O que torna as pessoas generosas ou cruéis? Segundo os investigadores, as nossas ligações cerebrais podem afectar a empatia que sentimos pelos outros.

Texto:  Yudhijit Bhattacharjee

 Da janela da sua cozinha  em Auburn, Ashley Aldridge podia ver com clareza a passagem de nível de comboio situada a cerca de cem metros.

Esta mãe de 19 anos reparou pela primeira vez no homem da cadeira de rodas quando, depois de servir o almoço aos seus dois filhos, iniciou a lavagem da louça, mais um item da sua interminável lista de tarefas. Ao olhar para cima, Ashley percebeu que a cadeira de rodas estava parada. Ficara entalada nos carris. O homem gritava por socorro. Uma motocicleta e dois automóveis passaram por ele sem parar.

Ashley saiu de casa a correr, pediu a um vizinho que tomasse conta das crianças e foi ajudar o homem. Foi então que ouviu o apito do comboio e o som da cancela da passagem de nível a fechar-se, assinalando a chegada iminente de uma locomotiva. Correu, descalça, sobre a estrada de gravilha junto da linha. Quando chegou ao homem, o comboio estava a menos de um quilómetro de distância, avançando a cerca de 125 quilómetros por hora. Não conseguiu erguer a cadeira de rodas, mas envolveu o homem com os braços, ao nível do peito, e tentou levantá-lo. Quando o comboio se aproximou a toda a velocidade, ela puxou com imensa força. Caiu para trás, arrancando o homem da cadeira. Numa questão de segundos, o comboio partiu a cadeira de rodas, espalhando fragmentos de aço e plástico durante quase um quilómetro pela berma da ferrovia.

O homem que Ashley salvou nessa tarde de Setembro de 2015 era um perfeito estranho.
O salvamento heróico é um exemplo daquilo a que os cientistas chamam altruísmo extremo, os gestos altruístas para ajudar pessoas com as quais não há qualquer afinidade, mesmo arriscando a própria vida. Não é de admirar que muitos destes heróis trabalhem em profissões em que o risco em benefício dos outros faz parte do trabalho. Outros, porém, são homens e mulheres comuns.

Para contrastar, comparem-se estes gestos nobres com os horrores cometidos por outros seres humanos: homicídio, violação, rapto, tortura. Pensemos na carnificina perpetrada pelo homem que disparou uma saraivada de balas a partir do Hotel Mandalay Bay, em Las Vegas, em Outubro, durante um festival de música country. Três semanas mais tarde, as autoridades fixaram o número de baixas em 58 mortos e 546 feridos. Ou pensemos na desumanidade arrepiante de um assassino em série como Todd Kohlhepp, um agente imobiliário da Carolina do Sul, que parece ter deixado pistas sobre o seu hábito homicida em bizarras críticas a produtos vendidos em sítios de Internet, incluindo uma pá dobrável: “Mantenha uma no carro para quando tiver de enterrar os corpos.” Apesar de aberrantes, estes horrores ocorrem com frequência suficiente para nos lembrar de uma verdade sombria: os seres humanos são capazes de uma crueldade inexplicável.

Os casos de altruísmo extremo e de psicopatia são exemplos dos nossos melhores e piores instintos. Numa extremidade do espectro moral, encontram-se o sacrifício, a generosidade e outras características nobres que reconhecemos como boas. Na outra, o egoísmo, a violência e os impulsos destrutivos que consideramos maus. Na raiz de ambos os tipos de comportamento, dizem os investigadores, está o nosso passado evolutivo. Segundo esta teorização, os seres humanos desenvolveram o desejo de ajudar os outros porque a cooperação era essencial à sobrevivência em grupos sociais grandes. No entanto, como os grupos tinham de competir por recursos, a vontade de mutilar ou matar os adversários era igualmente crucial. “Somos a espécie mais social da Terra e somos também a espécie mais violenta da Terra”, afirma Jean Decety, especialista em neurologia social. “Temos dois rostos porque estes dois rostos são importantes para a sobrevivência.”

Nas últimas décadas, os investigadores fizeram avanços significativos no conhecimento científico do que impele cada acto. Estão aparentemente ligados a uma característica emocional essencial: a empatia, ou seja, a capacidade intrínseca do cérebro de perceber como outra pessoa se sente. Os investigadores descobriram que a empatia é a chama que desencadeia a compaixão nos nossos corações, levando-nos a ajudar pessoas em necessidade. Outros estudos fizeram remontar a violência, a psicopatia e os comportamentos anti--sociais à falta de empatia, que parece derivar de circuitos cerebrais danificados.

Os cientistas descobriram que a empatia é a chama que acende a compaixão, impelindo-nos a ajudar os outros.

No passado, os investigadores estavam convencidos de que as crianças pequenas não tinham qualquer preocupação com o bem-estar dos outros, uma conclusão lógica para qualquer indivíduo que já tenha assistido à birra de uma criança de 2 anos. No entanto, descobertas recentes mostram que os bebés sentem empatia muito antes de completarem o seu primeiro ano de vida.
A psicóloga Maayan Davidov e os seus colegas realizaram alguns destes estudos, analisando o comportamento de crianças que observam pessoas em sofrimento. Mesmo antes dos 6 meses de idade, muitos bebés reagem a este tipo de estímulos com expressões faciais reflectindo preocupação: alguns até demonstram gestos de ternura, inclinando-se para a frente e tentando comunicar com a pessoa em sofrimento. No primeiro ano de vida, as crianças também mostram sinais de tentar compreender o sofrimento. Bebés de 18 meses costumam demonstrar a sua empatia com comportamentos sociais positivos como abraçar, ou dar um brinquedo, para consolar uma criança que se magoou.

Isto não se aplica a todas as crianças. Numa pequena minoria, a partir do segundo ano de vida, os investigadores observam aquilo a que chamam o “desprezo activo”: “Algumas crianças quase riam ou criticavam as outras, dizendo ‘não estás magoado’ ou ‘devias ter mais cuidado!’ quando alguém indicava que se tinha magoado”, conta Carolyn Zahn-Waxler, investigadora da Universidade de Wisconsin-Madison. Acompanhando estas crianças até à adolescência, Carolyn e a sua colega Soo Hyun Rhee, psicóloga da Universidade do Colorado, concluíram que elas tinham mais probabilidades de desenvolver tendências anti-sociais e causar problemas.

A Ciência do Bem e do Mal

1 de Outubro 2017 em Las Vegas, Nevada: 58 mortos, 546 feridos.
Instalado no 32.º piso de um hotel, um homem armado disparou mais de mil balas sobre o público de um festival de música. Os tiroteios em espaços públicos tornaram-se mais frequentes desde 2011.

Outros estudos mediram a insensibilidade e a ausência de expressão emocional em adolescentes perguntando-lhes se sentiam remorsos depois de terem praticado um acto errado. Os sujeitos com valores mais elevados de características de “frieza e défice emocional” tendem a exibir problemas comportamentais frequentes e graves. Os investigadores também descobriram que alguns destes adolescentes acabam por cometer crimes graves. Alguns são propensos a tornarem-se psicopatas na idade adulta – indivíduos com corações frios e calculistas que não piscariam os olhos ao cometer os actos mais horrendos que possa imaginar.

Se o défice de empatia que se encontra na origem dos comportamentos psicopatas puder ser rastreado até à primeira infância, será que o mal reside nos genes, enrolado como uma serpente no DNA, à espera de atacar? A resposta não é categórica em nenhum sentido. À semelhança do que se verifica com muitas outras doenças, a natureza e o afecto desempenham o seu papel. Estudos realizados com gémeos demonstraram que características de frieza e défice emocional exibidas por algumas crianças pequenas e adolescentes dependem substancialmente dos genes herdados. No entanto, num estudo com 561 crianças com progenitores com historial de comportamento anti-social, os investigadores concluíram que as que viviam com famílias adoptivas que lhes deram um ambiente caloroso e afectuoso tinham menos probabilidades de exibir características de frieza e défice emocional do que as que viveram com famílias adoptivas menos afectuosas.

As crianças nascidas com genes que lhes aumentam as probabilidades de terem dificuldades em sentir empatia frequentemente não têm outra hipótese. “Como pode imaginar, se tiver uma criança que não demonstra o afecto da mesma forma que uma criança em desenvolvimento típica, ela despertará reacções diferentes nas pessoas em seu redor – pais, professores, colegas – das que se registariam no caso de uma criança mais dócil e empática”, diz Essi Viding, psicólogo e investigador do University College de Londres. “E muitas dessas crianças vivem com as suas famílias biológicas, por isso sofrem frequentemente este golpe duplo de terem pais possivelmente menos bem equipados para desempenhar várias funções de paternidade e, ao mesmo tempo, possuindo menos capacidade de demonstrar empatia e regular as suas próprias emoções.”

Os bombeiros tentaram desesperadamente salvar as seis crianças Philpott da sua residência em chamas na cidade inglesa de Derby, na madrugada de 11 de Maio de 2012. O calor e o fumo eram tão intensos que apenas uma das crianças estava viva quando os socorristas chegaram ao piso superior.
O rapaz também morreu dois dias mais tarde. A polícia suspeitou de fogo posto, com base em provas de que o incêndio fora desencadeado por gasolina despejada através da ranhura da caixa do correio.

Os residentes de Derby angariaram dinheiro para ajudar os pais das crianças (Mick e Mairead Philpott) a pagarem o funeral. Numa conferência de imprensa organizada para agradecer à comunidade, Mick Philpott soluçava e limpava os olhos com um lenço que permanecia curiosamente seco. Ao sair do evento, colapsou, mas o chefe-adjunto da polícia de Derbyshire, que caminhava atrás dele, ficou impressionado com a falta de naturalidade daquele comportamento. Dezoito dias mais tarde, a polícia deteve o casal Philpott. Os investigadores determinaram que eles haviam pegado fogo à casa com a ajuda de um cúmplice para incriminar a amante de Mick. O tribunal condenou os três por homicídio.

A Ciência do Bem e do Mal

7 de Junho 1998 em Huff Creek Road, Jasper, Texas: 1 morto. 
Defensores da supremacia branca assassinaram James Byrd, Jr., um afro-americano, acorrentando-o a uma carrinha e arrastando-o pela estrada. Círculos assinalam os locais onde foram encontrados pedaços do corpo.

 

A dor fingida de Philpott e a sua ausência de remorsos são duas das características que definem os psicopatas, uma categoria de indivíduos que representa a maldade na imaginação popular. Os psicopatas têm total desprezo pelos sentimentos dos outros, embora pareçam capazes de aprender a imitar emoções. “Têm mesmo total incapacidade para apreciar coisas como a empatia, a culpa ou os remorsos”, afirma Kent Kiehl, neurocientista da Rede de Pesquisa Neurológica e da Universidade do Novo México que se sentiu atraído pelo estudo da psicopatia, parcialmente por ter crescido no mesmo bairro onde viveu o assassino em série Ted Bundy. São pessoas “extremamente diferentes das outras”.

Kent passou as últimas duas décadas a explorar esta diferença, realizando exames cerebrais a reclusos. Quase um em cada cinco homens adultos das prisões dos EUA e Canadá exibem valores elevados de psicopatia, medidos com base numa lista de 20 critérios como a impulsividade e a ausência de remorsos, comparado com 1 em cada 150 da população masculina em geral.

Com um dispositivo de ressonância magnética instalado numa estrutura móvel, a partir de 2007, Kent Kiehl e os colegas realizaram exames cerebrais a mais de 4.000 reclusos, medindo a actividade nos seus cérebros, bem como o tamanho de diferentes regiões cerebrais. Os criminosos psicopatas exibiam actividade reduzida na amígdala,  estrutura cerebral essencial ao processamento de emoções, quando comparados com reclusos não-psicopatas, ao recordarem palavras com carga emocional que lhes tinham sido mostradas instantes antes, como “sofrimento” e “desagrado.” Numa tarefa concebida para testar a capacidade de tomada de decisão moral, os investigadores pediram aos reclusos que classificassem quão ofensivas eram as imagens mostradas num ecrã: desde uma pessoa incendiada numa cruz pelo Ku Klux Klan a um rosto ensanguentado devido a um espancamento. Embora as classificações dos criminosos psicopatas não sejam muito diferentes das do resto da população, os psicopatas tendem a mostrar uma activação reduzida em regiões cerebrais essenciais para o raciocínio moral.

Com base nestas conclusões, Kent está convencido de que os psicopatas têm deficiências num sistema de estruturas cerebrais interligadas, incluindo a amígdala e o córtex orbitofrontal, que ajudam a processar as emoções, tomar decisões, controlar impulsos e fixar objectivos. Existe “essencialmente cerca de menos 5 a 7% de matéria cinzenta naquelas estruturas em indivíduos com fortes características psicopatas, comparados com outros reclusos”, afirma o especialista. O psicopata parece compensar esta deficiência utilizando outras áreas do cérebro para simular cognitivamente o que pertence, de facto, ao reino da emoção.” Ou seja, o psicopata tem de pensar sobre o que é certo ou errado enquanto o resto das pessoas o sente”, escreveu Kent num artigo em 2011.

Quando Abigail Marsh, psicóloga da Universidade de Georgetown, tinha 19 anos, o seu automóvel derrapou numa ponte. O veículo acabou por parar na faixa de ultrapassagem, exposto ao trânsito. Abigail não conseguia ligar o motor e tinha demasiado medo de sair, devido aos automóveis e camiões que circulavam nas imediações. Um homem acabou por parar, atravessou a estrada a correr e ajudou-a a ligar o carro. “Ele correu um risco enorme ao atravessar aquela via rápida. Não existe outra explicação para além do simples facto de ele querer ajudar”, diz Abigail. “Como pode alguém sentir-se compelido a fazer um acto desses?”

Abigail continuou a repetir essa pergunta na sua cabeça. Interrogou-se se o altruísmo demonstrado pelo condutor na ponte não seria, de alguma forma, o oposto polar da psicopatia. Começou a procurar um grupo e indivíduos excepcionalmente bondosos para estudar e decidiu que dadores de rins altruístas seriam os sujeitos ideais para o seu estudo. São pessoas que escolheram doar um rim a um estranho sem receberem qualquer tipo de contrapartida.

Ela e os seus colegas reuniram 19 dadores de todo o país para o estudo. Os investigadores mostraram a cada indivíduo uma série de fotografias a preto e branco com expressões faciais vincadas, enquanto os seus cérebros eram examinados com um dispositivo de ressonância magnética para mapear tanto a actividade como a estrutura.

Ao observarem rostos receosos, os dadores exibiram uma reacção maior na amígdala direita do que um grupo de controlo. Num estudo separado, os investigadores descobriram que as suas amígdalas direitas eram, em média, 8% maiores do que as do grupo de controlo. Estudos semelhantes realizados previamente em sujeitos psicopatas tinham concluído o oposto: as amígdalas dos cérebros psicopatas aparecem mais pequenas e menos activas do que as do grupo de controlo reagindo a rostos assustados. “As expressões de medo despertam preocupação e cuidado. Se não reagirmos a essa expressão, é menos provável que demonstremos preocupação com os outros”, explica Abigail. “E os dadores de rins altruístas parecem ser muito sensíveis ao sofrimento dos outros, sendo o medo o tipo de sofrimento mais premente – talvez em parte porque as suas amígdalas são maiores do que a média.”

 

A maioria das pessoas não se caracteriza por altruísmo ou psicopatia extremos e a maioria não comete rotineiramente actos de violência contra os outros. No entanto, existem genocídios – homicídios em massa organizados que exigem a cumplicidade e passividade de um grande número de pessoas. Ocasionalmente, grupos sociais organizados consoante os seus antecedentes étnicos, nacionais, raciais e religiosos massacraram outros grupos. Câmaras de gás na Alemanha nazi extinguiram milhões de judeus, o Khmer Vermelho chacinou compatriotas cambojanos, extremistas hutu do Ruanda munidos de catanas esquartejaram várias centenas de milhares de tutsis e hutus moderados e terroristas do Estado Islâmico massacraram yazidis iraquianos. Quase todas as regiões do mundo parecem ter sofrido um genocídio.

A forma como a voz da consciência é tornada inconsequente pode ser parcialmente compreendida através do prisma de experiências bastante conhecidas realizadas na década de 1960 pelo psicólogo Stanley Milgram na Universidade de Yale. Naqueles estudos, foi pedido aos sujeitos que dessem choques eléctricos a uma pessoa instalada noutra divisão sempre que dessem uma resposta errada a uma pergunta, aumentando a voltagem a cada resposta errada. Incitados por uma pessoa vestida com uma bata de laboratório, que interpretava o papel do operador da experiência, os sujeitos aumentavam frequentemente a voltagem para níveis perigosamente elevados. Os choques não eram reais e os gritos de dor ouvidos pelos sujeitos tinham sido previamente gravados, mas os sujeitos só foram informados sobre isso posteriormente. Os estudos demonstraram aquilo que Milgram descreveu como “a enorme predisposição dos adultos para fazerem quase tudo o que lhes seja ordenado por uma figura de autoridade”.

Gregory Stanton, fundador da organização sem fins lucrativos Genocide Watch, identificou as etapas que podem levar pessoas tendencialmente boas a cometerem um homicídio. Começa quando líderes demagógicos definem um grupo alvo como “o outro” e o declaram uma ameaça aos interesses dos seus apoiantes. Segue-se a discriminação e, pouco depois, os líderes caracterizam os seus alvos como sub-humanos, corroendo a empatia do grupo pelo “outro”.

De seguida, a sociedade polariza-se. “As pessoas que planeiam genocídios dizem, ‘ou estás connosco ou estás contra nós’, diz Gregory. Segue-se uma fase de preparação. Os membros do grupo marginal são, por vezes, forçados a mudar-se para guetos ou campos de concentração. É então que começam os massacres.

Muitos dos perpetradores permanecem imunes ao remorso, não por serem incapazes de senti-lo mas porque encontram formas de racionalizar as mortes. James Waller, estudioso de genocídios, diz ter tido um vislumbre desta “incrível capacidade da mente humana para dar sentido e justificar os piores actos” quando entrevistou dezenas de homens hutu condenados ou acusados de cometer atrocidades durante o genocídio do Ruanda. O seu raciocínio era: “Se não fizesse isto, aquelas crianças iam crescer e depois matavam-me. Isto era necessário para o meu povo sobreviver.”

A nossa capacidade para criar empatia e canalizar essa compaixão pode ser inata, mas não é imutável. A tendência para desenvolver personalidades psicopatas e anti-sociais fixadas na infância também não tem de ser imutável. Nos últimos anos, os investigadores demonstraram a viabilidade de travar o mal na origem, bem como o fortalecimento dos nossos instintos sociais positivos.

A possibilidade de impedir que rapazes adolescentes violentos se transformem em criminosos para o resto da vida tem sido testada no Centro de Tratamento Juvenil de Mendota, uma instituição que recebe autores de crimes graves, mas é gerida como uma unidade psiquiátrica e não tanto como uma prisão. Os adolescentes enviados para o centro já lá chegam com longos historiais de crime. “São tipos que foram basicamente excluídos da raça humana, já não sentem qualquer tipo de ligação com ninguém e têm uma postura antagonista contra todos”, comenta Michael Caldwell, psicólogo da instituição.

O centro tenta estabelecer uma ligação com os miúdos apesar dos seus comportamentos agressivos e anti-sociais. Os seus funcionários continuam a tratá-los de forma humana. Os miúdos são diariamente avaliados com base numa escala de classificação comportamental. Quando se portam bem, ganham certos privilégios no dia seguinte, como a possibilidade de jogar videojogos. Quando a classificação é má, porque se envolveram numa luta, por exemplo, perdem privilégios. O objectivo é recompensar os bons e isso é diferente do que acontece na maioria dos centros de correcção. Com o tempo, os miúdos começam a portar-se melhor, diz Greg van Rybroek, o director do centro. As suas características de frieza e défice emocional diminuem. O aumento da sua capacidade para gerir as emoções e controlar os seus impulsos violentos parece perdurar fora das paredes do centro. Os adolescentes tratados pelo programa têm cometido menos crimes e com menor violência, nos dois a seis anos após a sua libertação do que indivíduos tratados noutros locais, concluíram estudos realizados pelo centro. “Não fazemos magia, mas criámos um sistema que vê o mundo do ponto de vista do jovem e tenta decompô-lo de uma forma justa e coerente”, diz Greg.

Na última década, os investigadores descobriram que o nosso cérebro social mantém a plasticidade mesmo na idade adulta e que podemos ser treinados para sermos mais benévolos e generosos. Tania Singer, especialista em neurociência social do Instituto Max Planck para as Ciências Cognitiva e Cerebral Humanas, em Leipzig, tem sido pioneira na realização de estudos que o demonstram.

12 de Junho 2016 no Clube Nocturno Pulse, Orlando: 49 mortos, 53 feridos. 
Um atirador inspirado na ideologia do Estado Islâmico escolheu como alvo um bar popular entre a comunidade homossexual. No primeiro aniversário do sucedido, indivíduos enlutados regressaram ao local.

A empatia e a compaixão utilizam redes diferentes no cérebro, descobriu a equipa de Tania. Ambas podem conduzir a comportamentos sociais positivos, mas a reacção empática do cérebro ao ver outra pessoa em sofrimento pode, por vezes, causar angústia empática, uma reacção negativa que leva o observador a ignorar o sofredor de modo a preservar o seu próprio bem-estar.

Para aumentar a compaixão, que combina a consciência do sofrimento do outro com o desejo de aliviá-lo, Tania e os colegas testaram os efeitos de vários exercícios de treino. Um exercício importante, derivado de tradições budistas, leva os sujeitos a meditar sobre um ente querido, direccionando afecto e bondade para esse indivíduo e alargando esses sentimentos a pessoas conhecidas, estranhos e até inimigos, num círculo de amor cada vez maior. O grupo de Tania  demonstrou que os indivíduos treinados com esta forma de meditação afectuosa exibem reacções mais compassivas durante alguns dias – medidas pela activação de determinados circuitos cerebrais – do que os indivíduos não treinados, ao assistirem a filmes de curta duração de pessoas em sofrimento emocional.

Noutro estudo, Tania e os colegas testaram os efeitos do treino da compaixão na vontade de ajudar o próximo, recorrendo a um jogo de computador no qual os sujeitos guiam uma personagem virtual através de um labirinto até um baú de tesouro num ecrã de computador, abrindo portas pelo caminho. Também podem abrir portas para outras personagens que por ali andarem em busca do tesouro. Os investigadores concluíram que os sujeitos submetidos ao tratamento de compaixão eram mais prestáveis em relação à outra personagem do que os do grupo de controlo.

O facto de podermos moldar os nossos cérebros para serem mais altruístas é uma possibilidade promissora para a sociedade. Segundo Tania Singer, uma das formas de tornar esse futuro mais próximo seria incluir treinos de compaixão nas escolas. O resultado seria um mundo mais benevolente, povoado por pessoas como Ashley Aldridge, no qual a bondade reflexa deixaria de ser extraordinária e passaria a ser uma característica definidora da humanidade.

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