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 Se é possível domesticar a força do Sol, como previu há mais de um século o pioneiro português Padre Himalaia (galardoado na Feira Mundial de Saint Louis com uma medalha de mérito pela criatividade científica do seu Pyrheliophero solar em 1904), Portugal fará seguramente parte da solução.

Texto e Fotografia António Luís de Campos

CapaRenovaveis

Vista do ar, a central solar de Serpa parece um corpo estranho na planície alentejana, reluzente no seu mar de espelhos entre fieiras de trigo delimitadas pelo imperturbável Guadiana.

Entre olivais e rebanhos, dezenas de milhares de painéis solares ordeiramente alinhados integram a central que, com 11MW de potência instalada, foi gabada como a maior do mundo à data da sua inauguração, em Março de 2007.

Fruto de um investimento de 61 milhões de euros, esta unidade é constituída por 52 mil painéis espalhados por 30 hectares, contando com um sistema de seguimento do sol, que move os painéis ao longo do dia, optimizando assim a produção eléctrica.

Se quiséssemos encontrar o epicentro do sismo que varreu Portugal e provocou enorme entusiasmo pelas energias renováveis, Serpa seria a proposta mais credível. Mas esta é, por definição, uma indústria em evolução e a cidade alentejana já perdeu a hegemonia.
A poucas dezenas de quilómetros, na Amareleja, está em funcionamento aquela que, quatro vezes maior, lhe rouba o título de "maior do mundo".  Associada ao investimento estava também prevista uma fábrica de painéis solares que deveria equipar a central, mas a unidade, afinal, apenas fará a montagem dos mesmos, uma vez que os painéis serão importados da China.

A energia solar está em franco crescimento mundial, à medida que a tecnologia amadurece, a legislação se torna mais convidativa e os meios financeiros despertam para esta nova fileira de investimento. Por força da subida inexorável dos preços do petróleo e da constatação generalizada de que as alterações climáticas são um problema grave, tem vindo a assistir-se nos últimos anos à implantação de diversas centrais solares em grande escala.

O triângulo formado pelo Algarve e pelo Leste do Baixo Alentejo constitui a região com maior nível de insolação anual da Europa, somando 3.000 horas/ano, pelo que não surpreende que existam vários projectos para aqui pensados.

Em Tavira, no Algarve, aposta-se numa tecnologia inovadora de energia solar térmica, desenvolvida na Austrália para a produção de electricidade, denominada Colectores de Fresnel Lineares: em vez de painéis de silício, serão espelhos de vidro plano que reflectem a luz solar para um colector térmico.

É uma questão de tempo até o governo perceber que existe potencial nesta nova tecnologia e que, de facto, é possível fazer muito com a “prata da casa" , referindo-se à fórmula relativamente simples, que permite que a grande maioria dos componentes possa ser produzida em Portugal.

A indústria das energias renováveis tem discutido abertamente a validade da aposta na produção solar centralizada, seja térmica ou fotovoltaica, em contraposição à descentralização, baseada em microgeração pelos pequenos produtores espalhados pelo território. Existe, inclusive, um decreto-lei que abre portas aos consumidores para a produção individualizada através de diversas energias renováveis, com especial incidência na solar fotovoltaica e mini-eólica. De forma a encorajar simultaneamente a opção solar térmica, obriga a associar a produção eléctrica à instalação de painéis solares térmicos.

Mas também aqui há no horizonte uma alternativa aos painéis solares térmicos convencionais. Após 30 anos ao serviço da Força Aérea Portuguesa, Amílcar Lopes criou, de raiz e em poucos meses, um conceito que, como ele afirma entusiasmado, "vai mudar a forma como as pessoas olham para os painéis solares". De facto, a primeira impressão que estes painéis deixam é a sua singular estética futurista. Com linhas arredondadas, são constituídos por tubos horizontais elípticos de 2,5 metros de comprimento, com espelhos e um diminuto tubo colector no interior que, ao causar perdas menores, permite maior eficiência energética. Uma das principais preocupações do projecto focou-se na integração arquitectónica dos equipamentos, um dos pontos fracos dos grandes painéis escuros que quase sempre se tornam demasiado visíveis nas coberturas dos edifícios.

Com uma estrutura modular, os painéis Sunaitec podem ser incluídos de forma discreta em varandas, fachadas ou pérgulas. Outra das vantagens é a possibilidade que têm de "fechar" (rodando) quando não utilizados, o que evita problemas de sobreaquecimento no Verão, podendo ser montados não só para aquecimento de águas mas também de forma a providenciar arrefecimento e aquecimento do ambiente. Com o objectivo de integração em casas inteligentes, os painéis estarão ligados à Internet e poderão ser controlados remotamente por SMS ou e-mail.

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