencial na política da ESA, se sentiria agradada com a escolha e Gautier rapidamente anuiu. 

A semente estava plantada: em 1982, a ESA recebeu a proposta, intitulada “Saturn Orbiter/Titan Probe Mission”. Vinha redigida por três autores: Ip, Gautier e Michel Combes, do Observatório de Paris-Meudon. Mais 27 cientistas validavam o documento, sublinhando o aspecto essencial: a missão exigia cooperação entre a ESA e a NASA.

Uma vez superado um número infinito de obstáculos e burocracias, as duas agências apresentaram em conjunto a missão, numa reunião realizada em Bruges em 1988. Depois de competir na cidade belga com mais quatro propostas, foi escolhida a proposta combinada das sondas Cassini e Huygens (que homenageava o astrónomo holandês Christiaan Huygens), permitindo realizar duas missões pelo preço de uma e abrangendo um leque científico quase insuperável: conhecimento da física e origens das atmosferas de Saturno e Titã, exobiologia, estrutura dos anéis, estudo dos satélites de gelo e meio interplanetário.

A ESA encarregar-se-ia de construir a sonda Huygens, à NASA caberia a Cassini e à Agência Espacial Italiana (ASI) a gigantesca antena de alto rendimento da sonda. Faltava transpor uma última montanha: o Congresso dos Estados Unidos teria de aprovar o orçamento proposto, indispensável para a conclusão da missão. Em 1989, já estava previsto o lançamento da sonda Galileu, da NASA, com destino a Júpiter, e o envio de outra a Saturno representaria um desafio: seriam explorados os dois maiores e mais maciços planetas do Sistema Solar. Por fim, o orçamento foi aprovado. O custo final cifrava-se em 3.260 milhões de dólares, 2.600 dos quais avançados pela NASA, 500 pela ESA e 160 custeados pela ASI.

Criava-se assim um portentoso desafio técnico-científico, de custo colossal, cujo resultado seria imprevisível. Como em todas as épocas, os detractores do programa espacial não se coibiram de lamentar tamanho investimento numa causa científica. Em diversas ocasiões, a missão esteve à beira da anulação. Para cúmulo, em 1986, a explosão do vaivém Challenger, com sete tripulantes a bordo, perante o olhar atónito do mundo, despertou toda a comunidade para os riscos e colocou novo entrave: pensara-se que a Cassini-Huygens seria lançada a partir desse vaivém. A missão foi redesenhada e concebida de forma que a sonda fosse lançada de um foguetão da Força Aérea, o Titã-4B, agravando ainda mais o custo operativo.

Além disso, elevou-se um coro de protestos públicos a partir do momento em que se soube que a fonte de alimentação da Cassini seria composta por 32 quilogramas de plutónio-238, generalizando-se o medo de que um hipotético acidente pudesse projectar radioactividade sobre a atmosfera terrestre. Sucederam igualmente avarias mecânicas de última hora e imprevistos meteorológicos que, por várias vezes, adiaram o lançamento. Apesar de tudo, no dia 15 de Outubro de 1997, a Cassini e a Huygens (acoplada à primeira) partiram de Cabo Canaveral rumo a Saturno, a bordo do foguetão Titã, com precisão absoluta e total pontualidade. Começava uma apaixonante viagem de sete anos e 3.500 milhões de quilómetros até Saturno, seguida de 13 anos de pura exploração espacial.

Com 5.712 quilogramas de peso e 7 por 4 metros de envergadura, a sonda orbital Cassini é, depois da russa Phobos, o segundo engenho mais pesado alguma vez enviado para o espaço. Para obter a impulsão necessária para alcançar Saturno, tornava-se necessária a ajuda de uma imprescindível assistente de voo: a gravidade de outros corpos celestes. Trata-se da chamada assistência gravitacional, que consiste em aproveitar a força gravitacional de um planeta, ou de um satélite, para redireccionar a trajectória de uma sonda, a qual, deste modo, é “empurrada” até ao seu destino final, com um gasto mínimo de propulsante. Esse plano de navegação requer que os planetas implicados estejam alinhados de determinada maneira – a janela de lançamento que condiciona a data de lançamento em órbita da nave. Com base nesse pressuposto, a sonda sobrevoou duas vezes Vénus, uma vez a Terra e outra Júpiter, o que lhe permitiu propulsionar-se até à órbita de Saturno, na qual penetrou no dia 30 de Junho de 2004.

Quase seis meses depois, precisamente no Dia de Natal, a sonda Huygens, de 2,7 metros de diâmetro e 318 quilogramas de peso, equipada com os seus instrumentos científicos, desligava-se da sonda principal e empreendia a sua jornada rumo a Titã, onde pousou em 14 de Janeiro
de 2005 sobre uma superfície completamente desconhecida. 

Quatro Luas Saturninas

Titã, é a maior lua de Saturno. 

Jápeto, a terceira de maior dimensão depois de Reia, formada por gelo e rocha. 

Hiperião, de forma muito irregular, rotação caótica e aspecto esponjoso. 

Pan, o satélite mais interno dos que orbitam o planeta dos anéis e com um enigmático aspecto de noz cósmica. 

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