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No Bangladesh não é fácil distribuir vacinas. O território é atravessado por rios que periodicamente causam cheias e por estradas onde mal se pode transitar. As vacinas precisam de ser guardadas a uma temperatura baixa certa para preservarem a sua eficácia. Manter a “cadeia de frio” é uma prioridade urgente para os programas de imunização em todos os países de clima quente e com redes de abastecimento de electricidade instáveis: basta um aparelho de ar condicionado avariado ou uma quebra de tensão numa zona rural para destruir um lote inteiro de vacinas. O Bangladesh tem trabalhado duramente para preservar a cadeia de frio, equipando os centros de saúde locais com painéis solares e disponibilizando bicicletas e embarcações fluviais para transporte das vacinas até clínicas nos locais mais isolados.

O programa de vacinação é generalizadamente respeitado pelo amplo alcance dos seus serviços. De regresso ao Hospital Shishu, eu e os meus dois interlocutores viajámos silenciosos e tristes na carrinha do hospital. Compreendi o que Samir Saha queria que eu visse. Em 2005, quando Sanjida, ainda bebé, foi vacinada, a nova vacina contra a infecção pneumocócica generalizava-se rapidamente no mundo desenvolvido. O problema existia em países como o Bangladesh, que precisavam muito mais da vacina, mas não tinham dinheiro para pagar o preço que o fabricante decidira cobrar.

Com raras excepções, as vacinas são produzidas por empresas privadas e destinam-se a gerar lucro. Até há pouco tempo, o seu fabrico mundial era dominado por um punhado de gigantes farmacêuticos. Os representantes destas empresas afirmam que o desenvolvimento de uma vacina é particularmente dispendioso e moroso. O processo consiste em inocular um micróbio, ou fragmento de um micróbio, desactivado nos participantes saudáveis em ensaios clínicos e, de seguida, observar e esperar para garantir que a vacina não é nociva, que estimula uma reacção imunitária contra o micróbio infeccioso e que as pessoas a quem foi administrada contraem a doença com menos frequência do que as outras. Tudo isto demora anos. 

Até a vacina pneumocócica resultar em crianças, foram precisas décadas. Desde o início da década de 1980, tornaram-se disponíveis no mercado boas vacinas para adultos, mas estas nunca foram capazes de gerar a esperada reacção imunitária em crianças pequenas. Só no final da década de 1990 é que os investigadores finalmente descobriram uma forma de corrigir, ou “conjugar”, o conteúdo dessas vacinas para adultos de maneira a este ser reconhecido por sistemas imunitários imaturos.

O pneumococo levanta outro desafio frustrante: Samir Saha e outros cientistas identificaram quase cem versões, ou serotipos, de células pneumocócicas. Os serotipos podem diferir consoante a área geográfica e, por motivos ainda não totalmente compreendidos, só um pequeno número é perigoso. O serotipo 1, por exemplo, provoca níveis de doença relativamente fracos nos EUA, mas é uma das principais causas de doença pneumocócica e de morte em África e na Ásia Austral. Por isso, uma vacina finalizada que resulte em crianças e actue sobre os serotipos correctos é, efectivamente, um conjunto de várias vacinas, individualmente corrigidas e ensaiadas.

Esta complexidade conspirou para que a primeira vacina pneumocócica para crianças se tornasse uma das mais caras da história. Denominada Prevnar, foi lançada no início do novo século. Formularam-na de modo a combater os sete serotipos responsáveis pela doença nos EUA, país capaz de custear a vacina infantil vendida a 200 euros pelas quatro doses de administração. Entre os tipos de pneumococos perigosos que a vacina não fora formulada para combater encontrava-se o serotipo 1.

Ora, as regiões mais pobres de África e da Ásia Austral são precisamente aquelas onde existe maior probabilidade de qualquer tipo de infecção pneumocócica matar uma criança ou deixá-la incapacitada para toda a vida. Isso acontece não apenas por os pais não conseguirem consultar um médico em tempo útil, mas também porque as bactérias causam danos suplementares no interior dos pequenos corpos já de si enfraquecidos pela subnutrição, por outras doenças previamente existentes e por exposição excessiva ao fumo gerado nas cozinhas.

“Quando comecei a trabalhar neste sector, aquilo que me impedia de dormir era a desigualdade”, afirma Orin Levine, responsável pela distribuição de vacinas na Fundação Bill e Melinda Gates. Anos antes, num hospital do Mali, um colega seu vira uma mulher perder a filha devido a pneumonia pneumocócica. Já perdera outra da mesma maneira. As filhas dele tinham mais ou menos a mesma idade. “A probabilidade de uma criança morrer de doença pneumocócica em países ricos era cem vezes menor”, diz. “Por que razão as minhas filhas conseguiram ser vacinadas quando as filhas de Tiemany Diarra, as crianças do Mali, precisavam mais da vacina e não a tiveram?”

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