O mérito das vacinas

 

Eis uma forma de salvar centenas de milhares de vidas: dar às crianças dos países pobres as vacinas desvalorizadas nos países mais ricos. 

Texto: Cynthia Gorney

Fotografias: William Daniels

 "Vá ver a criança”, pediu Samir Saha. “Basta sentar-se ao pé dela. É provável que lá estejam o irmão e a irmã cujas vidas foram também alteradas para sempre. É por isto que a vacinação é tão importante”, continuou. “Queremos impedir este desfecho. Para que mais nenhuma criança fique como esta.”

Em Dacca, capital do Bangladesh, Samir estava sentado no banco de trás do seu carro, reflectindo em voz alta. Um motorista conduzia entre a confusão de táxis colectivos, motociclos, riquexós e autocarros amolgados com passageiros pendurados fora das portas. “Conseguimos salvar-lhe a vida, mas não conseguimos…” Deixou a frase por acabar. “Já vai ver a situação”, disse. “Vai compreender.”

Samir é um especialista internacionalmente reconhecido pela sua investigação sobre pneumococos. O laboratório que fundou situa-se num canto do Hospital Shishu de Dacca, o maior hospital pediátrico do Bangladesh. Seguindo o corredor, encontramos filas de camas em enfermarias abertas: durante as horas de visita reservadas aos familiares, cada cama acolhe uma criança doente e vários parentes atentos. No laboratório, homens e mulheres de bata branca passam os dias a estudar em pormenor as células pneumocócicas.

No mundo contemporâneo, as bactérias pneumocócicas encontram-se por todo o lado. Propagam-se facilmente através dos espirros ou do contacto acidental, conseguem viver sem gerar efeitos patológicos nas vias nasais de pessoas com sistemas imunitários saudáveis. Porém, quando as defesas falham, os pneumococos podem migrar, multiplicar-se e desencadear doenças infecciosas potencialmente mortais. Corrige-se: as crianças pequenas de lugares onde não existe acesso rápido a antibióticos nem cuidados médicos de qualidade são as mais vulneráveis de todas.

No início do século XXI, altura em que a primeira vacina infantil eficaz do mundo se tornou disponível nos Estados Unidos e no Canadá, a doença pneumocócica matava mais de oitocentas mil crianças todos os anos a nível mundial, ou seja, mais de três quartos de milhão de bebés e crianças com menos de 5 anos que morriam devido não a uma epidemia famosa, mas a um organismo vulgar que provocava pneumonias (infecção dos pulmões) ou meningites (infecção do revestimento do cérebro) ou num ataque mortífero desferido contra a corrente sanguínea.
A enorme maioria dessas mortes ocorria em países empobrecidos como o Bangladesh.

Em 2015, as vacinas pneumocócicas conjugadas (VPC), a formulação da vacina infantil, passaram a ser acessíveis aos cidadãos do Bangladesh, e a equipa de investigação de Samir Saha segue activamente o rasto do seu progresso. Se as VPC derem provas da sua eficácia em todo o mundo, como os peritos em vacinação esperam, trarão promessas de uma diminuição significativa da taxa de mortalidade – por outras palavras, muitos milhares de crianças pequenas sobreviverão em vez de morrerem antes de atingirem a idade escolar – e muito menos doenças não-mortais. Menos febre, menos peito encovado, menos tosse, menos lábios azuis, menos vigílias junto do doente acamado pelos pais, afastados do trabalho remunerado que sustenta os outros filhos.

Ainda mais urgente é a cooperação internacional para obter vacinas para as crianças no mundo em desenvolvimento, onde, até hoje, o sofrimento causado por doenças evitáveis através da vacinação é tão flagrante como o das famílias desesperadas que Samir Saha trata todos os dias no Hospital Shishu de Dacca.

Na televisão, cantores e atletas populares participam em anúncios de serviço público exaltando a dádiva das vacinas. Incentivos à vacinação ecoam de milhares de minaretes, como se fossem chamamentos à oração. O Bangladesh é um país predominantemente muçulmano e, no fim da década de 1980, ao fazerem campanha pela vacinação contra a poliomielite, os funcionários do Ministério da Saúde e os chefes islâmicos conceberam em conjunto um plano destinado a “usar os microfones das mesquitas”. Certa vez, numa aldeia nos arredores de Dacca, o imã local arregaçou a manga para me mostrar, orgulhoso, a marca da sua última vacinação contra a tuberculose. A protecção da saúde pessoal faz parte de uma vida religiosamente observante e os progenitores crentes são obrigados a fazer o mesmo com os seus filhos.

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